quinta-feira, 14 de junho de 2012
Calaram nossa voz no rádio
A vitória da Arena para a Câmara Municipal de Anápolis, nas eleições de 1976, se deu por que o prefeito Jamel Cecílio, usou de todos os expedientes legais e pressões possíveis, para formar uma chapa de candidatos fortíssima. Eleitores tradicionais do MDB se filiaram e quase que à força, fizeram parte da chapa arenista. A pressão sobre o eleitorado, principalmente da classe média, foi indescritível. Esses fatores, aliados à chapa incompleta de candidatos emedebistas, garantiram a vitória arenista. Mas, para nossos adversários a vitória da Arena em 1976, se dera em consequência de terem, em maio de 1975, tirado do ar a Rádio Santana. A emissora em que apresentávamos diariamente o programa “O Povo Falou, tá Falado”.
O trabalho dos nossos adversários, inclusive gente do MDB, era encaminhar fuxicos diários ao Serviço Nacional de Informações - SNI, pedindo o fechamento da Rádio Santana e a cassação dos nossos mandatos. Não conseguindo nos cassar, que pelo menos a Rádio fosse fechada. Queriam nos afastar do contato político que tínhamos com a população, pelo rádio.
Antes do fechamento da Rádio Santana, três vereadores do MDB passaram, já naquela legislatura de 1971, a votar sob a orientação arenista, na Câmara Municipal: Lincoln Xavier Nunes, João Divino Cremonez e Pedro Sérgio Sobrinho. Os golpistas contaram com o sistema de repressão estadual, Polícia Federal e outros instrumentos de repressão, usados pela ditadura militarista, para prender e torturar emedebistas autênticos, como fizeram por três vezes consecutivas, com o vereador Walmir Bastos Ribeiro, presidente da Câmara Municipal. As prisões aconteceram para forçá-lo a renunciar à Presidência da Câmara. Queriam sua renúncia para elegerem um novo presidente. Com isso, pretendiam afastar da Prefeitura, Henrique Santillo. Como Walmir não cedeu às pressões, o prenderam por três vezes de forma arbitrária. Foi torturado, mas, não renunciou. Isso garantiu que Santillo continuasse prefeito.
Já na posse do Prefeito José Batista Júnior (MDB), substituindo a Henrique Santillo, policiais militares do Estado, invadiram transmissores e estúdios da Rádio Carajá, comandada pelo grupo santilista, devolvendo-a ao seu antigo proprietário, Plínio Jayme.
Cassaram, em 28 de agosto de 1973, o prefeito José Batista Júnior e impediram que o vice-prefeito Milton Alves, assumisse o cargo. Transformaram o Município em Área de Segurança Nacional e o engenheiro Irapuan Costa Júnior assumiu a Prefeitura.
Como em abril de 1973, menos de 60 dias da invasão e tomada da Rádio Carajá pela Policia Militar do Estado, adquirimos o controle da Rádio Santana, os arenistas e adesistas do MDB em Anápolis, atribuíam ao programa “O Povo Falou, Tá Falado,” a estupenda vitória que nós conseguimos no Município em 1974.
A Rádio Santana teve o seu transmissor lacrado e foi retirada, definitivamente, do ar, em maio de 1975. Derrotados fragorosamente em Anápolis, nas eleições de 1974, os adversários tentavam justificar a derrota ao nosso trabalho na rádio. Fechada pelas forças da reação em maio de 1975, os arenistas ficaram eufóricos com a vitória para a Câmara Municipal em 1976, atribuindo ao silêncio da nossa voz no rádio o fator principal do sucesso eleitoral. Acreditavam que havíamos chegado ao fim político.
Na eleição seguinte, a última entre MDB e Arena, ocorrida em 1978, nossa vitória em Anápolis foi estrondosa e consagradora.
Isso deixou mais uma vez claro, que mesmo com toda a violência praticada pelos representantes da ditadura, nos tomando a prefeitura através do Ato Institucional nº 5 (AI-5), prendendo inocentes, fechando de emissoras de rádio, continuamos, com apoio do povo anapolino na caminhada vitoriosa pela redemocratização do Brasil... (continua).
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Mesmo com tudo contra, ganhamos
Lázaro Barbosa, eleito senador pelo MDB, obteve votação estrondosa dos anapolinos. Henrique Santillo, candidato a deputado estadual, conquistou mais de 16 mil votos no Município. Eu, como candidato a deputado federal, fui o mais votado em Anápolis, com mais de 17 mil votos. Ao final da apuração, Henrique sagrou-se vencedor como o mais votado, dentre todos os deputados eleitos, obtendo mais de 33 mil votos. Eu, com mais de 48 mil sufrágios, fui o segundo mais votado do MDB, dentre os cinco eleitos. Juarez Bernardes, candidato à reeleição foi o mais votado do Partido. Os três outros eleitos pela legenda foram: Genervino Evangelista da Fonseca, Iturival Nascimento e Fernando Cunha Júnior.
O MDB saiu revigorado com esse resultado. O uso, com competência, do rádio e da televisão, pelos candidatos do partido, no horário eleitoral gratuito, foi o grande instrumento que provocou uma verdadeira revolução pelo voto. Até mesmo nossos companheiros que não disputaram a eleição em 74, se revigoraram e voltaram à atividade política. Anapolino de Faria e José Freire, na reta final da campanha, mesmo não havendo registrado suas candidaturas, participaram de forma intensa da campanha emedebista. Trabalharam, principalmente, em favor da candidatura de Lázaro Barbosa, ao Senado.
Tomamos posse em fevereiro de 1975. Imediatamente, já nos preparávamos para enfrentar, em 1976, a primeira eleição municipal sem a eleição para a Prefeitura de Anápolis. Irapuan Costa Júnior assumiu o governo do Estado. O governador Leonino Caiado, com a indicação de Irapuan à Convenção da Arena estadual, indicou para a Prefeitura de Anápolis, o professor Eurípedes Junqueira. Mesmo tendo sido derrotado por José Batista Júnior, na disputa de 1972, Junqueira assumiu o cargo. Sabia que, com a investidura do novo governador, seria, como de fato foi, afastado. Aprovado pelo Presidente Médici, Eurípedes Junqueira permaneceu à frente da Prefeitura, até a posse de Irapuan. Assim que assumiu o Governo, Costa Júnior afastou Eurípedes e designou o empresário Jamel Cecílio para a Prefeitura. Coube a Jamel organizar a chapa de vereadores da Arena, para o pleito de 1976.
Preocupados com a vitória que nós do grupo Santillo, obtivemos nas eleições de 1974 em Anápolis, os arenistas continuaram com suas perseguições ao MDB Autêntico. Passaram a cobrar da Polícia Federal e órgãos dos demais da ditadura ligados à repressão, que atuavam em Goiás, o fechamento da Rádio Santana.
