Mostrando postagens com marcador Deputado Estadual. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Deputado Estadual. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Dossiê fajuto de 1971 reapareceu em 1974

Querendo nos afastar das disputas eleitorais, os arenistas, juntamente com nossos adversários dentro do MDB, contaram com a Polícia Federal em Goiás, para que fosse montado processo, dossiê criminosamente dirigido contra nós, (Henrique Santillo, Adhemar Santillo e Anapolino de Faria), sob a acusação de que máquinas da Prefeitura de Anápolis teriam trabalhado nos municípios de Ouro Verde, Petrolina e Goianápolis em troca de apoio político a Anapolino de Faria para deputado federal, e para mim, como deputado estadual.

Documento faccioso, parcial, desprovido do mínimo de seriedade. Tão escandaloso que foi montado pela Polícia Federal a pedido da Arena e de alguns adesistas do MDB de Anápolis, para que fosse usado pelos adversários de Henrique Santillo,quando prefeito, na Câmara Municipal. Não conseguiram afastar Valmir Bastos da Presidência, mesmo com toda a pressão e violência praticadas contra ele pelos órgãos governamentais de repressão. Até o Major Leopoldino, pelo Exército Brasileiro, foi usado na tentativa de afastá-lo. Não conseguiram. Diante disso a papelada elaborada pela Polícia Federal, que não teve como ser usada pelos vereadores na Câmara Municipal, ficou na gaveta do Procurador de Justiça do Estado, Bechara Daher. Foi desengavetada às vésperas da convenção do MDB em que Henrique e eu nos inscrevemos para disputar a eleição de 1974.

A primeira investida de Bechara foi através do Ministério Público em Petrolina. Encaminhou a papelada ao promotor daquela Comarca, Decil de Sá Abreu, para que oferecesse denúncia contra nós (Henrique e Adhemar). Anapolino de Faria, por não concorrer à reeleição, foi excluído do processo. A legislação eleitoral previa que em crime eleitoral, como o que queriam nos enquadrar, oferecida a denúncia pelo Ministério Público e aceita pelo Juiz Eleitoral, tornava o denunciado inelegível.

Decil de Sá não se dispôs a participar da farsa. O processo poderia ser encaminhado, ainda, para Goianápolis ou Anápolis. A comarca de Goianápolis foi descartada porque o juiz estava em licença para tratamento de saúde. Encaminhado a Anápolis, foi distribuído ao promotor Helton de Morais Sarmento, que ofereceu a denúncia. Encaminhado ao Juiz Eleitoral Clementino de Alencar Lima, pela falta de consistência das provas arroladas processo, não aceitou a denúncia. Foi para o arquivo, sem que o Ministério
Público recorresse ao Tribunal Regional Eleitoral.

Com mais uma vitória contra ações golpistas engendradas pelos nossos adversários políticos em Goiás, sempre contando com o respaldo de integrantes da repressão, registramos nossas candidaturas às eleições de 1974. Durante a campanha, principalmente após o início dos programas eleitorais pelo rádio e televisão, o crescimento da aceitação do MDB junto ao eleitorado foi surpreendente. A eleição geral para deputados estaduais e senadores daquele ano que, na visão de alguns, seria a última para o MDB, foi marcante e se transformou num avanço democrático irreversível. Mesmo com todo o casuísmo existente, que aumentou escandalosamente nos anos seguintes até a extinção da ditadura. Por falta de fôlego, foi extinta em 1985. Mas o início real da sua queda começou em 1974... (Continua)

terça-feira, 24 de abril de 2012

Os adversários continuaram em pânico!

Com a cassação de José Batista (em agosto de 1973), alguns integrantes do MDB de Anápolis foram aliciados pela Arena. Queriam, porque queriam, levar o partido a apoiar a nova administração municipal, chefiada por Irapuan Costa Júnior. Marcamos reunião do diretório para eleger nova Executiva. Pressão implacável sobre os companheiros. Gente humilde, desempregada, recebeu oferta de empregos. Ninguém se rendeu às ofertas. Aquela mesma turma que se unira a Arena tentando a cassação de Henrique Santillo e que apoiou Euripedes Junqueira, contra José Batista Júnior, queria agora acabar com a oposição em Anápolis.Os companheiros, mesmo pressionados de todo tipo, ficaram ao nosso lado afastando os adesistas.

Nós do MDB de Anápolis que fazíamos oposição incansável aos governos do Estado e Federal, passamos da mesma forma a ser oposição em Anápolis. No programa “O Povo Falou, Tá Falado”, pela Rádio Santana, levávamos diariamente a palavra de ordem do partido.

Os adversários não se conformavam com nossa disposição de luta. Notaram que não cederíamos às pressões e truculência. Buscaram nos intimidar por outros meios. A primeira investida foi a de realizar devassa nos documentos da prefeitura. Julgavam que encontrariam irregularidades na administração de Henrique Santillo.

Já naquela época, 1970, Henrique acreditava no desenvolvimento do Município através da industrialização. Criou a lei municipal de incentivo fiscal às empresas novas que se instalassem em Anápolis. Essas empresas ficariam isentas do pagamento dos impostos municipais por um período de 5 (cinco) anos.

Empresários anapolinos montaram nesse período, a Panificadora Bom Jesus. Por se enquadrar ás exigências e benefícios da lei, requereram à prefeitura a isenção de pagamento dos impostos municipais por cinco anos. O grupo era formado por pessoas ligadas políticamente a Henrique Santillo. O prefeito encaminhou a solicitação à Procuradoria municipal para oferecer parecer jurídico. Seu parecer foi favorável à concessão da isenção.Foi elaborada a minuta do decreto de isenção e anexada ao requerimento.

Com base nessa devassa promovida em toda documentação da administração de Henrique Santillo, a única coisa que encontraram foi essa solicitação de isenção de pagamento de impostos municipais feita pela Panificadora Bom Jesus.

Eu era deputado estadual. Numa sessão da Assembléia, quando discursava criticando o governador Leonino Caiado, fui aparteado pelo deputado Elcival Caiado. Além de primo do governador representava a Arena de Anápolis. Levantou a questão do benefício fiscal que Henrique Santillo fizera aos seus amigos da panificadora em Anápolis:

- “Vossa excelência está aí criticando o governador, mas se esquece que o seu irmão Henrique Santillo, isentou de pagamento de impostos em Anápolis, um grupo de amigos.”

- “ Não é verdade, deputado”, respondi.

Elcival foi até seu gabinete, e voltou com papel timbrado com o brasão da prefeitura de Anápolis. Leu o inteiro teor do Decreto com o nome do prefeito Henrique Santillo.

Assim que fez a leitura, para um plenário em silêncio, lhe respondi:

- “Esse documento não está assinado por Henrique Santillo!” Repeti por várias vezes que o documento não estava assinado.

Elcival Caiado reconheceu que não havia assinatura do prefeito. Tratava-se da minuta de decreto. Mesmo sendo legal, o prefeito não havia concedido o benefício à Panificadora Bom Jesus.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Por Não Se Dobrar, Foi Perseguido

O vereador Walmir Bastos Ribeiro foi o grande sacrificado pela briga interna no MDB de Anápolis. Nas eleições de 1970, Walmir Bastos Ribeiro se candidatou à reeleição. Apoiou minha candidatura a deputado estadual e Fernando Cunha Júnior a deputado federal. Fiz dobradinha com Anapolino de Faria que buscava sua reeleição a deputado federal. Wolney Martins de Araújo e Ronaldo Jayme, também candidatos a deputado estadual, apoiaram Fernando Cunha. Raul Baduíno, que antecedeu Henrique Santillo na prefeitura de Anápolis, foi candidato a uma das três vagas ao Senado. Vagas abertas com o final do mandato de José Feliciano Ferreira e as cassações de Juscelino Kubitschek e Pedro Ludovico Teixeira. Pedro Ludovico Júnior e Gerson de Castro Costa completaram o trio emedebista. Pela Arena, participaram e foram eleitos Osires Teixeira, Benedito Vicente Ferreira ( o Benedito Boa Sorte) e Emival Caiado. Terminadas as eleições, o grupo mais conservador do MDB rompeu politicamente com Henrique Santillo. Três dos dez vereadores que pertenciam à bancada, Lincoln Xavier Nunes, Pedro Sergio Sobrinho e João Divino Cremonez passaram a votar com os cinco arenistas na Câmara Municipal. Com isso, a bancada de apoio ao prefeito que representava 2/3 dos vereadores, passou a ser minoritária de 7 contra 8. Os adversários de Henrique Santillo queriam a presidência da Câmara Municipal. Era preciso co-optar Wlamir Bastos, o presidente.

