O jornalista Godofredo Sandoval Batista lançou, no último dia 8 de dezembro, importante livro contando a história de Anápolis desde 1860, quando dona Ana das Dores, depois de descansar às margens de uma cristalina e refrescante nascente dágua, existente nas proximidades do córrego das Antas, viu a mula que fazia parte da tropa, empacar. Relataram os que presenciaram a cena, que dona Ana ao abrir a bruaca que a mula transportava, encontrou a imagem de Santana. Retirada a imagem, a mula voltou a andar normalmente. Ana entendeu como sendo recado divino, para que se construísse naquele local, capela em louvor à santa. Daquele acontecimento aos dias de hoje, já se passaram 150 anos. Aí a razão de “Anápolis 150 anos de bairrismo”.
O jornalista relata fatos que presenciou e outros que conseguiu através de pesquisas. Consultou livros de outros autores sobre o mesmo tema. Ouviu relatos pessoais de historiadores e jornalistas mais antigos. Leu coleções completas de jornais anapolinos que hoje não circulam mais. Nos arquivos da prefeitura, analisou fotos e documentos históricos importantes. Foi sintético na sua narrativa, sem perder a fidelidade com os fatos narrados. Em “Anápolis 150 anos de bairrismo”, realça pontos relevantes e significativos de todos os setores da sociedade local. Escreve sobre desenvolvimento econômico, político, cultural, educacional e esportivo, mas não se esquece de figuras humildes e marcantes como Antônio Caetano Júnior, o uberabense Caetano, torcedor fanático da Associação Atlética Anapolina. No Estádio Manoel Demóstenes, ridicularizava jogadores adversários quando chutavam errado ao gol da Anapolina. Gritava com todas as forças dos seus pulmões: “Óh o pé dele Carpaneda!”. Com Teodora, a dama do Anápolis Futebol Clube, mulher que ia aos jogos do tricolor impecavelmente trajada e sempre acompanhada de sombrinha multicolorida, fazia o show à parte para os torcedores. Não se esqueceu de Maria Rosa, com seu clube Pena Azul ou Ponciana, com sua casa de encontros amorosos em pleno setor central da cidade.
Fala sobre o trabalho de evangelização do monsenhor Pitaluaga e sua firme ideologia de direita. Isso ficou evidente quando da visita do marechal Tito, da Iugoslávia, a Anápolis. Criticou a visita do velho marechal até mesmo quando a comitiva passava pela Praça do Bom Jesus. Marcante foi sua discussão verbal pelo alto-falante da Igreja Bom Jesus, com Geraldo Soares e Romualdo Santillo, redatores e apresentadores da “Rodinha do Café,” às 12 horas, pela Rádio Carajá. Eram os jornalistas provocando Pitaluga e ele respondendo agressivamente pelos alto-falantes da igreja.
Godofredo Sandoval Batista nos relata sobre a importância do café do Antônio, na Rua Barão do Rio Branco. Ponto de encontro de políticos, desportistas e sociedade em geral. Espécie de Café Central, da gente anapolina. Rua Barão de Rio Branco famosa também por ser palco de paquera para os jovens nos anos 50 e 60. O “vaivém”da moçada acontecia todos finais de semana, feriados e dias santificados, na Barão entre a Engenheiro Portela e Sete de Setembro. Homens nas calçadas e as mulheres desfilando pelo centro da rua a céu aberto. Dezenas de casais se conheceram e se casaram graças ao “vaivém.”
O livro de Godofredo Sandoval Batista é a mais perfeita crônica sobre Anápolis, sua gente e sua vida. Merece ser lido e discutido.
Só num ponto Godofredo Sandoval Batista comete pequeno equivoco. Com precisão descreve a conquista do campeonato paulista do IV Centenário pelo Corinthians, em 1954. Quando sua família retornava de Vianópolis para Anápolis. Fala do time com Gilmar ou Cabeção, Homero e Olavo; Idário, Roberto e Goiano; Cláudio, Luizinho, Baltazar, Carbone e Nonô ou Souzinha. Descreve que Baltazar era artilheiro e bom cabeceador. O cabecinha de ouro. O eleva à condição de inventor da bicicleta e conhecido como Diamante Negro! Inventor da bicicleta e Diamante Negro, foi Leônidas. É importante esse reparo para que torcedores do São Paulo e Flamengo não venham posteriormente nos contestar.