Toda a programação da emissora, onde diariamente Romualdo, Henrique e eu apresentávamos o programa “O Povo Falou Tá Falado”, era gravada em fita K-7, repassada ao setor da censura, na Polícia Federal. Os advogados Altair Garcia Pereira, o “Braguinha” e Vicente de Paula Alencar, todos os dias tinham que responder a ofícios e mais ofícios que chegavam do Dentel, em Goiânia, querendo informações sobre denúncias que os arenistas faziam contra nós. A manutenção das despesas da Rádio Santana era feita por nós. Não tínhamos anunciantes. Os poucos que se atreviam a nos ajudar eram perseguidos com fiscalizações específicas nos seus estabelecimentos comerciais. O cerco aumentava dia a dia em intensidade e tamanho... (Continua)
terça-feira, 24 de abril de 2012
Os adversários continuaram em pânico!
Nós do MDB de Anápolis que fazíamos oposição incansável aos governos do Estado e Federal, passamos da mesma forma a ser oposição em Anápolis. No programa “O Povo Falou, Tá Falado”, pela Rádio Santana, levávamos diariamente a palavra de ordem do partido.
Os adversários não se conformavam com nossa disposição de luta. Notaram que não cederíamos às pressões e truculência. Buscaram nos intimidar por outros meios. A primeira investida foi a de realizar devassa nos documentos da prefeitura. Julgavam que encontrariam irregularidades na administração de Henrique Santillo.
Já naquela época, 1970, Henrique acreditava no desenvolvimento do Município através da industrialização. Criou a lei municipal de incentivo fiscal às empresas novas que se instalassem em Anápolis. Essas empresas ficariam isentas do pagamento dos impostos municipais por um período de 5 (cinco) anos.
Empresários anapolinos montaram nesse período, a Panificadora Bom Jesus. Por se enquadrar ás exigências e benefícios da lei, requereram à prefeitura a isenção de pagamento dos impostos municipais por cinco anos. O grupo era formado por pessoas ligadas políticamente a Henrique Santillo. O prefeito encaminhou a solicitação à Procuradoria municipal para oferecer parecer jurídico. Seu parecer foi favorável à concessão da isenção.Foi elaborada a minuta do decreto de isenção e anexada ao requerimento.
Com base nessa devassa promovida em toda documentação da administração de Henrique Santillo, a única coisa que encontraram foi essa solicitação de isenção de pagamento de impostos municipais feita pela Panificadora Bom Jesus.
Eu era deputado estadual. Numa sessão da Assembléia, quando discursava criticando o governador Leonino Caiado, fui aparteado pelo deputado Elcival Caiado. Além de primo do governador representava a Arena de Anápolis. Levantou a questão do benefício fiscal que Henrique Santillo fizera aos seus amigos da panificadora em Anápolis:
- “Vossa excelência está aí criticando o governador, mas se esquece que o seu irmão Henrique Santillo, isentou de pagamento de impostos em Anápolis, um grupo de amigos.”
- “ Não é verdade, deputado”, respondi.
Elcival foi até seu gabinete, e voltou com papel timbrado com o brasão da prefeitura de Anápolis. Leu o inteiro teor do Decreto com o nome do prefeito Henrique Santillo.
Assim que fez a leitura, para um plenário em silêncio, lhe respondi:
- “Esse documento não está assinado por Henrique Santillo!” Repeti por várias vezes que o documento não estava assinado.
Elcival Caiado reconheceu que não havia assinatura do prefeito. Tratava-se da minuta de decreto. Mesmo sendo legal, o prefeito não havia concedido o benefício à Panificadora Bom Jesus.
quarta-feira, 21 de março de 2012
Rádio Carajá tomada à base de metralhadora
A vitória de José Batista Júnior (MDB) sobre Eurípedes Junqueira (Arena) foi a gota d’água para que medidas mais radicais fossem utilizadas pelos ditadores contra o mais importante reduto de resistência à ditadura em todo o estado de Goiás. Por via democrática, pelo voto popular, estava claro que a Arena não venceria o MDB autêntico. A esperança que tinham, havia sido frustrada: derrota de Eurípedes Junqueira para José Batista Júnior.
A primeira grande vítima da ação raivosa dos arenistas de Goiás foi a Rádio Carajá. A mais antiga e potente emissora radiofônica de Anápolis, sempre funcionou no andar superior do prédio pertencente ao Banco do Estado de Goiás - BEG, na esquina das ruas Barão do Rio Branco e Engenheiro Portela, na Praça Bom Jesus. Hoje Banco Itaú. Assim que a emissora foi adquirida do ex-deputado Plínio Jayme, por um grupo de emedebistas ligado ao santilismo, a emissora foi despejada daquele local, pela diretoria do BEG, por determinação do Governo Estadual. Os estúdios da emissora foram transferidos para um galpão, na Avenida Goiás, esquina com a Rua Coronel Batista.
Por ser uma emissora independente, noticiando fatos importantes para o esclarecimento da população, sua audiência era extraordinária. O programa “O Povo Falou, Tá Falado” que, diariamente, apresentávamos com Romualdo Santillo, pela Carajá, era ouvido praticamente por todos os anapolinos. Essa força na comunicação intranquilizava os representantes da Arena. Mesmo com a ação truculenta do Governo do Estado, obrigando a transferência dos estúdios da emissora para lugar improvisado, sua audiência continuou fantástica.
Na madrugada do dia em que José Batista Júnior assumiria a Prefeitura, substituindo a Henrique Santillo, elementos do Departamento Nacional de Telecomunicações - Dentel, acompanhados de integrantes da Policia Militar do Estado, invadiram os transmissores da Rádio Carajá, no Bairro Jundiaí, e seus estúdios, impedindo a entrada dos nossos funcionários à emissora. Assumiram o seu comando por determinação do Ministério das Comunicações e a devolveram a Plínio Jayme. Alegaram que a transferência se dera sem conhecimento do Ministério. Com isso, foi a negociação considerada ilegal. Ficamos nós, do MDB autêntico, sem nosso principal instrumento de comunicação com o povo.
Adquirimos em seguida o controle da Rádio Santana Ltda. de Anápolis, uma pequena emissora de 250 watts de potência, que pertencia às freiras da Igreja Católica. Seu procurador era Radivair Miranda, político e proprietário de emissora de rádio em Itumbiara. Em abril, dois meses após a tomada da Carajá por força policial, iniciamos os trabalhos na Rádio Santana. Em pouco tempo o programa “O Povo Falou Tá Falado” era, novamente, líder absoluto de audiência. A perseguição à emissora e consequentemente ao santilismo continuou. Integrantes da Polícia Federal montaram guarda nas dependências da emissora. Exigiam a gravação diária da sua programação. Perseguição aos que nela se atrevessem a anunciar e era feita escancaradamente por órgãos da Secretaria Estadual da Fazenda. Mesmo assim, nós da família Santillo a sustentávamos nos seus déficits mensais. Se mantinha em funcionamento... (continua).