Convidado para um almoço com os emedebistas que conspiravam contra Santillo, Walmir, bom de garfo e estômago, comeu muita leitoa, churrasco de picanha e contra-filé. Bebeu whisky (18 anos) de várias marcas. Ouviu música ao vivo e recebeu infinidade de cumprimentos e tapinhas nas costas. Ao final da confraternização, seus organizadores e líderes do movimento, vendo que o vereador estava no ponto, passaram ao que lhes interessava. Apanharam assinaturas dos presentes num manifesto de contra Henrique Santillo. Ao solicitarem a assinatura de Walmir:

- Não sou golpista! Não faço jogo da ditadura! Fico com Henrique.

Desgostosos com sua atitude, Walmir passou a sofrer perseguição dos orgãos de repressão em Goiás. Foi preso pela Delegacia de Ordem Política e Social - DOPS e Exército, em Brasília.

Preso por agentes de polícia do Estado, ficou encarcerado em Goiânia por mais de duas semanas. Em liberdade, continuou exercendo normalmente seu mandato, presidindo o Legislativo. Na segunda vez, estava distribuindo panfleto sob o título: "Uma voz que não se cala diante das ameaças." Nesse panfleto, Wlamir denunciava ao povo de Anápolis as ameaças que vinha recebendo e pressão para renunciar a presidência da Câmara. Na terceira vez, estava comigo num Volkswagem, quando chegaram integrantes da Polícia Federal, fortemente armados, retirando-o do carrosob a alegação de que seria levado para prestar depoimento na sede da PF em Anápolis. Foi para o setor de investigações criminais do Exército, em Brasília, ficando preso por mais de 30 dias. Só foi solto quando assinou, ao major Leopoldino, responsável pelo inquérito, carta-renúncia do mandato. Para surtir os efeitos legais o documento teria de ser lido em sessão plenária da Câmara Municipal. O pedido de renúncia nunca apareceu. Walmir Bastos desempenhou seu mandato até o final.

Os golpistas queriam a renúncia ou afastamento do presidente, para que pudessem eleger um novo presidente para a Câmara, já que possuíam 8 dos 15 votantes. Com isso, pretendiam afastar Henrique Santillo da prefeitura. A resitência de Walmir Bastos, a toda violência contra ele, foi reconhecida por todos os democratas, como ato de bravura e heroísmo. Papel importante tiveram no desmantelamento dessas ações criminosas, Ulysses Guimarães, presidente Nacional do MDB e Jayro Brun, líder do partido na Câmara Federal.

terça-feira, 13 de julho de 2010

O início de uma dura caminhada (I)

Publicado na edição de 08/07/2010 do jornal Diário da Manhã

Em 1973, disputei meu primeiro mandato eletivo na política partidária. Eleito ao lado de 11 companheiros do MDB, a uma vaga na Assembleia Legislativa de Goiás. Havia participado antes de várias disputadas eleitorais, mas na política estudantil e esportiva. Duas vezes presidente do Grêmio Literário Castro Alves, do Colégio Estadual José Ludovico de Almeida; primeiro presidente da União dos Estudantes Secundaristas de Anápolis – Uesa, pelo voto direto; três vezes presidente da Liga Anapolina de Desportos-LAD. Votação consagradora dentre todos os candidatos que concorreram à Assembleia Legislativa e Câmara Federal, em Anápolis. Pela legenda do Movimento Democrático Brasileiro o deputado estadual mais votado e o terceiro dentre os integrantes do legislativo goiano.

A honraria que me foi conferida nas urnas, consolidou o compromisso que tinha de lutar com todo ardor pelo retorno à democracia. Com muita responsabilidade o mandato foi exercido sem concessões à ditadura. Perplexos percebemos que nós, os santillistas, enfrentaríamos os usurpadores do poder e grande parte do MDB anapolino, formado por adesistas e oportunistas incrustados no partido. Presenciamos a fuga de quase todo MDB de Anápolis, abandonando o nosso candidato José Batista Júnior, em 1972, para apoiar o candidato arenista. Camuflando o adesismo se autointitularam “MDB- Positivo”. Eles que esperavam com a vitória arenista nos sufocar, sentiram a força popular, que deu estrondosa votação a Batista Júnior. Apenas o deputado Anapolino de Faria e meia dúzia de “gatos pingados” ficaram com a candidatura emedebista, comandada por Henrique Santillo. Sofremos quando no dia da posse de José Batista a Rádio Carajá, pertencente a integrantes do MDB, foi invadida e sua direção afastada pela força das armas da Polícia Militar do Estado, a mando do Dentel. Com indignação e revolta, demos conhecimento aos goianos, no dia 28 de agosto de 1973, pela tribuna da Assembleia Legislativa, a cassação do mandato do prefeito José Batista Júnior e perda da autonomia política de Anápolis, por decreto do general Emílio Garrastazu Médici. Ao lado de Derval de Paiva e toda bancada do MDB, passamos uma noite inteira lutando contra aprovação de projeto de lei, elaborado sorrateiramente na calada da madrugada, transformando a cidade de Goiás, em Estância Hidro-Mineral. Com isso, os governistas tiraram do povo o direito de eleger o sucessor do prefeito Dário de Paiva-MDB. Soltamos e defendemos companheiros humildes do interior presos por estarem organizando o MDB em seus municípios. Assistimos e denunciamos os sequestros de Godofredo Sandoval, Jalme Fernandes, Valdivino Pereira e Eles Nogueira, por forças da repressão, levados para local e prisão ignorados.

Toda bancada emedebista nos seus protestos e denúncias sempre contou com o respaldo do jornal Cinco de Março, dirigido pelo jornalista Batista Custódio. Nas edições do jornal, um semanário vibrante e compromissado com a democracia e a verdade, dava à bancada do MDB, o mesmo espaço que oferecia aos governistas. Como a imprensa diária desconhecia ou minimizava os acontecimentos por nós denunciados e a televisão garroteada pela censura federal, se omitia completamente, o Cinco de Março exercia o extraordinário papel de bem informar a população goiana. O jornal semanalmente, mesmo nas cidades mais distantes, era repassado de mão em mão, atingindo os leitores e formadores de opinião. Assim como o MDB de Goiás foi contundente no combate à ditadura, o jornal de Batista Custódio, com muita coragem e responsabilidade manteve a sociedade goiana bem informada, sem qualquer tipo de censura. Em inúmeras ocasiões, a grande imprensa do eixo Rio-São Paulo, se valia de informações divulgadas em primeira mão, pelo jornal Cinco de Março, para repercutir algum fato ocorrido na política goiana. Naquele momento foi importante meio de comunicação e o único a oferecer espaço à oposição no Estado...

sábado, 22 de maio de 2010

Queda e retorno da autonomia política

Publicado no jornal Contexto

O 28 de agosto de 1973 aparentava ser um dia como outro qualquer. Muito sol, ventava bastante, quando cheguei à Assembléia Legislativa, em Goiânia, para a sessão plenária , que seria realizada pela manhã. A diferença, a novidade, ocorreu em seguida quando fui informado por um telefonema de Brasília, que José Batista Júnior, prefeito de Anápolis, acabara de ter seu mandato cassado, direitos políticos suspensos por 10 anos. O vice prefeito Milton Alves Ferreira não fora cassado, mas impedido de tomar posse, pois no mesmo ato assinado pelo general Emilio Garrastazu Médici, nomeava o engenheiro Irapuan Costa Júnior, como primeiro prefeito nomeado de Anápolis, que naquele dia foi transformada em Área de Interesse à Segurança Nacional.

Violência inconcebível praticada contra um povo que não se rendia e jamais se rendeu aos caprichos dos prepotentes e inimigos das liberdades democráticas. José Batista Júnior que vencera a eleição enfrentando toda máquina oficial do governo e poderio econômico, soube da sua cassação por noticiário de rádio, quando voltava de Goiânia, sem ser atendido pelo secretário da Segurança Pública, onde fora para tratar de assuntos daquela pasta em Anápolis.

Foram 12 anos sem eleição para a prefeitura e 8 prefeitos nomeados. Nesse período o MDB continuou ganhando todas as eleições que disputou no Município. A única exceção ficou por conta da eleição para vereadores ocorrida em 1976, em que a Arena elegeu oito vereadores e o MDB, sete. Durante esse tempo companheiros humildes foram presos; várias tentativas os adversários fizeram para cassar nossos mandatas – Henrique Santillo e meu; impediram Henrique de atender pelo INPS; tentaram pelo suborno comandar o MDB municipal; assumiram a direção da Rádio Carajá através de força policial e fecharam a Rádio Santana, onde apresentávamos o programa “ O Povo Falou ta Falado.”

