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quinta-feira, 14 de junho de 2012

Calaram nossa voz no rádio


A vitória da Arena para a Câmara Municipal de Anápolis, nas eleições de 1976, se deu por que o prefeito Jamel Cecílio, usou de todos os expedientes legais e pressões possíveis, para formar uma chapa de candidatos fortíssima. Eleitores tradicionais do MDB se filiaram e quase que à força, fizeram parte da chapa arenista. A pressão sobre o eleitorado, principalmente da classe média, foi indescritível. Esses fatores, aliados à chapa incompleta de candidatos emedebistas, garantiram a vitória arenista. Mas, para nossos adversários a vitória da Arena em 1976, se dera em consequência de terem, em maio de 1975, tirado do ar a Rádio Santana. A emissora em que apresentávamos diariamente o programa “O Povo Falou, tá Falado”.

O trabalho dos nossos adversários, inclusive gente do MDB, era encaminhar fuxicos diários ao Serviço Nacional de Informações - SNI, pedindo o fechamento da Rádio Santana e a cassação dos nossos mandatos. Não conseguindo nos cassar, que pelo menos a Rádio fosse fechada. Queriam nos afastar do contato político que tínhamos com a população, pelo rádio.

Antes do fechamento da Rádio Santana, três vereadores do MDB passaram, já naquela legislatura de 1971, a votar sob a orientação arenista, na Câmara Municipal: Lincoln Xavier Nunes, João Divino Cremonez e Pedro Sérgio Sobrinho. Os golpistas contaram com o sistema de repressão estadual, Polícia Federal e outros instrumentos de repressão, usados pela ditadura militarista, para prender e torturar emedebistas autênticos, como fizeram por três vezes consecutivas, com o vereador Walmir Bastos Ribeiro, presidente da Câmara Municipal. As prisões aconteceram para forçá-lo a renunciar à Presidência da Câmara. Queriam sua renúncia para elegerem um novo presidente. Com isso, pretendiam afastar da Prefeitura, Henrique Santillo. Como Walmir não cedeu às pressões, o prenderam por três vezes de forma arbitrária. Foi torturado, mas, não renunciou. Isso garantiu que Santillo continuasse prefeito.

Já na posse do Prefeito José Batista Júnior (MDB), substituindo a Henrique Santillo, policiais militares do Estado, invadiram transmissores e estúdios da Rádio Carajá, comandada pelo grupo santilista, devolvendo-a ao seu antigo proprietário, Plínio Jayme.

Cassaram, em 28 de agosto de 1973, o prefeito José Batista Júnior e impediram que o vice-prefeito Milton Alves, assumisse o cargo. Transformaram o Município em Área de Segurança Nacional e o engenheiro Irapuan Costa Júnior assumiu a Prefeitura.

Como em abril de 1973, menos de 60 dias da invasão e tomada da Rádio Carajá pela Policia Militar do Estado, adquirimos o controle da Rádio Santana, os arenistas e adesistas do MDB em Anápolis, atribuíam ao programa “O Povo Falou, Tá Falado,” a estupenda vitória que nós conseguimos no Município em 1974.

A Rádio Santana teve o seu transmissor lacrado e foi retirada, definitivamente, do ar, em maio de 1975. Derrotados fragorosamente em Anápolis, nas eleições de 1974, os adversários tentavam justificar a derrota ao nosso trabalho na rádio. Fechada pelas forças da reação em maio de 1975, os arenistas ficaram eufóricos com a vitória para a Câmara Municipal em 1976, atribuindo ao silêncio da nossa voz no rádio o fator principal do sucesso eleitoral. Acreditavam que havíamos chegado ao fim político.

Na eleição seguinte, a última entre MDB e Arena, ocorrida em 1978, nossa vitória em Anápolis foi estrondosa e consagradora.

Isso deixou mais uma vez claro, que mesmo com toda a violência praticada pelos representantes da ditadura, nos tomando a prefeitura através do Ato Institucional nº 5 (AI-5), prendendo inocentes, fechando de emissoras de rádio, continuamos, com apoio do povo anapolino na caminhada vitoriosa pela redemocratização do Brasil... (continua).

quarta-feira, 21 de março de 2012

Rádio Carajá tomada à base de metralhadora

Os fatos históricos, e heróicos, da resistência democrática praticada pelos anapolinos sob a liderança de Henrique Santillo, à ditadura militar de março de 1964, são reais. Eles mostram o destemor da nossa gente, seu amor à democracia e liberdade.

A vitória de José Batista Júnior (MDB) sobre Eurípedes Junqueira (Arena) foi a gota d’água para que medidas mais radicais fossem utilizadas pelos ditadores contra o mais importante reduto de resistência à ditadura em todo o estado de Goiás. Por via democrática, pelo voto popular, estava claro que a Arena não venceria o MDB autêntico. A esperança que tinham, havia sido frustrada: derrota de Eurípedes Junqueira para José Batista Júnior.

A primeira grande vítima da ação raivosa dos arenistas de Goiás foi a Rádio Carajá. A mais antiga e potente emissora radiofônica de Anápolis, sempre funcionou no andar superior do prédio pertencente ao Banco do Estado de Goiás - BEG, na esquina das ruas Barão do Rio Branco e Engenheiro Portela, na Praça Bom Jesus. Hoje Banco Itaú. Assim que a emissora foi adquirida do ex-deputado Plínio Jayme, por um grupo de emedebistas ligado ao santilismo, a emissora foi despejada daquele local, pela diretoria do BEG, por determinação do Governo Estadual. Os estúdios da emissora foram transferidos para um galpão, na Avenida Goiás, esquina com a Rua Coronel Batista.

Por ser uma emissora independente, noticiando fatos importantes para o esclarecimento da população, sua audiência era extraordinária. O programa “O Povo Falou, Tá Falado” que, diariamente, apresentávamos com Romualdo Santillo, pela Carajá, era ouvido praticamente por todos os anapolinos. Essa força na comunicação intranquilizava os representantes da Arena. Mesmo com a ação truculenta do Governo do Estado, obrigando a transferência dos estúdios da emissora para lugar improvisado, sua audiência continuou fantástica.

Na madrugada do dia em que José Batista Júnior assumiria a Prefeitura, substituindo a Henrique Santillo, elementos do Departamento Nacional de Telecomunicações - Dentel, acompanhados de integrantes da Policia Militar do Estado, invadiram os transmissores da Rádio Carajá, no Bairro Jundiaí, e seus estúdios, impedindo a entrada dos nossos funcionários à emissora. Assumiram o seu comando por determinação do Ministério das Comunicações e a devolveram a Plínio Jayme. Alegaram que a transferência se dera sem conhecimento do Ministério. Com isso, foi a negociação considerada ilegal. Ficamos nós, do MDB autêntico, sem nosso principal instrumento de comunicação com o povo.

Adquirimos em seguida o controle da Rádio Santana Ltda. de Anápolis, uma pequena emissora de 250 watts de potência, que pertencia às freiras da Igreja Católica. Seu procurador era Radivair Miranda, político e proprietário de emissora de rádio em Itumbiara. Em abril, dois meses após a tomada da Carajá por força policial, iniciamos os trabalhos na Rádio Santana. Em pouco tempo o programa “O Povo Falou Tá Falado” era, novamente, líder absoluto de audiência. A perseguição à emissora e consequentemente ao santilismo continuou. Integrantes da Polícia Federal montaram guarda nas dependências da emissora. Exigiam a gravação diária da sua programação. Perseguição aos que nela se atrevessem a anunciar e era feita escancaradamente por órgãos da Secretaria Estadual da Fazenda. Mesmo assim, nós da família Santillo a sustentávamos nos seus déficits mensais. Se mantinha em funcionamento... (continua).

terça-feira, 6 de março de 2012

Campanha emocionante em 1972

Em abril de 1972 foi inaugurada a Base Aérea dos Mirage em Anápolis. Falava-se na transformação do Município em Área de Segurança Nacional. Acreditando numa vitória arenista a ideia foi adiada.

Para a eleição daquele ano, o MDB indicou como candidato a prefeito, o professor José Batista Júnior. Querido e respeitado pela população e pelos companheiros de partido. Havia comandado a educação e a cultura do Município. José Batista seria protagonista de uma das mais emocionantes disputas pela prefeitura de Anápolis.

Seu adversário, professor Eurípedes Barsanulfo Junqueira, era tido como funcionário público municipal exemplar. Começou como contínuo, chegando à chefia de gabinete do prefeito nas administrações de Hely Alves Ferreira e Jonas Duarte. Havia passado pela direção do Colégio Estadual “José Ludovico de Almeida”, principal colégio da cidade. Em 1965, cogitado para ser candidato em substituição ao prefeito Jonas Duarte, abriu mão para Raul Balduíno. Era, sem dúvida, a pessoa mais forte que a Arena poderia lançar.

José Batista, também, um político coerente e tradicional, se apresentava como o candidato da luta pela redemocratização do País e único capaz de dar continuidade ao trabalho realizado pelo grupo santilista.

