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domingo, 20 de março de 2011

Discos que me fazem voltar ao passado

Recentemente fui presenteado pelo amigo José Moreira, o Zuza do Agenor de Uruana, com uma coleção de uns 500 discos 78 rotações por minuto, das décadas de 50/60, com Orlando Silva, Carlos Galhardo, Vicente Celestino, Nora Nei, Francisco Alves e muitos outros astros e estrelas da música popular brasileira e internacional, de todos os tempos. Para ouvi-los, reformei a vitrola que se achava encostada junto a bagulhos, que ainda não encontrei coragem para descartá-los. Ainda bem! Algumas vezes, como agora, podem nos tirar do sufoco.

Vou convidar Mauro Gonzaga Jaime, o Pastinha, para que possamos apreciar alguns clássicos que fazem parte da coleção que ele incentivou Moreira a me presentear. Mauro Pastinha é fanático por música. Maior colecionador goiano das canções de Altemar Dutra, Roberto Carlos e Beatles. Pastinha sabe tudo sobre eles. Conhece as letras e como e para quem foram compostas. Nesse mundo cada vez mais selvagem em que vivemos, valores intelectuais perdendo o sentido, há os que classificam esse conhecimento e gosto por músicas populares do passado, como cultura inútil. Para mim, não. Volto ao passado com prazer e alegria. Passado de criança pobre, com experiência que os meninos de hoje, ricos ou pobres, dificilmente viverão.

Hoje as letras para fazerem sucesso têm que narrar fracassos e frustrações no amor. Fazem apologia à bebida. Quanto mais “ dor de cotovelo” e alusão à bebedeira, mais sucesso alcançam. Não possuem, contudo, a sabedoria e fineza poética de Lupicínio Rodrigues, o inventor da expressão “dor de cotovelo.” Poucos são os poetas, inteligentes e espirituosos, como Lupicínio Rodrigues, Noel Rosa, Chico Buarque, Humberto Teixeira, Pena Branca e Xavantinho e tantos outros que enriqueceram e enriquecem nosso acervo musical. Para muitos, canções do passado ou música de protesto só servem para museu e relatos históricos.

Os discos que incorporei à minha discoteca, levaram meu pensamento ao passado. Passado já bem distante, mas que para mim parece ter sido ontem. Lembranças gostosas e prazerosas. Lembranças da adolescência quando por falta de outras opções de lazer em Anápolis, Jayro Rodrigues, Oara Silva, Altair Garcia Braguinha, Mauro Pastinha, Geraldo Divino, Romualdo e eu, íamos à noite ao parque de diversões do Bené Silva, o Goiá-Parque, instalado à Rua Leopoldo de Bulhões, ao lado da estrada de ferro. Carrosséis, barquinhos, balanços, jogos de argola e músicas, eram suas atrações. Seus potentes alto-falantes ouvidos por todo setor central da cidade, que ainda era pequena. Goiá-Parque, local preferido por jovens de ambos os sexos darem recado à pessoa amada ou pretendida.

Com os chavões até hoje usados nos parques de diversões por todo interior do País, Bené Silva, que além de dono era locutor, fazia isso com precisão e competência: “Ouviremos agora – Empresta-me Teus Olhos -, com Carlos Galhardo. Essa música é dedicada a alguém, esse alguém sabe quem, com amor e carinho!” Ou: “A moça de vestido estampado oferece – Nós Queremos Uma Valsa – com Carlos Galhardo, ao charmoso rapaz de camisa branca e calça preta, com respeito e admiração.” Depois dessas dedicações, a garotada tentava descobrir quais eram os protagonistas daquelas declarações de afeição e amor. Bené era também produtor e redator das propagandas e mensagens que difundia no parque “A, E, I, O, URCA! URCA, o melhor café!”

As atividades no Goiá-Parque se encerravam por volta das 23 horas. Sempre com show do Porã e seus Bonecos Falantes. Timóteo, jogador do Anápolis Futebol Clube, à noite se transformava em Porã. Levava consigo os bonecos Crispim e Marieta. Ventríloco, criava histórias diárias para seus bonecos falantes. Timóteo, ou melhor Porã, Crispim e Marieta eram espetáculo à parte, engraçadíssimos. Bené Silva, antes de encerrar as atividades, fazia propaganda do seu parque:

“Seja belo como galã, forte como Tarzan, balangando nos balangos do Goiá-Parque!”