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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Xata e Galo: forças do futebol anapolino
Publicado na edição de 05/09/2010 do jornal Diário da Manhã
A Associação Atlética Anapolina é a equipe de futebol mais antiga de Anápolis. Fundada no final de 1921, ou início de 1922, com o nome de Bahia Esporte Clube, em homenagem ao dr. Faustino Plácido do Nascimento, baiano, torcedor do Bahia. Faustino foi o doador do terreno na Praça do Bom Jesus para o primeiro campo de futebol da cidade. Em 11 de fevereiro de 1931, transformou-se em Anápolis Esporte Clube. Finalmente em 1° de janeiro de 1948 surgiu a Associação Atlética Anapolina. Seu primeiro presidente foi Gisberto Ferraresi.
O Anápolis Futebol Clube surgiu em 1938 como União Esportiva Operária, tendo sido seu presidente João Isaac Abrão. Em abril de 1951, mudou seu nome para Anápolis Futebol Clube, sob a presidência de João Beze. O uniforme vermelho da Anapolina vem desde seus tempos de Bahia Esporte Clube. Já as cores da União Esportiva Operária eram amarela e branca, com listras verticais, largas. Quando em abril de 1951, União Esportiva Operária transformou-se em Anápolis Futebol Clube, as cores mudaram para preta, vermelha e branca e listras verticais estreitas, nos moldes da seleção paulista de futebol.
O emblema da União Esportiva Operária se assemelhava ao emblema da Federação Paulista de Futebol , com as letras U.S.O. Já o Anápolis Futebol Clube possui camisa semelhante à Federação Paulista, mas seu emblema foi copiado do Santos Futebol Clube.
Em 1948, quando a Anapolina foi fundada, seus dirigentes se reuniram para discutir o emblema a ser adotado pela equipe. As ideias colocadas em discussão foram as mais variadas possíveis. Analisados os prós e contras, nenhuma prosperava. Essa discussão interminável angustiava a todos. Já ao final da reunião, sem que houvesse acordo entre os participantes, Iberê, que como representante dos atletas rubros participava da discussão, foi o grande responsável pela escolha do emblema da xata. Vestido com camiseta da Associação Atlética Francana, da cidade paulista de Franca, Iberê ao se levantar para deixar a reunião, despertou a atenção de um dirigente ao ver o emblema da Francana, na camisa que vestia. Um círculo maior contendo três círculos menores cada um com uma letra. Foi o símbolo aprovado por todos, nos mesmos moldes da Francana, com a letra F substituída por mais um A.
Essa influência do futebol paulista sobre os times anapolinos ganhou mais destaque a partir de maio de 1942. Botafogo de Ribeirão Preto passava por crise administrativa e financeira. Seus principais jogadores como Edmundo, Tíntias, Seu Chico, Riograndino e outros vieram para o Anápolis Esporte Clube, trazidos por Alceu, grande desportista anapolino. Esses craques fizeram surgir a “Pantera Goiana,” o melhor clube de todos os tempos em Goiás. Pantera Goiana foi qualificação que a imprensa esportiva deu à forte equipe do Anápolis Esporte Clube, a partir de 1942 até 1945.
Nos campeonatos organizados pela Liga Anapolina de Desportos e que participaram, Associação Atlética Anapolina foi seis vezes campeã; Ypiranga Atlético Clube, quatro vezes campeão; Anápolis Futebol Clube e São Francisco Esporte Clube, duas vezes campeões cada um.
A Associação Atlética Anapolina é a equipe de futebol mais antiga de Anápolis. Fundada no final de 1921, ou início de 1922, com o nome de Bahia Esporte Clube, em homenagem ao dr. Faustino Plácido do Nascimento, baiano, torcedor do Bahia. Faustino foi o doador do terreno na Praça do Bom Jesus para o primeiro campo de futebol da cidade. Em 11 de fevereiro de 1931, transformou-se em Anápolis Esporte Clube. Finalmente em 1° de janeiro de 1948 surgiu a Associação Atlética Anapolina. Seu primeiro presidente foi Gisberto Ferraresi.
O Anápolis Futebol Clube surgiu em 1938 como União Esportiva Operária, tendo sido seu presidente João Isaac Abrão. Em abril de 1951, mudou seu nome para Anápolis Futebol Clube, sob a presidência de João Beze. O uniforme vermelho da Anapolina vem desde seus tempos de Bahia Esporte Clube. Já as cores da União Esportiva Operária eram amarela e branca, com listras verticais, largas. Quando em abril de 1951, União Esportiva Operária transformou-se em Anápolis Futebol Clube, as cores mudaram para preta, vermelha e branca e listras verticais estreitas, nos moldes da seleção paulista de futebol.