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Queda e retorno da autonomia política
Violência inconcebível praticada contra um povo que não se rendia e jamais se rendeu aos caprichos dos prepotentes e inimigos das liberdades democráticas. José Batista Júnior que vencera a eleição enfrentando toda máquina oficial do governo e poderio econômico, soube da sua cassação por noticiário de rádio, quando voltava de Goiânia, sem ser atendido pelo secretário da Segurança Pública, onde fora para tratar de assuntos daquela pasta em Anápolis.
Foram 12 anos sem eleição para a prefeitura e 8 prefeitos nomeados. Nesse período o MDB continuou ganhando todas as eleições que disputou no Município. A única exceção ficou por conta da eleição para vereadores ocorrida em 1976, em que a Arena elegeu oito vereadores e o MDB, sete. Durante esse tempo companheiros humildes foram presos; várias tentativas os adversários fizeram para cassar nossos mandatas – Henrique Santillo e meu; impediram Henrique de atender pelo INPS; tentaram pelo suborno comandar o MDB municipal; assumiram a direção da Rádio Carajá através de força policial e fecharam a Rádio Santana, onde apresentávamos o programa “ O Povo Falou ta Falado.”
Fizemos inúmeros encontros políticos, discursos, debates nas comissões técnicas da Câmara Federal, simpósios estudantis na Câmara Municipal e reuniões domiciliares. mantendo acesa a luta pela autonomia política de Anápolis. O vereador Valmir Bastos Ribeiro foi verdadeiro “leão” nessa luta. Preso inúmeras vezes, torturado e permanentemente perseguido, Valmir foi exemplo de lealdade aos companheios e convicto defensor do estado democrático de direito. Graças à sua dedicação e prestigio conseguiu trazer a Anápolis, para debater política e fortalecer a luta pelo retorno da autonomia política do Município, figuras como Ulysses Guimarães, Aldo Fagundes, Odacir Klein , Freitas Nobre, Jaison Barreto, Tarcisio Delgado e outros expoentes do MDB nacional.
Estamos neste ano completando 25 anos do retorno ao direito do anapolino escolher pelo voto livre e soberano, o seu prefeito. Tenho muito orgulho de ter participado dessa luta gigantesca e vitoriosa. Satisfação de ter sido eleito pelo voto direto o primeiro prefeito depois do fim de prefeitos nomeados.
Os jovens, aqueles que contam com menos de 30 anos, não sabem os prejuízos causados pela ditadura. Não foram apenas as perdas materiais. Essas são repostas. Os maiores malefícios ocorreram no impedimento de formação de novas lideranças.As lideranças políticas de maior expressão na política nacional são remanescentes de 1964. Lideranças autenticas, mas que estão paulatinamente desaparecendo. O autoritarismo e leis de exceção impediram o surgimento de substitutos. Estamos com carência de lideres autênticos. Fruto do regime ditatorial. Para que isso não mais se repita, não devemos deixar que as atrocidades caiam no esquecimento, principalmente dos jovens.
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Professor Akynaton
Romualdo Santillo, trabalhando como auxiliar de direção artística da Rádio Carajá de Anápolis, na década de 1960, sua principal preocupação era criar programação diversificada para a emissora. Aqueles programas tradicionais, como “Caleidoscópio Musical”, e ouvinte solicitando música pelo telefone estavam superados. As novas emissoras de rádio que operavam na cidade entraram no mercado com atrações modernas, cativantes. A Carajá, a mais antiga emissora de Anápolis, tinha como principal concorrente a Rádio Imprensa, ligada ao grupo Henrique Fanstone. Mesmo porque, a Santana pertencia ao mesmo grupo da Carajá. A Cultura, comandada por Benedito Junqueira, pertencia ao grupo Caiado, mais interessado em fazer a política do grupo. A Carajá era mais ouvida em quase todos os horários. A Imprensa, imbatível no programa das 14h. O astrólogo Omar Cardoso, com seus conselhos a pessoas desesperançadas de todo o Brasil, era líder absoluto em audiência. Omar foi considerado a maior expressão da astrologia nas emissoras de rádio brasileiras. Por mais que tentassem, as atrações da Carajá, para o horário, não cresciam.
Amigo do saudoso odontólogo e professor de química Felipe Jorge Mattar, o Felipão, Romualdo o convidou para apresentar programa nos moldes do de Omar Cardoso. Felipão foi a Goiânia conhecer regras básicas de numerologia e astrologia. Ficou mais de um mês indo e voltando todos dias. Aprendeu as noções básicas para enfrentar o desafio que Romualdo lhe reservara. Atenderia ouvintes da região. Preferencialmente de Anápolis. Raramente Omar Cardoso atendia alguém de Goiás. Seus consulentes eram mais de São Paulo, Minas Gerais , Rio de Janeiro, Paraná e Nordeste.
Para causar mais impacto e interesse ao público ouvinte, o astrólogo não foi apresentado como Felipão. Seu nome artístico: professor Akynaton. Dava a impressão de ser asiático, da Índia. Povo reconhecido internacionalmente como místico. Gente conhecedora de astrologia e numerologia.
No horário das 14h, Akynaton surgia na emissora, toalha branca enrrolada à cabeça, em forma de turbante, e estúdio fechado para visitantes, naquele horário.
Poucas foram as cartas da primeira semana. Contudo, em poucos dias as urnas estavam abarrotadas de correspondências. Consultas sobre questões sentimentais eram as mais freqüentes: “Meu casamento ainda pode dar certo?” “Minha namorada me deixou por outro. Ela voltará para mim?” “Meu signo, Virgem, é compatível com o da minha namorada, que é Sagitário?” Felipão, ou melhor, professor Akynaton, tirava de letra todas elas. As respostas constavam de manual que trouxera de Goiânia. Sempre com respostas que o consulente gostaria de ouvir, mas dando saída para outro desfecho. Tudo corria bem. A audiência crescia a cada dia.
Muito ouvido e respeitado pelo público, Akynaton recebeu correspondência de um ouvinte da região de Jaraguá. Estava com a esposa internada no Hospital Dom Bosco, em Anápolis, para dar a luz ao quarto filho. Pai de três meninas, torcia pelo nascimento de um menino. Assim, queria saber se a criança que estava prestes a nascer seria do sexo masculino. Akynaton, leu a correspondência. O manual não lhe dava condições de responder a questão com segurança. Alegando falta dos signos dos pais, idades das irmãs e signo de cada uma, cor da pele do pai e da mãe, endereço de residência em Jaraguá, estava impossibilitado de revelar o sexo da criança. A mãe já se encontrava internada para dar a luz. Sabedor que a criança nasceria logo, acreditava que até lhe serem prestados os esclarecimentos teria nascido.