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O Homem que Só Sabia Trabalhar em Política

Walmir Bastos Ribeiro, baiano de Brotas de Macaúba, chegou a Anápolis em 1957, trazido pelo seu pai que vinha frequentemente a Goiás para comprar fumo em rolo, em Bela Vista e Pirenópolis. Hospedou-se na Pensão do Bom Jesus, onde morou por vários anos. Matriculou-se na segunda série ginasial, do Colégio Estadual, dirigido pelo professor Hely Alves Ferreira, eleito prefeito de Anápolis em 1958. Foi apresentado aos seus colegas de classe, dentre eles Jayro Rodrigues da Silveira e eu, pelo professor Hely. Por estar impecavelmente trajado, sua chegada foi marcante. Terno de linho na cor creme, gravata borboleta e contava com bigode ao estilo Cantinflas. Para os colegas, Walmir dizia ser de Jequié, terra de Lomanto Júnior. Admirador de Vieira de Melo. No princípio suas despesas eram bancadas pelo seu pai. Com o passar do tempo teve que trabalhar para se sustentar.

Já adaptado em Anápolis, Walmir contou com a colaboração de políticos pertencentes ao PSD, dentre eles o deputado estadual Plínio Jayme, para conseguir emprego público. Seu primeiro contrato foi para prestar serviço na Telegoiás. Atenderia as reclamações que chegassem à empresa. A primeira reclamação que recebeu, sem repassá-la ao técnico responsável, foi ele mesmo aos aparelhos transmissores, mexendo em toda fiação, provocando pane em todo o sistema. Os técnicos demoraram uma semana para sanar o estrago.

Não querendo deixá-lo ao abandono, acharam melhor que fosse para a Companhia de Força e Luz, entregar os avisos e contas aos usuários. Começou bem. Até que chegou à casa de um amigo para a entrega do talão. Achou o portão do corredor aberto, adentrou à cozinha. Leu o jornal Folha de Goyas que seu amigo deixara sobre a mesa. Tomou café e por ali ficou. Quando a esposa do amigo, o viu sentado à mesa, caiu em prantos gritando por socorro. Os vizinhos vieram todos ver o que acontecia, enquanto Walmir Bastos, intrigado com tanto alvoroço, saia assustado. Foi seu primeiro e último dia de entrega de talões de energia elétrica.

Resolveram contratá-lo para trabalhar no comitê político do candidato a governador Mauro Borges. Acertaram em cheio. Nessa função ninguém era mais ativo e competente que ele. Nunca mais deixou a atividade política. Foi sete vezes vereador em Anápolis. Presidente da Câmara Municipal na fase mais difícil enfrentada pelo legislativo municipal. Preso inúmeras vezes pelos órgãos de repressão durante a ditadura militar de 1964. Organizador permanente dos Simpósios Estudantis promovidos pela Câmara Municipal de Anápolis. Era a forma de politizar os estudantes. No Legislativo municipal, o mais autêntico combatente à ditadura. Um dos heróis da resistência democrática em Anápolis. Sofreu prisões e torturas, resistindo todo tipo de violência. Não renunciou a presidência da Câmara Municipal, impedindo que afastassem pela força o prefeito Henrique Santillo, conforme plano da Arena e parte do MDB municipal.

Walmir Bastos Ribeiro disputou sua primeira eleição em 1966, pelo MDB. Não se elegeu. Seus eleitores, que eram principalmente estudantes, ficaram com Henrique Santillo. Na quarta suplência, com o falecimento dos vereadores emedebistas, Adão Mendes Ribeiro, João Furtado de Mendonça, João Luiz de Oliveira e Oscar Miotto, se efetivou.

Eleito vice-presidente da Câmara Municipal de Anápolis, mesa comandada por Antônio Marmo Canedo, na legislatura seguinte, Walmir Bastos chegou a sua presidência com a morte prematura, de Antônio Canedo. Walmir faleceu em 1994, como um dos mais valorosos políticos de Anápolis em todos tempos.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Lázaro da bicicleta, o locutor diferente

Publicado na edição de 03/05/2010 do jornal Diário da Manhã

O Estádio Manoel Demostenes em Anápolis, campo de chão batido, cerca de ripas em substituição ao alambrado, sem arquibancadas e banheiros, além de não possuir vestiários para os clubes e árbitros, foi palco de acontecimentos monumentais no futebol. A apresentação da Portuguesa de Desportos, no início dos anos 50, com seus ídolos, Muca, Djalma Santos, Brandãozinho, Julinho, Pinga , Nininho e tantos outros, foi um deles.

