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domingo, 1 de agosto de 2010

O espinafre revigorante

Publicado na edição de 01/08/2010 do jornal Diário da Manhã

Sempre gostei muito de futebol. Deixava de ir à escola para treinar com o Flamengo, no campo que ficava entre Visconde de Itauna e Benjamim Constant, no bairro São Jorge, ou com Araguaia, na Coréia, avenida Souza Ramos, na Vila Santa Isabel. Meu sonho era jogar pelo Ypiranga. Em 1957 fiz parte da sua equipe juvenil ao lado de Pepey, Zanone, Roberto, Roosevelt Guerra, Dada, Ronaldo Pistolinha, Euripinho, Roldão e Teotônio Brandão. Nosso técnico era Anastácio Ferreira Barbosa. A rapaziada alvinegra era imbatível. Em 1959 juntamente com mais quatro ou cinco juvenis fomos para a equipe titular que ganhou o campeonato daquele ano.

A maior satisfação, gloria, de qualquer atleta do futebol goiano naquele tempo, era jogar contra o Goiânia Esporte Clube. Derrotá-lo se constituía em proeza para poucos. A primeira experiência que tive num confronto assim, não foi nada confortante. Jogamos contra os juvenis de Goiânia, num jogo noturno no estádio Pedro Ludovico. Nossa seleção anapolina dos novos, perdeu para a seleção juvenil goianiense, à base do Goiânia, por 9 x 0. Alguns dias após essa humilhante derrota o Ypiranga recebeu a equipe vencedora, na festa de colocação de faixas de campeão anapolino de 59. Vingou o futebol anapolino derrotando a seleção goianiense por 2 x 1, no estádio Manuel Demóstenes.

Com a conquista do campeonato anapolino, o Ypiranga disputou o estadual vencendo a equipe do Ceres , no Vale do São Patrício, por 1 x 0. Em seguida enfrentou o todo poderoso Goiânia Esporte Clube no estádio Manoel Demóstenes. Goiânia contava, dentre outros, com Uberaba, Manduca, Cisquinho, Foca, Salsicha, Lili, Osmar e outros consagrados craques do futebol goiano.

As acanhadas depedências do estádio estavam superlotadas. O Goiânia dominava a partida. Quem marcou primeiro foi o Ypiranga, numa jogada bem tramada de Glicério, Guerrinha e Edson Galdino. Em pouco tempo Foca empatou, para Salsicha fazer 2 x 1, no minuto final do primeiro tempo. No intervalo, nós os mais novos da equipe Ypiranguista, fomos ao Botéco do Zé, reforçar nossas energias, com uma dose de capilé. Fazíamos isso desde a época que atuávamos no juvenil. O Boteco do Zé ficava do lado de fora do muro do estádio Manuel Demóstenes. Uma abertura feita no muro servia de balcão para que o público interno fizesse suas compras de bebidas alcoólicas, refrigerantes, quitandas e salgados.

Pepey, Zanone, Roberto, outros atletas e eu, sabiamos que o capilé, por ser um melado de açúcar, repunha as energias perdidas. Já era nosso hábito proceder dessa forma. Só depois íamos para o vestiário receber as instruções técnicas.

Euripinho, o mais completo driblador da nossa equipe, só se aproximava do Botéco do Zé depois que havíamos saído. Nunca tomou o capilé ao nosso lado. Nesse dia fiquei um pouco para trás e ainda o vi pedindo ao Zé:

- Quero o espinafre revigorante!

Pegando a garrafa, Zé colocou o líquido no copo e lhe entregou. Não deu para que eu pudesse perceber o que era o espinafre revigorante, pois me encontrava relativamente distante do botéco. Só sei que não era capilé. Nós que sempre tomávamos capilé, não tínhamos o habito de dar “dose para o santo.” Não retorcíamos o corpo fazendo careta. Não estalávamos o dedo indicador dando chicotada, conforme fizera Euripinho. Aguardei seu retorno para irmos ao vestiário:

- Euripinho, que é espinafre revigorante? Perguntei.

- Capilé misturado a groselha! Respondeu.

- Os dois não são a mesma coisa? Indaguei.

- Misturados produzem efeito multiplicador. Ressaltou.

No segundo tempo, bastante vermelho, suando por todos os poros, lépido e endiabrado, Euripinho desequilibrou a partida. Marcou em pouco mais de 15 minutos, dois gols que nos deram a vitória por 3 x 2. Ao final do jogo, sem teste anti-doping, Euripinho nos disse de forma espontânea que espinafre revigorante era o nome da cachaça artesanal fabricada pelo Zé.

domingo, 13 de junho de 2010

Raul Silva, o craque anapolino (Final)

Publicado na edição de 13/06/2010 do jornal Diário da Manhã

Raul Silva, o maior artilheiro do futebol anapolino, em 1949, deixou a rubra. Não concordava com a panelinha dos Puglisi – Júlio, Zeca e Laudo, que só jogavam entre eles. Deixou a equipe, transferindo-se para a União Esportiva Operária em troca de Amir de Souza Ramos, o Mirim, que estava contundido e sem jogar na União Operária.