A tese defendida por Eurípedes foi a de que Anápolis ganharia com a sua eleição por que ele teria a mão esquerda estendida ao Governo Estadual e, a direita, ao Governo Federal. Fez, pessoalmente, a campanha paz e amor. Sem o ódio e radicalismo, como a maioria dos que o apoiavam. Sua mensagem era, especialmente, levada às mães. Era tido pelos analistas políticos como imbatível.

Não havendo eleição para prefeito em Goiânia, a estrutura do Governo Estadual, para ganhar a eleição, foi transferida para Anápolis. Lei eleitoral falha, justiça desaparelhada, sem termos a quem recorrer, incentivávamos o eleitor a receber as benesses oferecidas pelo Governo, mas que votasse em José Batista Júnior:

- “Peguem o dinheiro, carteira de motorista, material de construção que estão lhe oferecendo, mas votem contra quem está tentando comprar seu voto. Diga não à corrupção e à escravidão. Vote pela liberdade. Vote José Batista Júnior.”

A Rádio Imprensa, pertencente ao médico Henrique Fanstone, presidente municipal da Arena, fazia a campanha arenista. Transmitia, todas as noites, os comícios de Junqueira. A Rádio Carajá comandada pelo MDB autêntico, defendia a administração Henrique Santillo, a candidatura de José Batista Júnior e transmitia, diariamente, os seus comícios.

Os emedebistas que romperam com o prefeito Henrique Santillo, criaram um grupo que se auto-intitulou “MDB Positivo” em apoio a Eurípedes Junqueira. Fernando Cunha Júnior e Ronaldo Jayme, por serem detentores de mandatos, não subiram ao palanque de Eurípedes Junqueira. Os demais emedebistas, adesistas, fizeram parte do palanque arenista. No palanque de José Batista Júnior, Henrique Santillo, Anapolino de Faria, os sete vereadores que apoiavam o prefeito, dentre eles o candidato a vice Milton Alves Ferreira; João Abrão, Presidente do MDB, Romualdo Santillo, eu e lideres populares.

Certos que num debate pela televisão Eurípedes Junqueira venceria José Batista, a Arena comprou o horário mais importante da TV Anhanguera, o único canal de televisão, até então, existente em Goiás, para o confronto, marcado para as 19 horas de um domingo... (continua)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Queda e retorno da autonomia política

O 28 de agosto de 1973 aparentava ser um dia como outro qualquer. Muito sol, ventava bastante, quando cheguei à Assembléia Legislativa, em Goiânia, para a sessão plenária , que seria realizada pela manhã. A diferença, a novidade, ocorreu em seguida quando fui informado por um telefonema de Brasília, que José Batista Júnior, prefeito de Anápolis, acabara de ter seu mandato cassado, direitos políticos suspensos por 10 anos. O vice prefeito Milton Alves Ferreira não fora cassado, mas impedido de tomar posse, pois no mesmo ato assinado pelo general Emilio Garrastazu Médici, nomeava o engenheiro Irapuan Costa Júnior, como primeiro prefeito nomeado de Anápolis, que naquele dia foi transformada em Área de Interesse à Segurança Nacional.

Violência inconcebível praticada contra um povo que não se rendia e jamais se rendeu aos caprichos dos prepotentes e inimigos das liberdades democráticas. José Batista Júnior que vencera a eleição enfrentando toda máquina oficial do governo e poderio econômico, soube da sua cassação por noticiário de rádio, quando voltava de Goiânia, sem ser atendido pelo secretário da Segurança Pública, onde fora para tratar de assuntos daquela pasta em Anápolis.

Foram 12 anos sem eleição para a prefeitura e 8 prefeitos nomeados. Nesse período o MDB continuou ganhando todas as eleições que disputou no Município. A única exceção ficou por conta da eleição para vereadores ocorrida em 1976, em que a Arena elegeu oito vereadores e o MDB, sete. Durante esse tempo companheiros humildes foram presos; várias tentativas os adversários fizeram para cassar nossos mandatas – Henrique Santillo e meu; impediram Henrique de atender pelo INPS; tentaram pelo suborno comandar o MDB municipal; assumiram a direção da Rádio Carajá através de força policial e fecharam a Rádio Santana, onde apresentávamos o programa “ O Povo Falou ta Falado.”

Fizemos inúmeros encontros políticos, discursos, debates nas comissões técnicas da Câmara Federal, simpósios estudantis na Câmara Municipal e reuniões domiciliares. mantendo acesa a luta pela autonomia política de Anápolis. O vereador Valmir Bastos Ribeiro foi verdadeiro “leão” nessa luta. Preso inúmeras vezes, torturado e permanentemente perseguido, Valmir foi exemplo de lealdade aos companheios e convicto defensor do estado democrático de direito. Graças à sua dedicação e prestigio conseguiu trazer a Anápolis, para debater política e fortalecer a luta pelo retorno da autonomia política do Município, figuras como Ulysses Guimarães, Aldo Fagundes, Odacir Klein , Freitas Nobre, Jaison Barreto, Tarcisio Delgado e outros expoentes do MDB nacional.

Estamos neste ano completando 25 anos do retorno ao direito do anapolino escolher pelo voto livre e soberano, o seu prefeito. Tenho muito orgulho de ter participado dessa luta gigantesca e vitoriosa. Satisfação de ter sido eleito pelo voto direto o primeiro prefeito depois do fim de prefeitos nomeados.

Os jovens, aqueles que contam com menos de 30 anos, não sabem os prejuízos causados pela ditadura. Não foram apenas as perdas materiais. Essas são repostas. Os maiores malefícios ocorreram no impedimento de formação de novas lideranças.As lideranças políticas de maior expressão na política nacional são remanescentes de 1964. Lideranças autenticas, mas que estão paulatinamente desaparecendo. O autoritarismo e leis de exceção impediram o surgimento de substitutos. Estamos com carência de lideres autênticos. Fruto do regime ditatorial. Para que isso não mais se repita, não devemos deixar que as atrocidades caiam no esquecimento, principalmente dos jovens.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Professor Akynaton

Quando alguma coisa está em disputa entre pessoas ou grupos, teoricamente todos os concorrentes querem vencer. Em quase todas as atividades que nos envolvemos estamos competindo. Viver é competir. Lutamos para que a vida supere a morte. Queremos ser vencedores. No meio radiofônico a disputa por audiência também é intensa e emocionante. Não há nada melhor para o radialista do que saber que seu programa é muito ouvido e comentado. O diretor artístico da emissora é importante nessa batalha pela conquista do ouvinte.

Romualdo Santillo, trabalhando como auxiliar de direção artística da Rádio Carajá de Anápolis, na década de 1960, sua principal preocupação era criar programação diversificada para a emissora. Aqueles programas tradicionais, como “Caleidoscópio Musical”, e ouvinte solicitando música pelo telefone estavam superados. As novas emissoras de rádio que operavam na cidade entraram no mercado com atrações modernas, cativantes. A Carajá, a mais antiga emissora de Anápolis, tinha como principal concorrente a Rádio Imprensa, ligada ao grupo Henrique Fanstone. Mesmo porque, a Santana pertencia ao mesmo grupo da Carajá. A Cultura, comandada por Benedito Junqueira, pertencia ao grupo Caiado, mais interessado em fazer a política do grupo. A Carajá era mais ouvida em quase todos os horários. A Imprensa, imbatível no programa das 14h. O astrólogo Omar Cardoso, com seus conselhos a pessoas desesperançadas de todo o Brasil, era líder absoluto em audiência. Omar foi considerado a maior expressão da astrologia nas emissoras de rádio brasileiras. Por mais que tentassem, as atrações da Carajá, para o horário, não cresciam.

Amigo do saudoso odontólogo e professor de química Felipe Jorge Mattar, o Felipão, Romualdo o convidou para apresentar programa nos moldes do de Omar Cardoso. Felipão foi a Goiânia conhecer regras básicas de numerologia e astrologia. Ficou mais de um mês indo e voltando todos dias. Aprendeu as noções básicas para enfrentar o desafio que Romualdo lhe reservara. Atenderia ouvintes da região. Preferencialmente de Anápolis. Raramente Omar Cardoso atendia alguém de Goiás. Seus consulentes eram mais de São Paulo, Minas Gerais , Rio de Janeiro, Paraná e Nordeste.

Para causar mais impacto e interesse ao público ouvinte, o astrólogo não foi apresentado como Felipão. Seu nome artístico: professor Akynaton. Dava a impressão de ser asiático, da Índia. Povo reconhecido internacionalmente como místico. Gente conhecedora de astrologia e numerologia.

No horário das 14h, Akynaton surgia na emissora, toalha branca enrrolada à cabeça, em forma de turbante, e estúdio fechado para visitantes, naquele horário.