O emblema da União Esportiva Operária se assemelhava ao emblema da Federação Paulista de Futebol , com as letras U.S.O. Já o Anápolis Futebol Clube possui camisa semelhante à Federação Paulista, mas seu emblema foi copiado do Santos Futebol Clube.
Em 1948, quando a Anapolina foi fundada, seus dirigentes se reuniram para discutir o emblema a ser adotado pela equipe. As ideias colocadas em discussão foram as mais variadas possíveis. Analisados os prós e contras, nenhuma prosperava. Essa discussão interminável angustiava a todos. Já ao final da reunião, sem que houvesse acordo entre os participantes, Iberê, que como representante dos atletas rubros participava da discussão, foi o grande responsável pela escolha do emblema da xata. Vestido com camiseta da Associação Atlética Francana, da cidade paulista de Franca, Iberê ao se levantar para deixar a reunião, despertou a atenção de um dirigente ao ver o emblema da Francana, na camisa que vestia. Um círculo maior contendo três círculos menores cada um com uma letra. Foi o símbolo aprovado por todos, nos mesmos moldes da Francana, com a letra F substituída por mais um A.
Essa influência do futebol paulista sobre os times anapolinos ganhou mais destaque a partir de maio de 1942. Botafogo de Ribeirão Preto passava por crise administrativa e financeira. Seus principais jogadores como Edmundo, Tíntias, Seu Chico, Riograndino e outros vieram para o Anápolis Esporte Clube, trazidos por Alceu, grande desportista anapolino. Esses craques fizeram surgir a “Pantera Goiana,” o melhor clube de todos os tempos em Goiás. Pantera Goiana foi qualificação que a imprensa esportiva deu à forte equipe do Anápolis Esporte Clube, a partir de 1942 até 1945.
Nos campeonatos organizados pela Liga Anapolina de Desportos e que participaram, Associação Atlética Anapolina foi seis vezes campeã; Ypiranga Atlético Clube, quatro vezes campeão; Anápolis Futebol Clube e São Francisco Esporte Clube, duas vezes campeões cada um.
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domingo, 25 de julho de 2010
O atleta esperto e o árbitro leigo
Publicado na edição de 25/07/2010 do jornal Diário da Manhã
Com a fundação da Liga Anapolina de Desportos em 1949, a Associação Atlética Anapolina sagrou-se tetracampeã da cidade ao vencer os campeonatos de 1949, 1950, 1951 e 1952. Em 1953, no seu terceiro ano de fundação, o campeão foi o São Francisco, ligado ao Colégio São Francisco de Assis, da irmandade franciscana.
Anápolis Futebol Clube, sucessor da União Esportiva Operária, só se transformou numa equipe competitiva no final de 1953, para a disputa do campeonato do ano seguinte. Formado por atletas vindos de outras cidades do Estado e mesmo do interior de Minas e São Paulo, o tricolor montou um time forte para a temporada de 1954. Os irmãos Túlio e Osvaldo Cintra vieram de Pires do Rio. Migues, zagueiro de origem espanhola, completava a defesa. Jogavam ainda Nera, Nilo, Saul, Carne Seca, Felinho e outros consagrados craques do futebol anapolino.
João Beze, Amim Antônio, Didi Castanheira, Rubens Porfírio, José de Lima e grande parte da colônia Sírio-Libanesa do Município, torciam pelo tricolor e investiam no fortalecimento da equipe. Nesse clima de euforia o Anápolis contratou um jogador de grande categoria para capitanear o time. Cidadão extrovertido, conhecedor profundo das técnicas e regras futebolísticas da época. Negro, alto, jogava no meio campo. Excelente cobrador de faltas. Odair Tito era o seu nome. Conhecia a maioria dos craques profissionais do Rio e São Paulo. Possuía coleção de noticias sobre sua atuação como atleta em inúmeros clubes. Dentro de campo ganhou o respeito dos adversários e admiração dos tricolores. Para os companheiros Odair era o professor. Para a imprensa esportiva anapolina, catedrático. Em inúmeras ocasiões repórteres, comentaristas e cronistas recorriam a ele para elucidarem uma questão esportiva mais complexa. Sua palavra era lei!
São Francisco tinha equipe fortíssima. Flavio Santos, Américo, Walquinho, Zezé, João Campos, Hugo e Olegário faziam parte do seu elenco. Campeão anapolino de 1953, desbancando a Associação Atlética Anapolina que conquistara os quatro primeiros campeonatos patrocinados pela LAD, o São Francisco era a nova sensação da cidade.