Em 1953, Raul assistia à partida entre o Flamengo Futebol Clube de Anápolis e o 1º de maio de Goiânia, no Estádio Manoel Demóstenes .O rubro-negro anapolino perdia por 3 x 0. Seu ataque não furava o forte bloqueio dos goianienses. João Queiroz, comandante flamenguista, solicitou a Raul que reforçasse sua equipe. Providenciou todo material esportivo ao artilheiro. Raul marcou 5 gols, sendo que um não foi validado pelo juiz, por não ver a bola entrando e saindo por um buraco na rede. Flamengo venceu por 4 x 3. O último gol, Raul que havia passado pelo zagueiro e tocado a bola entre as pernas do goleiro, foi derrubado. O goleiro caiu sobre o artilheiro. Na queda, Raul fraturou o menisco. Operado, não ficou totalmente recuperado, encerrando sua carreira de futebolista aos 36 anos.

Em 15 de março de 1951, nasceu o São Francisco, sob a presidência de Boulanger Brossi. Teve como presidentes de honra, frei André Quinn e o major Mauro Borges. Em 15 de novembro de 1952, nasceu o Ypiranga Atlético Clube, sob a presidência de Daas Bittar e assessoramento de David Esteves de Azevedo.

Em 1949, foi fundada a Liga Anapolina de Desportos. No mesmo ano, foi disputado o primeiro campeonato anapolino de futebol. A Associação Atlética Anapolina foi a campeã. A rubra venceu os campeonatos de 1950, 1951 e 1952, chegando ao tetra campeonato municipal. Em 1953, o campeão foi o São Francisco. Em 1954, o Anápolis Futebol Clube. Em 1955, novamente o São Francisco foi campeão e encerrou suas atividades esportivas. Em 1956, a Anapolina venceu o Anápolis na partida final, por 2 x 1, sagrando-se mais uma vez campeã. Em 1957, cinquentenário de Anápolis, o campeão foi o Ypiranga. Em 1958, o Anápolis. Em 1959, o campeão anapolino foi o Ypiranga. Em 1960, mais uma vez sagrou-se campeã a Associação Atlética Anapolina. Nos anos de 1961/62, foi campeão o Ypiranga.

Em 31 de agosto de 1963, foi inaugurado o 1º campo com gramado, alambrado e arquibancadas em Anápolis. O Estádio Irani Ferreira Barbosa, pertencente ao Ypiranga, no Bairro Jundiaí. O primeiro jogo no Irani Ferreira Barbosa foi entre Ypiranga e Uberlândia. Vitória do alvinegro por 2 x l. Gols ipiranguistas de Carlos Eli Jardim e Valter Gomes Veloso, Dada.

Em 10 de abril de 1965, foi inaugurado o Estádio Jonas Duarte com o jogo seleção Anapolina x São Paulo Futebol Clube. O São Paulo venceu por 4 x 1.O primeiro gol foi marcado por Rodarte, do São Paulo. Neste mesmo ano, o Anápolis sagrou-se campeão goiano, já no profissionalismo. Repetiu o que sua antecessora, União Esportiva Operária, conseguira em 1947. Em 04 de junho de 1987, próximo de completar 70 anos, faleceu Raul Silva, o maior artilheiro que passou pelos campos de Anápolis.

Adhemar Santillo foi atleta do Ypiranga, cronista esportivo e presidente da Liga Anapolina de Desportos.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O homem que dava nó em goteira

Publicado na edição de 20/04/2010 do jornal Diário da Manhã

Depois de jogar futebol na equipe varzeana do Araguaia, ao lado de Jair Braz, Menezes, Manoel, Vicente, Evandro, Roque, Zé das Velhas, Geraldo Canseira e outros, comandados pelo técnico João Maquinista, fui para a equipe juvenil do Ypiranga, atuando ao lado de Roosevel, Zanoni, Pepei, Roberto, Roldão, Dadá, Teotônio e Ronaldo Sabag, dirigida por Anastácio Ferreira Barbosa. Conquistamos inúmeras vitórias, ganhamos incontáveis trofeus e medalhas.

Em 1959, realizei o sonho de jogar pelo time principal do Ypiranga, presidido por David Esteves de Azevedo, o Santa Luzia, treinado por Geraldo Bacalhau. Saindo da equipe juvenil ao lado de Zanoni, Roberto, Pepey e Dadá, compunhamos com Issinha, Tibico, Edson Galdino, Glicério, Luiz Pavão, Aires e Guerrinha o elenco alvinegro, campeão anapolino daquele ano, pela Liga Anapolina de Desportos.

O jogo final do campeonato foi contra nosso maior rival, Anápolis Futebol Clube. As duas equipes estavam com a mesma quantidade de pontos ganhos. Quem vencesse seria o campeão. Empate levaria a decisão para disputar melhor de quatro pontos. Naquele tempo, cada vitória representava dois pontos. O empate dava a cada time um ponto.

A decisão estava marcada para o Estádio Manoel Demóstenes. O tricolor anapolino possuía forte equipe, formada, dentre outros, por craques como Jair Braz, Osvaldo, Nera, Nilo, Girico, Aluísio, Carlinhos e Paulo Choco. Ypiranga e Anápolis jogariam com seus principais atletas. No círculo esportivo da cidade, só se comentava sobre a decisão do campeonato anapolino.

