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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Vicente Alencar, a liderança que se afastou


Temos relatado aqui registros de fatos políticos marcantes, verificados durante a Ditadura Militar de 1964/85, dos quais um grupo de anapolinos, sempre com o respaldo da esmagadora maioria da população, não cedeu ao arbítrio. Pela censura imposta à imprensa e a violência dos governantes da época, mesmo com a relevância da questão, foram pouco divulgados e conhecidos das gerações mais novas.

Relatamos que com o “pacote de abril” de 1977, editado pelo general Ernesto Geisel depois de fechar o Congresso Nacional, eliminou-se a eleição direta para governo de Estado, cassou-se o mandato do deputado Alencar Furtado, líder do MDB na Câmara Federal e transformou uma das duas vagas para o Senado, nas eleições de 1978, em nomeação por parte do partido que tivesse maioria na Assembleia Legislativa do seu Estado. Em Goiás, a maioria era da Arena. O senador Benedito Ferreira, o “Dito Boa Sorte”, representante de Araguaína, foi indicado senador biônico. Restou, apenas, uma vaga para ser preenchida pelo voto direto, voto do eleitor. Cada partido poderia lançar até três sublegendas. No MDB havia duas correntes: a moderada, liderada pelo deputado federal Juarez Bernardes e a autêntica, liderada pelo deputado estadual Henrique Santillo. Eliminada a eleição de Governador pelo voto direto, Juarez Bernardes foi lançado pelos seus companheiros, candidato ao Senado. Já pelos autênticos, como Fernando Cunha Júnior, que seria candidato a uma das vagas ao Senado e, não desistiu do seu projeto, inibiu a luta do grupo, para que Henrique Santillo, que seria o candidato ao Governo, fosse indicado para disputar a cadeira pela sublegenda. Vicente de Paula Alencar, Presidente do Diretório Municipal do MDB em Anápolis, santilista da primeira hora, insatisfeito com a decisão de Fernando Cunha Júnior, lançou-se, também, candidato a senador.

Conversei com Vicente para que não insistisse com a candidatura, pois era nosso desejo apoiá-lo candidato a deputado estadual. Seria, sem nenhuma dúvida, um dos mais votados para a Assembleia Legislativa. Em resposta disse-me que sua atitude era tática para forçar a desistência do Fernando Cunha Júnior:

- Afastada a pretensão do Fernando, me afasto também!

Como era a novidade da campanha daquele ano, Vicente Alencar, destemido e muito inteligente, bem relacionado com jornalistas políticos de Goiás, teve muita divulgação pela imprensa. Quase que diariamente o jornalista Reynaldo Rocha, que escrevia a coluna política mais lida da imprensa goiana, no jornal O POPULAR, trazia alguma coisa alusiva à sua candidatura ao Senado. Essa posição do presidente do MDB de Anápolis, só serviu para causar mais preocupação aos autênticos, que não abriam mão da candidatura Henrique Santillo. Nesse quadro confuso, de indefinição total, o deputado Fernando Cunha Júnior, refluiu anunciando sua candidatura, mais uma vez, a deputado federal.

O advogado Vicente Alencar, nosso defensor na maioria dos processos que respondemos e que vencemos todos na Justiça, tomando gosto pela pré-candidatura, dizendo já ter avançado muito, decidiu continuar batalhando para ser escolhido senador pelos autênticos na convenção do MDB. De nada valeram nossos apelos para que ele desistisse da pretensão e apoiasse a candidatura de Henrique Santillo. Não queria uma cadeira na Assembleia Legislativa.

Afastou-se do nosso meio e radicalizou, ainda mais, o seu discurso:

- “Irei a todas as cidades levando minha proposta inovadora e democrática. Levarei comigo, apenas, um tamborete, o instalarei em calçadas e darei o recado...” (Continua)

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Vicente Alencar se lança candidato ao Senado


Estamos registrando aqui fatos históricos marcantes de um grupo político de Anápolis, no combate à ditadura de 1964. Consolidado e assimilado o “pacote de abril” de 1977 por todos nós do MDB, aceitamos as novas regras impostas pela ditadura. Sabíamos que o regime estava dando seus últimos suspiros. Foram drásticas as alterações constitucionais, mas como tínhamos um objetivo a alcançar, nos reorganizamos dentro das novas regras.

Em Goiás tínhamos dois grupos de emedebistas bem distintos. O deputado federal Juarez Bernardes liderava os moderados. Henrique Santillo era o líder dos autênticos. Antes do “pacote de abril” Juarez e Henrique percorriam os municípios goianos em busca de apoio ao projeto que tinham de chegar ao Governo nas eleições de 1978. A princípio, compareciam juntos aos encontros regionais. Posteriormente, cada um fazia sua própria programação. Pelas regras existentes, Juarez e Henrique seriam candidatos em sublegenda ao Governo Estadual. Cada partido - MDB e Arena - podia lançar até três sublegendas. O grupo moderado, liderado por Juarez, não havia lançado ninguém como pré-candidato ao Senado. Seriam disputadas duas vagas. Benedito Ferreira - Dito Boa Sorte - e Osíres Teixeira estavam terminando o mandato no final de 78. Suas cadeiras estavam em disputa. Já, o grupo autêntico, comandado por Henrique Santillo, apresentava com grande antecedência o deputado federal Fernando Cunha Júnior e o deputado estadual Derval de Paiva, como pré-candidatos às duas vagas para o Senado.

As alterações provocadas pelo “pacote de abril” desestruturaram, por completo, as pretensões, principalmente do grupo autêntico. Tão logo as modificações aconteceram, Juarez Bernardes foi lançado pelos moderados como candidato ao Senado. Ele concorria sozinho; não houve maiores dificuldades para essa decisão. Já Henrique Santillo trabalhava com Fernando Cunha Junior e Derval de Paiva, pretendentes às vagas no Senado que deveriam decidir quem disputaria, pois uma das duas cadeiras seria preenchida pelo senador “biônico”, o senador sem voto popular criado pela engenharia adotada pela ditadura no “pacote de abril.”

Derval de Paiva, tão logo as regras se alteraram, anunciou sua desistência, afirmando que pleitearia, mais uma vez, a vaga na Assembleia Legislativa. Fernando Cunha Júnior anunciou que continuaria pleiteando a vaga ao Senado. Com esse quadro, Henrique Santillo, confirmou seu apoio à pretensão de Fernando. Mesmo com as bases emedebistas exigindo a candidatura de Santillo ao Senado, ele fazia reiterados pronunciamentos aos companheiros e à imprensa dizendo que apoiaria Fernando Cunha Júnior.

O tempo ia passando e a pressão das bases do MDB crescia dia a dia. Fernando não dava, em momento algum, sinal de que refluiria do seu projeto. Henrique reafirmava seu compromisso com o companheiro.

Diante desse impasse, onde o movimento dos companheiros de todo o Estado crescia em favor da mudança de candidatos e a posição inflexível de Fernando, o presidente do Diretório do MDB de Anápolis, Vicente de Paula Alencar, lançou-se candidato a disputar a vaga na convenção do Partido. Agora não havia só um problema, mas, sim, dois. Vicente era um dos mais leais companheiros que tínhamos. Nosso advogado em todos os processos que enfrentamos, com exceção do primeiro quando Henrique Santillo não foi diplomado pelo Juiz Eleitoral de Anápolis, acusado de ser comunista. Naquele processo o advogado foi Rômulo Gonçalves. Nos demais, Vicente Alencar atuou em todos. Muitas vezes ao lado do seu pai, Alexandre. Vinha de Belo Horizonte ficando muitos dias cuidando da nossa defesa. Essa dupla venceu todas as batalhas jurídicas que enfrentou.

Para mim, Vicente Alencar revelou que estava apenas usando tática para afastar Fernando Cunha Júnior. Ele se afastando refluiria da sua candidatura... (Continua)

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Mesmo com tudo contra, ganhamos

Mesmo com a invasão e tomada da Rádio Carajá por forças militares do Estado; cassação do mandato do prefeito José Batista Júnior; transformação de Anápolis em Área de Segurança Nacional; investida em busca de adesão de vereadores e lideranças emedebistas; uso dos órgãos de repressão; abuso do poder econômico e, corrupção eleitoral, vencemos as eleições de 1974, em Anápolis.

Lázaro Barbosa, eleito senador pelo MDB, obteve votação estrondosa dos anapolinos. Henrique Santillo, candidato a deputado estadual, conquistou mais de 16 mil votos no Município. Eu, como candidato a deputado federal, fui o mais votado em Anápolis, com mais de 17 mil votos. Ao final da apuração, Henrique sagrou-se vencedor como o mais votado, dentre todos os deputados eleitos, obtendo mais de 33 mil votos. Eu, com mais de 48 mil sufrágios, fui o segundo mais votado do MDB, dentre os cinco eleitos. Juarez Bernardes, candidato à reeleição foi o mais votado do Partido. Os três outros eleitos pela legenda foram: Genervino Evangelista da Fonseca, Iturival Nascimento e Fernando Cunha Júnior.