Os tricolores sabiam que vencer a equipe dos padres seria meio caminho para a conquista do campeonato. Jogo definido pela tabela da Liga Anapolina de Desportos, não se falava em outra coisa nas rodas esportivas da cidade. Todos queriam ver Carne Seca, Odair Tito e toda máquina anapolina enfrentando o campeão. Gigante, o árbitro escolhido. O “melhor árbitro- sem diploma,” do futebol goiano.
Ao tomar conhecimento que Gigante seria o árbitro, Odair Tito se reuniu com os companheiros de equipe e prometeu desestabilizar sua arbitragem. Iniciada a partida, Anápolis atacando mais, o São Francisco jogava no contra-ataque. Foi num contra-ataque de João Campos, Walquinho e Hugo que a equipe chegou à linha da grande área. Hugo foi barrado faltosamente pelo zagueiro Migues, fora da área, próximo à meia lua.
Odair Tito veio às pressas, colocou a bola no local exato que acontecera a falta. Deu um passo à frente chamando mais dois colegas para com ele ficarem na barreira. O árbitro contou os passos onde deveria ficar a barreira. Odair, a menos de um metro da bola, determinou:
- Autorize a cobrança, senhor juiz!
Gigante ordenou que saíssem da frente. Odair engrossou:
- Temos direito à barreira. Isso é de lei!
- Barreira é barreira! O que o senhor está fazendo é obstrução. Ninguém vai chutar com vocês a menos de um metro da bola! Retrucou o árbitro.
- Professor, essa é a nova regra da CBD. É a barreira xang-xang. Argumentou Odair.
Empurrando os atletas para o local exato que deveriam ficar, Gigante ainda murmurou:
- Xang-xang é coisa de quatro mil anos atrás. Vem da China antiga!
Adhemar Santillo foi atleta do Ypiranga, cronista esportivo e presidente da Liga Anapolina de Desportos (adhemar@santillo.com)
Com a fundação da Liga Anapolina de Desportos em 1949, a Associação Atlética Anapolina sagrou-se tetracampeã da cidade ao vencer os campeonatos de 1949, 1950, 1951 e 1952. Em 1953, no seu terceiro ano de fundação, o campeão foi o São Francisco, ligado ao Colégio São Francisco de Assis, da irmandade franciscana.
Anápolis Futebol Clube, sucessor da União Esportiva Operária, só se transformou numa equipe competitiva no final de 1953, para a disputa do campeonato do ano seguinte. Formado por atletas vindos de outras cidades do Estado e mesmo do interior de Minas e São Paulo, o tricolor montou um time forte para a temporada de 1954. Os irmãos Túlio e Osvaldo Cintra vieram de Pires do Rio. Migues, zagueiro de origem espanhola, completava a defesa. Jogavam ainda Nera, Nilo, Saul, Carne Seca, Felinho e outros consagrados craques do futebol anapolino.
João Beze, Amim Antônio, Didi Castanheira, Rubens Porfírio, José de Lima e grande parte da colônia Sírio-Libanesa do Município, torciam pelo tricolor e investiam no fortalecimento da equipe. Nesse clima de euforia o Anápolis contratou um jogador de grande categoria para capitanear o time. Cidadão extrovertido, conhecedor profundo das técnicas e regras futebolísticas da época. Negro, alto, jogava no meio campo. Excelente cobrador de faltas. Odair Tito era o seu nome. Conhecia a maioria dos craques profissionais do Rio e São Paulo. Possuía coleção de noticias sobre sua atuação como atleta em inúmeros clubes. Dentro de campo ganhou o respeito dos adversários e admiração dos tricolores. Para os companheiros Odair era o professor. Para a imprensa esportiva anapolina, catedrático. Em inúmeras ocasiões repórteres, comentaristas e cronistas recorriam a ele para elucidarem uma questão esportiva mais complexa. Sua palavra era lei!
São Francisco tinha equipe fortíssima. Flavio Santos, Américo, Walquinho, Zezé, João Campos, Hugo e Olegário faziam parte do seu elenco. Campeão anapolino de 1953, desbancando a Associação Atlética Anapolina que conquistara os quatro primeiros campeonatos patrocinados pela LAD, o São Francisco era a nova sensação da cidade.