No Manoel Demostenes foram realizados jogos históricos, onde se exibiram renomados craques anapolinos e goianienses. Tambem foi lá que torcedores fizeram a diferença. Caetano, da Associação Atletica Anapolina, com seu bordão inconfundível, “óh o pé dele Carpaneda”, Teodora a dama tricolor impecávelmente vestida e sua inseparável sombrinha, além de Mané Padeiro,que muitas vezes assistia jogos do seu Anápolis, dentro do estádio, em cima da carroça-baú, cheia de pães, roscas e quitandas.

Lá, Alcemiro Rodrigues, o popular Gigante, trajando calça esporte dobrada até o meio da canela, botina de carregar pela boca, paletó azul marinho, cachecol, chapeu e guarda chuva desbotado pelo uso, se transformou no mais popular árbito de Anápolis, no amadorismo.

Campo lotado, torcedores em silêncio absoluto, assistiram no Manoel Demostenes,Glicério Mellazo, artilheiro do Ypiranga se negar a cobrar pênalti contra o Anápolis, aos 43 minutos do segundo tempo. Ficou assustado e amedrontado com a presença em campo do presidente tricolor, Juiz de Paz no Município, Joâo Bezze, que discretamente portava um 38 na cintura e indagava em vóz alta e pausada aos alvinegros: “ Quem vai bater o pênalti ?” Como ninguém se apresentou para a heróica missão, Joaquim Diogo encerrou a partida, e o pênalti só foi cobrado, com os portôes fechados ao público, três meses depois, por decisão da justiça desportiva.

Consagrado e respeitado jornalista Jayro Rodrigues da Silveira, iniciou sua carreira de comentarista esportivo na Rádio Santana de Anápolis, no Estádio Manoel Demostenes. Polêmico e discreto, Jayro nunca deixou transparecer sua simpatia e amor pela rubra, a xata. A Rádio Santana não possuia o poder e penetração da Bandeirantes de Sâo Paulo, que com sua Cadeia Verde-Amarela atingia todo Brasil, mas tinha sua cabine de madeira, toda pintada de verde-amarelo.

Enquanto Jayro Rodrigues comentava pela Rádio Santana, uma outra grande figura, essa consagrada no meio jurídico goiano, Getúlio Targino, no Manoel Demostenes, comentava pela Rádio Cultura. Os comentaristas seguiram caminhos exitósos e diferentes, mas suas emissoras tiveram o mesmo destino: fechadas que foram no período ditatorial, pelo ministro Quandt de Oliveira, da Viação e Obrás Públicas, responsável pela área das comunicações, em maio de 1975, por decisão política.

Outra figura popularíssima, que fez história marcante no Manoel Demostenes, foi Lázaro Gomes, o Lázaro da Bicicleta. Todas as tardes quando treinavam Anapolina, Anápolis, Ypiranga ou São Francisco, Lázaro chegava mais cedo, em sua bicicleta, acomodava-se ao lado da cerca de ripas e com uma latinha, geralmente de extrato de tomate, transmitia todos os lances do treino coletivo. No transcurso do treinamento, atletas se dirigiam até onde o locutor se encontrava, para esclarecer uma jogada mais polêmica. Lázaro da Bicicleta era ouvido e admirado pela garotada. Os meninos prestavam muito mais atenção no que Lázaro dizia e comentava, que nos lances dentro de campo. Lázaro da Bicicleta também faz parte da história do futebol anapolino e do estádio Manoel Demostenes.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Histórias de Cronistas e do Futebol

Publicado na edição de 27/03/2010 do jornal Diário da Manhã

Nunes Macedo, grande repórter de pista dos anos 60/70, na Rádio Brasil Central, antes de ser cronista trabalhava como encanador, em Anápolis. Fanático por futebol e pretendendo mudar de profissão, fez curso de árbitro, na escola da Liga Anapolina de Desportos. Foi aluno brilhante.