O MDB saiu revigorado com esse resultado. O uso, com competência, do rádio e da televisão, pelos candidatos do partido, no horário eleitoral gratuito, foi o grande instrumento que provocou uma verdadeira revolução pelo voto. Até mesmo nossos companheiros que não disputaram a eleição em 74, se revigoraram e voltaram à atividade política. Anapolino de Faria e José Freire, na reta final da campanha, mesmo não havendo registrado suas candidaturas, participaram de forma intensa da campanha emedebista. Trabalharam, principalmente, em favor da candidatura de Lázaro Barbosa, ao Senado.

Tomamos posse em fevereiro de 1975. Imediatamente, já nos preparávamos para enfrentar, em 1976, a primeira eleição municipal sem a eleição para a Prefeitura de Anápolis. Irapuan Costa Júnior assumiu o governo do Estado. O governador Leonino Caiado, com a indicação de Irapuan à Convenção da Arena estadual, indicou para a Prefeitura de Anápolis, o professor Eurípedes Junqueira. Mesmo tendo sido derrotado por José Batista Júnior, na disputa de 1972, Junqueira assumiu o cargo. Sabia que, com a investidura do novo governador, seria, como de fato foi, afastado. Aprovado pelo Presidente Médici, Eurípedes Junqueira permaneceu à frente da Prefeitura, até a posse de Irapuan. Assim que assumiu o Governo, Costa Júnior afastou Eurípedes e designou o empresário Jamel Cecílio para a Prefeitura. Coube a Jamel organizar a chapa de vereadores da Arena, para o pleito de 1976.

Preocupados com a vitória que nós do grupo Santillo, obtivemos nas eleições de 1974 em Anápolis, os arenistas continuaram com suas perseguições ao MDB Autêntico. Passaram a cobrar da Polícia Federal e órgãos dos demais da ditadura ligados à repressão, que atuavam em Goiás, o fechamento da Rádio Santana.

Toda a programação da emissora, onde diariamente Romualdo, Henrique e eu apresentávamos o programa “O Povo Falou Tá Falado”, era gravada em fita K-7, repassada ao setor da censura, na Polícia Federal. Os advogados Altair Garcia Pereira, o “Braguinha” e Vicente de Paula Alencar, todos os dias tinham que responder a ofícios e mais ofícios que chegavam do Dentel, em Goiânia, querendo informações sobre denúncias que os arenistas faziam contra nós. A manutenção das despesas da Rádio Santana era feita por nós. Não tínhamos anunciantes. Os poucos que se atreviam a nos ajudar eram perseguidos com fiscalizações específicas nos seus estabelecimentos comerciais. O cerco aumentava dia a dia em intensidade e tamanho... (Continua)

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Até o Exército Foi Usado Para Afastar Walmir

Com duas câmaras de vereadores funcionando simultaneamente em Anápolis, o juiz Clementino de Alencar Lima reconheceu, como legitima, a presidida por Walter Gonçalves de Carvalho. A que apoiava Henrique Santillo. Ao mesmo tempo chegou-nos a notícia de que Walmir Bastos estava preso nas dependências do Exército, em Brasília. Só ficamos sabendo do seu paradeiro naquele local por que alguns membros do Partido Comunista Brasileiro - PCB, daqui de Anápolis, que lá se encontravam presos, agora em liberdade, nos trouxeram informações dele.

No PIC, do Exército em Brasília, à disposição do major Leopoldino, militar envolvido na trama para forçá-lo a renunciar ao mandato de vereador, Walmir não resistiu às pressões e torturas, assinado sua carta-renúncia. O documento ficou nas mãos de Leopoldino. Caberia a ele encaminhá-lo à Câmara Municipal de Anápolis. Teria que ser lido em plenário para que a renúncia se consumasse. Sem Walmir, com eleição de novo presidente que, com certeza, seria do grupo que fazia oposição ao prefeito Henrique Santillo, os golpistas ficaram eufóricos com a notícia que circulava nos bastidores sobre a renúncia. Só falavam na iminente cassação de Henrique Santillo. Antes que a carta-renúncia chegasse à Câmara, Walmir foi solto.

Chegando a Anápolis, ele me procurou narrando em detalhes o acontecido. Imediatamente fomos a Brasília conversar com o presidente nacional do MDB, deputado Ulysses Guimarães. Na Câmara Federal, acompanhados do deputado Anapolino de Faria, narramos a violência praticada contra Walmir Bastos, nas dependências do Exercito, tudo objetivando o afastamento de Henrique Santillo da Prefeitura. Ulysses designou o líder da bancada emedebista na Câmara, deputado Jayro Brum (RG), para que denunciasse o caso à Nação.

A repercussão nacional da denúncia impediu que o major Leopoldino encaminhasse à Câmara Municipal de Anápolis o oficio de renúncia. Com isso o vereador continuou exercendo seu mandato e, consequentemente, a presidência. Os golpistas da Arena, reforçados por adesistas do MDB, sem presidência da Câmara Municipal e com processo feito por encomenda à Policia Federal, desprovido de provas contra nós - Henrique, Adhemar e Anapolino - não tiveram a coragem de nos processar judicialmente.

Encerrado o mandato de Henrique Santillo como prefeito, o processo foi entregue ao Procurador estadual Bechara Daher, que o manteve em sua gaveta para uso posterior.

Como prefeito, Henrique Santillo, sofreu outras perseguições. Uma delas foi retenção do ICM - Imposto Sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços - pelo Governo Estadual. Nos três últimos meses da sua administração, em 1972, o prefeito não teve sua quota de 25% do ICM arrecadado em cada mês no Município, repassada pela Secretaria da Fazenda Estadual, no prazo estabelecido em lei. Com isso, sendo a maior fatia da arrecadação municipal, a Prefeitura não dispunha de recursos sequer para o pagamento do salário do funcionalismo público. Queriam desgastar e desestabilizar o prefeito. Mesmo com tantas perseguições ao longo da sua administração, Henrique Santillo continuava com grande apoio popular.

A solução para essa retenção indevida de tributos veio com sua reação imediata. Henrique determinou ao Procurador Geral da Prefeitura, Vicente de Paula Alencar, que requeresse Intervenção Federal, no Governo do Estado, por descumprimento à norma constitucional, que previa punição com intervenção federal no caso de retenção ou atraso do repasse de impostos, pertencentes aos municípios. Imediatamente as quotas de ICM retidas foram repassadas a Anápolis. Henrique se aproximava do final da sua administração superando todas as tentativas de golpe... (continua)

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Hilton Lucena e Altivo - Exemplos a serem seguidos

Ser oposição no período da Ditadura Militar dependia de coragem, idealismo e muito amor à Democracia. Era difícil para parlamentares e prefeitos exerceram seus mandatos. As perseguições eram constantes e infundáveis. A organização do MDB em alguns municípios era quase que impossível.

Certa vez, numa madrugada, em pleno ano de 1971, fui acordado pelo Romas, Chico Maneco, Eduardo Jorge e outros integrantes do Diretório Municipal do MDB de Estrela do Norte. Hilton Lucena, hoje trabalhando no Tribunal de Contas do Estado e Altivo tiveram prisão preventiva decretada pelo Juiz de Direito local. As Alegações para o Juiz decretar a prisão foram que eles estavam filiando pessoas ao MDB e que se não fossem presos poderiam fugir do município. Foi a primeira vez que percorri a Belém Brasília após a cidade de Ceres.

Chegamos a Estrela do Norte, eu e Dr. Hiram Bezze, no dia seguinte. Fomos direto à cadeia pública, encontrando Hilton, na única cela existente naquele presídio juntamente com outro presidiário, que dias antes havia matado quatro crianças à machadada, no vizinho município de Mutunópolis. Com nossa presença, sabendo que recorreríamos ao Tribunal de Justiça o Juiz relaxou a prisão, colocando nossos "subversivos" em liberdade.

Com nossa ida ao então Médio Norte e o sucesso da missão, passamos a ser procurados pelos companheiros que se sentiam injustiçados. Alguns meses após fui chamado pelo Jair Sapateiro, pessoa humilde que se dispunha a fazer parte do MDB de Formoso. A Arena local era comandada por Felipe Cardoso, o Felipão, pai do atual Deputado Marcos Cardoso. Felipão era líder e bastante querido do povo formosense. Para lá me acompanhou o Dr. Vicente Alencar, um dos mais importantes advogados de Goiás contra a ditadura militar.