Poucas foram as cartas da primeira semana. Contudo, em poucos dias as urnas estavam abarrotadas de correspondências. Consultas sobre questões sentimentais eram as mais freqüentes: “Meu casamento ainda pode dar certo?” “Minha namorada me deixou por outro. Ela voltará para mim?” “Meu signo, Virgem, é compatível com o da minha namorada, que é Sagitário?” Felipão, ou melhor, professor Akynaton, tirava de letra todas elas. As respostas constavam de manual que trouxera de Goiânia. Sempre com respostas que o consulente gostaria de ouvir, mas dando saída para outro desfecho. Tudo corria bem. A audiência crescia a cada dia.

Muito ouvido e respeitado pelo público, Akynaton recebeu correspondência de um ouvinte da região de Jaraguá. Estava com a esposa internada no Hospital Dom Bosco, em Anápolis, para dar a luz ao quarto filho. Pai de três meninas, torcia pelo nascimento de um menino. Assim, queria saber se a criança que estava prestes a nascer seria do sexo masculino. Akynaton, leu a correspondência. O manual não lhe dava condições de responder a questão com segurança. Alegando falta dos signos dos pais, idades das irmãs e signo de cada uma, cor da pele do pai e da mãe, endereço de residência em Jaraguá, estava impossibilitado de revelar o sexo da criança. A mãe já se encontrava internada para dar a luz. Sabedor que a criança nasceria logo, acreditava que até lhe serem prestados os esclarecimentos teria nascido.

Mal terminou o programa daquela tarde, o consulente chegou à Rádio Carajá levando as respostas solicitadas. O parto estava programado para a tarde do dia seguinte. O pai queria saber o sexo da criança, pelo menos, algumas horas antes do nascimento. Não houve escapatória: no dia seguinte, o professor Akynaton decifrou os dados que lhe foram repassados. Depois daquele suspense natural, disse solenemente que a criança seria do sexo masculino. “Será menino!”

Alegria contagiante quando a enfermeira saiu da sala do parto com a criança, anunciando ser do sexo masculino. Professor Akynaton se consagrou.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Raul Balduíno e o MDB ( I )

Raul Balduíno de Souza, médico, natural de Posse-Go, foi importantíssimo para que o Movimento Democrático Brasileiro de Anápolis se constituísse no expoente máximo da resistência democrática em Goiás. Embora tenha militado politicamente em Posse, foi em Anápolis que se destacou, transformando-se numa das mais importantes figuras da resistência democrática do Estado, nos anos 60.

Jonas Ferreira Alves Duarte terminava em 1965 seu mandato como prefeito. Realizou administração progressista. Estruturou a administração municipal. Seu trabalho precisava ter continuidade. Naquele ano seriam realizadas as eleições para prefeitos e governadores em todo Brasil. As eleições legislativas para a Câmara de Vereadores, Assembleia Legislativa, Câmara Federal e Senado seriam no ano seguinte, 1966. Jonas pertencia ao PTB, aliado do PSD na cidade. Não havia o instituto da reeleição. Seu partido não preparara um nome para sucedê-lo. Aliás, valiam mais os acordos de última hora que preparo de nomes. O principal auxiliar do prefeito, Euripedes Barsanulfo Junqueira, braço direito de Jonas Duarte na administração, era cotado. Ninguém conhecia mais das coisas da prefeitura que ele. Preferiu não disputar. Euripedes sabia que para vencer a eleição teria que buscar apoio fora da base de apoio situacionista. Por ser amigo e muito próximo ao prefeito, receava que não conseguisse aglutinar em torno do seu nome, forças políticas contrárias.

O adversário era fortíssimo, Henrique Maurício Fanstone. Se transformara na sensação da política anapolina desde o instante em que venceu Ítalo Naghettíni, genro do cel. Achilles de Pina, na disputa para a vice prefeitura no pleito de 1960. O eleitor tinha o direito de votar em candidato a prefeito, governador e presidente da República de uma legenda e vice de outra legenda. Isso aconteceu a nível nacional em que Jânio Quadros se elegeu presidente da República pela UDN e o vice João Goulart, pertencia à coligação PTB/PSD. Fanstone (UDN) foi eleito vice ao lado de Jonas Duarte(PTB-PSD). Passava, o tempo e o prestígio de Henrique Fanstone crescia cada vez mais.

Sem contar com um nome popular, as lideranças do PTB e PSD partiram a procura de alguém sem militância política no município. Que não fosse político tradicional. Raul Balduino de Souza possuía esse perfil. Médico conceituado, ruralista, ex-presidente do sindicato rural de Anápolis e diplomata por excelência. Preenchia todas as condições para enfrentar o candidato udenista o também médico, Henrique Fanstone. Além disso, Raul era o único que poderia atrair parte importante da UDN municipal. A liderada pelos Caiado. Companheiros de Edenval e Elcival não apoiavam Fanstone. Caiadistas o responsabilizavam pela derrota de Emival Caiado para Otavio Lage de Siqueira, na convenção udenista.

A velha UDN queria Emival. Ele não tinha dúvida que enfrentaria Peixoto da Silveira, candidato do PSD. Perdeu para o engenheiro Otavio Lage, prefeito de Goianésia. O articulador de Otavio na convenção, teria sido Henrique Fanstone. Grande era o ressentimento. Os Caiado não votariam em Fanstone. Da mesma forma não se dispunham a apoiar candidato que fosse militante tradicional do PTB ou PSD. Em Raul Balduino votariam.

Confirmada a candidatura de Raul, os Caiado montaram comitê Otávio Lage-Raul Balduíno, no centro da cidade. João Beze foi o principal comandante do Comitê, conhecido como Comitê do Meio.

Henrique Fanstone arrastava multidões aos seus comícios. O povo ia a pé a todos eles. Seus eleitores deliravam quando atacava os adversários. Esse entusiasmo da massa fanatizada, revigorava cada vez mais suas ironias. Os comícios de Fanstone eram transmitidos ao vivo pela Rádio Imprensa e os de Raul Balduíno pela Rádio Carajá. A forma de expressar de Henrique Fanstone agradava seus eleitores, mas o distanciava do eleitorado mais observador. Aqueles que se definem pelo candidato no curso da campanha. Pela sua forma irônica ao atacar o concorrente, se afastava desse eleitorado.

Raul Balduíno, tranquilo ganhava força a cada instante. Seu valor pessoal, prestígio de Jonas Duarte e aliança com o grupo Caiado: Otávio para o governo e Raul para prefeitura foram fundamentais para seu crescimento eleitoral. Henrique Fanstone e Raul Balduino, embora à época não houvesse pesquisa de intenção de votos, chegaram ao pleito, em igualdade de condições. Apurados os votos na cidade de Anápolis, Henrique Fanstone estava à frente. Abertas as urnas do distrito de Souzânia, Raul tirou a diferença e venceu por 222 votos.

Raul Balduíno foi excelente prefeito. Na formação dos partidos em 1966, ficou com o MDB. Deu credibilidade e sustentação ao partido que estava surgindo. Ao final do mandato em 1969, era apontado como o companheiro ideal para ser vice de Iris Rezende Machado, que estava sendo preparado como candidato do MDB, ao governo de Goiás em 1970.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Godofredo e Sua Obra Sobre Anápolis

O jornalista Godofredo Sandoval Batista lançou, no último dia 8 de dezembro, importante livro contando a história de Anápolis desde 1860, quando dona Ana das Dores, depois de descansar às margens de uma cristalina e refrescante nascente dágua, existente nas proximidades do córrego das Antas, viu a mula que fazia parte da tropa, empacar. Relataram os que presenciaram a cena, que dona Ana ao abrir a bruaca que a mula transportava, encontrou a imagem de Santana. Retirada a imagem, a mula voltou a andar normalmente. Ana entendeu como sendo recado divino, para que se construísse naquele local, capela em louvor à santa. Daquele acontecimento aos dias de hoje, já se passaram 150 anos. Aí a razão de “Anápolis 150 anos de bairrismo”.

O jornalista relata fatos que presenciou e outros que conseguiu através de pesquisas. Consultou livros de outros autores sobre o mesmo tema. Ouviu relatos pessoais de historiadores e jornalistas mais antigos. Leu coleções completas de jornais anapolinos que hoje não circulam mais. Nos arquivos da prefeitura, analisou fotos e documentos históricos importantes. Foi sintético na sua narrativa, sem perder a fidelidade com os fatos narrados. Em “Anápolis 150 anos de bairrismo”, realça pontos relevantes e significativos de todos os setores da sociedade local. Escreve sobre desenvolvimento econômico, político, cultural, educacional e esportivo, mas não se esquece de figuras humildes e marcantes como Antônio Caetano Júnior, o uberabense Caetano, torcedor fanático da Associação Atlética Anapolina. No Estádio Manoel Demóstenes, ridicularizava jogadores adversários quando chutavam errado ao gol da Anapolina. Gritava com todas as forças dos seus pulmões: “Óh o pé dele Carpaneda!”. Com Teodora, a dama do Anápolis Futebol Clube, mulher que ia aos jogos do tricolor impecavelmente trajada e sempre acompanhada de sombrinha multicolorida, fazia o show à parte para os torcedores. Não se esqueceu de Maria Rosa, com seu clube Pena Azul ou Ponciana, com sua casa de encontros amorosos em pleno setor central da cidade.