Surpreendentemente faltando 24 horas para a partida, a Junta Disciplinar Desportiva, da Liga Anapolina de Desportos, por solicitação feita pelo presidente do Ypiranga, David Esteves, marcou reunião extraordinária para julgar Paulo Choco, do Anápolis, expulso de campo num dos jogos anteriores, pelo campeonato.

O julgamento aconteceu no sábado, poucas horas antes da final, no auditório do Hospital Evangélico Goiano, na Praça James Fanstone. Atletas expulsos de campo, normalmente eram condenados, no mínimo, a duas partidas oficiais. A suspensão por uma partida não era automática, como acontece hoje. Enquanto não houvesse o julgamento, poderia jogar.

Encerrada a sessão de julgamento do maior craque da equipe tricolor, a estrela do Anápolis, a JDD, por maioria dos seus integrantes, suspendeu Paulo Choco por uma partida. De nada valeram os apelos e protestos dos anapolinos. Paulinho, como era mais conhecido, ficou fora do clássico decisivo, no domingo. No outro dia, portanto. O Ypiranga venceu a partida por 1 x 0, gol de Guerrinha, e foi campeão.

Quando os jornalistas perguntaram ao presidente alvinegro, após a reunião extraordinária da JDD, menos de 24 horas antes da decisão, como conseguira que fosse realizado o julgamento algumas horas antes do jogo, derrotando a forte equipe de advogados que defendia o tricolor, tirando da final a maior estrela do Anápolis, David Esteves, que possuía apenas o curso ginasial, respondeu com leve sorriso:

– Em futebol, 10% são letras; 90% são tretas!

Na festa de colocação da faixa de campeão, enfrentamos e vencemos o Goiânia, no Estádio Manoel Demóstenes, por 2 x 1.

David Esteves de Azevedo, longe do futebol, mora hoje em sua fazenda, no distrito de Souzânia, em Anápolis. É considerado um dos maiores dirigentes que o futebol anapolino teve em todos os tempos.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Xata, o segundo time de todos

Publicado na edição de 13/04/2010 do jornal Diário da Manhã

A Associação Atlética Anapolina, a Rubra ou Xata, como carinhosamente é conhecida, no passado foi um time de poucos adeptos. Seus próprios torcedores a classificavam como a equipe de 33 simpatizantes. Só a família Puglisi representava mais da metade de toda sua torcida. Simpática, formada por atletas dedicados, torcedores do São Francisco, Induspina, Anápolis e Ypiranga, se uniam aos poucos torcedores rubros quando o time enfrentava outra equipe que não fosse a sua. Dessa forma quando jogavam Anápolis e Anapolina, torcedores do Ypiranga torciam freneticamente pela Xata. O mesmo acontecia com os torcedores do Anápolis quando a Rubra enfrentava o Ypiranga. Por isso nunca se soube exatamente o tamanho da sua torcida.

Juca, Pedruca, Arnaldo, Joãozinho, Nego, Iberê, Fogueira, Célio Sabag, Zeca, Laudo, Celso Campos, Sergio, foram algumas das figuras importantes da Xata no tempo do amadorismo. Já próximo ao surgimento do profissionalismo fizeram parte da equipe Patinho, Calango, Ferracioli , Teles, Roberto e Roberto Bim, dentre outros vindos de Minas e São Paulo.

O mais emblemático torcedor de futebol em todos os tempos, em Anápolis, foi Caetano, da Anapolina. Mineiro de Uberaba, trazido para o município pelo seu sogro Garibaldi Paulino, que se encontrava na cidade desde 1933, a convite do prefeito dr. Valente, para o ajardinamento das praças Americano do Brasil, Bom Jesus e a Chácara das Rosas. Antes de vir para Anápolis, Antônio Caetano Júnior, o Caetano, já era torcedor fanático do Clube de Regatas Flamengo e do Uberaba Esporte Clube. Admirava tanto o Uberaba que o presidente da Xata, Anapolino de Faria, quando assumiu a prefeitura em 1982, acertou com o maestro da Banda Lira de Prata de Santana, que a banda iniciasse e finalizasse suas apresentações com marcha Uberaba Esporte Clube.

Cunhado do goleiro Juca, um dos craques mais queridos da Anapolina em todos os tempos, Caetano se simpatizou logo com a Xata, participando integralmente das suas atividades esportivas. Era show à parte. Chamava os torcedores de Anápolis e Ypiranga,seus principais adversários e cujos uniformes eram listrados, de “vestidos de zebra.” Onde quer que se encontrasse no Manoel Demóstenes fazia a alegria dos torcedores. Para Caetano, os atletas da Anapolina não tinham defeito. Adversário chutando errado, gritava “ Óh o pé dele Carpaneda!”.

Carpaneda era um ferreiro que tinha sua oficina em Anápolis. Quando alguém precisava de serviço de ferragem, principalmente que usasse bigorna, procurava a oficina do Carpaneda. Na base da bigorna, forno de alta temperatura e pesadas marretas, tudo se resolvia na ferraria do Carpaneda. Duelo extra-campo extraordinário acontecia quando jogavam Anapolina e Anápolis. Caetano do lado rubro enfrentando Mané Padeiro e Teodora, símbolos marcantes da torcida tricolor. Terodora comparecia aos jogos do Anápolis impecavelmente vestida, sempre carregando sua inseparável sombrinha, geralmente nas cores do seu time. Ficavam distantes um dos outros, se respeitando mutuamente.