Quando andávamos pelas avenidas e ruas de Formoso, o Jair nos relatou o que, no seu entendimento, era falha gravíssima do sistema eleitoral daquela cidade:

– Eu chamei vocês aqui para que denunciem a esculhambação do sistema eleitoral aqui em Formoso.
– Qual é o problema? Indagamos.
– Trago como exemplo o que está acontecendo com meu Título Eleitoral.
– O que está acontecendo? Perguntei:
– Meu Título está com a fotografia de outra pessoa.
– Mas o nome é o seu, não é Jair? Disse Alencar.
– Não. O nome também é de outra pessoa.
– Você já votou com esse Título? Perguntamos.
– Não. Ele é novo!
– Então, Jair vá ao Cartório Eleitoral, deixe lá o Título que está em seu poder e peça ao escrivão o seu, porque você está com Título de outro eleitor.

Assim foi feito e tudo voltou à normalidade, em Formoso.

Quando precisamos hoje, políticos com ou sem mandatos, não resistindo aos favores oficiais dos governantes buscando, a qualquer pretexto forma de adesão, temos que voltar as nossas vistas e atenções ao passado, para rendermos nossas homenagens a companheiros como Altivo e Hilton Lucena, pela coragem e destemor que sempre demonstraram em sua conduta de cidadão e político. Contamos com muita gente como eles, para derrubarmos a ditadura.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Democracia: Conquista de Todos Nós

Quando cheguei a Brasília, em fevereiro de 1975, para exercer o mandato de deputado federal, meu primeiro ato foi visitar o ex-deputado Chico Pinto, do MDB da Bahia, cassado pela ditadura e preso nas dependências do Exército. Cassado e preso porque havia feito pronunciamento da tribuna da Câmara Federal, no pequeno expediente, protestando contra a visita ao Brasil do ditador do Chile, Augusto Pinochet, que foi recebido com honras militares enquanto milhares de chilenos sofriam todo tipo de violência. Nesse clima, iniciei meu primeiro mandato como integrante do MDB goiano.Para exercer bem o mandato, precisava ter coragem e espírito de luta. Na mesma legislatura, assisti a cassações de mandatos dos valorosos companheiros Marcelo Gato, Marcos Tito, Amaury Muller, Nadir Rosseti e Alencar Furtado. Cassações por motivação político-ideológica. Esse era o risco que nós corríamos e o preço que pagávamos por querermos liberdade e democracia.

Lysâneas Maciel era uma das figuras mais lúcidas e inteligentes da Câmara Federal na legislatura 1975/78. Revoltado e indignado com as cassações dos colegas gaúchos, Nadir Rosseti e Amaury Muller, leu os discursos que os dois fizeram num comício para as eleições municipais de Palmeira das Missões, interior do Rio Grande do Sul, e que deram origem às cassações. Ao terminar a leitura, teve seu mandato cassado. Os três, da mesma forma que Chico Pinto, faziam parte do grupo autêntico do MDB.

Com Marcos Tito, do grupo autêntico de Minas Gerais, a cassação do mandato não foi menos folclórica e revoltante. Usando o grande expediente da Câmara, discorreu sobre a economia brasileira. Fez críticas à política econômica conduzida pelo ministro Delfim Neto e apresentou sugestões para correção de rumo. Foi aparteado pelas principais figuras da Arena em plenário. Ao descer da tribuna, foi cumprimentado efusivamente pelos deputados presentes. Dois dias depois, vice-líder da Arena apresentou da tribuna um exemplar do Jornal Voz Operária, órgão oficial do proscrito Partido Comunista Brasileiro-PCB. Leu o editorial da sua primeira página, argumentando que Tito baseara nele o seu discurso.Foi cassado depois de ter ficado alguns dias em banho maria.

O líder do MDB na Câmara, deputado Alencar Furtado, também do grupo emedebista autêntico, cassado porque fez críticas à ditadura no horário eleitoral reservado pelo Tribunal Superior Eleitoral –TSE ao MDB. Marcelo Gato, cassado sob alegação de ter sido apoiado pelos comunistas de Santos e litoral paulista.

Pessoas amantes da liberdade, que lutaram intensamente contra a ditadura militarista imposta ao País por meio do golpe de 1964, estão satisfeitas e eufóricas com a solidez da nossa democracia. Lutaram contra a ditadura que garroteou os sindicatos livres, movimentos estudantis e forças populares. Ditadura que marginalizou, alienou, perseguiu, prendeu, matou e desapareceu com jovens e trabalhadores. Golpe que impediu o surgimento de verdadeiros lideres, substituídos que foram por elites dominantes e aproveitadores.

Eleição e posse de uma mulher na presidência da república, substituindo o maior líder sindical brasileiro em todos os tempos, mostra que hoje nossas instituições estão sólidas. Não correm risco de golpes pelo poderio econômico ou pelas armas. No entanto, isso não veio de mão beijada ou pelo acaso. Esse momento só foi possível pela luta dos que resistiram e acreditaram que um dia a ditadura seria derrubada.

Tenho o maior orgulho de ter participado e ajudado na construção desse momento que estamos vivendo. Afastado compulsoriamente que fui da militância estudantil em 64 – presidente da União dos Estudantes Secundaristas de Anápolis (UESA) –, ingressei no MDB, partido que ajudei formar e que tanto auxiliou na luta pela redemocratização. Batalha difícil. Contamos, na primeira hora, com pessoas humildes, os chamados descamisados. Sem terem nada mais a perder, nos seguiam numa jornada que parecia não ter fim. Posseiros, índios, garimpeiros e desempregados desesperançados foram nossos fiéis seguidores na organização do MDB inicial. Em Goiás, papel importante desempenharam os companheiros e advogados Vicente de Paula Alencar e Altair Garcia Pereira, o Braguinha, defendendo os injustiçados e espoliados.

No início dos anos 1970, fomos a Formoso defender um grupo de posseiros. Depois de ouvi-los, caminhávamos pela rua central da cidade, quando Jair, o líder do grupo e do diretório do MDB local, exclamou:

– Ali naquele Cartório Eleitoral acontecem os maiores escândalos!

– Que tipo de escândalo, Jair ? Perguntei

– Título de eleitor com fotografia trocada é o que mais tem!

- Quem lhe disse isso Jair ? Indagou, Alencar.

– O meu mesmo, está com fotografia que não é a minha!

– O nome que está no titulo é o seu e a fotografia de outra pessoa? É isso?

– Pior doutor! Nome também não é o meu.

– Nesse caso Jair, antes de denunciar alguma coisa, vá amanhã cedo ao cartório e troque o título. Você está com título de outro eleitor! – Arrematou Alencar.

Mesmo com esses líderes muitas vezes inocentes e desinformados, criamos um MDB forte e fizemos a resistência democrática.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Quase que o cachorro pagou o pato

Embora não sendo ano eleitoral, vivíamos a expectativa da eleição direta para governador do Estado, no ano seguinte. Era março de 1977. Na Câmara Federal, acertei com os colegas Freitas Nobre, Odacir Klein, Tarcisio Delgado e Luiz Henrique da Silveira que viessem a Goiás para encontro do partido que faríamos na Assembleia Legislativa. Henrique Santillo, deputado estadual, organizou forte grupo de voluntários ao seu projeto político, entre estudantes, profissionais liberais, intelectuais, líderes sindicais e comunitários. Era pré-candidato ao governo. O encontro com esses novos líderes emedebistas nacionais seria para que os companheiros goianos ganhassem um novo alento, visando a disputa programada para 1978.

No mês seguinte, veio o “pacote de abril” editado pelo presidente Geisel, eliminando do texto constitucional a eleição direta para governador. Pior, criando a escandalosa figura de um senador nomeado. O senador biônico. A mudança nas regras do jogo não foi surpresa para nós, democratas. Em Goiás, a alteração das regras eleitorais serviu apenas que fosse adiada em mais quatro anos a chegada do MDB ao governo do Estado e para que a Arena recebesse, de mão beijada, uma cadeira no Senado da República.

Para o encontro de março, as regras que valiam eram de eleições de dois senadores e governador. Tínhamos que mobilizar o pessoal para o encontro em Goiânia. As tarefas foram distribuídas entre os companheiros. Deixamos para Vicente de Paula Alencar, presidente do MDB anapolino, vereador Walmir Bastos Ribeiro e Romualdo Santillo contatos em Anápolis e região do Vale do São Patrício. À minha responsabilidade ficaram as regiões da Estrada de Ferro, Entorno de Brasília, Médio Norte Goiano e algumas lideranças de Goiânia.

Final de semana, retornando de Brasília, passei em Anápolis, convidei um amigo para irmos a Goiânia. Iríamos à casa do professor Reinaldo Pantaleão, residente do Conjunto Itatiaia, próximo ao campus da UFG. Sabia que morava naquela região, mas não em que rua e casa. Telefonei para o amigo José Moreira, o Zuza, que conhecia Pantaleão, sabia onde morava. Fomos na Variant do Moreira. Dois dos seus filhos, Éric e Ludmila nos acompanharam. Levavam seu cachorro de estimação. Assim, partimos nós cinco mais o cachorro para a visita.