Mal terminou o programa daquela tarde, o consulente chegou à Rádio Carajá levando as respostas solicitadas. O parto estava programado para a tarde do dia seguinte. O pai queria saber o sexo da criança, pelo menos, algumas horas antes do nascimento. Não houve escapatória: no dia seguinte, o professor Akynaton decifrou os dados que lhe foram repassados. Depois daquele suspense natural, disse solenemente que a criança seria do sexo masculino. “Será menino!”
Alegria contagiante quando a enfermeira saiu da sala do parto com a criança, anunciando ser do sexo masculino. Professor Akynaton se consagrou.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
No Passado Foi Diferente
Os companheiros do interior admiravam o trabalho que fazíamos em Anápolis. Sabiam das perseguições que sofríamos, mas não fraquejávamos. Pelos estreitos caminhos que as leis de exceção nos ofereciam resistíamos indo à frente. Não nos acovardávamos e nem temíamos os prepotentes. A cada eleição inventavam enxurrada de denúncias na tentativa de nos intimidar.
Cassação do mandato do prefeito José Batista Júnior (MDB), com a transformação do municipio em Área de Interesse à Segurança Nacional; invasão da Rádio Carajá, que havíamos adquirido do ex-deputado Plínio Jayme, pela Policia Militar do Estado, devolvendo seu comando ao antigo proprietário; fechamento da Rádio Santana que adquirimos em substituição à Carajá; prisão do bravo e saudoso vereador Walmir Bastos Ribeiro e prisões de auxiliares do ex-prefeito Henrique Santillo, não nos amedrontaram. Revigoraram nossas forças.
Em Anápolis nos fortalecíamos dia a dia com nossa pregação diária em favor das liberdades democráticas no programa radiofônico, “ O povo falou tá falado”. Fazíamos reuniões domiciliares preparando novos quadros de autênticos resistentes à ditadura. Simpósios trabalhistas e estudantis completavam nosso pacote na formação de lideranças.
No interior, mesmo com a simpatia de expressivas lideranças pela nossa atuação, questões políticas locais falavam mais alto. Essas lideranças preferiam ficar agasalhadas em sublegendas dentro da Arena a formar o MDB. No início o partido contou com adesão de posseiros, pequenos sitiantes, lavradores e trabalhadores braçais. Mesmo assim enfrentamos a resistência dos políticos locais.
Em Estrela do Norte, o caminhoneiro Hilton Lucena de Oliveira foi preso, prisão preventiva decretada pelo Juiz da Comarca, porque estava filiando eleitores ao MDB. Altivo, conhecido carroceiro da cidade, que o ajudava no trabalho de filiação, apanhou tanto da polícia que sumiu da cidade. Em Jaraguá, Militino, conceituado farmacêutico no município, juntamente com a companheira Maria filiaram gente da zona rural. Quando completaram as filiações necessárias foram ao Cartório Eleitoral para o registro dos filiados. Encontraram nas mãos do escrivão, carta renúncia assinada por cada um dos filiados. Em Mara Rosa lançamos a candidatura Zériaco, à prefeitura. A única propaganda que fez foi um cartaz com seu nome e caricatura, desenhados por sobrinho seu. Em Silvânia, Geraldo Bonfim, pequeno comerciante de secos e molhados enfrentou o poderio arenista dos Caixeta. Em Goianápolis, os vereadores emedebistas Lucas Gonçalves e João Leite de Morais tiveram os mandatos cassados por trabalharem em Anápolis. Assim surgiu e se fortaleceu o MDB.
Graças à resistência dessa gente humilde e batalhadora, Iris Rezende Machado chegou ao governo de Goiás em 1982, depois de 10 anos afastado compulsòriamente da vida política. O partido de hoje não é o mesmo do seu nascimento. Deixamos o PMDB mas não deixamos a luta. Estaremos noutra trincheira com os mesmos ideais do passado. Não nos sentiríamos confortáveis, num partido moldado na resistência democrática e que hoje pune as vozes internas que democraticamente discordam da sua prática política.
domingo, 20 de junho de 2010
Calango cantou e dançou
No início dos anos 60 chegaram a Anápolis alguns atletas vindos do interior de Minas, para reforçarem, principalmente Anápolis e Anapolina. Um rapaz louro, bem franzino, logo caiu na graça da torcida rubra. Seu nome oficial ninguém sabia, mas seu apelido ecoava por todos os recantos da cidade: Calango!
Como o Brasil havia conquistado o primeiro campeonato mundial na Suécia (1958) e Garrincha, com seus dribles desconcertantes, era a maior sensação dos que apreciavam o futebol-arte.Calango, em pleno Estádio Manoel Demostenes, o lembrava com suas paradas rápidas e gingadas de corpo. Os torcedores da xata iam à loucura, quando o moço de Uberlândia , dava aquela freada repentina no campo de chão batido, gingando corpo sem sair do lugar, geralmente desequilibrando o marcador que caia sentado ao solo. Seus dribles e pedaladas valiam aos torcedores rubros, principalmente se fosse num jogo contra o Anápolis, mais que uma expressiva vitória.
Sua maneira alegre de jogar conquistou a simpatia unânime dos torcedores da Anapolina. Os adversários também se divertiam, quando não era o time deles que passava pelo vexame, é claro! Em pouco tempo Calango virou a principal sensação no futebol de Anápolis. Mesmo os que não gostavam de futebol começaram a frequentar os jogos, em que ele estivesse presente.
Nessa mesma época trabalhava como cronista esportivo na Rádio Santana de Anápolis. Pequena emissora AM, de 250 watts, mas muito ouvida na cidade. Nossa cabine de transmissão era à base de madeira e fórmica, construída no início de 1962, ano de Copa do Mundo, no Chile. Aproveitando o espírito patriótico dos brasileiros que já pensavam no bi-campeonato, a pintamos de verde-amarelo.
Num jogo entre Anapolina e Ypiranga resolvemos inovar. Microfone com cabo longo instalado na aparelhagem da cabine, ia até a lateral do campo, colocava o repórter de pista mais próximo dos jogadores. Nosso repórter era o saudoso Antônio Abrão Isaac, o Toníco. Excelente advogado. Lecionou por muitos anos na Faculdade de Direito da UniEvangélica. Foi secretário municipal quando exerci o cargo de prefeito entre 1997/2000.
Pelo comprimento do fio do microfone, toda vez que acionávamos o repórter de pista era aquele zunido que incomodava todos nós da cabine de transmissão. Os ouvintes tanto reclamaram da qualidade do som, que nossa inovação não passou daquele domingo. Nos jogos seguintes o repórter de pista ficou na cabine mesmo, ao nosso lado.