Num desses jogos o atacante Zeca Puglisi driblou toda defesa do Anápolis, marcando gol de placa. Caetano foi ao delírio. Como havia evitado o tempo todo Teodora e Mane Padeiro, resolveu se aproximar dos dois, extravasando sua alegria pela frente no placar e beleza do gol marcado. Quando menos esperava, Teodora saiu do meio da torcida tricolor e partiu para cima dele quebrando a sombrinha na sua cabeça. Caetano socorrido pelo médico da Anapolina, já recuperado do susto e da agressão sofrida, foi abordado por Teodora lhe cobrando uma nova sombrinha. Não querendo briga, muito menos com uma dama, lhe deu a sombrinha.

Caetano faleceu em 18/11/1961, deixando lacuna impreenchível, nos estádios da cidade. Grande parte da simpatia que torcedores de outros clubes tinham pela Associação Atlética Anapolina, vinha da figura carismática de Antônio Caetano Jr., o Caetano de “Óh o pé dele Carpaneda”. Mais de 90% dos torcedores do Ypiranga torcem hoje pela Xata, a maior torcida de Anápolis.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Histórias de Cronistas e do Futebol

Publicado na edição de 27/03/2010 do jornal Diário da Manhã

Nunes Macedo, grande repórter de pista dos anos 60/70, na Rádio Brasil Central, antes de ser cronista trabalhava como encanador, em Anápolis. Fanático por futebol e pretendendo mudar de profissão, fez curso de árbitro, na escola da Liga Anapolina de Desportos. Foi aluno brilhante.

Sua estreia foi no jogo Serraria x Castilho, pelo Campeonato Anapolino. Estádio Manoel Demóstenes lotado. Nunes Macedo se impunha pelo conhecimento das regras, imparcialidade e acompanhamento das jogadas. Jovem, com muito vigor físico e amando a nova profissão, estava onde a bola ia.

Num lance violento praticado pelo lateral esquerdo Batata, do Serraria, jogador de estatura mediana, forte e corpulento, Nunes não teve dúvida, apitou pênalti e expulsou o zagueiro de campo. Antes que Aluísio, artilheiro do Castilho, fizesse a cobrança, Batata desferiu um torpedo de braço esquerdo na testa do árbitro, jogando-o ao chão.

Só recobrou os sentidos 40 minutos depois, no Pronto Socorro do Hospital Evangélico. Nunes Macedo nunca mais apitou nem pelada de rua, preferindo continuar como encanador. Só retornou aos estádios, retomando o gosto pelo futebol, bem mais à frente, como repórter, pela Rádio Imprensa, sob o comando de Jayro Rodrigues.

Petrônio Cruz, comentarista esportivo da Rádio Santana, só chegava ao jogo no final do segundo tempo. Fazia seu comentário intermediário por telefone, depois de ouvir nossa narração enquanto fechava o caixa do matinê, no Cine Vera Cruz, onde era gerente. Muitas vezes, quando a frequência ao cinema era maior, não ouvia a transmissão. Comentava sem ao menos saber quais os times que jogavam.

Gedeon Camargo, hoje militando na crônica esportiva de Uberlândia, começou a carreira como repórter na equipe da Rádio Carajá. Num jogo Anapolina x Anatex, pelo campeonato da LAD, entrevistou o zagueiro Orlando, da Anapolina. A xata não vencia há quatro partidas. Quis saber do zagueiro o porquê de tantos tropeços:

– Orlando, como você explica essa hecatombe que ocorreu na Anapolina ?

Como o zagueiro se confundiu completamente com a pergunta, respondendo coisa sem nexo, como “não é verdade que tenha comido feijoada...”, Gedeon o cortou:

– Orlando, parece que não fui entendido. Gostaria que você explicasse como justificar a debacle da Anapolina no campeonato?

Antônio Afonso de Almeida foi o pioneiro locutor esportivo em Anápolis. Da escola de Valdir Amaral da Rádio Globo do Rio de Janeiro narrava os lances de forma lenta e detalhada.

Para gravar no Estádio Pedro Ludovico, em Goiânia, partida entre as seleções de Goiás e Mato Grosso, com ele foi Clovis Guerra, chefe do departamento de Jornalismo da Rádio Carajá. Gravador grande, fitas trocadas com frequência, monitorado por Clovis. Faltando 20 minutos para o término e a última fita de que dispunham chegando ao final, Clovis, desesperado gritou para Afonso:

– Acelere, narre mais rápido! Seja como Pedro Luiz, da Bandeirantes! Lento assim a fita não vai dar.

A Rádio Carajá funcionava na parte superior de um prédio do Banco Estado de Goiás na Praça do Bom Jesus. Na parte superior externa do imóvel havia um possante alto falante, transmitindo toda programação da emissora. Às 11 horas, no seu programa esportivo, desportistas lotavam a praça em frente à emissora para se inteirar das últimas do esporte.