Fizemos inúmeros encontros políticos, discursos, debates nas comissões técnicas da Câmara Federal, simpósios estudantis na Câmara Municipal e reuniões domiciliares. mantendo acesa a luta pela autonomia política de Anápolis. O vereador Valmir Bastos Ribeiro foi verdadeiro “leão” nessa luta. Preso inúmeras vezes, torturado e permanentemente perseguido, Valmir foi exemplo de lealdade aos companheios e convicto defensor do estado democrático de direito. Graças à sua dedicação e prestigio conseguiu trazer a Anápolis, para debater política e fortalecer a luta pelo retorno da autonomia política do Município, figuras como Ulysses Guimarães, Aldo Fagundes, Odacir Klein , Freitas Nobre, Jaison Barreto, Tarcisio Delgado e outros expoentes do MDB nacional.

Estamos neste ano completando 25 anos do retorno ao direito do anapolino escolher pelo voto livre e soberano, o seu prefeito. Tenho muito orgulho de ter participado dessa luta gigantesca e vitoriosa. Satisfação de ter sido eleito pelo voto direto o primeiro prefeito depois do fim de prefeitos nomeados.

Os jovens, aqueles que contam com menos de 30 anos, não sabem os prejuízos causados pela ditadura. Não foram apenas as perdas materiais. Essas são repostas. Os maiores malefícios ocorreram no impedimento de formação de novas lideranças.As lideranças políticas de maior expressão na política nacional são remanescentes de l964. Lideranças autenticas, mas que estão paulatinamente desaparecendo. O autoritarismo e leis de exceção impediram o surgimento de substitutos. Estamos com carência de lideres autênticos. Fruto do regime ditatorial. Para que isso não mais se repita, não devemos deixar que as atrocidades caiam no esquecimento, principalmente dos jovens.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Coadjuvante de uma grande causa

Publicado na edição de 01/04/2010 do jornal Diário da Manhã

A primeira vez que disputei eleição por partido político foi em 1970, como candidato a deputado estadual pelo MDB. Meu irmão Henrique Santillo já havia disputado e vencido as eleições para vereador em 1966 e prefeito em 1969, também pelo MDB. Fiz parte dos 12 que formaram a bancada emedebista na legislatura de 1971/1975, reduzida logo no início, com a adesão de Clarismar Fernandes à Arena.

Com a cassação das principais lideranças oposicionistas no Estado, sendo a mais traumática delas a do prefeito de Goiânia, Iris Rezende Machado, o prefeito de Anápolis surgia como a grande esperança da oposição goiana. Ao mesmo tempo em que Iris Rezende era cassado e direitos políticos suspensos por 10 anos, foram suspensas as eleições diretas para os governos estaduais, substituídas por eleições indiretas pelas Assembleias Legislativas. Como a Arena possuía maioria nos Estados, só ficou sem o governo do Rio de Janeiro, onde a maioria era do MDB.

A frustração do eleitorado goiano com a cassação de Iris e suspensão das eleições diretas para o governo em 1970, foi pouco a pouco cedendo lugar ao otimismo que contagiou o Estado inteiro, pela resistência que partia de Anápolis. Seu povo dava vitórias consecutivas e cada vez mais expressivas ao MDB.Isso ficou claro em 1972, com a vitória maiúscula de José Batista Júnior à prefeitura, contra todas as forças governistas.

Nem mesmo a cassação de José Batista Junior, em 28 de agosto de 1973, transformação de Anápolis em Área de Segurança Nacional e outra vez a suspensão da eleição direta para governador em 1974, tiraram a motivação dos goianos pela redemocratização. A maior prova foram as eleições dos emedebistas Lázaro Ferreira Barbosa ao Senado, cinco deputados federais e Henrique Santillo para a Assembleia Legislativa, com mais de 32 mil votos, naquele ano.

De toda essa maratona cívica participei como coadjuvante de Henrique Santillo, na sua luta pela redemocratização do Brasil e chegar ao governo do Estado. Por conhecê-lo, acreditava nele. Em 1974, como candidato natural a deputado federal, Henrique no último instante disse que só lhe interessava ser candidato a deputado estadual, porque não queria abandonar sua atividade de médico, o que aconteceria se fosse para Brasília. Mesmo me tendo preparado para ser candidato à reeleição, disputei a cadeira de deputado federal para que ele não se afastasse das disputas. Fui reeleito mais duas vezes para a Câmara Federal, sempre dentro do projeto de consolidar sua candidatura ao governo.

Minha eleição para a 2ª vice-presidência da Câmara dos Deputados, 77/78 , foi visando seu projeto político. Assumi a secretaria da Educação em 1983, primeira administração de Iris Rezende, para fortalecer seu nome junto às lideranças municipais.

Com emoção vi em 1982, Henrique Santillo, a maior liderança política goiana naquele instante, forjada na oposição e combate à ditadura, abrir mão da sua natural candidatura ao governo, para Iris Rezende Machado, entregando-lhe um eleitorado motivado, organizado e imbatível. Essa força peemedebista goiana foi demonstrada na disputa para o Senado em 1978, quando a dupla Henrique/Juarez derrotou os arenistas Osires/Jarmund/Jonas.

A partir daquele resultado, não havia a menor dúvida, em qualquer eleição majoritária que ocorresse em Goiás, o PMDB venceria. Pelo trabalho prestado e vitórias obtidas, Henrique Santillo era a maior liderança política em Goiás. Como o grande nome, apenas adiava um pouco mais seu sonho de governar o Estado. A alegria seria em dose dupla em 1986: ser governador de Goiás depois de sepultada a ditadura. Participei com muito orgulho dessa tarefa cívica e patriótica em prol dos brasileiros.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Perseguições e Armadilhas

– Adhemar, durante o meu período na prefeitura, não pude desenvolver minhas atividades profissionais como gostaria, não posso ir para Brasília se for eleito Deputado Federal.

Meu irmão estava disposto a se candidatar a Deputado Estadual ou não seria candidato a qualquer outro cargo assim que encerrou seu mandato de prefeito em Anápolis.

Queria ter mais tempo para exercer a medicina.

Ao deixar a prefeitura em 1972, Henrique voltou a trabalhar como médico pediatra no Hospital Santa Paula, atendendo pelo INPS e em raros casos, a consultas particulares.

Com o credenciamento do INPS – Instituto Nacional de Previdência Social, cada médico tinha uma cota mensal de consultas. Cumprida esta cota o INPS não remunerava os atendimentos excedentes. A maioria dos médicos se limitava a atender o número de consultas remuneradas pelo INPS.

Henrique não admitia que crianças voltassem para casa sem serem consultadas. Todas as crianças, cujas mães ou responsáveis lhe procurassem, eram atendidas, ainda que ele soubesse que os procedimentos não seriam pagos pelo INPS, ao ultrapassar a cota fixada pelo instituto.

O meu irmão era assim. Era do seu caráter atender aos humildes, por amor e solidariedade às pessoas desprovidas de recursos materiais.

Por atender a todas as crianças que o procuravam, Henrique encaminhava para internação hospitalar um número maior de pacientes que os demais pediatras que atendiam apenas o limite da cota oficial. O que se tornou natural, pois muitas vezes seu atendimento ultrapassava o dobro do atendimento pago pelo INPS.

Nossos adversários políticos o denunciaram, solicitando seu descredenciamento, apresentando como alegação o fato de ele estar internando crianças sem necessidade. Fazendo um levantamento apenas de dados oficiais, sem levar em conta os atendimentos efetivamente realizados e não remunerados pelo instituto, apresentaram a comparação entre as internações solicitadas pelos demais médicos pediatras de Anápolis e as encaminhadas por Henrique.

O Instituto Nacional de Previdência Nacional o descredenciou, não levando em conta as dezenas de pessoas atendidas diariamente no seu consultório.

É claro que houve interferência política daqueles que queriam barrar a grande admiração que Henrique despertava em toda população.

Viveu momentos de privações e sofrimento.

Resistiu com a ajuda da comunidade que acreditava no seu trabalho profissional, continuando a atender crianças de famílias carentes, mesmo sem remuneração.

Teve o apoio da Associação Médica de Anápolis, cujos representantes foram à Brasília desfazendo, depois de algum tempo, a trama que foi usada para descredenciá-lo. Assim, foi reconduzido como credenciado pelo INPS.