Fala sobre o trabalho de evangelização do monsenhor Pitaluaga e sua firme ideologia de direita. Isso ficou evidente quando da visita do marechal Tito, da Iugoslávia, a Anápolis. Criticou a visita do velho marechal até mesmo quando a comitiva passava pela Praça do Bom Jesus. Marcante foi sua discussão verbal pelo alto-falante da Igreja Bom Jesus, com Geraldo Soares e Romualdo Santillo, redatores e apresentadores da “Rodinha do Café,” às 12 horas, pela Rádio Carajá. Eram os jornalistas provocando Pitaluga e ele respondendo agressivamente pelos alto-falantes da igreja.

Godofredo Sandoval Batista nos relata sobre a importância do café do Antônio, na Rua Barão do Rio Branco. Ponto de encontro de políticos, desportistas e sociedade em geral. Espécie de Café Central, da gente anapolina. Rua Barão de Rio Branco famosa também por ser palco de paquera para os jovens nos anos 50 e 60. O “vaivém”da moçada acontecia todos finais de semana, feriados e dias santificados, na Barão entre a Engenheiro Portela e Sete de Setembro. Homens nas calçadas e as mulheres desfilando pelo centro da rua a céu aberto. Dezenas de casais se conheceram e se casaram graças ao “vaivém.”

O livro de Godofredo Sandoval Batista é a mais perfeita crônica sobre Anápolis, sua gente e sua vida. Merece ser lido e discutido.

Só num ponto Godofredo Sandoval Batista comete pequeno equivoco. Com precisão descreve a conquista do campeonato paulista do IV Centenário pelo Corinthians, em 1954. Quando sua família retornava de Vianópolis para Anápolis. Fala do time com Gilmar ou Cabeção, Homero e Olavo; Idário, Roberto e Goiano; Cláudio, Luizinho, Baltazar, Carbone e Nonô ou Souzinha. Descreve que Baltazar era artilheiro e bom cabeceador. O cabecinha de ouro. O eleva à condição de inventor da bicicleta e conhecido como Diamante Negro! Inventor da bicicleta e Diamante Negro, foi Leônidas. É importante esse reparo para que torcedores do São Paulo e Flamengo não venham posteriormente nos contestar.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

No Passado Foi Diferente

Alguns amigos, principalmente eleitores que sempre me apoiaram nas disputas eleitorais, me perguntam se não foi difícil para mim tomar a decisão de deixar o PMDB. Para todos respondo que sim. Ingressei na vida política me filiando ao MDB. Partido que muito fez para que a ditadura de 1964 caísse e ressurgisse a democracia. Nunca havia militado noutro partido. Já em 1966, quando ajudei fundar o Movimento Democrático Brasileiro, em Anápolis, participei da eleição de Henrique Santillo a vereador. Garantir sua posse foi batalha heróica e nos moldou para a verdadeira guerra que teríamos pela frente. Em 1970 me elegi a deputado estadual. Com a cassação do mandato do prefeito Iris Rezende e suspensão dos seus direitos políticos por 10 anos, o MDB quase acabou em Goiânia. A principal trincheira da resistência democrática em Goiás foi construída em Anápolis. As vitórias que conseguíamos contra a Arena, eleição após eleição, davam visibilidade à luta oposicionista que sustentávamos. Graças a esse quadro nossa responsabilidade na formação do partido de oposição verdadeira foi enorme.

Os companheiros do interior admiravam o trabalho que fazíamos em Anápolis. Sabiam das perseguições que sofríamos, mas não fraquejávamos. Pelos estreitos caminhos que as leis de exceção nos ofereciam resistíamos indo à frente. Não nos acovardávamos e nem temíamos os prepotentes. A cada eleição inventavam enxurrada de denúncias na tentativa de nos intimidar.

Cassação do mandato do prefeito José Batista Júnior (MDB), com a transformação do municipio em Área de Interesse à Segurança Nacional; invasão da Rádio Carajá, que havíamos adquirido do ex-deputado Plínio Jayme, pela Policia Militar do Estado, devolvendo seu comando ao antigo proprietário; fechamento da Rádio Santana que adquirimos em substituição à Carajá; prisão do bravo e saudoso vereador Walmir Bastos Ribeiro e prisões de auxiliares do ex-prefeito Henrique Santillo, não nos amedrontaram. Revigoraram nossas forças.

Em Anápolis nos fortalecíamos dia a dia com nossa pregação diária em favor das liberdades democráticas no programa radiofônico, “ O povo falou tá falado”. Fazíamos reuniões domiciliares preparando novos quadros de autênticos resistentes à ditadura. Simpósios trabalhistas e estudantis completavam nosso pacote na formação de lideranças.

No interior, mesmo com a simpatia de expressivas lideranças pela nossa atuação, questões políticas locais falavam mais alto. Essas lideranças preferiam ficar agasalhadas em sublegendas dentro da Arena a formar o MDB. No início o partido contou com adesão de posseiros, pequenos sitiantes, lavradores e trabalhadores braçais. Mesmo assim enfrentamos a resistência dos políticos locais.

Em Estrela do Norte, o caminhoneiro Hilton Lucena de Oliveira foi preso, prisão preventiva decretada pelo Juiz da Comarca, porque estava filiando eleitores ao MDB. Altivo, conhecido carroceiro da cidade, que o ajudava no trabalho de filiação, apanhou tanto da polícia que sumiu da cidade. Em Jaraguá, Militino, conceituado farmacêutico no município, juntamente com a companheira Maria filiaram gente da zona rural. Quando completaram as filiações necessárias foram ao Cartório Eleitoral para o registro dos filiados. Encontraram nas mãos do escrivão, carta renúncia assinada por cada um dos filiados. Em Mara Rosa lançamos a candidatura Zériaco, à prefeitura. A única propaganda que fez foi um cartaz com seu nome e caricatura, desenhados por sobrinho seu. Em Silvânia, Geraldo Bonfim, pequeno comerciante de secos e molhados enfrentou o poderio arenista dos Caixeta. Em Goianápolis, os vereadores emedebistas Lucas Gonçalves e João Leite de Morais tiveram os mandatos cassados por trabalharem em Anápolis. Assim surgiu e se fortaleceu o MDB.

Graças à resistência dessa gente humilde e batalhadora, Iris Rezende Machado chegou ao governo de Goiás em 1982, depois de 10 anos afastado compulsòriamente da vida política. O partido de hoje não é o mesmo do seu nascimento. Deixamos o PMDB mas não deixamos a luta. Estaremos noutra trincheira com os mesmos ideais do passado. Não nos sentiríamos confortáveis, num partido moldado na resistência democrática e que hoje pune as vozes internas que democraticamente discordam da sua prática política.

terça-feira, 13 de julho de 2010

O início de uma dura caminhada (I)

Publicado na edição de 08/07/2010 do jornal Diário da Manhã

Em 1973, disputei meu primeiro mandato eletivo na política partidária. Eleito ao lado de 11 companheiros do MDB, a uma vaga na Assembleia Legislativa de Goiás. Havia participado antes de várias disputadas eleitorais, mas na política estudantil e esportiva. Duas vezes presidente do Grêmio Literário Castro Alves, do Colégio Estadual José Ludovico de Almeida; primeiro presidente da União dos Estudantes Secundaristas de Anápolis – Uesa, pelo voto direto; três vezes presidente da Liga Anapolina de Desportos-LAD. Votação consagradora dentre todos os candidatos que concorreram à Assembleia Legislativa e Câmara Federal, em Anápolis. Pela legenda do Movimento Democrático Brasileiro o deputado estadual mais votado e o terceiro dentre os integrantes do legislativo goiano.

A honraria que me foi conferida nas urnas, consolidou o compromisso que tinha de lutar com todo ardor pelo retorno à democracia. Com muita responsabilidade o mandato foi exercido sem concessões à ditadura. Perplexos percebemos que nós, os santillistas, enfrentaríamos os usurpadores do poder e grande parte do MDB anapolino, formado por adesistas e oportunistas incrustados no partido. Presenciamos a fuga de quase todo MDB de Anápolis, abandonando o nosso candidato José Batista Júnior, em 1972, para apoiar o candidato arenista. Camuflando o adesismo se autointitularam “MDB- Positivo”. Eles que esperavam com a vitória arenista nos sufocar, sentiram a força popular, que deu estrondosa votação a Batista Júnior. Apenas o deputado Anapolino de Faria e meia dúzia de “gatos pingados” ficaram com a candidatura emedebista, comandada por Henrique Santillo. Sofremos quando no dia da posse de José Batista a Rádio Carajá, pertencente a integrantes do MDB, foi invadida e sua direção afastada pela força das armas da Polícia Militar do Estado, a mando do Dentel. Com indignação e revolta, demos conhecimento aos goianos, no dia 28 de agosto de 1973, pela tribuna da Assembleia Legislativa, a cassação do mandato do prefeito José Batista Júnior e perda da autonomia política de Anápolis, por decreto do general Emílio Garrastazu Médici. Ao lado de Derval de Paiva e toda bancada do MDB, passamos uma noite inteira lutando contra aprovação de projeto de lei, elaborado sorrateiramente na calada da madrugada, transformando a cidade de Goiás, em Estância Hidro-Mineral. Com isso, os governistas tiraram do povo o direito de eleger o sucessor do prefeito Dário de Paiva-MDB. Soltamos e defendemos companheiros humildes do interior presos por estarem organizando o MDB em seus municípios. Assistimos e denunciamos os sequestros de Godofredo Sandoval, Jalme Fernandes, Valdivino Pereira e Eles Nogueira, por forças da repressão, levados para local e prisão ignorados.