Com sua costumeira fidalguia, professor Pantaleão nos recebeu se colocando pronto a formar o grupo de voluntários que trabalharia para arregimentar a plateia que lotaria as dependências da Assembleia Legislativa. Na ida à casa do professor, o tempo estava firme com muito sol. Calor intenso. Moreira fez todo o trajeto com os vidros da Variant abertos. O ar refrescou a temperatura e arejou o ambiente. Na volta fazia o mesmo calor, mas caiu de repente, chuva fina e forte. Fomos forçados a fechar todos os vidros. Á medida que as vidraças foram levantadas, o calor interno ficou insuportável.

Odor azedo exalou pelo interior do carro, para piorar a situação. Incomodado pelo o mau cheiro, Moreira gritou para os filhos que carregavam no colo, o cachorro de estimação:

– Éric e Ludmila, por favor, ao chegarem em casa, lavem esse cachorro!

– Pai, nós o lavamos hoje, minutos antes de sairmos!

– Por favor, lavem esse cachorro pelo menos duas vezes ao dia.

– É isso que fazemos! Lavamos cedo e à tarde.

– Então, quando forem dar banho nele, usem shampoo!

– Nós usamos shampoo.

A discussão entre eles continuou até chegarmos ao local onde havia deixado meu carro. Nos despedimos. Eu e o companheiro retornamos para Anápolis. Quando cheguei em casa, antes mesmo de tomar banho, telefonei para Moreira:

– Moreira, não deixe seus meninos matarem o cachorro com tanto banho, shampoo e desinfetantes. O provocador daquele odor era meu companheiro. Quando há qualquer evento político, ele transpira demais e se esquece de tomar banho.

domingo, 9 de janeiro de 2011

O conforto

Nas eleições de 1978, uma das duas vagas ao senado foi preenchida por senador biônico. Senador sem voto. Senador escolhido pelo partido que tivesse maioria de deputados nas Assembleias Legislativas. O MDB só tinha maioria no Rio de Janeiro. Nos outros Estados, inclusive Goiás, a maioria era da Arena. Aqui, o biônico foi Benedito Vicente Ferreira, o Benedito Boa Sorte. Eleito em 1970, seu mandato estava terminando em 1978.

O outro arenista eleito em 1970, cujo mandato terminava, era Osires Teixeira. Osires, Jonas Duarte e Jarmund Nasser compuseram as três sublegendas da Arena para enfrentar, pela vaga a ser preenchida pelo voto popular, os emedebistas Henrique Santillo e Juarez Bernardes.

Nos preparativos para a campanha eleitoral, a região mais problemática para Henrique Santillo foi o Entorno de Brasília. Juarez, por ser de Formosa, era tido como candidato natural da região. O diretório municipal do MDB de Luziânia se reuniu decidindo que, apesar de Juarez e Henrique serem do MDB, só apoiaria Juarez. Joaquim Domingos Roriz, que fora vereador, saiu candidato a deputado estadual. O MDB estava à procura de alguém que representasse o município para se contrapor a Jesus Meirelles, deputado pela Arena daquele município. Joaquim Roriz foi o escolhido para essa tarefa.

Como deputado federal, fui visitado em meu gabinete em Brasília, pelo saudoso vereador Carlos Melo, meu grande amigo e representante dos autênticos naquela cidade. Queria saber se não seria possível uma conversa nossa com Zequinha Roriz, irmão de Joaquim. Não só conversamos como acertamos apoio a Joaquim Roriz em alguns municípios que apoiaram Henrique Santillo a deputado estadual, em 1974. Imediatamente contatei companheiros dos municípios da estrada de ferro e outros mais próximos de Anápolis. O acordo político foi firmado entre nós. Em Luziânia, Henrique também teria o apoio do diretório. A ele seria dado o mesmo tratamento dispensado a Juarez Bernardes. Com a escolha de Helio Roriz, também de Luziânia, para ser suplente de Henrique Santillo o acordo ficou consolidado.

A princípio, no diretório de Luziânia, o apoio que estávamos dando à candidatura de Joaquim Roriz a deputado estadual não envolvia apoio à minha candidatura a deputado federal. Pela dedicação que tive com a candidatura de Roriz, acabei sendo apoiado naquela cidade. Recebi esmagadora votação. Henrique Santillo foi o mais votado em toda região. A dupla Henrique Santillo/Juarez Bernardes derrotou o trio arenista. Mais votado, Santillo foi aclamado senador, Juarez Bernardes o primeiro suplente e Helio Roriz segundo suplente. Joaquim Roriz e eu fomos os deputados mais votados, em Luziânia e Goiás.

Fatos marcantes e históricos aconteceram quando fui apresentar Roriz aos diretórios da região da Estrada de Ferro. A Leopoldo de Bulhões foram comigo Vicente Alencar, advogado do MDB anapolino e o vereador Walmir Bastos Ribeiro. A reunião aconteceu na casa do Ivo, por sugestão de Agenor, presidente municipal do MDB. Como tesoureiro, Ivo estava mais familiarizado com campanhas eleitorais. Fiz a apresentação do nosso indicado, ainda desconhecido do mundo político goiano, narrando suas qualidades de empresário em Brasília e fazendeiro. Falei da importância da sua eleição pelo fortalecimento da região do Entorno e da vantagem que representaria para Leopoldo Bulhões.

Enquanto fazia a apresentação, sem nenhuma cerimônia, cansado, Walmir Bastos dormia de roncar na cadeira ao fundo da sala. Aberto o debate para que os companheiros de Leopoldo Bulhões se manifestassem, Ivo falou em nome de todo diretório:

– Dr. Joaquim Domingos, nós aqui de Bulhões seguimos Adhemar e Henrique Santillo. Como o Adhemar está lhe apresentando, estamos de acordo em apoiá-lo...

– Obrigado! – agradeceu Roriz.

– Só que até agora nós os apoiamos sem pedir nenhuma ajuda financeira...

– Para que vocês querem ajuda financeira? – brincou Roriz.

– Para a gente fazer uma campanha com mais conforto!

– Rá, rá, rá, rá! – gargalhou Walmir Bastos, que acabara de acordar.

A partir daquele instante, Walmir só se referia ao ex-governador de Brasília como “Joaquim Conforto”.

terça-feira, 2 de março de 2010

Trapalhadas em candidatura ao Senado

Já havíamos vivido os retrocessos eleitorais impostos à abertura democrática em 1970 e em 1974, com a suspensão de última hora da eleição direta para Governador do Estado.

Todas estas manobras tinham como objetivo impedir o avanço eleitoral do MDB. O fechamento do Congresso Nacional, episódio ocorrido em abril de 1977, com a suspensão de eleição direta para governador em 1978 e apenas um Senador sendo eleito através do voto direto, já que a outra vaga de Senador seria preenchida pelo partido que tivesse maioria na Assembléia Legislativa, foi o mais abrangente e radical golpe, até então, imposto pelo sistema autoritário da época contra a abertura democrática.

Vicente de Paula Alencar, presidente do Diretório do MDB de Anápolis, leal e competente advogado que estivera sempre na defesa dos companheiros, ao saber pela Imprensa Nacional sobre a extensão da decisão tomada pelo Presidente Geisel, com base no Ato Institucional nº 5, apressou-se em reunir os membros do partido em Anápolis, estimulando os companheiros para que não se desanimassem. Ao mesmo tempo, defendeu publicamente que Henrique Santillo, pré-candidato ao governo de Goiás, fosse o candidato do grupo ao Senado.

Apoiando a candidatura do Henrique para o governo, Derval de Paiva, Deputado Estadual que pleiteava uma das duas vagas ao Senado refluiu, confirmando uma nova candidatura à Assembléia Legislativa. Fernando Cunha Jr, deputado federal, que mostrara desejo de disputar a outra vaga, também apoiando Henrique, insistiu em disputar uma vaga no Senado, que seria decidida pelo voto popular. Esta disposição de Fernando, como não poderia deixar de ser, era tida por Henrique Santillo como legítima. Isto estimulou Vicente Alencar a lançar sua candidatura ao Senado numa disputa interna com Fernando Cunha Jr. e Juarez Bernardes, outro pré-candidato a governador que, pela suspensão das eleições ao governo, decidiu se candidatar a Senador.

Aos companheiros e amigos, Vicente Alencar ressaltava que no caso de uma desistência de Fernando Cunha Jr. sua candidatura também seria retirada, pois seu projeto eleitoral para aquele pleito era uma vaga na Assembléia Legislativa, não abrindo mão de que o representante dos progressistas para o Senado teria que ser Henrique Santillo ou ele próprio. Fazia sua pregação em sucessivas entrevistas concedidas a jornais e emissoras de rádio.