– Adhemar, durante o meu período na prefeitura não pude desenvolver minhas atividades profissionais como gostaria, não posso ir para Brasília se for eleito Deputado Federal.

Meu irmão estava disposto a se candidatar a Deputado Estadual ou não seria candidato a outro cargo. Mas logo encontramos uma armadilha no caminho.

No período da ditadura militar, de 1964 a 1985, as leis excepcionais se sobrepunham ao arcabouço de toda Legislação Ordinária. O Ato Institucional nº 5, conhecido como AI-5, era, de todas as leis de exceção, a mais abrangente, pois com este Ato o Presidente da República estava acima da própria Constituição Federal, podendo cassar mandatos eletivos, suspender direitos políticos, transformar eleições diretas em simples indicações pelas Assembléias Legislativas e até fechar o Congresso Nacional, como ocorreu em abril de l977.

Com base no AI-5, José Batista Jr., Prefeito de Anápolis, foi cassado e o município transformado em Área de Interesse à Segurança Nacional.

Com menor abrangência, a Lei de Segurança Nacional também intimidava os opositores ao regime militar. Havia ainda a Lei das Inelegibilidades, instrumento para ser usado pelo Judiciário, dando uma aparência de respeito ao estado democrático de direito.

Nas eleições gerais de 1970, quando Henrique era prefeito de Anápolis, foi reeleito Anapolino de Faria Deputado Federal e eu eleito Deputado Estadual. Alguns adversários no próprio MDB anapolino fizeram denúncia à Polícia Federal, acusando-nos de termos usado as máquinas da prefeitura de Anápolis nos municípios de Nerópolis, Goianápolis e Petrolina, em troca de votos.

Jesus Lisboa, delegado da Polícia Federal, ficou trinta dias em Anápolis ouvindo testemunhas de acusação e de defesa. Todas as audiências foram acompanhadas pelo advogado Vicente de Paula Alencar, integrante do Diretório Municipal do MDB. O aspecto fantasioso das denúncias e a total ausência de provas contribuíram para que o processo ficasse engavetado na Procuradoria de Justiça de Goiás.

Em 1974, Henrique ainda abalado com a cassação do mandato do Prefeito José Batista Jr., a transformação do Município de Anápolis em Área de Segurança Nacional e a suspensão mais uma vez da eleição direta para Governador, confidenciou-me que não disputaria para Deputado Federal por Anápolis, cuja cadeira ficou aberta com o firme propósito de Anapolino de Faria em não disputar mais um mandato. Seria um duro golpe para a nossa luta, pois a nossa visão era de ampliar as nossas forças em busca da redemocratização e do fortalecimento da estrutura emedebista.

Perguntei a Henrique por que não seria candidato a deputado federal, ele me respondeu:

– Adhemar, durante o meu período na Prefeitura não pude desenvolver minhas atividades profissionais como gostaria, não posso ir para Brasília.

– Henrique, e se eu me candidatar a Federal, você disputa para Assembléia Legislativa?

– Isso eu posso fazer. Posso ir à Goiânia e voltar todos os dias, continuando minha atividade médica.

Os companheiros eufóricos pela decisão que tomamos programavam encontros residenciais, concentrações e debates com estudantes, difundindo nossas candidaturas. Ao mesmo tempo, participávamos diariamente do programa “O povo falou, tá falado”, pela Rádio Santana.

Neste ambiente favorável, fui procurado pelo Dr. Decil de Sá Abreu, Promotor Público em Petrolina de Goiás, informando-me que recebera da Procuradoria de Justiça do Estado, processo da Polícia Federal de 1971, com denúncias contra mim e Henrique. Anapolino de Faria por não ser candidato fora excluído do processo. Decil de Sá, no entanto, garantiu-nos que não apresentaria a denúncia, mas que o processo viria para a Comarca de Anápolis com este objetivo, de nos denunciar.

A Lei de Inelegibilidade previa que para os crimes eleitorais, como procuravam nos enquadrar, o simples oferecimento da denúncia pelo Ministério Público e o recebimento pelo Juiz, já nos tornariam inelegíveis. A armadilha já estava pronta. O Ministério Público de Anápolis apresentou a denúncia, ao contrário do Ministério Público de Petrolina, que através do Promotor Decil de Sá Abreu não encontrou elementos que pudessem nos incriminar.

O processo, que se aceito pelo juiz nos tornaria inelegíveis, foi enviado ao Judiciário, distribuído ao Juiz Clementino Alencar, Magistrado corajoso e justo que, por não ter encontrado nos autos qualquer indício que pudesse nos incriminar, determinou seu arquivamento.

Depois desta vitória judicial veio outra, a vitória eleitoral, Henrique eleito Deputado Estadual, o mais votado e eu Deputado Federal, o segundo mais votado da legenda MDB.

Isenção Fiscal Para Amigos

– Vossa Excelência está criticando o governador por ter adquirido aviões, mas não faz nenhuma referência aos favores concedidos por seu irmão, como prefeito de Anápolis, aos amigos e partidários, isentando-os de imposto municipal.

Era a acusação que o deputado da bancada arenista fazia, para depois mostrar um decreto da Prefeitura de Anápolis datado do início da administração do Henrique.

Era uma época difícil, com desafios enormes.

A cassação do mandato do prefeito José Batista Jr. e a transformação da cidade de Anápolis em Área de Interesse da Segurança Nacional trouxeram abatimento para todos nós. Foi mais uma medida autoritária e antidemocrática pesando sobre os anapolinos. Sabíamos que a luta não poderia ser interrompida. Buscamos forças nos nossos ideais políticos e no respaldo popular, para que o ânimo não arrefecesse. Qualquer atitude mais reservada poderia ser interpretada pelos companheiros e pelo povo como fragilidade e derrota. O otimismo era nosso combustível.

Com esta disposição enfrentei a tribuna da Assembléia Legislativa logo após o evento trágico da cassação do nosso prefeito e transformação da cidade em área de Segurança Nacional. A maioria das denúncias e reclamações que chegava à bancada do MDB ia diretamente para meu conhecimento, graças à credibilidade que adquiri junto a toda população goiana. Como não tínhamos gabinetes, despachávamos com os que nos procuravam na sala do líder do partido, José Avelino Rocha, ou nos corredores do Palácio Alfredo Nasser.

Neste dia, magoado pelos acontecimentos políticos em Anápolis, usei o espaço do Grande Expediente para falar sobre violência política praticada contra o povo anapolino e para criticar a ação administrativa do governador Leonino Caiado. No calor dos debates fui aparteado pelo deputado Elcival Caiado, da bancada arenista, representante de Anápolis, que estava inconformado com as críticas que eu fazia ao governador, seu primo e correligionário. Depois de fazer a defesa do governador, partiu contra o MDB de Anápolis, mais precisamente sobre o ex-prefeito Henrique Santillo:

– Vossa Excelência está criticando o governador por ter adquirido aviões, mas não faz nenhuma referência aos favores concedidos por seu irmão, como prefeito de Anápolis, aos amigos e partidários, isentando-os de imposto municipal.

Na administração de Henrique, foi criada a Lei de Incentivo Fiscal, isentando de pagamento de ISSQN e IPTU por cinco anos, todas as empresas novas que se instalassem no município. Alguns amigos nossos instalaram a Panificadora Bom Jesus, existente na Rua Gal. Joaquim Inácio, hoje com outros proprietários, e com base na referida Lei requereram o benefício da isenção dos impostos municipais.

Calmamente ouvi o aparte e de forma rápida e incisiva contestei a denúncia.

Elcival, que havia deixado sua pasta com documentos na sala da presidência da Assembléia, pediu licença para buscar o documento alegando que tinha provas da denúncia que fazia. Enquanto esperava o referido documento continuei meu pronunciamento fazendo denúncias robustecidas por vasta documentação.

Ao retornar ao plenário, com uma folha de papel timbrada com logomarca da Prefeitura Municipal de Anápolis, solicitou novo aparte que lhe foi concedido de imediato:

– Aqui está a prova que embasou minha denúncia.

Leu o Decreto:

– O Prefeito Municipal de Anápolis, com base em Lei Municipal, concede à Panificadora Bom Jesus Ltda. isenção de pagamento de ISSQN e IPTU pelo período de cinco anos a contar da data de publicação deste Decreto. Prefeito Municipal de Anápolis, Henrique Antonio Santillo.

Com a queda de José Batista Jr., os arenistas anapolinos haviam passado um verdadeiro “pente fino” na administração de Henrique Santillo. Apesar de um decreto de isenção de impostos ser público, buscaram esta informação nos arquivos da Prefeitura.