Toda bancada emedebista nos seus protestos e denúncias sempre contou com o respaldo do jornal Cinco de Março, dirigido pelo jornalista Batista Custódio. Nas edições do jornal, um semanário vibrante e compromissado com a democracia e a verdade, dava à bancada do MDB, o mesmo espaço que oferecia aos governistas. Como a imprensa diária desconhecia ou minimizava os acontecimentos por nós denunciados e a televisão garroteada pela censura federal, se omitia completamente, o Cinco de Março exercia o extraordinário papel de bem informar a população goiana. O jornal semanalmente, mesmo nas cidades mais distantes, era repassado de mão em mão, atingindo os leitores e formadores de opinião. Assim como o MDB de Goiás foi contundente no combate à ditadura, o jornal de Batista Custódio, com muita coragem e responsabilidade manteve a sociedade goiana bem informada, sem qualquer tipo de censura. Em inúmeras ocasiões, a grande imprensa do eixo Rio-São Paulo, se valia de informações divulgadas em primeira mão, pelo jornal Cinco de Março, para repercutir algum fato ocorrido na política goiana. Naquele momento foi importante meio de comunicação e o único a oferecer espaço à oposição no Estado...

segunda-feira, 29 de março de 2010

Histórias de Cronistas e do Futebol

Publicado na edição de 27/03/2010 do jornal Diário da Manhã

Nunes Macedo, grande repórter de pista dos anos 60/70, na Rádio Brasil Central, antes de ser cronista trabalhava como encanador, em Anápolis. Fanático por futebol e pretendendo mudar de profissão, fez curso de árbitro, na escola da Liga Anapolina de Desportos. Foi aluno brilhante.

Sua estreia foi no jogo Serraria x Castilho, pelo Campeonato Anapolino. Estádio Manoel Demóstenes lotado. Nunes Macedo se impunha pelo conhecimento das regras, imparcialidade e acompanhamento das jogadas. Jovem, com muito vigor físico e amando a nova profissão, estava onde a bola ia.

Num lance violento praticado pelo lateral esquerdo Batata, do Serraria, jogador de estatura mediana, forte e corpulento, Nunes não teve dúvida, apitou pênalti e expulsou o zagueiro de campo. Antes que Aluísio, artilheiro do Castilho, fizesse a cobrança, Batata desferiu um torpedo de braço esquerdo na testa do árbitro, jogando-o ao chão.

Só recobrou os sentidos 40 minutos depois, no Pronto Socorro do Hospital Evangélico. Nunes Macedo nunca mais apitou nem pelada de rua, preferindo continuar como encanador. Só retornou aos estádios, retomando o gosto pelo futebol, bem mais à frente, como repórter, pela Rádio Imprensa, sob o comando de Jayro Rodrigues.

Petrônio Cruz, comentarista esportivo da Rádio Santana, só chegava ao jogo no final do segundo tempo. Fazia seu comentário intermediário por telefone, depois de ouvir nossa narração enquanto fechava o caixa do matinê, no Cine Vera Cruz, onde era gerente. Muitas vezes, quando a frequência ao cinema era maior, não ouvia a transmissão. Comentava sem ao menos saber quais os times que jogavam.

Gedeon Camargo, hoje militando na crônica esportiva de Uberlândia, começou a carreira como repórter na equipe da Rádio Carajá. Num jogo Anapolina x Anatex, pelo campeonato da LAD, entrevistou o zagueiro Orlando, da Anapolina. A xata não vencia há quatro partidas. Quis saber do zagueiro o porquê de tantos tropeços:

– Orlando, como você explica essa hecatombe que ocorreu na Anapolina ?

Como o zagueiro se confundiu completamente com a pergunta, respondendo coisa sem nexo, como “não é verdade que tenha comido feijoada...”, Gedeon o cortou:

– Orlando, parece que não fui entendido. Gostaria que você explicasse como justificar a debacle da Anapolina no campeonato?

Antônio Afonso de Almeida foi o pioneiro locutor esportivo em Anápolis. Da escola de Valdir Amaral da Rádio Globo do Rio de Janeiro narrava os lances de forma lenta e detalhada.

Para gravar no Estádio Pedro Ludovico, em Goiânia, partida entre as seleções de Goiás e Mato Grosso, com ele foi Clovis Guerra, chefe do departamento de Jornalismo da Rádio Carajá. Gravador grande, fitas trocadas com frequência, monitorado por Clovis. Faltando 20 minutos para o término e a última fita de que dispunham chegando ao final, Clovis, desesperado gritou para Afonso:

– Acelere, narre mais rápido! Seja como Pedro Luiz, da Bandeirantes! Lento assim a fita não vai dar.

A Rádio Carajá funcionava na parte superior de um prédio do Banco Estado de Goiás na Praça do Bom Jesus. Na parte superior externa do imóvel havia um possante alto falante, transmitindo toda programação da emissora. Às 11 horas, no seu programa esportivo, desportistas lotavam a praça em frente à emissora para se inteirar das últimas do esporte.

Mané Padeiro, que fazia a entrega de pães e roscas em sua carroça tipo baú, era presença cativa. Chovesse ou fizesse sol, às 11 horas lá estava ele com sua carroça. Torcedor fanático do Anápolis, naquele dia estava impaciente ao saber que Nilo, Carlinhos e Felinho, jogadores do tricolor, poderiam se transferir para o Ypiranga, maior adversário do Anápolis. Deixou a carroça no acostamento da calçada e foi para o meio da plateia.

Antônio Afonso, o radialista, fez a pergunta a um dos atletas que estavam na relação dos que poderiam mudar de time:

– É verdade que você está deixando o Anápolis, se transferindo para o Ypiranga?

O “não”, dito pelo jogador, foi com o som emitido pelo contato da língua com os dentes superiores:

– Dhi, dhi, dhi, dhi... Idêntico ao que os carroceiros utilizam para que o cavalo vá em frente.

Aquele som, velho conhecido do animal que servia Mané Padeiro, ampliado pelo alto-falante, fez com que o cavalo saísse em disparada carreira pela Rua Barão do Rio Branco, despejando pães e roscas pelo caminho. Só parou quando foi contido por populares na Praça Santana.

terça-feira, 2 de março de 2010

Cronologia da Violência

Primeiro de abril de 1964: Após ter sido eleito o primeiro presidente da União dos Estudantes Secundaristas de Anápolis pelo voto direto, Adhemar Santillo é destituído do cargo pelos integrantes do golpe que destituiu o Presidente da República João Goulart.



Maio de 1964: Adhemar Santillo é preso juntamente com médico Fuad Siad, acusados de pertencerem ao movimento clandestino Ação Popular (AP). Responderam a inquérito policial na Secretaria de Segurança Pública de Goiás.



Junho de 1964: Adhemar Santillo responde a Inquérito Policial Militar (IPM), comandado pelo Exército Brasileiro. Conclusão do IPM: não é encontrado nada que possa incriminá-lo.



Junho de 1964: Adhemar é impedido de trabalhar como radialista na Rádio Carajá de Anápolis ou qualquer outra emissora de radiodifusão da cidade pelo coronel Izacir Telles.



Agosto de 1964: Por determinação do coronel Epitácio de Brito, chefe de gabinete militar do governador Ribas Jr., Romualdo Santillo é preso por haver escrito no jornal Correio Braziliense, em sua coluna diária “O Que Se Comenta”, notícia em que fazia crítica à postura do coronel. Com seus jantares diários realizados no Palácio das Esmeraldas em Goiânia, o coronel buscava apoio a uma possível candidatura ao governo do Estado pela UDN, nas eleições que aconteceriam em 1965.



Dezembro de 1966: Henrique Santillo, eleito vereador da Câmara Municipal de Anápolis, deixou de ser diplomado pelo Juiz Eleitoral Manuel Luis Alves, sob a acusação de ser fichado como comunista na G2 da Polícia Militar de Minas Gerais. Henrique Santillo foi diplomado e empossado quando o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de Goiás, em vista de documentos oficiais buscados por Adhemar em Belo Horizonte e acostados ao processo, atestou não ser Henrique fichado naquela corporação.