Como Fernando Cunha demorou a refluir da intenção inicial de disputar o Senado, o que somente veio acontecer algumas semanas após o “pacote de abril”, Vicente de Paula Alencar, motivado pela divulgação da imprensa ao seu ambicioso projeto, principalmente pelo jornalista Reinaldo Rocha, de O Popular, tomou gosto pela campanha.

Quando Fernando Cunha manifestou disposição de pleitear reeleição para deputado federal, Vicente se afastou dos companheiros e manteve sua pré-candidatura ao Senado, indo à Convenção Regional do MDB.

– Vou ganhar! O povo quer renovação...

Gritava Vicente onde quer que discursasse. A vitória de Lázaro Barbosa na eleição anterior renovava a cada instante sua esperança.

Vicente Alencar enfrentou Henrique Santillo e Juarez Bernardes na convenção emedebista. Praticamente teve só seu voto, visto que além de presidente era também um dos delegados à convenção regional, representando Anápolis. Sem ter voto para uma terceira sublegenda, Vicente Alencar refluiu e candidatou-se a Deputado Estadual.

A decisão chegou tarde. Já estavam com o apoio dos santillistas, Joceli Machado e Wolney Martins de Araújo como candidatos a Assembléia Legislativa por Anápolis. Ambos foram eleitos, enquanto Alencar, que poderia ter sido o mais votado, atrapalhou-se pelo caminho e obteve pequena votação.

Silvânia e o MDB

– A gloriosa marcha para a redemocratização do país já é percebida pelos nossos adversários.

Foi com esse entusiasmo que um simpatizante do MDB em Silvânia se expressou, aumentando o tom da voz para que suas palavras fossem ouvidas pelos poucos integrantes da platéia e por alguns que passavam pela calçada e curiosamente olhavam para dentro do salão.

A região da estrada de ferro foi um lugar bastante difícil para formação do MDB e em Silvânia não foi diferente. Na campanha de 1974, mesmo com alguns companheiros fiéis, não tivemos ambiente para realizar comício. Fizemos uma carreata com pouco mais de dez veículos, contando com os dos integrantes da caravana que saíram de Anápolis e Goiânia. Paramos na praça do coreto, tomamos café e seguimos viagem para Vianópolis, Orizona e Pires do Rio.

Os silvanenses respeitavam muito a liderança do ex-prefeito José Caixeta, que seria suplente de Benedito Ferreira, senador biônico goiano, na eleição de 1978. A liderança do Caixeta ia do prefeito passando pelos vereadores e demais lideranças daquele Município. A consideração que nutriam por ele impedia que organizassem o partido de oposição. Sem partido devidamente constituído, restava ao eleitor o direito de secretamente se manifestar, como realmente aconteceu no dia da eleição com o voto para Lázaro Barbosa.

Passadas as eleições de 74, com a vitória esmagadora de Lázaro Barbosa contra o arenista Manoel dos Reis, houve pequena abertura. Vindo de uma viagem de Ipameri para Anápolis, Vicente Alencar parou numa pequena mercearia, conversou com o proprietário, homem simples e resoluto que mostrou desejo de fundar o MDB no Município. Geraldo Bonfim seu nome. Vicente garantiu que eu iria visitá-lo oportunamente.

Cumprindo sua promessa, fui com Vicente conhecer e conversar com o Sr. Geraldo. Tratamos das medidas necessárias à criação do partido em Silvânia e acertamos detalhes para uma reunião onde levaria o deputado estadual Henrique Santillo para conversar com demais companheiros.

No sábado programado, chegamos à Silvânia numa caravana composta por Vicente Alencar, Romualdo Santillo, Joceli Machado, Henrique Santillo e alguns outros. A reunião foi no auditório do cinema local. Ainda causando estranheza uma reunião política, após muitos anos sem esta prática, foram poucos os silvanenses que compareceram.

Como não cansávamos de afirmar, onde houvesse dois ou três dispostos a nos ouvir ali estaríamos, falando com a mesma disposição como se a platéia fosse numerosa, solicitamos ao Geraldo que desse início ao encontro.

Geraldo fez a apresentação de todos os visitantes destacando qualidades de cada um. Não se esqueceu de enaltecer os companheiros de Comissão Provisória e, de forma enfática, da qualidade do orador oficial, escolhido por ele. Este orador oficial era um amigo do presidente, especialmente convidado para o encontro. Homem bem falante e comunicativo. Impecavelmente trajado com terno social, complementado com chapéu e guarda-chuva.

Geraldo passou-lhe a palavra e ele tirando cerimoniosamente o chapéu, agasalhando-o com o guarda-chuva num cabideiro atrás da mesa, fez os cumprimentos aos visitantes ilustres, não se esquecendo de algumas conquistas alcançadas por eles nessa “gloriosa caminhada em busca da democracia...”.

Finalmente entrou no objetivo da questão em discussão naquela manhã. Estufou o peito, colocando as duas mãos sobre a mesa para que suas palavras fossem audíveis para os componentes da mesa, os seis integrantes da platéia e por aqueles que transitavam pela calçada em frente o salão:

– A gloriosa marcha para a redemocratização do país já é percebida pelos nossos adversários.

E, pausadamente, com todo ardor, concluiu:

– O povo já reconhece a nossa desmoralização!

A cerimônia foi encerrada após as demais falas. Retornamos a Anápolis meio encabulados.

A partir de Geraldo Bonfim outros companheiros de Silvânia foram à luta, organizando o partido no Município, mesmo com dificuldades.

Hoje Silvânia possui o PMDB forte e resistente, com novos e antigos valorosos companheiros.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

O Volks da Nilda Mota

Cansada, suando muito, a Vereadora Nilda Mota só falava, quase chorando:

– Não dá, não dá para virar!

Até que desistiu.

Então solicitei ao meu fiel companheiro:

– Tião, por favor, faça a manobra no carro!

Era um Volks, tipo fusca, que eu havia enviado para que a Vereadora Nilda Mota, liderança que despontava de forma extraordinária, fizesse o trabalho político de visitas na região de Formoso. E este foi um dos acontecimentos.

Com a decisão tomada por Henrique de se candidatar a Deputado Estadual, enfrentei a campanha de Deputado Federal em 1974.

Visitei os diretórios do MDB no vale do São Patrício, Médio Norte, Estrada de ferro e Região de Anápolis. Carlos Wilson, Tião Borges, o Tião Gordo, Vicente Alencar e Hiran Bezze eram meus companheiros. Sempre revezava com um deles nas minhas constantes viagens.

Certa feita em Formoso, na residência do Firmino, antigo morador daquele município e amigo de longas datas de meu pai, marquei uma reunião. Nas primeiras horas de uma terça-feira quente, típica da região norte do estado, entrando no recinto da reunião, fui recebido por um participante, já com um copo de pinga pura do alambique artesanal:

– Aqui a gente recebe as pessoas importantes oferecendo cachaça, da melhor! Pode tomar que é pura.

Não querendo fazer feio, mesmo depois de ter bebido copo de leite e comido pão com manteiga naquela hora, recebi o copo e tomei a dose que me havia oferecido.

A todo instante o bêbado aparecia com o copo cada vez mais cheio, me estendendo a mão e passando para mim. Para me livrar, levava o braço para trás, passando o copo para o Tião Borges, que tomava um pouco e jogava a restante fora. Só assim me foi possível fazer a estréia em Formoso, sem sair carregado ou cambaleando. Em compensação, terminada a reunião o Tião Gordo não sabia nem em que cidade estávamos.

Chegamos a Trombas, ainda Distrito de Formoso, Nilda Mota Lucindo, a maior líder feminina do Médio Norte, Vereadora mais votada proporcionalmente de todos os tempos em Formoso, estava organizando encontro a céu aberto, na principal praça do local. Havia grande gameleira, que, com sua sombra, abrigava uma multidão do sol escaldante.

O Deputado Estadual Juarez Magalhães, candidato à reeleição, e eu, apoiados por Nilda Mota e o diretório do MDB de Formoso, havíamos lhe enviado um Volkswagen, usado, muito ruim de mecânica.

No instante de fazer a manobra para que o alto-falante abrigado no teto do fusca ficasse de frente para a platéia, Nilda não conseguia de forma alguma virar o carro. Cansada, suando muito a Vereadora só falava, quase chorando:

– Não dá, não dá para virar!

Até que desistiu. Então, solicitei ao meu fiel companheiro:

– Tião, por favor, faça a manobra no carro!