Feita a leitura do documento pelo deputado Elcival Caiado, com os demais deputados surpresos e atentos aos debates, respondi:

– Este documento que o senhor acaba de ler não está assinado por Henrique Santillo.

– Está sim! Respondeu incontinente o deputado Elcival Caiado.

– Não está deputado. Reafirmei.

Elcival reabriu o papel atentamente correu os olhos sobre o inteiro teor do decreto para, ao final, reconhecer que realmente não constava a assinatura do prefeito Henrique Santillo. Por ter direito aos benefícios, os funcionários da Secretaria da Fazenda Municipal e da Procuradoria Jurídica da Prefeitura haviam elaborado a minuta do Decreto.

O prefeito Henrique Santillo na hora de assinar a documentação, feita sua leitura, se negou a conceder o benefício legal de direito à Panificadora Bom Jesus, justamente porque os sócios eram seus amigos e companheiros políticos.

Carta a Orlando Geisel

– É oficial ou particular?

– Particular, respondemos.

– Podem entrar.

Foram várias vezes que este diálogo se deu. Estávamos, Vicente Alencar e eu, no Ministério do Exército para entregar uma carta ao Ministro sobre as prisões arbitrárias que aconteciam em Anápolis.

Depois de Henrique Santillo deixar a prefeitura, de José Batista Jr. ser cassado e a cidade de Anápolis ser transformada em Área de Segurança Nacional, sem direito de eleger o prefeito, uma ação arbitrária e violenta levou à prisão várias pessoas que haviam sido auxiliares de Henrique Santillo na Administração Municipal. Como acontecia na época, os órgãos de repressão não davam informações sobre o paradeiro dos companheiros presos, nem o motivo das prisões. Sabíamos que estavam confinados em alguma dependência de órgãos policiais em Goiânia. Não sabíamos se eram repartições públicas estaduais ou federais.

Decorridos dez dias de prisão arbitrária de companheiros como Jalme Fernandes, Valdivino Pereira, Bertolino Santana, Godofredo Sandoval Batista, Eles Nogueira e outros que estavam incomunicáveis, recebi a visita de José Silva, o Zezinho, companheiro que também estivera preso, trazendo-me notícias dos demais, que, segundo ele, se encontravam nas dependências do DOPS, em Goiânia. Foi claro em dizer que recebeu muita pressão para fazer acusações contra mim, Deputado Estadual do MDB e contra o ex-prefeito Henrique Santillo:

– Tudo gira sobre vocês dois. Estejam preparados, pois querem incriminá-los de qualquer forma.

Imediatamente comuniquei o fato ao amigo e advogado Vicente Alencar, quando elaboramos documento relatando o ocorrido, com objetivo de protocolar habeas corpus e carta ao Ministro do Exército. Fomos a Brasília logo em seguida, numa segunda-feira, impetrando habeas corpus junto ao Superior Tribunal Militar e Supremo Tribunal Federal. Sabíamos que não era competência daquelas duas Cortes de Justiça analisar pedido daquela natureza, mas queríamos mesmo que tomassem conhecimento do que estava acontecendo em Goiás, devidamente relatado na justificativa do pedido.

Com o mesmo teor, elaboramos uma carta para ser entregue ao Ministério do Exército, onde o Ministro Orlando Geisel, irmão do presidente eleito Ernesto Geisel, que seria empossado em alguns dias, substituindo Emilio Garrastazu Médici. Orlando Geisel, que havia sido muito importante para a articulação que levou seu irmão à Presidência da República, era tido como nossa esperança de que seria colocado um ponto final na mesquinharia que vinha sendo praticada em Goiás em nome dos militares no poder.

Chegando ao Ministério do Exército, uma grande quantidade de soldados guardava toda área do prédio, denunciando que alguma coisa estranha estava acontecendo ali, nos obrigando a conversar com o oficial responsável pelo pelotão de guarda. Esclarecemos que nossa intenção era protocolar ofício urgente ao Ministro do Exército, tendo ele nos indagado:

– É oficial ou particular?

– Particular, respondemos.

– Podem entrar.

Quando chegamos ao protocolo, não encontramos ninguém, mas fomos abordados por outro oficial, nos indagando o que queríamos. A mesma informação lhe passamos, que o objetivo era deixar documento para o Ministro.

– É oficial ou particular?

– Particular.

– Por favor, subam até o 8º andar, por aquele elevador.

Pegamos o elevador. Quando sua porta foi aberta pelo ascensorista, chegamos à sala onde estava reunido o Alto Comando do Exército, chefiado pelo Ministro Orlando Geisel. O militar Chefe de Gabinete nos interceptou, fazendo a indagação de costume, ao que respondemos:

– Queremos entregar correspondência importante ao Ministro.

– Particular ou oficial?

– Particular.

– Façam o favor, entreguem a correspondência pessoalmente ao Ministro.

Nós caminhamos em direção ao Ministro e estendemos-lhe a carta, informando tratar-se de correspondência particular do estado de Goiás.

Cumprimos a determinação e nos retiramos pelo mesmo elevador, que já nos esperava. Retornamos a Anápolis e ficamos sabendo que pouco antes da nossa chegada os companheiros presos haviam sido soltos.

Nenhuma outra agressão aos direitos dos companheiros foi praticada em Anápolis e o tão falado processo contra mim e contra o Henrique nunca apareceu. Vicente Alencar e eu nunca ficamos sabendo se a nossa resposta “particular”, que nos abriu as portas em dia de tensão em Brasília, nos levando ao contato direto com o Ministro do Exército, era alguma senha ou se foi coincidência. Certo é que os companheiros foram soltos horas depois de termos entregue a nossa carta denunciando as prisões arbitrárias em Anápolis.

José Batista Jr. e as Histórias

– Os emedebistas têm vergonha de transmitir no rádio o discurso do seu candidato.

Era o que ouvíamos todos os dias dos adversários que nos faziam a maior pressão, pois o discurso do prefeito Henrique Santillo era retumbante, enquanto o do nosso candidato terminava sempre com uma historinha meio sem graça.

Escolhido José Batista Jr. como candidato a Prefeito pelo Movimento Democrático Brasileiro, o MDB, em sucessão a Henrique Santillo, discutimos com ele o seu plano de Administração para Anápolis. Célio Gomes, economista de Goiânia, que viera para auxiliar Henrique, e o jornalista Castro Filho, jornalista, também de Goiânia, e eu, Deputado Estadual, nos reuníamos diariamente com o candidato, orientando como deveria se apresentar nos comícios, que eram transmitidos pela Rádio Carajá.

À noite, no palanque, José Batista Jr. em rápidas palavras destacava realizações da Administração de Henrique Santillo para apresentar em seguida as suas propostas. Logo criava improvisos, a sua característica marcante, baseando-se numa fábula para encerrar seu pronunciamento.

No dia seguinte ao apresentarmos as noticias do comício anterior pelo programa “O povo falou, tá falado”, passávamos o discurso do prefeito Henrique Santillo, que tocava a emoção do eleitor. Todos os dias a história se repetia. A forma clara, direta do José Batista Jr. agradava os eleitores aglomerados nos comícios, que acompanhavam os oradores atentamente. Para programa de estúdio, no entanto, a contundência de Henrique Santillo, seu discurso forte e preciso, era o ideal. Batista Jr. entendia e concordava com a estratégia.

Os nossos adversários, que transmitiam seus comícios pela Rádio Imprensa passaram a cobrar a fala de José Batista Jr. que só acontecia nos comícios:

– Os emedebistas têm vergonha de passar o discurso do seu candidato. Prestem atenção, eles passam todos os dias as palavras de Henrique Santillo, mas o candidato é José Batista Jr. Cadê as propostas do candidato José Batista Jr.?

Isto começou a nos incomodar e queríamos evitar que o nosso candidato ficasse desacreditado. Conversávamos com ele, fazíamos o roteiro de seu discurso, mostrando que não dava para passar historinhas ou fábulas na hora do noticiário.

À noite ele começava bem seu discurso, mas daí a pouco:

– Temos que lutar. Não podemos cruzar os braços. Todos nós conhecemos a história das duas rãs. Caíram num latão cheio de leite. Uma delas desistiu da luta e foi para o fundo do latão, morrendo sufocada. A outra tinha confiança na sua luta. Esperneou, esperneou incansavelmente. Aos poucos o leite foi se transformando em creme. Ficou firme e ela saltou para o chão, se salvando.

Mais uma vez estávamos impedidos de enfrentar o desafio dos adversários. Para não correr mais riscos, passávamos a palavra de Henrique Santillo.