1969: Candidato a prefeito de Anápolis pelo MDB, Henrique Santillo teve seu registro de candidatura, diplomação e posse impugnados pelos adversários, sempre com denúncias e documentos falsos. A Justiça Eleitoral não deu provimento a nenhuma das denúncias, mandando-as ao arquivo.



Janeiro de 1971: Encerradas as eleições de 1970, Anapolino de Faria foi o candidato a Deputado Federal mais votado em Anápolis e Adhemar o mais votado para a Assembléia Legislativa. Integrantes do MDB do município, contrários aos Santillo, denunciaram Henrique Santillo, Anapolino de Faria e Adhemar Santillo à Polícia Federal, acusando-os de prática de corrupção eleitoral naquelas eleições. Foi designado o delegado Jesus Lisboa para a realização do inquérito que, concluído, ficou engavetada na Procuradoria Geral do Estado.



Janeiro de 1971: Dos quinze vereadores que compunham a Câmara Municipal de Anápolis, foram eleitos em 1970 dez pertencentes ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e cinco da Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Foram eleitos para a mesa diretora da Camâra, biênio 1971/1972, Antônio Marmo Canedo como Presidente, Walmir Bastos Riberio como vice-Presidente e Walter Gonçalves de Carvalho como Secretário, todos emedebistas e santillistas. Antônio Marmo Canedo faleceu no exercício da Presidência. Para substituí-lo, foi efetivado Walmir Bastos.



1972: Com a morte de Antônio Marmo Canedo, três vereadores do MDB (Lincoln Xavier Nunes, João Divino Cremonez e Pedro Sergio Sobrinho), não ligados a Henrique Santillo, passaram a votar de acordo com os cinco arenistas em oposição ao prefeito. Os adversários lutaram para que Walmir Bastos, Presidente da Câmara, aderisse à ala do MDB oposicionista a Henrique. Não conseguiram e passaram a perseguí-lo com auxílio dos órgãos de repressão, comandados pela Polícia Federal e Delegacia da Ordem Política Social do Estado, sendo preso por três vezes consecutivas. A última prisão de Walmir foi a mais violenta, pois foi retirado sob mira de metralhadoras de dentro do carro em que Adhemar lhe dava uma carona. Foi conduzido à Brasília e dele foi exigido que renunciasse à Presidência da Câmara e ao seu mandato de Vereador. Se cumprida, essa exigência abriria a vaga do Presidente da Câmara Municipal de Anápolis para os opositores ao prefeito. Com isso, usariam o documento do inquérito feito pela Polícia Federal e afastariam Henrique Santillo da Prefeitura. Das duas vezes anteriores, Walmir suportou todas as pressões. Dessa vez, contudo, não resistiu às torturas psicológicas e físicas. Acabou assinando sua renúncia ao mandato e entregou-a ao major Leopoldino, chefe da carceragem em que se encontrava nas dependências do Exército Brasileiro em Brasília. Alertado pelo Deputado Estadual Adhemar Santillo, o presidente nacional do MDB, Deputado Federal Ulysses Guimarães, denunciou a trama à nação e o documento assinado por Walmir Bastos à base da tortura nunca chegou a Câmara Municipal de Anápolis. Walmir cumpriu seu mandato até o final, o mesmo acontecendo com o Prefeito Henrique Santillo.



1 de fevereiro de 1973: Na madrugada do dia em que José Batista Jr. tomaria posse substituindo Henrique Santillo na prefeitura de Anápolis, policiais militares do estado invadiram os estúdios e transmissores da Rádio Carajá, pertencentes aos santillistas desde 1967, alegando cumprir ordens do Departamento Nacional de Telecomunicações (DENTEL). Afastaram os santillistas da sua direção, devolvendo-a ao seu antigo proprietário, Plínio Jayme.



Maio de 1973: Adversários do médico Henrique Santillo exigiram da direção nacional do Instituto Nacional da Previdência Social (INPS) seu descredenciamento daquele instituto, com o objetivo de forçá-lo a mudar-se de Anápolis ou abandonar a luta oposicionista. Algum tempo depois, médicos anapolinos forçaram o INPS a rever a punição, com Henrique sendo recredenciado.



Agosto de 1973: Sete meses após sua posse, o prefeito José Batista Jr. teve seu mandato cassado e seus direitos políticos suspensos por dez anos, com base no Ato Institucional n°5 (AI-5), pelo Presidente Emílio Garrastazu Médici. No mesmo dia, o município de Anápolis foi considerado área de Interesse à Segurança Nacional e o engenheiro Irapuan Costa Jr. nomeado Prefeito.



Setembro de 1973: Adversários dos Santillo, com auxílio da Polícia Federal e do DOPS estadual, prenderam vários integrantes do MDB de Anápolis, dentre eles ex-secretários do prefeito Henrique Santillo e líderes comunitários, levando-os para as dependências do DOPS em Goiânia. O objetivo era arrancar, sob pressão e tortura, denúncias contra Henrique e Adhemar Santillo. A trama só foi desfeita quando o Advogado Vicente Alencar, acompanhado de Adhemar, entregou pessoalmente ao Ministro do Exército, Orlando Geisel, completo relatório dos planos escusos que estavam acontecendo em Goiás.



Maio de 1974: Por determinação do Procurador de Justiça do Estado, o inquérito elaborado pela Polícia Federal em 1971 contra Henrique e Adhemar Santillo foi encaminhado ao Ministério Público de Petrolina, para que apresentasse denúncia contra os dois, com a finalidade de afastá-los da disputa eleitoral daquele ano. O Promotor Decil de Sá Abreu negou-se a fazer a denúncia e o processo foi encaminhado à comarca de Anápolis. Ali, o Ministério Público apresentou a denúncia, que não foi recebida pelo Juiz Eleitoral Clementino Alencar. Caso o juiz a aceitasse, os dois irmãos não poderiam disputar a eleição para Deputado Estadual e Federal como disputaram, pois a lei das inelegibilidades impedia registro de candidatura pela simples aceitação da denúncia pelo Judiciário para esse tipo de crime eleitoral.



25 do Maio de 1975: Rádio Santana Ltda., pequena emissora de rádio-difusão com 250 Watts de potência, adquirida pelos Santillo depois da invasão da Rádio Carajá, foi fechada por determinação expressa do Ministro das Comunicações Quandt de Oliveira. Deixava de ir ao ar o programa noticioso “O Povo falou, tá Falado”, que, desde 1967, era apresentado por Romualdo e Adhemar Santillo.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

MDB perde para ARENA

As consecutivas vitórias do MDB em Anápolis fizeram história na vida política do município, mas os golpes que os emedebistas receberam a partir de 1972 pelas forças da repressão foram muito duros.

José Batista Jr. eleito em 1972 havia sido afastado da Prefeitura. O município fora enquadrado como Área de Interesse da Segurança Nacional. A Rádio Carajá fora invadida, com destituição dos seus administradores, que eram emedebistas. A Rádio Santana fora fechada pelo Ministro Quandt de Oliveira, sendo negada a renovação de outorga para os proprietários, que eram do MDB. Assim estava preparado o cenário que os arenistas entendiam especial para o controle do eleitorado anapolino.

Com a posse do Governador Irapuan Costa Jr., o empresário Jamel Cecilio foi nomeado prefeito, partindo para organizar sua base política no município. Cooptou integrantes do MDB, inclusive para se candidatarem pela Arena nas eleições municipais de l976.

Contando apenas com os que resistiram e poucas lideranças novas que apareceram, formamos a chapa emedebista para disputar as vagas na Câmara Municipal. Nossos companheiros contavam tão somente com apoio popular.

Enfrentamos esta campanha contra recursos financeiros, estrutura do poder econômico, tráfico de influências, sem ter como recorrer legalmente. Nesse clima desfavorável e com forças tão desiguais fomos para a disputa eleitoral de 1976.

Realizado o pleito e apurados os votos, perdemos por pouco mais de setecentos votos, elegendo sete vereadores, enquanto a Arena ficou com oito cadeiras.

Esse resultado estimulou os arenistas, que alardeavam ter iniciado a marcha para a destruição do MDB e dos Santillo.

Mesmo não sendo uma vitória extraordinária devido à desigualdade na composição da lista dos candidatos e poder econômico usado pelos nossos adversários, além da força política para aliciar eleitores, foi motivo de grande festa para eles e um desafio para nós.

Como não tínhamos nada mais a fazer, só nos restavam a perseverança, ousadia e a esperança sempre presentes na nossa atitude e nos nossos discursos:

– Companheiros, este é um resultado atípico, fruto de arranjo unindo inúmeros fatores que favoreceram nossos adversários nesta eleição. Vamos nos preparar para as eleições de l978 e, com apoio do povo, vamos mostrar a força do MDB. Vamos trabalhar desde agora para uma grande vitória contra os inimigos da democracia em Anápolis, como já fizemos em l974!

Foi o que aconteceu.

Nos pleitos seguintes isto se confirmou com as vitórias do MDB em todas as eleições que disputou até 1988.

Anápolis perde autonomia política

O governo brasileiro já havia decidido que a instalação da Base Aérea dos aviões Mirage, vindos da França, seria no centro oeste do país.