Quando Anapolina e Ypiranga entraram em campo, Antônio Isaac, mais que depressa fez um aceno para Calango, o craque sensação. Muito solícito veio até a lateral do campo. No momento chovia fino. Essa condição climática obrigou Toníco usar galochas e capa de nylon. Estava totalmente protegido da chuva e outros possíveis imprevistos. Floreou, encheu a bola, descrevendo a mestria de Calango. Por fim fez a pergunta:
– Em quem você se inspirou para driblar com tanta perfeição ?
Ao pegar o microfone, Calango passou a pular baixinho, gritando:
– Ai, ai, ai, ta, ta, ta...
Como não parava de sapatear com seu ai, ai, ta, ta, ta, interminável, o repórter tirou-lhe o microfone, sapecando:
– Gente, além de tudo Calango é dançarino e cantor!
Recobrando a respiração, o craque se distanciando, do Toníco Isaac, desabafou:
– Que dança coisa nenhuma! Tomei foi choque nessa espelunca...
Empacotado e bem isolado , o repórter não notara que o microfone estava dando choque.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Lázaro da bicicleta, o locutor diferente
O Estádio Manoel Demostenes em Anápolis, campo de chão batido, cerca de ripas em substituição ao alambrado, sem arquibancadas e banheiros, além de não possuir vestiários para os clubes e árbitros, foi palco de acontecimentos monumentais no futebol. A apresentação da Portuguesa de Desportos, no início dos anos 50, com seus ídolos, Muca, Djalma Santos, Brandãozinho, Julinho, Pinga , Nininho e tantos outros, foi um deles.
No Manoel Demostenes foram realizados jogos históricos, onde se exibiram renomados craques anapolinos e goianienses. Tambem foi lá que torcedores fizeram a diferença. Caetano, da Associação Atletica Anapolina, com seu bordão inconfundível, “óh o pé dele Carpaneda”, Teodora a dama tricolor impecávelmente vestida e sua inseparável sombrinha, além de Mané Padeiro,que muitas vezes assistia jogos do seu Anápolis, dentro do estádio, em cima da carroça-baú, cheia de pães, roscas e quitandas.
Lá, Alcemiro Rodrigues, o popular Gigante, trajando calça esporte dobrada até o meio da canela, botina de carregar pela boca, paletó azul marinho, cachecol, chapeu e guarda chuva desbotado pelo uso, se transformou no mais popular árbito de Anápolis, no amadorismo.
Campo lotado, torcedores em silêncio absoluto, assistiram no Manoel Demostenes,Glicério Mellazo, artilheiro do Ypiranga se negar a cobrar pênalti contra o Anápolis, aos 43 minutos do segundo tempo. Ficou assustado e amedrontado com a presença em campo do presidente tricolor, Juiz de Paz no Município, Joâo Bezze, que discretamente portava um 38 na cintura e indagava em vóz alta e pausada aos alvinegros: “ Quem vai bater o pênalti ?” Como ninguém se apresentou para a heróica missão, Joaquim Diogo encerrou a partida, e o pênalti só foi cobrado, com os portôes fechados ao público, três meses depois, por decisão da justiça desportiva.
Consagrado e respeitado jornalista Jayro Rodrigues da Silveira, iniciou sua carreira de comentarista esportivo na Rádio Santana de Anápolis, no Estádio Manoel Demostenes. Polêmico e discreto, Jayro nunca deixou transparecer sua simpatia e amor pela rubra, a xata. A Rádio Santana não possuia o poder e penetração da Bandeirantes de Sâo Paulo, que com sua Cadeia Verde-Amarela atingia todo Brasil, mas tinha sua cabine de madeira, toda pintada de verde-amarelo.
Enquanto Jayro Rodrigues comentava pela Rádio Santana, uma outra grande figura, essa consagrada no meio jurídico goiano, Getúlio Targino, no Manoel Demostenes, comentava pela Rádio Cultura. Os comentaristas seguiram caminhos exitósos e diferentes, mas suas emissoras tiveram o mesmo destino: fechadas que foram no período ditatorial, pelo ministro Quandt de Oliveira, da Viação e Obrás Públicas, responsável pela área das comunicações, em maio de 1975, por decisão política.
Outra figura popularíssima, que fez história marcante no Manoel Demostenes, foi Lázaro Gomes, o Lázaro da Bicicleta. Todas as tardes quando treinavam Anapolina, Anápolis, Ypiranga ou São Francisco, Lázaro chegava mais cedo, em sua bicicleta, acomodava-se ao lado da cerca de ripas e com uma latinha, geralmente de extrato de tomate, transmitia todos os lances do treino coletivo. No transcurso do treinamento, atletas se dirigiam até onde o locutor se encontrava, para esclarecer uma jogada mais polêmica. Lázaro da Bicicleta era ouvido e admirado pela garotada. Os meninos prestavam muito mais atenção no que Lázaro dizia e comentava, que nos lances dentro de campo. Lázaro da Bicicleta também faz parte da história do futebol anapolino e do estádio Manoel Demostenes.
segunda-feira, 29 de março de 2010
Histórias de Cronistas e do Futebol
Nunes Macedo, grande repórter de pista dos anos 60/70, na Rádio Brasil Central, antes de ser cronista trabalhava como encanador, em Anápolis. Fanático por futebol e pretendendo mudar de profissão, fez curso de árbitro, na escola da Liga Anapolina de Desportos. Foi aluno brilhante.
Sua estreia foi no jogo Serraria x Castilho, pelo Campeonato Anapolino. Estádio Manoel Demóstenes lotado. Nunes Macedo se impunha pelo conhecimento das regras, imparcialidade e acompanhamento das jogadas. Jovem, com muito vigor físico e amando a nova profissão, estava onde a bola ia.
Num lance violento praticado pelo lateral esquerdo Batata, do Serraria, jogador de estatura mediana, forte e corpulento, Nunes não teve dúvida, apitou pênalti e expulsou o zagueiro de campo. Antes que Aluísio, artilheiro do Castilho, fizesse a cobrança, Batata desferiu um torpedo de braço esquerdo na testa do árbitro, jogando-o ao chão.
Só recobrou os sentidos 40 minutos depois, no Pronto Socorro do Hospital Evangélico. Nunes Macedo nunca mais apitou nem pelada de rua, preferindo continuar como encanador. Só retornou aos estádios, retomando o gosto pelo futebol, bem mais à frente, como repórter, pela Rádio Imprensa, sob o comando de Jayro Rodrigues.