Mané Padeiro, que fazia a entrega de pães e roscas em sua carroça tipo baú, era presença cativa. Chovesse ou fizesse sol, às 11 horas lá estava ele com sua carroça. Torcedor fanático do Anápolis, naquele dia estava impaciente ao saber que Nilo, Carlinhos e Felinho, jogadores do tricolor, poderiam se transferir para o Ypiranga, maior adversário do Anápolis. Deixou a carroça no acostamento da calçada e foi para o meio da plateia.

Antônio Afonso, o radialista, fez a pergunta a um dos atletas que estavam na relação dos que poderiam mudar de time:

– É verdade que você está deixando o Anápolis, se transferindo para o Ypiranga?

O “não”, dito pelo jogador, foi com o som emitido pelo contato da língua com os dentes superiores:

– Dhi, dhi, dhi, dhi... Idêntico ao que os carroceiros utilizam para que o cavalo vá em frente.

Aquele som, velho conhecido do animal que servia Mané Padeiro, ampliado pelo alto-falante, fez com que o cavalo saísse em disparada carreira pela Rua Barão do Rio Branco, despejando pães e roscas pelo caminho. Só parou quando foi contido por populares na Praça Santana.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Futebol amador: minha paixão

Mesmo não sendo um craque bom de bola, sempre gostei de jogar futebol. Creio que estar com os amigos e participar das disputas eram o que mais me atraía.

Mas minhas experiências futebolísticas foram encerradas muito cedo, quando recebi junto com a equipe do Ipiranga Atlético Clube, a faixa de Campeão Anapolino de 1959.

Logo depois, o Anápolis Futebol Clube, a Associação Atlética Anapolina e o Ipiranga Atlético Clube deixavam a LAD, Liga Anapolina de Desportos passando à Federação Goiana de Futebol, disputando o campeonato profissional.

A LAD, dirigida pelo senhor Manoel Gonçalves Cruz, pai de Petrônio, Aécio, Pepey, Carlota e Consolação, praticamente ficou desativada. Sem sede própria para atender seus filiados, sem recursos financeiros para sua manutenção, a situação da LAD tornou-se difícil para agregar e apoiar os times que sobraram. Os principais times integrantes da Liga passaram a ser o Anhangüera, o Maracanã, o Mago, o União, o Flamengo, o Vila Góis, o Santa Cruz, o Anatex e outros poucos clubes representantes de bairros e vilas da cidade.

Manoel Cruz decidiu se afastar da presidência da LAD, passando o cargo ao seu secretário Alfredo Marcelino, que alugou um pequeno cômodo comercial perto do antigo Estádio Manoel Demóstenes, à Rua Quintino Boicaiúva com Travessa Cangussu, e mesmo sem energia elétrica, atendia ali os times amadores.

Valdivino Reginaldo, presidente do União Esporte Clube e Ilidio Garcia, presidente do Flamengo Futebol Clube, me procuraram para que eu aceitasse que indicassem meu nome para concorrer à presidência da LAD. Sem outro concorrente, fui eleito no ano de 1965 presidente da Liga Anapolina de Desportos.

Assumindo o cargo, passei a sede da Liga para minha própria, casa à Rua Rui Barbosa e enquanto organizava o campeonato amador, levei ao prefeito Raul Balduíno a reivindicação dos desportistas para construção da sede própria da entidade.

Em 1967 com a LAD melhor estruturada, fui reeleito presidente como candidato único. A decisiva colaboração do vereador Laudo Puglisi foi fundamental para que o prefeito Raul Balduíno construísse o campo de futebol amador de Anápolis, em área que pertencia ao Internacional Esporte Clube, uma equipe fundada e dirigida por Bill Fanstone.

Em 1968 o estádio dos amadores foi inaugurado, recebendo o nome de Zeca Puglisi, em homenagem ao irmão do vereador Laudo Puglisi, falecido havia alguns anos, artilheiro da Associação Atlética Anapolina. Atendendo a nossa reivindicação, foi construída na parte inferior da arquibancada coberta do estádio a sede própria da Liga Anapolina de Desportos, onde funciona até hoje.

Por ocasião da inauguração da sede, o secretário da LAD era Milton Alves Ferreira que depois foi vereador, vice-prefeito de Anápolis e Deputado Estadual, sendo hoje conselheiro do Tribunal de Contas do Estado.

A construção do estádio dos amadores possibilitou intercâmbio com clubes amadores de Goiânia. Todos os anos as quatro melhores equipes da Liga Anapolina de Desportos disputavam um octogonal com Santa Helena, Campinas, Vila Operária e Vila Coimbra, times amadores da capital. As disputas eram emocionantes, com jogos em Anápolis e em Goiânia, com claro equilíbrio entre as equipes.

Em 1969, mais uma vez como candidato único, fui eleito para um terceiro mandato como presidente da LAD. Em 1971, sobrecarregado pelas minhas atividades como Deputado Estadual, passei o comando da entidade para João Leite de Morais, com o futebol amador de Anápolis em plena ascensão.

Assim foi a minha colaboração direta ao futebol amador anapolino, como presidente da Liga Anapolina de Desportos.

Sempre enfrentei desafios

Minha mãe sempre dizia que eu era teimoso.

Desde criança, quando queria fazer alguma coisa, insistia até conseguir realizar.