A forma incisiva com que o prefeito falava, a convicção com que defendia suas idéias, arrebatava multidões. Sua constante presença nos comícios, nas emissoras de rádio e em debates públicos, arrebanhava a cada instante mais e mais simpatizantes à candidatura de José Batista Jr.

O final todos já sabem: vitória por quase 4 mil votos de vantagem contra o melhor candidato que a Arena poderia lançar. Eurípedes Barsanulfo Junqueira, homem respeitado e muito preparado, mas que não suportou o peso político do santillismo em Anápolis.

Na madrugada do dia da posse de José Batista Júnior, um verdadeiro batalhão da Polícia Militar estadual tomou conta dos transmissores e estúdios da Rádio Carajá, numa operação comandada pelo governo do estado. Dezenas de policiais fortemente armados e sem mandado judicial, impediram-nos de adentrarmos as dependências da emissora, que nos pertencia desde 1967.

Um grupo de democratas, pertencentes ou simpáticos ao MDB, adquiriu de Plínio Jayme a Rádio Carajá. Depois de seis anos sob nosso controle, os governistas pretextaram ser exigência do Departamento Nacional de Telecomunicações, a DENTEL, a devolução da emissora a Plínio Jayme, por não ter sido autorizada sua transferência.

Preparavam assim, os golpistas de Goiás, o terreno para outras violências que se sucederiam contra o MDB anapolino.

Golpe na madrugada

Os onze deputados estaduais, integrantes da bancada do MDB, se revesaram na tribuna durante toda a madrugada até que o sol raiasse. Assim, evitou-se que na calada da noite, em plena madrugada, um golpe fosse dado para transformar a cidade de Goiás em Município de Estância Hidromineral.

A matéria foi aprovada, mas somente depois das 8 horas da manhã, quando os profissionais da imprensa e servidores da Assembléia Legislativa chegavam para o trabalho.

Esta brava bancada era composta pelos deputados Clepino Araújo, Derval de Paiva, João Felipe, José Avelino, Juarez Magalhães, Iturival Nascimento, Lucio Lincoln de Paiva, Luiz Soyer, Ronaldo Jayme, Tobias Alves e eu.

Disputei meu primeiro mandato eletivo em 1970 filiado ao MDB, como candidato a deputado estadual. Com mais de 13 mil votos, destes, obtidos 8 mil em Anápolis, fui o terceiro mais votado do Estado.

A bancada do MDB elegeu doze deputados contra vinte e um da Arena, mas pouco depois da posse perdemos Clarismar Fernandes que, como vereador em Goiânia, havia sido líder do prefeito Íris Rezende. Eleito deputado, abandonou a legenda, aderindo à Arena, propiciando ao governador Leonino Caiado os dois terços dos votos da Assembléia Legislativa.

Clepino Araújo, Derval de Paiva, Iturival Nascimento, João Felipe, José Avelino, Juarez Magalhães, Lucio Lincoln de Paiva, Luiz Soyer, Ronaldo Jayme, Tobias Alves e Adhemar Santillo formavam o time oposicionista na Assembléia Legislativa goiana. Sem número suficiente para aprovar projetos de lei e sem a disposição da bancada da Arena em analisar sem paixão os projetos emedebistas, só restava à oposição fiscalizar e denunciar os desacertos do governo.

Plagiando Chico Buarque de Holanda, que afirmou “os integrantes da repressão encheram muito o meu saco, mas eu também enchi o saco deles”, nós sofremos muitas retaliações, mas demos muito trabalho a eles também. A reação da bancada governista era tamanha que vez por outra chegava ao passional.

Decepção e revolta foi o que sentimos numa madrugada de sessões extraordinárias, apreciando mensagens do governo sem temas polêmicos, quando Clarismar Fernandes nos surpreendeu apresentando projeto de lei transformando a cidade de Goiás, em estância hidromineral.

O Município era administrado por Dário de Paiva, pequeno pecuarista na produção de leite, que, aceitando convite dos líderes do MDB, se candidatou a prefeito, desbancando a tradicional família Caiado pelo voto. Dário estava realizando um excelente trabalho e era voz corrente que faria o seu sucessor, em 1972.

O projeto de Clarismar transformando o município em estância hidromineral tirava do povo o direito de escolher o seu prefeito, porque a Constituição Federal previa que prefeitos de cidades dessa categoria seriam de livre indicação do governador. Com respaldo na Constituição Federal, sem nenhum estudo técnico, a justificativa foi uma pequena fonte sem grande importância, denominada Águas de São João, encontrada a mais de 100 km da sede do município.

A verdade é que a intenção era meramente política e eleitoral. O governador Leonino Caiado era daquela região e, a todo custo, ainda que arbitrariamente, queria reassumir o comando do município. A única coisa que conseguimos fazer foi evitar que o golpe se desse na calada da noite como queriam os governistas. Os 11 integrantes do MDB se revesaram na tribuna até que sol raiasse. Só depois das 8 horas da manhã, quando os profissionais da imprensa e servidores da Assembléia Legislativa chegavam para o trabalho, a matéria foi aprovada.

Conseguimos evitar que o golpe acontecesse na calada da madrugada, podendo dar transparência aos meios de comunicação desta manobra oportunista.

Uma observação a ser feita é que o projeto de lei tinha vício de origem, significando que a matéria deveria vir do Executivo para o Legislativo, o que não aconteceu. Mesmo assim, aprovada pela Assembléia Legislativa e sancionada pelo governador, a lei permitiu que, a partir de 1972, Vila Boa, hoje a Cidade de Goiás, passasse a ter prefeito nomeado muito mais pelo temor dos adversários do MDB enfrentarem os Paiva – Dário e Derval, que pelas Águas de São João.

O sumiço dos fuzis do Tiro de Guerra

– Walmir, você é elemento muito ativo, quem foi que assaltou o Tiro de Guerra de Anápolis e levou os fuzis?

– Adhemar Santillo e Washington Barbosa!

Depois de sofrer torturas físicas e psicológicas durante o tempo em que estava preso nas dependências do PIC em Brasília, só restou ao vereador Walmir Bastos fazer a confissão que foi recebida com euforia pelos seus torturadores, apesar de inverossímil.

Com o único objetivo de controlar a política administrativa de Anápolis, a Polícia Federal e setores específicos do Exército na década de 70 prenderam o presidente da Câmara Municipal, o vereador Walmir Bastos Ribeiro, pelo menos em três oportunidades distintas.

Quando prenderam Walmir Bastos, dentro do meu carro, no estacionamento privativo da prefeitura municipal, na Praça do Bom Jesus, foram presos na mesma época Washington Barbosa, Maristela Mendes, Alexandre Almeida, Geraldo Tibúrcio e outros acusados de atividades subversivas. Ficaram presos no PIC, em Brasília e a tortura psicológica contra o vereador foi intensa e revoltante. Na mesma época, alguns integrantes da “Guerrilha do Araguaia” como José Genuíno, estavam também recolhidos nas dependências do Exército, para onde levaram Walmir Bastos.

Como faziam o jogo da ARENA de Goiás, queriam a renúncia do “Baiano”, como carinhosamente era conhecido por ser de Brotas da Macaúba. Walmir era submetido diariamente a interrogatórios intermináveis. Cansado, deprimido, sem força para reagir, resistiu o máximo que sua força suportou. Decidiu assinar documento renunciando a presidência da Câmara Municipal de Anápolis e o próprio mandato de vereador.

Contudo, antes de assinar o papel elaborado pelo oficial identificado como major Leopoldino, outras indagações foram feitas a ele, que nas inquisições anteriores não haviam perguntado:

– Walmir, você é elemento muito ativo, quem foi que assaltou o Tiro de Guerra de Anápolis e levou os fuzis?

– Adhemar Santillo e Washington Barbosa!

Logo após o golpe de 31 de março, que destituiu João Goulart da presidência da República, o TG-53, de Anápolis foi assaltado numa madrugada, com os assaltantes levando 20 fuzis, que serviam para o treinamento dos seus atiradores.

A alegria foi total entre os torturadores de plantão. Julgavam que tinham descoberto os autores de um dos assaltos mais ousados contra uma instituição militar: assalto ao Tiro de Guerra-53 de Anápolis e roubo de 20 fuzis. Já se imaginavam condecorados com medalhas de honra ao mérito e promoção na carreira. Major Leopoldino, que não disfarçava seu contentamento, insistiu em busca mais informações:

– Walmir, quem é Adhemar Santillo?

– É Deputado Estadual do MDB em Goiás!