Sua estreia foi no jogo Serraria x Castilho, pelo Campeonato Anapolino. Estádio Manoel Demóstenes lotado. Nunes Macedo se impunha pelo conhecimento das regras, imparcialidade e acompanhamento das jogadas. Jovem, com muito vigor físico e amando a nova profissão, estava onde a bola ia.

Num lance violento praticado pelo lateral esquerdo Batata, do Serraria, jogador de estatura mediana, forte e corpulento, Nunes não teve dúvida, apitou pênalti e expulsou o zagueiro de campo. Antes que Aluísio, artilheiro do Castilho, fizesse a cobrança, Batata desferiu um torpedo de braço esquerdo na testa do árbitro, jogando-o ao chão.

Só recobrou os sentidos 40 minutos depois, no Pronto Socorro do Hospital Evangélico. Nunes Macedo nunca mais apitou nem pelada de rua, preferindo continuar como encanador. Só retornou aos estádios, retomando o gosto pelo futebol, bem mais à frente, como repórter, pela Rádio Imprensa, sob o comando de Jayro Rodrigues.

Petrônio Cruz, comentarista esportivo da Rádio Santana, só chegava ao jogo no final do segundo tempo. Fazia seu comentário intermediário por telefone, depois de ouvir nossa narração enquanto fechava o caixa do matinê, no Cine Vera Cruz, onde era gerente. Muitas vezes, quando a frequência ao cinema era maior, não ouvia a transmissão. Comentava sem ao menos saber quais os times que jogavam.

Gedeon Camargo, hoje militando na crônica esportiva de Uberlândia, começou a carreira como repórter na equipe da Rádio Carajá. Num jogo Anapolina x Anatex, pelo campeonato da LAD, entrevistou o zagueiro Orlando, da Anapolina. A xata não vencia há quatro partidas. Quis saber do zagueiro o porquê de tantos tropeços:

– Orlando, como você explica essa hecatombe que ocorreu na Anapolina ?

Como o zagueiro se confundiu completamente com a pergunta, respondendo coisa sem nexo, como “não é verdade que tenha comido feijoada...”, Gedeon o cortou:

– Orlando, parece que não fui entendido. Gostaria que você explicasse como justificar a debacle da Anapolina no campeonato?

Antônio Afonso de Almeida foi o pioneiro locutor esportivo em Anápolis. Da escola de Valdir Amaral da Rádio Globo do Rio de Janeiro narrava os lances de forma lenta e detalhada.

Para gravar no Estádio Pedro Ludovico, em Goiânia, partida entre as seleções de Goiás e Mato Grosso, com ele foi Clovis Guerra, chefe do departamento de Jornalismo da Rádio Carajá. Gravador grande, fitas trocadas com frequência, monitorado por Clovis. Faltando 20 minutos para o término e a última fita de que dispunham chegando ao final, Clovis, desesperado gritou para Afonso:

– Acelere, narre mais rápido! Seja como Pedro Luiz, da Bandeirantes! Lento assim a fita não vai dar.

A Rádio Carajá funcionava na parte superior de um prédio do Banco Estado de Goiás na Praça do Bom Jesus. Na parte superior externa do imóvel havia um possante alto falante, transmitindo toda programação da emissora. Às 11 horas, no seu programa esportivo, desportistas lotavam a praça em frente à emissora para se inteirar das últimas do esporte.

Mané Padeiro, que fazia a entrega de pães e roscas em sua carroça tipo baú, era presença cativa. Chovesse ou fizesse sol, às 11 horas lá estava ele com sua carroça. Torcedor fanático do Anápolis, naquele dia estava impaciente ao saber que Nilo, Carlinhos e Felinho, jogadores do tricolor, poderiam se transferir para o Ypiranga, maior adversário do Anápolis. Deixou a carroça no acostamento da calçada e foi para o meio da plateia.

Antônio Afonso, o radialista, fez a pergunta a um dos atletas que estavam na relação dos que poderiam mudar de time:

– É verdade que você está deixando o Anápolis, se transferindo para o Ypiranga?

O “não”, dito pelo jogador, foi com o som emitido pelo contato da língua com os dentes superiores:

– Dhi, dhi, dhi, dhi... Idêntico ao que os carroceiros utilizam para que o cavalo vá em frente.