Sempre fui determinado, característica que me acompanha em toda a

vida. Sempre lutei por aquilo que quero e sonho.

Ainda jovem, apaixonado por futebol, fui jogar no juvenil do Ipiranga Atlético Clube. Nesta categoria, a nossa equipe era a melhor da cidade nos anos de 1957 e 1958.

Estávamos todos preparados para ascender ao time principal, quando ouvi o presidente ipiranguista, David Esteves de Azevedo, afirmar a um grupo de amigos que ouvia na Praça do Bom Jesus o programa esportivo das 11 horas pelo auto falante da Rádio Carajá instalado no telhado do prédio onde hoje funciona o Banco Itaú, que todos do time juvenil comandado por Anastácio Ferreira Barbosa, tinham condição para integrar o time principal, menos o Adhemar.

Enfrentei a crítica como desafio, redobrei meus esforços e assumi a vaga de lateral direito no time titular. Fui o único a jogar todas as partidas do campeonato anapolino de 1959, quando fomos campeões da cidade.

Da mesma forma aconteceu na eleição para o Grêmio Literário Castro Alves, do Colégio Estadual José Ludovico de Almeida, para substituir Gil Xavier Nunes na presidência. Ninguém queria enfrentar a popularidade do estudante Sebastião França, o Zé Gia, comandante da Frente Libertadora, que havia dado vitória ao Juca Ludovico em Anápolis contra Mauro Borges, para o governo do Estado naquele ano, 1960. Sebastião França tinha grande preferência dos estudantes, mas o enfrentei vencendo o pleito por 13 votos na mais renhida e emocionante disputa registrada na história do Grêmio Castro Alves. Fiz uma administração tão eficiente e popular que culminou com minha reeleição, mesmo não sendo esse meu objetivo.

Quando trabalhava pela minha reeleição para Deputado Estadual, em 1974, assumi com determinação a candidatura a Deputado Federal para o impedir que Henrique Santillo, abandonasse a vida pública. Não havia me preparado, mas fui para a disputa num momento em que figuras tradicionais como Anapolino de Faria e José Freire se afastavam da disputa por não concordarem com os constantes casuísmos aplicados pelos ditadores de plantão. Ganhei a eleição como o segundo mais votado do MDB. Henrique o mais votado Deputado Estadual.

Numa bancada com aproximadamente 100 deputados federais, com apenas dois anos de convivência parlamentar na área federal, integrante de uma pequena bancada composta por 5 deputados eleitos pelo MDB, enfrentei a disputa interna no partido para o preenchimento da mais importante função do MDB na mesa diretora da Câmara dos Deputados, a vice-presidência. Com a garra de leão, cheguei ao final do primeiro escrutínio em 2º lugar. A bancada federal havia decidido que o representante do partido seria escolhido pela maioria absoluta dos votantes. Ninguém conseguiu a maioria absoluta na primeira votação. Disputei e venci Getulio Dias, integrante do grupo autêntico, por larga margem de votos. Fui eleito num pleito considerado por parlamentares e pela imprensa nacional como surpreendente.

Depois de ter sido convidado por Iris Rezende para ser seu vice-governador, nas eleições de 1982, honraria da qual abri mão para não prejudicar a possível candidatura de Henrique Santillo ao governo em 1986, fui convidado por Iris, antes mesmo do pleito realizado, para ser seu secretário de educação. Aceitei de pronto e me preparei para a missão que muitos consideravam que eu não desempenharia bem. Até hoje tenho o orgulho de ser aclamado pelas lideranças políticas e educacionais como o realizador de grande administração.

Enfrentei com muita disposição uma cirurgia de grande porte para retirar um tumor maligno, uma pinta no rosto diagnosticada como melanoma, que foi descoberto pelo dr. Jorge Mateus Simões, a quem devo o alerta que salvou minha vida. Depois de uma campanha eleitoral para a prefeitura de Anápolis, na qual não tive sucesso, fui ao dermatologista para tratar de umas manchas no braço. O médico dermatologista dr. Jorge medicou-me dizendo ser as manchas em questão sem importância, mas pediu-me que tirasse uma pinta no rosto. A pequena cirurgia foi realizada pelo dr. Evaristo Bueno que por precaução encaminhou o material para biópsia. O exame detectou melanoma grau III, tumor de grande gravidade.

A dra. Maria Paula Curado, auxiliada pelo dr. Roberto Di Conti, no Hospital Santa Helena, em Goiânia, fizeram o esvaziamento em meus rosto e axila, num procedimento demorado. Após todo o processo operatório, sei que a minha determinação, a competência da equipe médica e a vontade de Deus, me deram nova chance de vida.

Estas determinação e responsabilidade em concluir todas as tarefas que me proponho a realizar são virtudes que carrego desde meus tempos de juventude.