Da mesma forma, Sebastião Borges, com toda sua habilidade de motorista, não conseguiu manobrar o Volks. Exausto por tentar tantas manobras sem sucesso, bem mais forte que Nilda, Tião Gordo agarrou no pára-choque do carro virando-o para o sentido que queríamos.

Só assim ficamos sabendo que o Volks que havíamos mandado para a Vereadora fazer a campanha no município só andava em linha reta.

Trabalhando todos os dias, o tempo todo, Nilda Mota fez de Lázaro Barbosa, Juarez Magalhães e eu, os mais votados naquele município. Seu carisma, simpatia e liderança contagiavam a todos que a conheciam. Morreu em conseqüência de um atropelamento na Avenida Universitária, quando descia do ônibus do qual retornava da Faculdade de Direito de Anápolis, a FADA, para sua casa, no inicio da Vila Santa Isabel.

Nilda Mota Lucindo morreu sem ver a Avenida Universitária duplicada por mim enquanto prefeito e nem mesmo participou do governo do seu querido MDB, pois a posse de Iris Rezende Machado, em 1983, foi na mesma época do acidente que a vitimou.

Nosso batalhão voluntário

– São esses dois aqui, eles estão causando o maior tumulto e contrariando a lei eleitoral!

– Que é isso, rapaz? Sai daqui bagunceiro, você é que está causando tumulto, nem sei quem é você! Disse Felipe Jorge Matar, para o Tostão, que assustado, não entendia nada.

Enquanto Tostão deixava o recinto às pressas, atônito, Felipão abraçava Edenval e Elcival Caiado, na maior felicidade.

Isto aconteceu na primeira eleição que disputamos na oposição em Anápolis.

Era 1974 e com a implantação da Base Aérea, o município fora enquadrado como área de Interesse à Segurança Nacional, sendo a cidade administrada por prefeito nomeado.

Henrique seria candidato a Deputado Estadual e eu a Federal. Meu irmão mais velho, Henrique, ficaria no eixo Anápolis – Goiânia, trabalhando pelas nossas candidaturas. Sentíamos pela reação popular que o povo estava ao nosso lado, nos estimulando a ir em frente. O conceito que o povo tinha a nosso respeito era de orgulho pela resistência que mantínhamos contra o regime opressor instalado no país em 1964, o que nos motivava a intensificar o trabalho. Acomodação ou preguiça não faziam parte do nosso dicionário. A nossa mensagem de resistência era levada com destemor e persistência. Os tropeços, como a cassação de prefeito José Batista Jr. e transformação do Município em Área de interesse à Segurança Nacional não nos desanimavam. Pelo contrário, nos davam mais motivação. Não tínhamos apego ao poder. Sabíamos fazer política na oposição. Nossas armas eram disposição, amor à democracia e coragem. Com um verdadeiro batalhão de homens e mulheres idealistas que também acreditavam na força popular, resistir era o lema único de todos. A influência do poder econômico, dentro do MDB não existia. A tática dos governistas era a de forçar prefeitos do MDB a aderirem, sempre com a velha e surrada cantiga de que só assim os benefícios chegariam ao seu município. Para cidade do porte de Anápolis essa manobra não funcionava, uma vez que o eleitor estava mais esclarecido.

Transcorrida a campanha eleitoral, nenhum incidente mais grave ocorreu, porque evitávamos aceitar as provocações que faziam. Nas eleições e na apuração dos votos não nos preocupávamos, porque nas seções eleitorais e mesmo nas juntas apuradoras, tínhamos simpatizantes em maioria, não deixando que o resultado da vontade popular fosse adulterado.

Vicente Alencar, presidente do MDB anapolino, designou Felipe Jorge Matar para delegado fiscal das eleições. Felipe reuniu os fiscais, passando-lhes instruções de que observando qualquer descumprimento à lei eleitoral, denunciasse o fato a um policial mais próximo. As informações constavam num manual entregue a cada um. No dia da eleição, tudo correndo dentro da normalidade, Tostão, um dos nossos fiscais voluntários, foi até o comitê do MDB atrás de apoio para retirar dois senhores, elegantemente trajados, que cumprimentavam eleitores na fila de secção em que trabalhava, no Banco do Brasil. Felipe logo deu o grito:

– Vamos lá, Tostão! Vou ensinar a você como se deve proceder. Seja quem for, vai para a cadeia. Cadeia, Cadeia... Entendeu?

Ao chegarem ao banco, na secção eleitoral, Felipe avistou os irmãos Edenval e Elcival Caiado, cumprimentando os eleitores. Elcival disputava com Henrique Fanstone os votos arenistas do município, enquanto Edenval, o mais velho dos filhos de Totó Caiado, dava apoio ao irmão. Tostão se aproximou dos dois e gritou para Felipão:

– São esses dois aqui!

– Que é isso, rapaz? Sai daqui bagunceiro, nem sei quem é você! Disse Felipe Jorge Matar, para o Tostão, que assustado, não entendia nada.

Enquanto Tostão deixava o recinto às pressas, atônito, Felipão abraçava Edenval e Elcival Caiado, na maior felicidade:

– Se algum desses meninos atrevidos mexer com os senhores, podem me procurar. Queremos tranqüilidade.

Percalços pelo caminho

Os processos jurídicos com o objetivo de nos afastar da vida política, propostos pelos nossos adversários políticos, foram apenas uma parte das dificuldades que enfrentamos.

Em inúmeras reuniões que Henrique Santillo e eu participávamos com grupos de estudantes, trabalhadores, produtores rurais, profissionais liberais e intelectuais em Anápolis e Goiânia, discutindo os rumos para o país, grupos esquerdistas de variadas tendências se reuniam numa mesma roda, em busca de projeto comum.

Obedecíamos àquela máxima do presidente nacional do MDB, Ulysses Guimarães, “estamos dentro de uma casa hermeticamente fechada e para abrí-la precisamos unir forças, sem distinção ideológica, para que cada um siga seu rumo depois que a porta estiver aberta”. Mesmo com profundas diferenças de pensamento, os grupos se mantinham unidos em busca do objetivo final, a derrubada da ditadura implantada em 1964 e o retorno à democracia.

Também não nos descuidávamos dos contatos com lideranças interioranas e nestas situações os percalços eram muitos.

Orizona

Sempre me senti entusiasmado com o contato com pessoas simples e amigas, como Pedro Pimentel, tesoureiro do MDB em Orizona, que nos acompanhou pelo interior do município visitando proprietários e trabalhadores rurais.

Certa vez, chovia forte, tornando as estradas municipais escorregadias e de difícil acesso. Na volta à cidade, após uma dessas visitas, a camionete do Pimentel, grudada no barro, nos obrigava a empurrá-la, enquanto o motorista manobrava o veículo e dizia com o maior contentamento:

– Quando contar que o futuro governador de Goiás, Henrique Santillo, empurrou meu carro em pleno lamaçal, tendo a roupa e o corpo cobertos pelo barro, ninguém vai acreditar!

De outra feita estávamos voltando da cidade de Orizona, quando o Vicente Alencar falou:

– Chegamos pessoal!

Meio atordoados, Henrique e eu fomos nos despertar já fora do carro.

Olhamos em volta, estava tudo escuro. Nem sinal de alguma construção que nos lembrasse a nossa cidade, Anápolis.

Esta situação aconteceu em plena campanha de 1974 para eleições de Deputados Estaduais, Federais e Senador.

Haveria um grande comício em Orizona.

Companheiros se mobilizaram durante muito tempo para que as lideranças de todo município se fizessem presentes. Lázaro Barbosa, candidato emedebista ao Senado era a figura mais esperada e sua presença aos eventos do partido era certeza de grande público.

Em Orizona a situação apresentava-se mais emocionante, porque o candidato a Senador dizia em todas as cidades por onde passava que havia nascido em Orizona, embalado num cesto de taquara. Aliás, pude acompanhar Lázaro Barbosa quando estava em Anápolis dizendo que era familiarizado com a cidade porque parte da sua infância a passara no distrito de Souzânia. Chegando a Itapaci, Lázaro fazia questão de alardear que residira durante muito tempo na Ponte Funda. Já em Petrolina conhecia todas as lideranças e região, pois trabalhara durante muitos anos na prefeitura local.

Era difícil uma região que Lázaro não fizesse a citação “dessas ruas poeirentas que pisei descalço quando criança”.

Acompanhado de Vicente Alencar e seu irmão Alexandre, seguimos no carro de Henrique Silva de Anápolis à Orizona. Comício grande, Lázaro muito assediado pelos eleitores, a cidade envaidecida com a presença do filho ilustre. Falaram todas as lideranças locais e visitantes até que por volta da meia-noite encerramos os discursos dando inicio ao show com cantores locais.

Sidon, integrante do MDB local, convidou-nos para um churrasco em sua casa. Alegando compromisso logo cedo no dia seguinte, Lázaro agradeceu e retornou à Goiânia. Nós ficamos e fomos atender a gentileza do Sidon.