Aquele som, velho conhecido do animal que servia Mané Padeiro, ampliado pelo alto-falante, fez com que o cavalo saísse em disparada carreira pela Rua Barão do Rio Branco, despejando pães e roscas pelo caminho. Só parou quando foi contido por populares na Praça Santana.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Exemplo de simplicidade e fidelidade

Ele não se importava com convenções sociais, estava sempre à vontade em qualquer lugar, com qualquer pessoa. Sua simplicidade e falta de cerimônia às vezes deixavam pessoas constrangidas.

Conheci Walmir Bastos Ribeiro quando cursava a 7ª série no Ginásio Estadual de Anápolis, que funcionava no prédio do Antesina Santana. Estávamos na sala de aula, quando o professor Heli Alves Ferreira, diretor do ginásio, adentrou o recinto trazendo em sua companhia um jovem bem magrinho, bigode bem ralo, trajando terno de linho branco e gravata borboleta:

– Apresento a vocês um novo colega! É Walmir Bastos, baiano de Jequié.

Na verdade, o Walmir sempre dizia que era de Jequié, terra em que estudou o primário. Ele era mesmo de Brotas de Macaúbas. Isso pouco importa, porque ficou conhecido na sala de aula, e em toda a cidade de Anápolis, como “Baiano”.

Walmir Bastos Ribeiro, muito político, gostava de Vieira de Melo. Realçava as virtudes de Vieira em todos os seus discursos. Da mesma classe participava Jayro Rodrigues da Silveira, que posteriormente casou-se com a Onara, irmã da Onaide.

Sem ter nenhum parente em Anápolis, Walmir Bastos ficou nosso amigo e passou a freqüentar nossa casa, localizada à Rua Rui Barbosa, 420. Além de amigo, tornou-se nosso companheiro político até que a morte o levou, no dia 17 de julho de 1994. Desfrutei durante trinta e sete anos do seu companheirismo e amizade. Era para mim e Onaide como um irmão. Nunca fraquejou nas atitudes políticas, tendo sido preso várias vezes pelas forças da repressão.

No leito do Hospital Evangélico Goiano, já no final da sua vida, recebeu Irapuan Costa Jr., que veio a Anápolis exclusivamente para visitá-lo. Na base da brincadeira, para falar de política, que era o assunto único de que Walmir gostava, Irapuan perguntou:

– Walmir, e agora, como você vai votar? O Adhemar é seu amigo, mas eu também sou. Nós disputamos uma cadeira de Deputado Federal...

Antes mesmo que o ex-governador terminasse sua indagação, sonolento pela medicação que acabara de tomar, respondeu sem rodeios:

– Voto no Adhemar!

Walmir foi protagonista de fatos curiosos e interessantes durante toda a sua vida. Assim que chegou ao Ginásio Estadual, participando de aula de história das Américas, ministrada pelo professor Jóca, foi chamado pelo professor ao quadro negro. Jóca passou a ditar compassadamente a dissertação sobre os Maias. Walmir que não tinha caligrafia boa fez seus garranchos, que só ele mesmo entendia. Começou a frase mais ou menos pelo meio do quadro, subindo em direção à extremidade. Em seguida iniciou a segunda linha, descendo até o canto de baixo do quadro negro, Com duas linhas, indecifráveis, Walmir tomou conta inteiramente do espaço. De costas para o redator da sua famosa dissertação sobre os Maias, Jóca, percebendo a gargalhada de toda classe, virou-se para trás e descobriu o motivo de tanta alegria dos alunos:

– Senhor Walmir, eu pedi para que escrevesse uma dissertação! Não solicitei que desenhasse um funil.

Logo começou sua atividade político partidária no PSD e pela sua fidelidade e extrema lealdade, Plínio Jayme, Deputado Estadual pelo PSD na época, conseguiu do Governador José Feliciano Ferreira um contrato para que Walmir Bastos prestasse serviço na COTELGO – Companhia de Telecomunicação de Goiás. Seu trabalho era receber reclamações dos usuários, anotando o que ouvia. Mas Walmir resolveu ir além, foi à área de equipamentos para tentar resolver problemas que recebia nas reclamações. Num único dia, o “Baiano” provocou pane no sistema da COTELGO, dando trabalho para os técnicos por uns quinze dias, até conseguirem consertar o estrago.