O prefeito Henrique Santillo, no final de 1970 durante seu primeiro ano de administração, foi procurado por uma comissão de oficiais do Ministério da Aeronáutica, cujo objetivo era encontrar uma área dentro dos limites do Município de Anápolis, para instalação da Base Aérea para Mirage.

Outra cidade cidade, Formosa, também buscava abrigar a Base Aérea, apoiada por outro grupo de militares , onde um dos seus integrantes era ligado afetivamente aquele município.

As condições geográficas favoreceram Anápolis e o prefeito Henrique Santillo colaborou efetivamente nos expedientes necessários para a desapropriação da área escolhida pelos técnicos e projetistas da unidade militar.

Em abril de 1972 a Base Aérea foi inaugurada.

Mesmo estando vivendo no regime ditatorial, a convivência entre os militares da aeronáutica e a população civil anapolina foi tranquila. Nunca houve qualquer indício de atritos entre as duas comunidades naquela época, nem tampouco depois. Até mesmo na vida política da cidade nunca houve interferência dos integrantes da Base Aérea nos assuntos da politica interna de Anápolis.

A maior prova da atividade equidistante da Base Aérea com a vida política do município, ocorreu no final de 1972, pouco depois da sua inauguração quando aconteceram as eleições municipais.

José Batista Júnior foi eleito prefeito, assim como a maioria dos vereadores eleitos pelo MDB. As pressões que vinham eram dos governistas e não dos militares da Base Aérea.

A vitória do MDB teve um reflexo imediato nas forças arenistas, que contavam com a certeza de derrotar os emedebistas. A partir deste momento surgiram comentários que Anápolis, por causa da Base Aérea, seria transformada em Área de Segurança Nacional, perdendo sua autonomia política como acontecera anos antes com Canoas, no Rio Grande do Sul. Neste sentido notícias eram plantadas diariamente na grande imprensa goiana manipulando a opinião pública.

Um golpe contra a democracia ocorrido numa madrugada de 1972 na Assembléia Legislativa, com a supressão de eleições diretas na cidade de Goiás quando o Município foi considerado Estância Hidro Mineral, era dado como exemplo para a prática da violência anunciada de forma muito sutil. A justificativa para o golpe em Goiás, uma bica d’água na região de São João, a l00 km da sede, reforçava a idéia do que poderia vir contra Anápolis.

Muitas arbitrariedades já haviam acontecido no ano de l973.

A rádio Carajá que pertencia a integrantes do MDB desde l967 teve seus transmissores e estúdio invadidos pela policia militar do Estado na madrugada do dia da posse do Prefeito José Batista Júnior . A emissora teve que ser devolvida, sob pressão das armas a seu antigo proprietário Plinio Jayme. A prisão de ex-secretários de Henrique Santillo, depois libertados, foi uma trama urdida por arenistas e integrantes das forças reacionárias, com objetivo de amedrontar nossos companheiros e nos eliminar da vida politica. Henrique havia sido descredenciado como médico do INPS. Enfim, as arbitrariedades e violências eram o braço forte da repressão contra os democratas.Não nos dobravamos à pressão e violência. A tudo resistiamos.

No dia 28 de setembro de 1973, José Batista Júnior, retornava de uma viagem que empreendera a Goiânia para uma audiência marcada com o Secretário Estadual de Segurança Pública, que não o recebeu, e ouviu pelo rádio do carro que a cidade de Anápolis havia sido transformada em Município de Interesse da Segurança Nacional, tendo o prefeito seu mandato cassado, direitos políticos suspensos por 10 anos e o vice prefeito Milton Alves Ferreira, embora não sendo cassado, impedido de assumir o cargo de prefeito.

No mesmo instante a notícia confirmava o nome do engenheiro Irapuan Costa Júnior, presidente da Celg, sendo designado pelo presidente Emilio Garrastazu Médici, como interventor, prefeito nomeado de Anápolis.

O prefeito afastado nem passou pelo seu gabinete na prefeitura que funcionava no prédio onde hoje funciona a Câmara Municipal na Praça 3l de Julho. José Batista Jr. seguiu direto para sua residência na avenida Contorno, onde recebeu companheiros e populares que foram até lá em solidariedade à sua pessoa. José Batista Júnior foi o único detentor de mandato eletivo cassado no período governado por Garrastazu Médici.

Mais técnico que politico partidário, o engenheiro Irapuan Costa Júnior assumiu a prefeitura com disposição de tranquilizar a população abalada com a violência contra todos os anapolinos. Descartou as lideranças arenistas de Anápolis formando um secretariado mesclado por técnicos e empresários de Anápolis e Goiânia. Arregimentou equipe conceituada, de competente experiência na iniciativa pública e privada.

Controlada a insatisfação popular, Irapuan dava mostras claras que era alternativa para os governistas não alinhados com o grupo do Governador Leonino Caiado. Caravanas arenistas de todas as regiões vinham para hipotecar apoio, transformando seu pequeno gabinete na Prefeitura de Anápolis tão frequentado quanto ao de Leonino Caiado no Palácio das Esmeraldas, em Goiânia.

Com a empolgação dos arenistas distantes do governador, a imprensa goiana destacava todos os dias as qualidades de administrador do engenheiro interventor em Anápolis, afirmando que sua passagem pela prefeitura seria efêmera. Davam como certa sua nomeação para suceder Leonino Caiado. O grande obstáculo que afirmavam enfrentar era o trabalho incansável do governador que não abria mão de Manoel dos Reis, prefeito de Goiânia, por ele nomeado.

Sem nenhuma surpresa para os mais ligados ao poder federal, o nome de Irapuan foi o indicado para ser governador. Afastando da prefeitura foi substituído por Euripedes Barsanulfo Junqueira que pouco mais de um ano antes fora derrotado por José Batista Jr. O professor Euripedes Junqueira ficou no cargo até janeiro de l975, sendo substituído pelo empresário Jamel Cecilio. após a posse de Irapuan no Governo de Goiás.

Além de Irapuan Costa Júnior, Euripedes Barsanulfo Junqueira e Jamel Cecilio aínda foram nomeados interventores em Anápolis o delegado da policia federal Lincoln Gomes de Almeida. o promotor de justiça Decil de Sá Abreu, o deputado Wolney Martins de Araujo, eleito pelo MDB que se filiou ao sucedâneo da Arena, PDS, advogado Olímpio Ferreira Sobrindo e o emedebista, ex-deputado federal Anapolino de Faria.

Com a vitória de Tancredo Neves para a presidência da República em l985 , Anápolis readquiriu sua autonomia política.

De 1973 a 1985, depois de doze anos de intervenção política no município e oito prefeitos nomeados, Anápolis volta a eleger democraticamente o seu prefeito, quando tive a honra de ser eleito, para um mandato de três anos.

Um fato curioso no episódio do dia da cassação de josé Batista Jr. mostrou o caráter brincalhão deste companheiro.

Chegando em casa naquele dia, encontrou dezenas de companheiros à sua espera prestando-lhe solidariedade. O clima era mesmo, de velório. As mulheres choravam, os homens manifestavam revolta e protestos

Disposto, aparentemente tranquilo, sem perder seu senso de humor, José Batista Júnior mais consolava que era consolado. Quando já tarde da noite, todos cansados, mas como mostra de companheirismo continuavam na vigília, João Abrão, seu chefe de gabinete e presidente municipal do MDB, alertou aos presente que já era hora de se retirarem :

- Bem amigos vamos para casa! Sei que ninguém vai conseguir domir mas vamos pelo menos descansar.

- Ah! Gente, atalhou José Batista Júnior, só estou esperando vocês sairem para cair na cama e dormir profundamente!

Sempre brincalhão e sincero, este é mesmo o José Batista Júnior.

José Batista Jr. e as Histórias

– Os emedebistas têm vergonha de transmitir no rádio o discurso do seu candidato.

Era o que ouvíamos todos os dias dos adversários que nos faziam a maior pressão, pois o discurso do prefeito Henrique Santillo era retumbante, enquanto o do nosso candidato terminava sempre com uma historinha meio sem graça.

Escolhido José Batista Jr. como candidato a Prefeito pelo Movimento Democrático Brasileiro, o MDB, em sucessão a Henrique Santillo, discutimos com ele o seu plano de Administração para Anápolis. Célio Gomes, economista de Goiânia, que viera para auxiliar Henrique, e o jornalista Castro Filho, jornalista, também de Goiânia, e eu, Deputado Estadual, nos reuníamos diariamente com o candidato, orientando como deveria se apresentar nos comícios, que eram transmitidos pela Rádio Carajá.

À noite, no palanque, José Batista Jr. em rápidas palavras destacava realizações da Administração de Henrique Santillo para apresentar em seguida as suas propostas. Logo criava improvisos, a sua característica marcante, baseando-se numa fábula para encerrar seu pronunciamento.