Decidiram que dariam mais esclarecimento à questão com acareação entre Walmir Bastos e Washington Barbosa que também estava ali preso. Ao ser buscado na sua cela para a acareação, sendo informado do que se tratava, Walmir reagiu, desconversando a declaração dada sob pressão psicológica no dia anterior:

– Quando colocaram aquele capuz na minha cabeça, pensei no pior.

– Que pior, safado? Perguntou Leopoldino.

– Ontem me deram murro na cabeça e muitos chutes!

– Nós vamos colocar você e o Washington frente a frente. Você vai declarar que os fuzis do Tiro de Guerra foram furtados por ele e pelo Adhemar Santillo!

– Inventei a história para não apanhar mais. Na frente de outras pessoas falo apenas a verdade... Disse Walmir.

– Qual é a verdade?

– Se nem vocês com esta força toda sabem quem assaltou o Tiro de Guerra, eu é que vou saber?

Walmir foi solto. O debate sobre o assalto ao TG e furto das armas ficou por ali mesmo, já que em Anápolis nunca foi aventada essa história.

Solto, após atender o capricho do major Leopoldino, assinando a renúncia do seu mandato no PIC, em Brasília, Walmir continuou desempenhando suas funções como vereador e presidente da Câmara, porque seu pedido de renúncia nunca foi formalizado à Câmara Municipal.

Duro golpe contra os arenistas de Anápolis que apostavam no seu afastamento e a conseqüente eleição de um anti-santillista para a presidência. O sonho dos golpistas era afastar Henrique Santillo da Prefeitura. A presença do “Baiano” na presidência da Câmara abortava, como de fato abortou, qualquer manobra antidemocrática.

Jogo duro na Assembléia

Revoltados com a pequena votação obtida em Anápolis nas eleições gerais de 1970, adversários dos santillistas do próprio MDB romperam com o prefeito Henrique Santillo.

Os deputados Fernando Cunha e Ronaldo Jayme, o vice-prefeito Thales Reis, e os vereadores Lincoln Xavier Nunes, João Divino Cremonez, Pedro Sérgio Sobrinho e outros, se afastaram do prefeito levando consigo alguns poucos emedebistas descontentes.

Henrique Santillo deu o troco, afastando secretários que faziam parte da sua Administração que haviam sido indicados pelos rebeldes.

Por conta desta situação, a Polícia Federal foi acionada por integrantes do MDB anapolino, conforme consta na certidão fornecida pelo Serviço Nacional de Informações- SNI, para abrir inquérito policial por suposto crime eleitoral contra mim, Henrique Santillo e Anapolino de Faria.

Encerradas as investigações realizadas pelo delegado Jesus Lisboa, cópia deste inquérito foi repassado ao advogado do grupo, contra o MDB santillista, pelo vereador Lincoln Xavier Nunes que o encaminhou à liderança da Arena na Assembléia Legislativa. O interesse era que o documento fosse lido em plenário daquela Casa, em forma de denúncia. O líder da bancada arenista, deputado Antonio Pereira fez a leitura do relatório que em sua conclusão nos incriminava.

Estando eu em plenário fui direto à mesa dos trabalhos para inscrever-me e responder na sessão do dia seguinte. Ao tomar conhecimento da lista de inscritos para o Grande Expediente, com surpresa vi que todos os parlamentares da Arena, mesmo aqueles que nunca haviam usado uma só vez a tribuna, estavam inscritos para as próximas sessões. Procurei todos eles para permutar a inscrição, mas como o objetivo da liderança governista era mesmo o de impedir minha fala, nenhum deles aceitou repassar-me sua vaga.

Depois de quatro sessões ordinárias com meu direito de resposta cerceado pela maioria arenista, decidi usar de expediente até então inédito na Assembléia Legislativa. Solicitei a palavra para apresentar requerimento cuja solicitação era feita verbalmente pelo deputado no momento da sessão. Assomei à tribuna destinada aos parlamentares do MDB, lendo a síntese do requerimento.

Após apresentação do seu teor, li a justificativa. Foram trinta e cinco minutos de leitura ininterrupta quando pude rebater todas as acusações feitas contra nós pela Polícia Federal e que haviam sido repercutidas em plenário pela bancada da Arena.

Impacientes, os deputados arenistas ouviram minhas explicações sem que pudessem impedir-me. O Regimento Interno da Assembléia era omisso quanto à leitura de requerimento e de justificativa quando de sua apresentação. Da mesma forma, o Regimento Interno não estipulava o tempo máximo permitido para apresentação de justificativas dos requerimentos. Encerrada a defesa que fiz, graças à abertura e omissão do Regimento Interno da Assembléia Legislativa, o deputado Antonio Pereira solicitou suspensão dos trabalhos para que a bancada governista se reunisse separadamente na Sala das Comissões. Retornando ao plenário já havia uma proposta de modificação do Regimento Interno, limitando o tempo para apresentação de requerimentos.

Naquela Legislatura, de 1971 a 1974, como agora, quando o deputado apresentava projeto de Lei, o presidente da Casa, antes de encaminhá-lo para a comissão de Constituição e Justiça, o submetia por mera formalidade ao plenário, em votação preliminar para deliberação.

Até mesmo os projetos flagrantemente inconstitucionais nunca foram impedidos de tramitação normal naquela Casa ou votados preliminarmente contrários. Os arenistas estavam tão irritados com minha atuação na discussão e fiscalização de atos do governo que, ao apresentarem projeto dando nome a um grupo escolar estadual em Anápolis, o presidente, após a leitura do projeto, colocando em votação preliminar para deliberação, todos os arenistas, sem exceção, deram voto contrário ao seu encaminhamento à comissão de Constituição e Justiça, rejeitando-o antes de qualquer apreciação pelas comissões técnicas. Nunca tive conhecimento de rejeição de outro projeto de lei como os governistas, maioria em plenário, fizeram com a minha proposição.

Foi uma época de jogo duro entre emedebistas e arenistas!

Sempre enfrentei desafios

Minha mãe sempre dizia que eu era teimoso.

Desde criança, quando queria fazer alguma coisa, insistia até conseguir realizar.

Sempre fui determinado, característica que me acompanha em toda a

vida. Sempre lutei por aquilo que quero e sonho.

Ainda jovem, apaixonado por futebol, fui jogar no juvenil do Ipiranga Atlético Clube. Nesta categoria, a nossa equipe era a melhor da cidade nos anos de 1957 e 1958.

Estávamos todos preparados para ascender ao time principal, quando ouvi o presidente ipiranguista, David Esteves de Azevedo, afirmar a um grupo de amigos que ouvia na Praça do Bom Jesus o programa esportivo das 11 horas pelo auto falante da Rádio Carajá instalado no telhado do prédio onde hoje funciona o Banco Itaú, que todos do time juvenil comandado por Anastácio Ferreira Barbosa, tinham condição para integrar o time principal, menos o Adhemar.

Enfrentei a crítica como desafio, redobrei meus esforços e assumi a vaga de lateral direito no time titular. Fui o único a jogar todas as partidas do campeonato anapolino de 1959, quando fomos campeões da cidade.

Da mesma forma aconteceu na eleição para o Grêmio Literário Castro Alves, do Colégio Estadual José Ludovico de Almeida, para substituir Gil Xavier Nunes na presidência. Ninguém queria enfrentar a popularidade do estudante Sebastião França, o Zé Gia, comandante da Frente Libertadora, que havia dado vitória ao Juca Ludovico em Anápolis contra Mauro Borges, para o governo do Estado naquele ano, 1960. Sebastião França tinha grande preferência dos estudantes, mas o enfrentei vencendo o pleito por 13 votos na mais renhida e emocionante disputa registrada na história do Grêmio Castro Alves. Fiz uma administração tão eficiente e popular que culminou com minha reeleição, mesmo não sendo esse meu objetivo.

Quando trabalhava pela minha reeleição para Deputado Estadual, em 1974, assumi com determinação a candidatura a Deputado Federal para o impedir que Henrique Santillo, abandonasse a vida pública. Não havia me preparado, mas fui para a disputa num momento em que figuras tradicionais como Anapolino de Faria e José Freire se afastavam da disputa por não concordarem com os constantes casuísmos aplicados pelos ditadores de plantão. Ganhei a eleição como o segundo mais votado do MDB. Henrique o mais votado Deputado Estadual.