Churrasco assado na hora, a conversa rolando, quando olhamos no relógio, passava das três da madrugada.

Na hora da saída, Henrique Silva e eu já fomos descartando a responsabilidade de dirigir. Foi quando eu chamei Vicente Alencar de lado e disse:

– Vicente, nós todos estamos sem condição de dirigir. O mais descansado é seu irmão Alexandre. Vamos entregar o volante para ele?

– Eu de olhos fechados sou melhor motorista que meu irmão descansado! Me ajudem a chegar até o carro que eu faço a gente chegar a Anápolis! Falou Vicente convicto.

Deixamos Vicente se acomodar no banco do motorista. Fiquei ao seu lado, no assento dianteiro, enquanto Alexandre e Henrique ficaram no banco traseiro.

Vicente Alencar não corria mais que quarenta quilômetros por hora, atropelando todos os buracos que encontrava pela estrada de chão. Seguros de que aquela velocidade não nos traria problemas maiores, fomos pegando no sono, enquanto Alexandre recitava poesias de sua autoria, para evitar o sono do nosso motorista. Só acordamos quando Alencar disse em tom vitorioso:

– Chegamos pessoal!

Meio atordoados, Henrique e eu fomos acordar já fora do carro. Olhamos em volta, estava tudo escuro e nada nos lembrava a nossa cidade, Anápolis.

– Chegamos onde Vicente?

– Em Anápolis!

– Quem disse que estamos em Anápolis?

– Olha a Praça Bom Jesus, gente!

– Que Praça Bom Jesus, Vicente! Nós estamos na Praça da Matriz de Silvânia.

Fizemos todo esforço para ficarmos acordados até chegarmos a Anápolis, sempre atentos ao nosso “motorista”.

Mara Rosa

– Será que erramos o endereço? Perguntei já preocupado.

Estávamos procurando a fazenda na qual uma grande concentração aconteceria. Depois da reunião, um churrasco nos esperava, como havíamos combinado algum tempo antes.

Desconfiados de que alguma coisa não dera certo, fomos entrando cautelosamente.

Com desencontros, devido à dificuldade de comunicação, temor de perseguição aos emedebistas, ainda assim, percorremos o estado de Goiás em busca de fortalecer o partido e de consolidar o nosso trabalho. Não foi tarefa fácil, pois com mínimos recursos financeiros, cortando o estado de sul a norte, leste e oeste num Fusca, a missão era penosa, mas gratificante.

Outra vez o amigo Tonico Leão, residente em Mara Rosa, norte do estado, bem próximo à Amaralina, nos convidou para uma grande confraternização política em sua casa, num certo dia 30. Dizia que tinha reservado duas novilhas para o grande churrasco. O compromisso daquele dia seria exclusivamente o grande evento. Saímos cedo de Anápolis. Foram quatro horas de viagem. Chegamos ao local do grande encontro e não havia o menor sinal de concentração política.

– Será que erramos o endereço? Perguntei já preocupado.

Ao nos aproximarmos da casa, apareceu Tonico sonolento:

– Hei gente, quanta satisfação em receber vocês!

– Tudo bem, Tonico?

– Tudo bem! Ali estão as novilhas que vão morrer dia 30.

Entendemos que o dia era mesmo 30, porém o mês era, por certo, outro.

Enfrentamos a viagem de volta com toda a caravana esfomeada.

Paramos num boteco de estrada para saborear pão com algumas latas de sardinha e assim, Henrique, seu cunhado Edward, seu filho Carlos Henrique, meu filho André Luís e eu, voltamos para Anápolis.

Estrela do Norte

Além das confusões de datas de reuniões, outras dificuldades eram desafio para a formação do partido oposicionista.

Filiar eleitores ao MDB era missão quase que impossível.

Até prisão os nossos companheiros enfrentaram, como Hilton Lucena, em 1971, na cidade de Estrela do Norte, quando foi preso por ordem do Juiz daquela Comarca. Hilton foi preso por estar filiando eleitores no MDB, ficou na única cela existente na cadeia pública local, juntamente com um maníaco que havia matado cruelmente quatro crianças em Mutunópolis, dias antes.

Seu colega Altivo sofreu tanta pressão da polícia por estar acompanhando Hilton que se mudou do município antes mesmo que chegássemos lá com o advogado Hiram Bezze, para defendê-los.

Foi a maior violência que presenciamos e denunciamos naquela época.

Nossa presença foi suficiente para que o Juiz relaxasse a prisão de Hilton Lucena, sem necessidade de apelarmos para o Tribunal de Justiça, com habeas corpus.

Outras arbitrariedades, contudo, continuaram acontecendo.

Jaraguá

Objetivando estruturar o Diretório Municipal do MDB de Jaraguá, obtive colaboração do companheiro Militino, farmacêutico conceituado naquela cidade. Militino ficou responsável para fazer filiações dos interessados em compor a oposição naquele município. O companheiro buscou apoio na zona rural com amigos fazendeiros e trabalhadores, uma vez que no setor urbano era quase impossível conseguir alguma inscrição ao MDB. As assinaturas foram conseguidas nas mais variadas regiões até que houvesse o número legal para organização do Diretório.

Todo satisfeito, Militino foi ao cartório eleitoral registrar os filiados no MDB. Surpresa total. Praticamente todos filiados haviam enviado oficio ao juiz eleitoral pedindo o cancelamento de inscrição.

Foram inúmeras as situações inusitadas que vivemos, mas valeu a pena!

Jair Sapateiro e o Cartório Eleitoral

– Meu título, que recebi ontem, está com a fotografia de outra pessoa.

No título eleitoral constavam dados pessoais e foto do eleitor. Mas como todo o processo de inscrição eleitoral era executado manualmente, aconteciam, por vezes, alguns erros. Era o que me dizia, indignado, o Jair, conhecido como Sapateiro, em Formoso.

Os simpatizantes do MDB de Estrela do Norte abriram as portas para o nosso trabalho político naquela região, conhecida como Médio Norte Goiano. Em quase todas as viagens eu contava com a companhia do advogado Vicente de Paula Alencar.

Uma das reivindicações da região era a criação da Liga de Futebol do Médio Norte. Um dos incentivadores da idéia, Ranulfo Batista Alcântara, posteriormente prefeito de Formoso, que na época secretariava o prefeito Manoel de Fátima, o Neném, em Santa Tereza. Depois de discutir com as lideranças políticas e esportivas locais, contei com apoio do presidente da Federação Goiana de Desportos, à época, Baltazar de Castro. Documentos em dia levei o Divino Gonçalves Pires para instalar e presidir a liga. Muitos campeonatos foram realizados dos quais pude assistir vários jogos, consolidando minha ligação com a região.

Por ser uma região de conflitos agrários, freqüentemente éramos chamados para mediar litígios envolvendo grileiros com posseiros, sendo estes últimos sempre expulsos das terras sem qualquer negociação. Num desses atritos, Jair Sapateiro, posseiro de pequena gleba de terras praticamente dentro da cidade de Formoso, após muitas tentativas, me pediu socorro, pois, juntamente com outros pequenos posseiros, estava sendo ameaçado por grileiros acobertados por fortes políticos da região e apoio policial.

Vicente Alencar e eu nos dirigimos para o local do conflito, nos reunindo com todos eles. Eram aproximadamente doze pequenos proprietários que estavam sob ameaça de um grande proprietário rural do sul de Goiás, que planejava iniciar seu latifúndio também em Formoso. Analisados os documentos, vimos que o tempo de posse de todos lhes garantia o direito da terra.

Depois de fazermos a vistoria no local, saímos pela principal avenida de Formoso, para dar demonstração à população do nosso apoio aos posseiros, que eles tinham defensores.

Visitamos algumas lideranças emergentes do MDB local e aproveitamos para conhecer figuras destacadas que não pertenciam a nenhum partido político, mas que haviam convivido com o grande líder dos trabalhadores rurais daquela região, José Porfírio. Ele era deputado estadual e foi preso pelo regime ditatorial. Libertado, nunca voltou à sua casa. Depois de sair da prisão, em Brasília, desapareceu e nunca mais foi encontrado. Sabe-se apenas que foi visto na rodoviária de Brasília, próximo ao conjunto Nacional, e de lá desapareceu sem deixar nenhuma outra informação.

Quando passávamos pelas proximidades do Fórum, onde estava o cartório eleitoral, Jair Sapateiro, um dos líderes do nosso partido, com ar de desprezo e indignação exclamou:

– Ali naquela casa acontecem os maiores absurdos, apontando para o cartório eleitoral.

– Que absurdos são esses Jair? Indaguei.

– Meu título mesmo, que recebi ontem, está com a fotografia de outra pessoa.

– Que é isso Jair? Seu título está com fotografia de outra pessoa?