No dia seguinte ao apresentarmos as noticias do comício anterior pelo programa “O povo falou, tá falado”, passávamos o discurso do prefeito Henrique Santillo, que tocava a emoção do eleitor. Todos os dias a história se repetia. A forma clara, direta do José Batista Jr. agradava os eleitores aglomerados nos comícios, que acompanhavam os oradores atentamente. Para programa de estúdio, no entanto, a contundência de Henrique Santillo, seu discurso forte e preciso, era o ideal. Batista Jr. entendia e concordava com a estratégia.

Os nossos adversários, que transmitiam seus comícios pela Rádio Imprensa passaram a cobrar a fala de José Batista Jr. que só acontecia nos comícios:

– Os emedebistas têm vergonha de passar o discurso do seu candidato. Prestem atenção, eles passam todos os dias as palavras de Henrique Santillo, mas o candidato é José Batista Jr. Cadê as propostas do candidato José Batista Jr.?

Isto começou a nos incomodar e queríamos evitar que o nosso candidato ficasse desacreditado. Conversávamos com ele, fazíamos o roteiro de seu discurso, mostrando que não dava para passar historinhas ou fábulas na hora do noticiário.

À noite ele começava bem seu discurso, mas daí a pouco:

– Temos que lutar. Não podemos cruzar os braços. Todos nós conhecemos a história das duas rãs. Caíram num latão cheio de leite. Uma delas desistiu da luta e foi para o fundo do latão, morrendo sufocada. A outra tinha confiança na sua luta. Esperneou, esperneou incansavelmente. Aos poucos o leite foi se transformando em creme. Ficou firme e ela saltou para o chão, se salvando.

Mais uma vez estávamos impedidos de enfrentar o desafio dos adversários. Para não correr mais riscos, passávamos a palavra de Henrique Santillo.

A forma incisiva com que o prefeito falava, a convicção com que defendia suas idéias, arrebatava multidões. Sua constante presença nos comícios, nas emissoras de rádio e em debates públicos, arrebanhava a cada instante mais e mais simpatizantes à candidatura de José Batista Jr.

O final todos já sabem: vitória por quase 4 mil votos de vantagem contra o melhor candidato que a Arena poderia lançar. Eurípedes Barsanulfo Junqueira, homem respeitado e muito preparado, mas que não suportou o peso político do santillismo em Anápolis.

Na madrugada do dia da posse de José Batista Júnior, um verdadeiro batalhão da Polícia Militar estadual tomou conta dos transmissores e estúdios da Rádio Carajá, numa operação comandada pelo governo do estado. Dezenas de policiais fortemente armados e sem mandado judicial, impediram-nos de adentrarmos as dependências da emissora, que nos pertencia desde 1967.

Um grupo de democratas, pertencentes ou simpáticos ao MDB, adquiriu de Plínio Jayme a Rádio Carajá. Depois de seis anos sob nosso controle, os governistas pretextaram ser exigência do Departamento Nacional de Telecomunicações, a DENTEL, a devolução da emissora a Plínio Jayme, por não ter sido autorizada sua transferência.

Preparavam assim, os golpistas de Goiás, o terreno para outras violências que se sucederiam contra o MDB anapolino.

“O povo falou, tá falado”

O refrão da música se tornou um símbolo de resistência contra o autoritarismo, numa época em que apenas dois partidos determinavam a posição política do eleitor: ao lado das forças do governo ou a favor da oposição. Arena e MDB dividiam o palco político numa luta desigual.

“Não adianta ir contra o povo, o povo falou, tá falado!”

Sinhôzinho, músico, cantor e compositor anapolino fez esta música para a campanha de Raul Balduíno e este pequeno trecho tornou-se abertura e nome de um programa de rádio que era a voz da oposição e dava espaço para que nós, Henrique, Romualdo e eu, diariamente estivéssemos em contato com a população através das emissoras Carajá e depois Santana.

Quanto mais ferrenha a nossa oposição ao regime arbitrário e antidemocrático mais sofríamos o peso do poder federal e estadual tentando tolher nossas ações.

A perseguição aos integrantes do MDB era implacável.

A rádio Carajá de propriedade do ex-deputado Plinio Jayme havia sido adquirida e transferida sua gerência para um grupo de integrantes do MDB em 1967. Os serviços de transmissão funcionaram normalmente, com os novos gerentes, por seis anos até 1973 sem qualquer restrição do DENTEL – Departamento Nacional de Telecomunicações. A Rádio Carajá era abertamente a voz da oposição, com o programa ‘O povo falou, tá falado’.

Em fevereiro de 1973, no dia da posse do prefeito José Batista Jr., tivemos mais uma mostra da truculência e intolerância da ditadura. Naquela madrugada a Rádio Carajá havia sido invadida pela Polícia Militar e só poderia voltar a funcionar se fosse devolvida ao seu antigo proprietário. A justicativa era que o DENTEL considerava a transferência irregular, autorizando uso da força militar do Estado para invadir seus transmissores e estúdio. Tivemos que nos afastar da emissora que foi devolvida ao Sr. Plinio Jayme.

No autoritarismo em que vivíamos nada era feito dentro da lógica. Tudo girava dentro da conveniência dos ditadores. Estavam em curso novos golpes que viriam posteriormente.

Poucos meses depois, no dia 28 de agosto, o radicalismo dos adversários contra o MDB levou a cidade de Anápolis a ser transformada em Área de Interesse da Segurança Nacional, com a cassação política do prefeito eleito José Batista Jr. e prisões de companheiros.

Este radicalismo em nada contribuiu para a vitória da Arena, o partido do governo, nas eleições de 1974. Nessas eleições, os que receberam maior número de votos em Anápolis foram Henrique Santillo para deputado estadual, Lázaro Barbosa, para o Senado, e eu, para Deputado Federal.

Os eleitos tomaram posse em janeiro de 1975 e a receptividade à mensagem do MDB aumentava cada vez mais entre a população de Anápolis, empolgada com o sucesso eleitoral e político de oposição ao regime autoritário.

A cidade de Anápolis passou a ser um desafio para o partido do governo, a Arena, e para as forças de repressão que para ali direcionaram as ações da Polícia Federal e até do Dentel – Departamento Nacional de Telecomunicações, coordenado na região pelo Coronel Alarico Jácome.

A Rádio Santana, com pequena potência, 250 Watts, adquirida por integrantes do MDB, informava e mobilizava os anapolinos contra a política oficial do regime militar. A transmissão do programa “O povo falou, tá falado” era o grande obstáculo para os adversários do MDB. Sem argumentos para contrapor o que era divulgado diariamente pela emissora e incomodados com a grande receptividade na população, arquitetaram o fechamento da Rádio Santana.

O Dentel, por ordem do coronel Alarico Jácome, solicitou à Polícia Federal que fizesse plantão diário nos estúdios da Rádio Santana. Cópia do programa “O povo falou tá falado” tinha, obrigatoriamente, que ser enviada ao Dentel todos os dias. Contamos com os amigos e companheiros, advogados Vicente de Paula Alencar e Altair Garcia Pereira, o Braguinha, que se revezavam na defesa semanal dos questionamentos que eram feitos seguidamente pelo Dentel à programação jornalística da Rádio Santana.

Henrique, Romualdo e eu, estávamos sempre juntos nas decisões e sabíamos que poderiam vir duras retaliações contra a nossa emissora, mas não arrefecíamos nosso combate contra a ditadura, em favor da democracia. Diretamente de Brasília, onde exercia o mandato de Deputado Federal, eu participava diariamente do programa “O povo falou, tá falado”, levando ao ar questões nacionais ou comentando as declarações de Henrique e Romualdo. Aos sábados, em Anápolis, participava ao vivo, ao lado deles.

No início do mês de abril de 1975 circularam incessantes rumores pela cidade dando conta de que a emissora seria fechada, uma vez que nossos adversários arenistas estavam incomodados com a audiência da Rádio Santana.

No dia 7 de abril daquele ano, o Diário Oficial da União publicou Portaria nº 324 do Ministério das Comunicações, assinada pelo titular da pasta, Ministro Euclides Quandt de Oliveira, declarando perempta a concessão da Rádio Santana Ltda. de Anápolis. Foi definitivamente tirada do ar no dia 25 de maio de 1975.

O último programa “O Povo falou tá falado” foi levado ao ar de forma emocionante. Com um pronunciamento do Henrique, Deputado Estadual à época, Romualdo e eu ao seu lado dentro dos estúdios, foram encerradas as transmissões da Rádio Santana, que tiveram início em março de 1958.

Foi mais um duro golpe aplicado contra os direitos democráticos. Usaram de expedientes arbitrários durante todo o tempo para tentar calar nossas vozes. Não conseguindo, usaram da força e do autoritarismo para interromper o mais eficiente instrumento que tínhamos para comunicar com a população, a Rádio Santana Ltda.

Continuamos nossa tarefa usando as tribunas dos parlamentos, concentrações públicas e domiciliares. Intensificamos a partir daí, ainda mais, o contato direto com o povo, numa cruzada incansável e permanente pelo retorno da democracia no país.

Demorou, mas conseguimos.