Plínio Jayme achou melhor deslocá-lo à disposição das Centrais Elétricas de Goiás – CELG, como entregador dos talões de consumo de energia. Sob sua responsabilidade estava o setor central da cidade. Walmir conhecia quase toda a população desse setor. Chegando à Rua 7 de Setembro, entrou pelo corredor da casa do amigo, indo até a cozinha. Ao chegar, sem ninguém para recebê-lo, sentou-se, tomou café, comeu pão de queijo e leu o jornal que estava sobre a mesa, deixado pelo amigo que minutos antes partira para o trabalho. Quando a dona da casa, esposa do seu conhecido, chegou e se deparou com aquele homem na sua cozinha, e ela de trajes íntimos, à vontade em casa, entrou em desespero:

– Estão assaltando minha casa. Socorro, socorro, socorro! Tem gente estranha na minha casa, socorro gente...

Atônito, desesperado, sem saber onde estava o erro, Walmir saiu rapidamente. Sua indiscrição correu por toda a cidade, ainda pequena, onde todos se conheciam. Não houve jeito, o “Baiano” teve que ser dispensado. Outras tentativas foram feitas para conseguir um emprego para o Walmir se sustentar e todas frustrantes. Só deu certo quando os comandantes da campanha pró Mauro Borges, candidato ao Governo de Goiás, o contrataram para trabalhar no comitê de Mauro e demais candidatos do PSD, na Praça do Bom Jesus. Descobriu-se que sua vocação era para a política. Encontraram sua vocação ao indicá-lo para trabalhar no comitê.

Falta de cerimônia era com ele mesmo. Numa tarde, já quase noite, foi visitar o presidente da União Independente dos Estudantes Anapolinos – UIEA, em sua residência. Ao chegar, encontrou a mesa posta para o jantar. Muito educada a mãe do Abel Pires, o presidente, convidou Walmir, gentilmente, para jantar. Walmir nem esperou o anfitrião sair do banho. Sentou-se à mesa e se serviu à vontade. Comia muito e depressa. Abel saiu do banheiro e foi logo abraçando Walmir. Terminado o cumprimento, sentou-se à mesa e iniciou sua refeição:

– Walmir, vamos jantar?

Walmir, bom de garfo, pegou o prato que usara anteriormente e jantou novamente.

Quando os vereadores do MDB Lincoln Xavier Nunes, João Divino Cremonez e Pedro Sérgio Sobrinho se aliaram à bancada arenista, em oposição ao prefeito Henrique Santillo, em 1971, Walmir Bastos, já vereador, que havia me apoiado a Deputado Estadual e Fernando Cunha Jr. a Deputado Federal, foi convidado a participar de almoço na residência do Fernando Cunha. A intenção era convencer Walmir a ficar contra o Prefeito Henrique Santillo, com quem o grupo liderado por Fernando Cunha Jr., havia rompido. Depois de se alimentar bem com um banquete especial, regado a whisky importado, sua bebida preferida, foi apresentado ao Walmir um documento para que assinasse. Era o manifesto do grupo que rompera com Henrique Santillo e queria o apoio do Walmir como vereador. Visivelmente tonto, embriagado, distante da sua sobriedade normal, acabou de ler o manifesto, devolvendo-o sem assinar:

– Não faço o jogo da ditadura. Sou Henrique Santillo.

Quando chegou a Anápolis, Walmir foi morar na Pensão Bom Jesus, onde alugou um pequeno quarto por décadas. Além da roupa do corpo, trouxe na mala de tamanho médio, revestida de papelão, apenas outros pares de roupas vindas da Bahia. Quando faleceu, Onaide foi até a residência do Hildeu, onde Walmir recebia os cuidados dele e de sua esposa Leninha, encontrando no guarda-roupa do seu quarto apenas um terno, uma camisa e uma gravata, roupa com a qual foi sepultado. Até a mala com que veio para Anápolis desapareceu, consumida pelo tempo.

Depois de 37 anos em Anápolis, ocupando uma cadeira de vereador na Câmara Municipal por sete mandatos consecutivos, Walmir Bastos Ribeiro, deixou muita saudade para os que, como nós, desfrutamos da sua amizade.

Walmir foi exemplo de coerência, honradez e fidelidade aos amigos.