Não tendo o costume de fazer as tarefas pela metade, me inscrevi, com mais de 30 concorrentes, para uma prova de corrida para pedestres, de 8 mil metros, nos festejos de aniversário de Anápolis. A largada aconteceu em frente ao cine Santana, na Praça do Bom Jesus. A chegada foi marcada para o mesmo local. Fiz todo o trajeto com muita dedicação e força de vontade, embora muito atrás do campeão e vice. Cheguei ao final. Uma pequena assistência me aplaudiu freneticamente quando Antonio Abrão Isaac, o Tonico Isaac, e Jahudeir Lobo, o Esquerdinha, cronometrista da prova, anunciaram pela Rádio Carajá, que transmitia a corrida:

– Parabéns! Parabéns! Adhemar Santillo, atleta do Ipiranga, venceu pela persistência. Chegou em 3º lugar e leva como prêmio uma caneta.

Com a chegada quase que simultânea do campeão e do vice, os demais corredores desistiram. Eu fui até o fim, mesmo chegando muito tempo depois, quando muitos achavam até que a corrida já havia terminado e por isso já não havia quase ninguém para assistir minha façanha, além, é claro, dos árbitros da prova.

Como líder estudantil, presidente do Grêmio Literário Castro Alves, do Colégio Estadual José Ludovico de Almeida ou Presidente da União dos Estudantes Secundaristas de Anápolis, sempre fui bastante atuante e batalhador. Essa prática geralmente causa atritos com os administradores escolares ou dos setores questionados. Nunca tive intenção de contrapor a ninguém por capricho pessoal ou por futilidades, procurando sempre agir com justiça.

Walmir Bastos Ribeiro, na época líder estudantil e posteriormente eleito por sete vezes consecutivas vereador pelo MDB e PMDB, havia sido reprovado por não haver conseguido a nota mínima em francês, matéria facultativa no currículo do 2º grau, mas constante no currículo do Colégio Estadual José Ludovico de Almeida. No ano seguinte teria que repetir a mesma série pela reprovação em francês. Antes que as aulas iniciassem a Secretaria Estadual de Educação decidiu que naquele ano, o seguinte ao da reprovação do Walmir, francês seria excluído do currículo. A direção do colégio insistia na sua reprovação. Tive que recorrer até ao Conselho Estadual de Educação para reformar a decisão da Diretoria do Colégio garantir sua aprovação, visto que a matéria em que fora reprovado não contaria mais do currículo. Aprovado, Walmir Bastos Ribeiro ficou conhecido entre os estudantes como o aluno que passou por decreto.

Com o golpe militar de 1964 fui afastado da presidência da UESA – União dos Estudantes Secundaristas de Anápolis, cuidando apenas dos meus estudos e do trabalho como cronista esportivo e redator para o rádio jornalismo. Concluí naquele ano de 1964 o curso cientifico. Fiz a inscrição para o exame ao vestibular da Faculdade de Ciências Econômicas de Anápolis, FACEA. O curso científico do Colégio Estadual dava base de conhecimento para que alunos tivessem sucesso no vestibular, sem necessidade de “cursinhos”. Vários daqueles alunos passavam nos exames ao vestibular de medicina, engenharia, economia em Universidades concorridas. Como eu me sentia bem preparado na área de ciências exatas, prestei vestibular para a FACEA, Faculdade de Ciências Econômicas de Anápolis, que era procurada também por concluintes de cursos normall ou clássico sem muito preparo nesta área. Em matérias como Literatura Brasileira, Geografia, História meu desempenho foi ótimo, segundo afirmaram os professores dessas matérias. Em Matemática o Professor Hermógenes apresentou questões que estavam à altura de serem respondidas por qualquer concluinte de segundo grau.

Realizadas as provas escrita e oral, foi apresentada a relação dos aprovados. Como meu nome não contava entre os aprovados, indignado, pedi revisão de provas da matéria, sendo atendido pela comissão de avaliação. Não foi feita a revisão da prova, mas deram-se a oportunidade de realizá-la novamente, com o mesmo professor. Dia e horário acertados compareci à Faculdade acompanhado do estudante Gil Ferreira que havia sido aprovado no vestibular e fora meu colega no Colégio Estadual. Hermógenes apresentou como observadores os professores Roland Vieira Nunes, José da Cunha Bastos e Maura Helena Simões. Reagi:

- Professor, mesmo tendo respeito pelo trio de professores que

senhor apresenta, sugiro que Gil Ferreira também assista a prova, porque conhece a matéria.

Sem contestação foi aceita minha indicação e passamos às provas. Foram feitas cinco questões, todas desenvolvidas integralmente. Encerrado o questionamento, pensando que estava resolvida a prova,. Hermógenes sentenciou:

- O senhor confirmou a nota da prova oral.

- Quanto foi a nota?

- O senhor está com quatro.

Quase perdi a paciência, mas controlei e perguntei:

- Professor, de quanto eu vou precisar na prova escrita para garantir minha aprovação?

- O senhor vai precisar de no mínimo quatro pontos.

- Professor, agora o senhor venha com tudo porque não vai conseguir o intento de me reprovar.

- Você prefere responder 10 perguntas de um ponto cada ou cinco perguntas valendo dois pontos cada uma?

Preferi responder dez questões valendo um ponto cada uma.

Quando havia respondido quatro perguntas, senti que havia escorregado na resposta de uma delas. Hermógenes buscou a parte mais complexa e difícil do curso secundário, para formular as questões. Algumas delas o quadro negro não comportava o desenvolvimento e a resposta. Ao responder a quinta questão, indaguei:

- Professor, quantos pontos eu tenho até agora?