Petrônio Cruz, comentarista esportivo da Rádio Santana, só chegava ao jogo no final do segundo tempo. Fazia seu comentário intermediário por telefone, depois de ouvir nossa narração enquanto fechava o caixa do matinê, no Cine Vera Cruz, onde era gerente. Muitas vezes, quando a frequência ao cinema era maior, não ouvia a transmissão. Comentava sem ao menos saber quais os times que jogavam.
Gedeon Camargo, hoje militando na crônica esportiva de Uberlândia, começou a carreira como repórter na equipe da Rádio Carajá. Num jogo Anapolina x Anatex, pelo campeonato da LAD, entrevistou o zagueiro Orlando, da Anapolina. A xata não vencia há quatro partidas. Quis saber do zagueiro o porquê de tantos tropeços:
– Orlando, como você explica essa hecatombe que ocorreu na Anapolina ?
Como o zagueiro se confundiu completamente com a pergunta, respondendo coisa sem nexo, como “não é verdade que tenha comido feijoada...”, Gedeon o cortou:
– Orlando, parece que não fui entendido. Gostaria que você explicasse como justificar a debacle da Anapolina no campeonato?
Antônio Afonso de Almeida foi o pioneiro locutor esportivo em Anápolis. Da escola de Valdir Amaral da Rádio Globo do Rio de Janeiro narrava os lances de forma lenta e detalhada.
Para gravar no Estádio Pedro Ludovico, em Goiânia, partida entre as seleções de Goiás e Mato Grosso, com ele foi Clovis Guerra, chefe do departamento de Jornalismo da Rádio Carajá. Gravador grande, fitas trocadas com frequência, monitorado por Clovis. Faltando 20 minutos para o término e a última fita de que dispunham chegando ao final, Clovis, desesperado gritou para Afonso:
– Acelere, narre mais rápido! Seja como Pedro Luiz, da Bandeirantes! Lento assim a fita não vai dar.
A Rádio Carajá funcionava na parte superior de um prédio do Banco Estado de Goiás na Praça do Bom Jesus. Na parte superior externa do imóvel havia um possante alto falante, transmitindo toda programação da emissora. Às 11 horas, no seu programa esportivo, desportistas lotavam a praça em frente à emissora para se inteirar das últimas do esporte.
Mané Padeiro, que fazia a entrega de pães e roscas em sua carroça tipo baú, era presença cativa. Chovesse ou fizesse sol, às 11 horas lá estava ele com sua carroça. Torcedor fanático do Anápolis, naquele dia estava impaciente ao saber que Nilo, Carlinhos e Felinho, jogadores do tricolor, poderiam se transferir para o Ypiranga, maior adversário do Anápolis. Deixou a carroça no acostamento da calçada e foi para o meio da plateia.
Antônio Afonso, o radialista, fez a pergunta a um dos atletas que estavam na relação dos que poderiam mudar de time:
– É verdade que você está deixando o Anápolis, se transferindo para o Ypiranga?
O “não”, dito pelo jogador, foi com o som emitido pelo contato da língua com os dentes superiores:
– Dhi, dhi, dhi, dhi... Idêntico ao que os carroceiros utilizam para que o cavalo vá em frente.
Aquele som, velho conhecido do animal que servia Mané Padeiro, ampliado pelo alto-falante, fez com que o cavalo saísse em disparada carreira pela Rua Barão do Rio Branco, despejando pães e roscas pelo caminho. Só parou quando foi contido por populares na Praça Santana.
terça-feira, 2 de março de 2010
Cronologia da Violência
Primeiro de abril de 1964: Após ter sido eleito o primeiro presidente da União dos Estudantes Secundaristas de Anápolis pelo voto direto, Adhemar Santillo é destituído do cargo pelos integrantes do golpe que destituiu o Presidente da República João Goulart.
Maio de 1964: Adhemar Santillo é preso juntamente com médico Fuad Siad, acusados de pertencerem ao movimento clandestino Ação Popular (AP). Responderam a inquérito policial na Secretaria de Segurança Pública de Goiás.
Junho de 1964: Adhemar Santillo responde a Inquérito Policial Militar (IPM), comandado pelo Exército Brasileiro. Conclusão do IPM: não é encontrado nada que possa incriminá-lo.
Junho de 1964: Adhemar é impedido de trabalhar como radialista na Rádio Carajá de Anápolis ou qualquer outra emissora de radiodifusão da cidade pelo coronel Izacir Telles.
Agosto de 1964: Por determinação do coronel Epitácio de Brito, chefe de gabinete militar do governador Ribas Jr., Romualdo Santillo é preso por haver escrito no jornal Correio Braziliense, em sua coluna diária “O Que Se Comenta”, notícia em que fazia crítica à postura do coronel. Com seus jantares diários realizados no Palácio das Esmeraldas em Goiânia, o coronel buscava apoio a uma possível candidatura ao governo do Estado pela UDN, nas eleições que aconteceriam em 1965.
Dezembro de 1966: Henrique Santillo, eleito vereador da Câmara Municipal de Anápolis, deixou de ser diplomado pelo Juiz Eleitoral Manuel Luis Alves, sob a acusação de ser fichado como comunista na G2 da Polícia Militar de Minas Gerais. Henrique Santillo foi diplomado e empossado quando o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de Goiás, em vista de documentos oficiais buscados por Adhemar em Belo Horizonte e acostados ao processo, atestou não ser Henrique fichado naquela corporação.
1969: Candidato a prefeito de Anápolis pelo MDB, Henrique Santillo teve seu registro de candidatura, diplomação e posse impugnados pelos adversários, sempre com denúncias e documentos falsos. A Justiça Eleitoral não deu provimento a nenhuma das denúncias, mandando-as ao arquivo.
Janeiro de 1971: Encerradas as eleições de 1970, Anapolino de Faria foi o candidato a Deputado Federal mais votado em Anápolis e Adhemar o mais votado para a Assembléia Legislativa. Integrantes do MDB do município, contrários aos Santillo, denunciaram Henrique Santillo, Anapolino de Faria e Adhemar Santillo à Polícia Federal, acusando-os de prática de corrupção eleitoral naquelas eleições. Foi designado o delegado Jesus Lisboa para a realização do inquérito que, concluído, ficou engavetada na Procuradoria Geral do Estado.
Janeiro de 1971: Dos quinze vereadores que compunham a Câmara Municipal de Anápolis, foram eleitos em 1970 dez pertencentes ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e cinco da Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Foram eleitos para a mesa diretora da Camâra, biênio 1971/1972, Antônio Marmo Canedo como Presidente, Walmir Bastos Riberio como vice-Presidente e Walter Gonçalves de Carvalho como Secretário, todos emedebistas e santillistas. Antônio Marmo Canedo faleceu no exercício da Presidência. Para substituí-lo, foi efetivado Walmir Bastos.