Numa bancada com aproximadamente 100 deputados federais, com apenas dois anos de convivência parlamentar na área federal, integrante de uma pequena bancada composta por 5 deputados eleitos pelo MDB, enfrentei a disputa interna no partido para o preenchimento da mais importante função do MDB na mesa diretora da Câmara dos Deputados, a vice-presidência. Com a garra de leão, cheguei ao final do primeiro escrutínio em 2º lugar. A bancada federal havia decidido que o representante do partido seria escolhido pela maioria absoluta dos votantes. Ninguém conseguiu a maioria absoluta na primeira votação. Disputei e venci Getulio Dias, integrante do grupo autêntico, por larga margem de votos. Fui eleito num pleito considerado por parlamentares e pela imprensa nacional como surpreendente.

Depois de ter sido convidado por Iris Rezende para ser seu vice-governador, nas eleições de 1982, honraria da qual abri mão para não prejudicar a possível candidatura de Henrique Santillo ao governo em 1986, fui convidado por Iris, antes mesmo do pleito realizado, para ser seu secretário de educação. Aceitei de pronto e me preparei para a missão que muitos consideravam que eu não desempenharia bem. Até hoje tenho o orgulho de ser aclamado pelas lideranças políticas e educacionais como o realizador de grande administração.

Enfrentei com muita disposição uma cirurgia de grande porte para retirar um tumor maligno, uma pinta no rosto diagnosticada como melanoma, que foi descoberto pelo dr. Jorge Mateus Simões, a quem devo o alerta que salvou minha vida. Depois de uma campanha eleitoral para a prefeitura de Anápolis, na qual não tive sucesso, fui ao dermatologista para tratar de umas manchas no braço. O médico dermatologista dr. Jorge medicou-me dizendo ser as manchas em questão sem importância, mas pediu-me que tirasse uma pinta no rosto. A pequena cirurgia foi realizada pelo dr. Evaristo Bueno que por precaução encaminhou o material para biópsia. O exame detectou melanoma grau III, tumor de grande gravidade.

A dra. Maria Paula Curado, auxiliada pelo dr. Roberto Di Conti, no Hospital Santa Helena, em Goiânia, fizeram o esvaziamento em meus rosto e axila, num procedimento demorado. Após todo o processo operatório, sei que a minha determinação, a competência da equipe médica e a vontade de Deus, me deram nova chance de vida.

Estas determinação e responsabilidade em concluir todas as tarefas que me proponho a realizar são virtudes que carrego desde meus tempos de juventude.

Não tendo o costume de fazer as tarefas pela metade, me inscrevi, com mais de 30 concorrentes, para uma prova de corrida para pedestres, de 8 mil metros, nos festejos de aniversário de Anápolis. A largada aconteceu em frente ao cine Santana, na Praça do Bom Jesus. A chegada foi marcada para o mesmo local. Fiz todo o trajeto com muita dedicação e força de vontade, embora muito atrás do campeão e vice. Cheguei ao final. Uma pequena assistência me aplaudiu freneticamente quando Antonio Abrão Isaac, o Tonico Isaac, e Jahudeir Lobo, o Esquerdinha, cronometrista da prova, anunciaram pela Rádio Carajá, que transmitia a corrida:

– Parabéns! Parabéns! Adhemar Santillo, atleta do Ipiranga, venceu pela persistência. Chegou em 3º lugar e leva como prêmio uma caneta.

Com a chegada quase que simultânea do campeão e do vice, os demais corredores desistiram. Eu fui até o fim, mesmo chegando muito tempo depois, quando muitos achavam até que a corrida já havia terminado e por isso já não havia quase ninguém para assistir minha façanha, além, é claro, dos árbitros da prova.

Como líder estudantil, presidente do Grêmio Literário Castro Alves, do Colégio Estadual José Ludovico de Almeida ou Presidente da União dos Estudantes Secundaristas de Anápolis, sempre fui bastante atuante e batalhador. Essa prática geralmente causa atritos com os administradores escolares ou dos setores questionados. Nunca tive intenção de contrapor a ninguém por capricho pessoal ou por futilidades, procurando sempre agir com justiça.

Walmir Bastos Ribeiro, na época líder estudantil e posteriormente eleito por sete vezes consecutivas vereador pelo MDB e PMDB, havia sido reprovado por não haver conseguido a nota mínima em francês, matéria facultativa no currículo do 2º grau, mas constante no currículo do Colégio Estadual José Ludovico de Almeida. No ano seguinte teria que repetir a mesma série pela reprovação em francês. Antes que as aulas iniciassem a Secretaria Estadual de Educação decidiu que naquele ano, o seguinte ao da reprovação do Walmir, francês seria excluído do currículo. A direção do colégio insistia na sua reprovação. Tive que recorrer até ao Conselho Estadual de Educação para reformar a decisão da Diretoria do Colégio garantir sua aprovação, visto que a matéria em que fora reprovado não contaria mais do currículo. Aprovado, Walmir Bastos Ribeiro ficou conhecido entre os estudantes como o aluno que passou por decreto.

Com o golpe militar de 1964 fui afastado da presidência da UESA – União dos Estudantes Secundaristas de Anápolis, cuidando apenas dos meus estudos e do trabalho como cronista esportivo e redator para o rádio jornalismo. Concluí naquele ano de 1964 o curso cientifico. Fiz a inscrição para o exame ao vestibular da Faculdade de Ciências Econômicas de Anápolis, FACEA. O curso científico do Colégio Estadual dava base de conhecimento para que alunos tivessem sucesso no vestibular, sem necessidade de “cursinhos”. Vários daqueles alunos passavam nos exames ao vestibular de medicina, engenharia, economia em Universidades concorridas. Como eu me sentia bem preparado na área de ciências exatas, prestei vestibular para a FACEA, Faculdade de Ciências Econômicas de Anápolis, que era procurada também por concluintes de cursos normall ou clássico sem muito preparo nesta área. Em matérias como Literatura Brasileira, Geografia, História meu desempenho foi ótimo, segundo afirmaram os professores dessas matérias. Em Matemática o Professor Hermógenes apresentou questões que estavam à altura de serem respondidas por qualquer concluinte de segundo grau.

Realizadas as provas escrita e oral, foi apresentada a relação dos aprovados. Como meu nome não contava entre os aprovados, indignado, pedi revisão de provas da matéria, sendo atendido pela comissão de avaliação. Não foi feita a revisão da prova, mas deram-se a oportunidade de realizá-la novamente, com o mesmo professor. Dia e horário acertados compareci à Faculdade acompanhado do estudante Gil Ferreira que havia sido aprovado no vestibular e fora meu colega no Colégio Estadual. Hermógenes apresentou como observadores os professores Roland Vieira Nunes, José da Cunha Bastos e Maura Helena Simões. Reagi:

- Professor, mesmo tendo respeito pelo trio de professores que

senhor apresenta, sugiro que Gil Ferreira também assista a prova, porque conhece a matéria.

Sem contestação foi aceita minha indicação e passamos às provas. Foram feitas cinco questões, todas desenvolvidas integralmente. Encerrado o questionamento, pensando que estava resolvida a prova,. Hermógenes sentenciou:

- O senhor confirmou a nota da prova oral.

- Quanto foi a nota?

- O senhor está com quatro.

Quase perdi a paciência, mas controlei e perguntei:

- Professor, de quanto eu vou precisar na prova escrita para garantir minha aprovação?

- O senhor vai precisar de no mínimo quatro pontos.

- Professor, agora o senhor venha com tudo porque não vai conseguir o intento de me reprovar.

- Você prefere responder 10 perguntas de um ponto cada ou cinco perguntas valendo dois pontos cada uma?

Preferi responder dez questões valendo um ponto cada uma.

Quando havia respondido quatro perguntas, senti que havia escorregado na resposta de uma delas. Hermógenes buscou a parte mais complexa e difícil do curso secundário, para formular as questões. Algumas delas o quadro negro não comportava o desenvolvimento e a resposta. Ao responder a quinta questão, indaguei:

- Professor, quantos pontos eu tenho até agora?

- Nesta prova o senhor já tem quatro pontos.

- Estou satisfeito, não quero responder o restante das questões.

Dali fui para a Praça do Bom Jesus onde os calouros e veteranos da FACEA faziam a festa do trote para os aprovados. Tive, como os demais a cabea raspada, o rosto pintado e comemorei alegremente com os aprovados. Matriculei-me e fui à aula no primeiro dia letivo. Despedi-me dos colegas e nunca mais retornei à FACEA como aluno.

Voltei à FACEA em 1983 como Secretário de Educação de Goiás para ajudar a instituição sair do caos em que se encontrava, não tendo obtido apoio necessário dos governos anteriores. Ainda como Secretário implantei seis cursos de Licenciatura naquela unidade, propiciando a criação do embrião da futura UNIANA, hoje UEG.