- Nesta prova o senhor já tem quatro pontos.

- Estou satisfeito, não quero responder o restante das questões.

Dali fui para a Praça do Bom Jesus onde os calouros e veteranos da FACEA faziam a festa do trote para os aprovados. Tive, como os demais a cabea raspada, o rosto pintado e comemorei alegremente com os aprovados. Matriculei-me e fui à aula no primeiro dia letivo. Despedi-me dos colegas e nunca mais retornei à FACEA como aluno.

Voltei à FACEA em 1983 como Secretário de Educação de Goiás para ajudar a instituição sair do caos em que se encontrava, não tendo obtido apoio necessário dos governos anteriores. Ainda como Secretário implantei seis cursos de Licenciatura naquela unidade, propiciando a criação do embrião da futura UNIANA, hoje UEG.

A experiência esportiva do Romualdo



– Vamos ao assistir o treino hoje, Romualdo!

Fui incisivo com meu irmão que, diferente de mim, não gostava de futebol. Mas o meu desejo era de que ele se entrosasse com o esporte e naquele dia consegui que ele me acompanhasse ao treino do time do São Francisco, filiado à Liga Anapolina de Desportos.

Ao contrário de Romualdo, meu irmão mais novo, sempre gostei de esporte e tive o meu ápice como jogador de futebol quando recebi a faixa de Campeão Anapolino de 1959, um dos poucos atletas do Ipiranga Atlético Clube que disputou todos os jogos, quando decidi parar de jogar.

Antes, porém, disputei o campeonato estadual pelo Ipiranga Atlético Clube.

Aquele campeonato teve jogos memoráveis dos quais um em que o Ipiranga venceu o Ceres Esporte Clube, em Ceres por 1x0. Fui o marcador do seu melhor atacante, Jairzinho, que em seguida foi vendido à Sociedade Esportiva Palmeiras. No Estádio Manoel Demóstenes, campo de terra, o único existente em Anápolis, o Ipiranga venceu o Goiânia Esporte Clube, o melhor time do futebol goiano naquele tempo, por 3x1.

Minha despedida foi sem nenhum alarde, sem comunicar nem mesmo aos meus colegas de equipe, principalmente Pepey e Zanoni, que mais que companheiros de futebol, eram meus amigos nas caminhadas noturnas de final de semana.

Geraldo Bacalhau, ex-jogador do Operário, campeão goiano de 1946, era o técnico ipiranguista, campeão de 1959 e acertou com a Federação Goiana de Futebol um jogo entre a seleção dos novos de Goiânia e a de Anápolis. O jogo foi no Estádio Pedro Ludovico, numa noite de quarta-feira. Geraldo formou a seleção que entendia ser a melhor para representar o futebol anapolino. Fui o titular na zaga lateral direita. Ao final a vitória foi dos goianienses, pelo elástico e humilhante placar de 9 a 0. Isso mesmo, 9x0. Chegamos a Anápolis sendo tratados como os integrantes da seleção dos nove.

No domingo seguinte, a seleção goianiense compareceu completa, com os ídolos do Goiânia Esporte Clube, Taxinha, Carlinhos, Gambá, Osmar e todos que nos humilharam em Goiânia. O Ipiranga também com todo o seu time que vencera o campeonato anapolino, entre eles Pepei, Zanoni, Roberto, Dadá , Glicério e eu, que haviamos enfrentado os goianienses e perdido por 9 x 0.

Antes dos 20 minutos marcamos 1x0. No inicio do 2° tempo a seleção dos novos de Goiânia marcou o gol de empate. Aos 35 minutos fizemos o gol da vitória. Vencemos a famosa seleção goianiense em nossa casa, vingando a derrota que nosso time sofrera na capital.

Recebi a faixa e fui pra casa. Daí para frente só joguei na equipe de radialistas e jornalistas e no time do Colégio Estadual Jose Ludovico de Almeida. Minha paixão passou a ser a política estudantil. Vivi intensamente o futebol até completar os 19 anos. Continuei a vibrar com ele, mas como assistente, torcedor ou narrador esportivo.

Eu era tão fanático por futebol que muitas vezes os treinos no Araguaia ou no Ipiranga, que eram à tardezinha, me impediam de comparecer às aulas, já que estudava no período noturno, porque trabalhava durante o dia.

Tentei de toda maneira arrastar o Romualdo para as mesmas aventuras, sem sucesso. A primeira vez que aceitou meu convite, era um garoto franzino de 12 anos e me acompanhou ao Estádio Manoel Demóstenes. Era um treino do São Francisco integrado por craques como Hugo, Valquinho, Guerrinha, Olegário, João Campos, Célio Sabag e Américo Stival. O campo era cercado por ripas que faziam às vezes de alambrado. Romualdo ficou sentado sobre a cerca, no fundo do gol, onde os jogadores batiam bola para treinamento do goleiro Flavio Santos. Numa bola rolada para fora da área o zagueiro Américo bateu forte, acertando em cheio a testa do Romualdo, que desprevenido caiu da cerca:

– Não volto nisso mais nunca! Não adianta me chamar!

Saiu limpando a roupa suja de terra e com um galo enorme na cabeça, que ainda me deu trabalho para explicar para nossa mãe.