1972: Com a morte de Antônio Marmo Canedo, três vereadores do MDB (Lincoln Xavier Nunes, João Divino Cremonez e Pedro Sergio Sobrinho), não ligados a Henrique Santillo, passaram a votar de acordo com os cinco arenistas em oposição ao prefeito. Os adversários lutaram para que Walmir Bastos, Presidente da Câmara, aderisse à ala do MDB oposicionista a Henrique. Não conseguiram e passaram a perseguí-lo com auxílio dos órgãos de repressão, comandados pela Polícia Federal e Delegacia da Ordem Política Social do Estado, sendo preso por três vezes consecutivas. A última prisão de Walmir foi a mais violenta, pois foi retirado sob mira de metralhadoras de dentro do carro em que Adhemar lhe dava uma carona. Foi conduzido à Brasília e dele foi exigido que renunciasse à Presidência da Câmara e ao seu mandato de Vereador. Se cumprida, essa exigência abriria a vaga do Presidente da Câmara Municipal de Anápolis para os opositores ao prefeito. Com isso, usariam o documento do inquérito feito pela Polícia Federal e afastariam Henrique Santillo da Prefeitura. Das duas vezes anteriores, Walmir suportou todas as pressões. Dessa vez, contudo, não resistiu às torturas psicológicas e físicas. Acabou assinando sua renúncia ao mandato e entregou-a ao major Leopoldino, chefe da carceragem em que se encontrava nas dependências do Exército Brasileiro em Brasília. Alertado pelo Deputado Estadual Adhemar Santillo, o presidente nacional do MDB, Deputado Federal Ulysses Guimarães, denunciou a trama à nação e o documento assinado por Walmir Bastos à base da tortura nunca chegou a Câmara Municipal de Anápolis. Walmir cumpriu seu mandato até o final, o mesmo acontecendo com o Prefeito Henrique Santillo.
1 de fevereiro de 1973: Na madrugada do dia em que José Batista Jr. tomaria posse substituindo Henrique Santillo na prefeitura de Anápolis, policiais militares do estado invadiram os estúdios e transmissores da Rádio Carajá, pertencentes aos santillistas desde 1967, alegando cumprir ordens do Departamento Nacional de Telecomunicações (DENTEL). Afastaram os santillistas da sua direção, devolvendo-a ao seu antigo proprietário, Plínio Jayme.
Maio de 1973: Adversários do médico Henrique Santillo exigiram da direção nacional do Instituto Nacional da Previdência Social (INPS) seu descredenciamento daquele instituto, com o objetivo de forçá-lo a mudar-se de Anápolis ou abandonar a luta oposicionista. Algum tempo depois, médicos anapolinos forçaram o INPS a rever a punição, com Henrique sendo recredenciado.
Agosto de 1973: Sete meses após sua posse, o prefeito José Batista Jr. teve seu mandato cassado e seus direitos políticos suspensos por dez anos, com base no Ato Institucional n°5 (AI-5), pelo Presidente Emílio Garrastazu Médici. No mesmo dia, o município de Anápolis foi considerado área de Interesse à Segurança Nacional e o engenheiro Irapuan Costa Jr. nomeado Prefeito.
Setembro de 1973: Adversários dos Santillo, com auxílio da Polícia Federal e do DOPS estadual, prenderam vários integrantes do MDB de Anápolis, dentre eles ex-secretários do prefeito Henrique Santillo e líderes comunitários, levando-os para as dependências do DOPS em Goiânia. O objetivo era arrancar, sob pressão e tortura, denúncias contra Henrique e Adhemar Santillo. A trama só foi desfeita quando o Advogado Vicente Alencar, acompanhado de Adhemar, entregou pessoalmente ao Ministro do Exército, Orlando Geisel, completo relatório dos planos escusos que estavam acontecendo em Goiás.
Maio de 1974: Por determinação do Procurador de Justiça do Estado, o inquérito elaborado pela Polícia Federal em 1971 contra Henrique e Adhemar Santillo foi encaminhado ao Ministério Público de Petrolina, para que apresentasse denúncia contra os dois, com a finalidade de afastá-los da disputa eleitoral daquele ano. O Promotor Decil de Sá Abreu negou-se a fazer a denúncia e o processo foi encaminhado à comarca de Anápolis. Ali, o Ministério Público apresentou a denúncia, que não foi recebida pelo Juiz Eleitoral Clementino Alencar. Caso o juiz a aceitasse, os dois irmãos não poderiam disputar a eleição para Deputado Estadual e Federal como disputaram, pois a lei das inelegibilidades impedia registro de candidatura pela simples aceitação da denúncia pelo Judiciário para esse tipo de crime eleitoral.
25 do Maio de 1975: Rádio Santana Ltda., pequena emissora de rádio-difusão com 250 Watts de potência, adquirida pelos Santillo depois da invasão da Rádio Carajá, foi fechada por determinação expressa do Ministro das Comunicações Quandt de Oliveira. Deixava de ir ao ar o programa noticioso “O Povo falou, tá Falado”, que, desde 1967, era apresentado por Romualdo e Adhemar Santillo.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
MDB perde para ARENA
As consecutivas vitórias do MDB em Anápolis fizeram história na vida política do município, mas os golpes que os emedebistas receberam a partir de 1972 pelas forças da repressão foram muito duros.
José Batista Jr. eleito em 1972 havia sido afastado da Prefeitura. O município fora enquadrado como Área de Interesse da Segurança Nacional. A Rádio Carajá fora invadida, com destituição dos seus administradores, que eram emedebistas. A Rádio Santana fora fechada pelo Ministro Quandt de Oliveira, sendo negada a renovação de outorga para os proprietários, que eram do MDB. Assim estava preparado o cenário que os arenistas entendiam especial para o controle do eleitorado anapolino.
Com a posse do Governador Irapuan Costa Jr., o empresário Jamel Cecilio foi nomeado prefeito, partindo para organizar sua base política no município. Cooptou integrantes do MDB, inclusive para se candidatarem pela Arena nas eleições municipais de l976.
Contando apenas com os que resistiram e poucas lideranças novas que apareceram, formamos a chapa emedebista para disputar as vagas na Câmara Municipal. Nossos companheiros contavam tão somente com apoio popular.
Enfrentamos esta campanha contra recursos financeiros, estrutura do poder econômico, tráfico de influências, sem ter como recorrer legalmente. Nesse clima desfavorável e com forças tão desiguais fomos para a disputa eleitoral de 1976.
Realizado o pleito e apurados os votos, perdemos por pouco mais de setecentos votos, elegendo sete vereadores, enquanto a Arena ficou com oito cadeiras.
Esse resultado estimulou os arenistas, que alardeavam ter iniciado a marcha para a destruição do MDB e dos Santillo.
Mesmo não sendo uma vitória extraordinária devido à desigualdade na composição da lista dos candidatos e poder econômico usado pelos nossos adversários, além da força política para aliciar eleitores, foi motivo de grande festa para eles e um desafio para nós.