Naquela época o título eleitoral trazia a foto 3x4 do eleitor.

– Sim! Falou Jair Sapateiro com mais indignação.

Chamei a atenção do Vicente Alencar para o caso. Contei sobre o título com a foto errada que o nosso líder acabara de relatar. Vicente rapidamente quis saber mais detalhes:

– Jair, mas o seu nome no título está certo, não é?

– Doutor, o pior de tudo é que nem o nome é o meu.

Dá para perceber que as dificuldades que enfrentamos eram de todos os níveis. O líder Jair Sapateiro recebeu título de outro eleitor e saiu propalando que o cartório era desorganizado, usando foto e nome de outra pessoa no título que jurava ser o seu.

O valentão de Jaú e a marcha

– Não tenham medo, ele não ofende ninguém!

Horácio, conhecido como o valentão de Jaú, entrando na pousada foi logo determinando que Ventura buscasse uma cerveja, das expostas na prateleira próxima ao telhado, já que geladeira era um luxo não conhecido por ali, naquela época.

Henrique Santillo, Vicente Alencar, Joceli Machado e eu estávamos resolvidos a ampliar nossos planos, fazendo investimento econômico numa área rural, em Jaú, no município de Peixe.

Convidamos Waldivino Moreira da Silva, o “Chumbinho”, para que fosse nosso motorista até Estrela do Norte, quando iríamos até o Jaú, na caminhonete do Chico Manéco, filho do grande líder José Luiz Có, o Zé Maneco, que nos apoiava na Vila Jaiára, em Anápolis. “Chumbinho” alardeava que era motorista de carretas. Precisávamos da segurança de um profissional experiente e bom no volante.

De Anápolis, num TL niquelado, cor amarela, Vicente Alencar, Joceli Machado, Waldivino Moreira e eu partimos bem cedo rumo ao norte de Goiás.

Logo nos primeiros instantes da viagem percebemos o nervosismo de “Chumbinho”, o que compreendemos ser normal. Ao entrarmos na BR-153, passou a dirigir pelo acostamento, num vagar de causar irritação. Em frente à antiga entrada para a Base Aérea dos Mirage, próximo à entrada para Miranápolis, “Chumbinho” acelerou o TL, ainda no acostamento, imprimindo velocidade acima do normal. Eu que me encontrava no banco da frente ao seu lado, só tive tempo para gritar:

– Olha a pedra, “Chumbinho”.

– Pode deixar. Vou dividir.

A pancada foi tão violenta que a parte da frente do TL ficou toda amassada, deixando o carro estático, travado pelo forte impacto da batida. Inconformado com o ocorrido, apenas lhe disse:

– “Chumbinho”, você não disse que é motorista de carreta?

– Se eu estivesse dirigindo carreta, teria dividido a pedra.

Voltamos de carona e trocamos de carro e de motorista para seguir viagem até Estrela do Norte.

Para chegar a Jaú tínhamos que ir até Mata Azul, distrito de Formoso, viajando por uma estrada municipal de Peixe, sem nenhuma infra-estrutura. Havia uma ponte sobre o rio Piabanha, onde o motorista tinha que ser verdadeiro artista do volante. A ponte não possuía assoalho, e o carro teria que passar sobre duas estacas de aroeira. Contando com a eficiência do Chico Maneco fizemos todo trajeto sem maiores complicações até chegarmos ao Jaú.

Ficamos hospedados na pousada do Ventura. Cidadão simples, conhecedor profundo da região. Recebeu-nos atenciosamente, preparando paçoca de carne batida em pilão e frango caipira na caçarola. Em pouco tempo tomamos conhecimento das coisas locais. A pousada do Ventura não estava preparada para abrigar toda a caravana. Vicente Alencar, Chumbinho e Chico Maneco foram para a pousada do Piolho, assim conhecida pela grande quantidade de galinhas poedeiras debaixo das camas. Não era sempre que hóspedes procuravam sua casa de hospedagem, por isso agasalhava suas galinhas dentro de casa evitando a destruição por raposas, gambás e outros animais silvestres.

No dia seguinte, levantamos bem cedo, para irmos até as terras pretendidas, na região do Piabanha. Beleza natural incomparável. Divididas por duas cercas naturais: de um lado o rio Piabanha e do outro uma enorme serra, a mais alta e intensa do local, composta de cerradão invejável. Fomos até o local num jipe Willis, alugado pelo Ventura, único capaz de circular ali, pela inexistência de estrada e grande quantidade de cupins. Foi um verdadeiro rally para fazermos o percurso de ida e volta.

Retornando ao Jaú, sol escaldante, cansados pelo solavanco do jipe e pelas caminhadas que fizemos pelas trilhas do cerradão cobiçado, fomos diretos para a pousada do Ventura. Mal havíamos nos acomodado, apareceu no terreiro em frente a porta de entrada da pousada um cidadão de estatura mediana, aproximadamente 40 anos, portando na cintura uma enorme peixeira. Ao avistá-lo, Ventura com voz baixa nos esclareceu que aquele era o valentão do lugar. Advertiu:

– Não tenham medo, ele não ofende ninguém!

Horácio, este era seu nome, adentrou a pousada e foi logo determinando que Ventura buscasse uma cerveja das expostas na prateleira próxima ao telhado. Ventura pegou a garrafa quente e tirou a poeira com um espanador. Horácio ao vê-la sobre a mesa determinou que trouxesse quatro copos, que estavam mergulhados numa bacia de alumínio, cuja água já estava ali há alguns dias. Quando Ventura retirou o abridor da gaveta, recebeu ordem do Horácio para que não abrisse a garrafa. Tirou a peixeira da cintura e estourou a tampinha que bateu no telhado e voltou sobre a mesa, enquanto o líquido saía em forma de espuma. Rapidamente passou a mão nos copos e foi enchendo cada um deles com aquele líquido quente e espumoso. Joceli Machado apressou-se em beber o seu copo e antes que tomasse o último gole solicitou ao Ventura que trouxesse outra cerveja:

– Se possível mais quente e sem limpar o “casco”!

Joceli pegou a garrafa fazendo pontaria aleatória, que acabou na direção do rosto do valentão, tirou em ato contínuo o revólver da cintura, abrindo a garrafa com o gatilho do 38. A tampinha explodiu no peito de Horácio que tomou um banho de espuma da cerveja quente que saía em grande jato. Horácio balbuciou algumas palavras inaudíveis, deixando o local para nunca mais ser visto por nós.

No outro dia fomos a Peixe na caminhonete do Chico Maneco. Mesmo sendo veículo novo, a caminhonete não estava com todos os indicadores do painel funcionando.

Quando já tarde, na metade do percurso de volta ao Jaú, acabou o combustível, nos deixando na estrada. Chico Maneco e “Chumbinho” decidiram acompanhar um mateiro que passava pelo local, quando tentariam buscar socorro. Vicente Alencar, Hilton Lucena, Joceli Machado, um velhinho que nos pediu carona e eu ficamos no local. Quando perguntamos ao nosso carona sobre o movimento da estrada, respondeu:

– Só na sexta-feira o Tião da bagagem passa por aqui!

Era terça-feira e não sabíamos se Chico Maneco retornaria.

Vicente Alencar, lembrando da sua passagem pelo exército, resolveu fazer da caminhada de retorno tarefa agradável.

– Quando cumpri meu serviço militar, aprendi que para uma grande caminhada é recomendável que o percurso seja feito em forma de marcha, em fila indiana.

Assim determinou que Hilton Lucena ficasse na frente do pelotão e o velhinho no último lugar. Ele, Joceli e eu ficaríamos no meio. Disse-me antes de autorizar o início da marcha:

– Adhemar, aprendi, também no Exército, que onça só ataca quem está na frente ou atrás do pelotão.

Formação de acordo com as ordens do comandante Vicente Alencar, começamos a jornada:

– Pelotão, sentido! Um, dois! Um, dois! Um, dois! Levante a cabeça, estufe o peito e marque a cadência... Um, dois! Um, dois...

Dando instrução com voz de comando, Vicente fez com que vencêssemos o primeiro quilômetro do percurso. Já estava escuro e apenas enxergávamos o clarão das queimadas, naturais e muito usadas naquela época do ano. Os integrantes do pelotão, animados, erguiam suas vozes que ecoavam pelo vale:

– Levante a cabeça, estufe o peito, marque a cadência...

O pelotão repentinamente não ouviu mais a voz de comando do líder Vicente Alencar, apenas barulho de corpo caindo ao chão e rolando ribanceira abaixo. Perdendo o equilíbrio no terreno inclinado, Vicente escorregou, caiu rolando pela encosta da estrada até chegar ao fundo do vale. Quando parou, só ouvimos sua voz de comando:

– Pelotão! Fora de forma...