Como não tínhamos nada mais a fazer, só nos restavam a perseverança, ousadia e a esperança sempre presentes na nossa atitude e nos nossos discursos:
– Companheiros, este é um resultado atípico, fruto de arranjo unindo inúmeros fatores que favoreceram nossos adversários nesta eleição. Vamos nos preparar para as eleições de l978 e, com apoio do povo, vamos mostrar a força do MDB. Vamos trabalhar desde agora para uma grande vitória contra os inimigos da democracia em Anápolis, como já fizemos em l974!
Foi o que aconteceu.
Nos pleitos seguintes isto se confirmou com as vitórias do MDB em todas as eleições que disputou até 1988.
“O povo falou, tá falado”
O refrão da música se tornou um símbolo de resistência contra o autoritarismo, numa época em que apenas dois partidos determinavam a posição política do eleitor: ao lado das forças do governo ou a favor da oposição. Arena e MDB dividiam o palco político numa luta desigual.
“Não adianta ir contra o povo, o povo falou, tá falado!”
Sinhôzinho, músico, cantor e compositor anapolino fez esta música para a campanha de Raul Balduíno e este pequeno trecho tornou-se abertura e nome de um programa de rádio que era a voz da oposição e dava espaço para que nós, Henrique, Romualdo e eu, diariamente estivéssemos em contato com a população através das emissoras Carajá e depois Santana.
Quanto mais ferrenha a nossa oposição ao regime arbitrário e antidemocrático mais sofríamos o peso do poder federal e estadual tentando tolher nossas ações.
A perseguição aos integrantes do MDB era implacável.
A rádio Carajá de propriedade do ex-deputado Plinio Jayme havia sido adquirida e transferida sua gerência para um grupo de integrantes do MDB em 1967. Os serviços de transmissão funcionaram normalmente, com os novos gerentes, por seis anos até 1973 sem qualquer restrição do DENTEL – Departamento Nacional de Telecomunicações. A Rádio Carajá era abertamente a voz da oposição, com o programa ‘O povo falou, tá falado’.
Em fevereiro de 1973, no dia da posse do prefeito José Batista Jr., tivemos mais uma mostra da truculência e intolerância da ditadura. Naquela madrugada a Rádio Carajá havia sido invadida pela Polícia Militar e só poderia voltar a funcionar se fosse devolvida ao seu antigo proprietário. A justicativa era que o DENTEL considerava a transferência irregular, autorizando uso da força militar do Estado para invadir seus transmissores e estúdio. Tivemos que nos afastar da emissora que foi devolvida ao Sr. Plinio Jayme.
No autoritarismo em que vivíamos nada era feito dentro da lógica. Tudo girava dentro da conveniência dos ditadores. Estavam em curso novos golpes que viriam posteriormente.
Poucos meses depois, no dia 28 de agosto, o radicalismo dos adversários contra o MDB levou a cidade de Anápolis a ser transformada em Área de Interesse da Segurança Nacional, com a cassação política do prefeito eleito José Batista Jr. e prisões de companheiros.
Este radicalismo em nada contribuiu para a vitória da Arena, o partido do governo, nas eleições de 1974. Nessas eleições, os que receberam maior número de votos em Anápolis foram Henrique Santillo para deputado estadual, Lázaro Barbosa, para o Senado, e eu, para Deputado Federal.
Os eleitos tomaram posse em janeiro de 1975 e a receptividade à mensagem do MDB aumentava cada vez mais entre a população de Anápolis, empolgada com o sucesso eleitoral e político de oposição ao regime autoritário.
A cidade de Anápolis passou a ser um desafio para o partido do governo, a Arena, e para as forças de repressão que para ali direcionaram as ações da Polícia Federal e até do Dentel – Departamento Nacional de Telecomunicações, coordenado na região pelo Coronel Alarico Jácome.
A Rádio Santana, com pequena potência, 250 Watts, adquirida por integrantes do MDB, informava e mobilizava os anapolinos contra a política oficial do regime militar. A transmissão do programa “O povo falou, tá falado” era o grande obstáculo para os adversários do MDB. Sem argumentos para contrapor o que era divulgado diariamente pela emissora e incomodados com a grande receptividade na população, arquitetaram o fechamento da Rádio Santana.
O Dentel, por ordem do coronel Alarico Jácome, solicitou à Polícia Federal que fizesse plantão diário nos estúdios da Rádio Santana. Cópia do programa “O povo falou tá falado” tinha, obrigatoriamente, que ser enviada ao Dentel todos os dias. Contamos com os amigos e companheiros, advogados Vicente de Paula Alencar e Altair Garcia Pereira, o Braguinha, que se revezavam na defesa semanal dos questionamentos que eram feitos seguidamente pelo Dentel à programação jornalística da Rádio Santana.
Henrique, Romualdo e eu, estávamos sempre juntos nas decisões e sabíamos que poderiam vir duras retaliações contra a nossa emissora, mas não arrefecíamos nosso combate contra a ditadura, em favor da democracia. Diretamente de Brasília, onde exercia o mandato de Deputado Federal, eu participava diariamente do programa “O povo falou, tá falado”, levando ao ar questões nacionais ou comentando as declarações de Henrique e Romualdo. Aos sábados, em Anápolis, participava ao vivo, ao lado deles.
No início do mês de abril de 1975 circularam incessantes rumores pela cidade dando conta de que a emissora seria fechada, uma vez que nossos adversários arenistas estavam incomodados com a audiência da Rádio Santana.
No dia 7 de abril daquele ano, o Diário Oficial da União publicou Portaria nº 324 do Ministério das Comunicações, assinada pelo titular da pasta, Ministro Euclides Quandt de Oliveira, declarando perempta a concessão da Rádio Santana Ltda. de Anápolis. Foi definitivamente tirada do ar no dia 25 de maio de 1975.
O último programa “O Povo falou tá falado” foi levado ao ar de forma emocionante. Com um pronunciamento do Henrique, Deputado Estadual à época, Romualdo e eu ao seu lado dentro dos estúdios, foram encerradas as transmissões da Rádio Santana, que tiveram início em março de 1958.
Foi mais um duro golpe aplicado contra os direitos democráticos. Usaram de expedientes arbitrários durante todo o tempo para tentar calar nossas vozes. Não conseguindo, usaram da força e do autoritarismo para interromper o mais eficiente instrumento que tínhamos para comunicar com a população, a Rádio Santana Ltda.
Continuamos nossa tarefa usando as tribunas dos parlamentos, concentrações públicas e domiciliares. Intensificamos a partir daí, ainda mais, o contato direto com o povo, numa cruzada incansável e permanente pelo retorno da democracia no país.
Demorou, mas conseguimos.