Os tricolores sabiam que vencer a equipe dos padres seria meio caminho para a conquista do campeonato. Jogo definido pela tabela da Liga Anapolina de Desportos, não se falava em outra coisa nas rodas esportivas da cidade. Todos queriam ver Carne Seca, Odair Tito e toda máquina anapolina enfrentando o campeão. Gigante, o árbitro escolhido. O “melhor árbitro- sem diploma,” do futebol goiano.
Ao tomar conhecimento que Gigante seria o árbitro, Odair Tito se reuniu com os companheiros de equipe e prometeu desestabilizar sua arbitragem. Iniciada a partida, Anápolis atacando mais, o São Francisco jogava no contra-ataque. Foi num contra-ataque de João Campos, Walquinho e Hugo que a equipe chegou à linha da grande área. Hugo foi barrado faltosamente pelo zagueiro Migues, fora da área, próximo à meia lua.
Odair Tito veio às pressas, colocou a bola no local exato que acontecera a falta. Deu um passo à frente chamando mais dois colegas para com ele ficarem na barreira. O árbitro contou os passos onde deveria ficar a barreira. Odair, a menos de um metro da bola, determinou:
- Autorize a cobrança, senhor juiz!
Gigante ordenou que saíssem da frente. Odair engrossou:
- Temos direito à barreira. Isso é de lei!
- Barreira é barreira! O que o senhor está fazendo é obstrução. Ninguém vai chutar com vocês a menos de um metro da bola! Retrucou o árbitro.
- Professor, essa é a nova regra da CBD. É a barreira xang-xang. Argumentou Odair.
Empurrando os atletas para o local exato que deveriam ficar, Gigante ainda murmurou:
- Xang-xang é coisa de quatro mil anos atrás. Vem da China antiga!
Adhemar Santillo foi atleta do Ypiranga, cronista esportivo e presidente da Liga Anapolina de Desportos (adhemar@santillo.com)
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domingo, 20 de junho de 2010
Calango cantou e dançou
Publicado na edição de 20/06/2010 do jornal Diário da Manhã
No início dos anos 60 chegaram a Anápolis alguns atletas vindos do interior de Minas, para reforçarem, principalmente Anápolis e Anapolina. Um rapaz louro, bem franzino, logo caiu na graça da torcida rubra. Seu nome oficial ninguém sabia, mas seu apelido ecoava por todos os recantos da cidade: Calango!
Como o Brasil havia conquistado o primeiro campeonato mundial na Suécia (1958) e Garrincha, com seus dribles desconcertantes, era a maior sensação dos que apreciavam o futebol-arte.Calango, em pleno Estádio Manoel Demostenes, o lembrava com suas paradas rápidas e gingadas de corpo. Os torcedores da xata iam à loucura, quando o moço de Uberlândia , dava aquela freada repentina no campo de chão batido, gingando corpo sem sair do lugar, geralmente desequilibrando o marcador que caia sentado ao solo. Seus dribles e pedaladas valiam aos torcedores rubros, principalmente se fosse num jogo contra o Anápolis, mais que uma expressiva vitória.
Sua maneira alegre de jogar conquistou a simpatia unânime dos torcedores da Anapolina. Os adversários também se divertiam, quando não era o time deles que passava pelo vexame, é claro! Em pouco tempo Calango virou a principal sensação no futebol de Anápolis. Mesmo os que não gostavam de futebol começaram a frequentar os jogos, em que ele estivesse presente.
Nessa mesma época trabalhava como cronista esportivo na Rádio Santana de Anápolis. Pequena emissora AM, de 250 watts, mas muito ouvida na cidade. Nossa cabine de transmissão era à base de madeira e fórmica, construída no início de 1962, ano de Copa do Mundo, no Chile. Aproveitando o espírito patriótico dos brasileiros que já pensavam no bi-campeonato, a pintamos de verde-amarelo.
Num jogo entre Anapolina e Ypiranga resolvemos inovar. Microfone com cabo longo instalado na aparelhagem da cabine, ia até a lateral do campo, colocava o repórter de pista mais próximo dos jogadores. Nosso repórter era o saudoso Antônio Abrão Isaac, o Toníco. Excelente advogado. Lecionou por muitos anos na Faculdade de Direito da UniEvangélica. Foi secretário municipal quando exerci o cargo de prefeito entre 1997/2000.
Pelo comprimento do fio do microfone, toda vez que acionávamos o repórter de pista era aquele zunido que incomodava todos nós da cabine de transmissão. Os ouvintes tanto reclamaram da qualidade do som, que nossa inovação não passou daquele domingo. Nos jogos seguintes o repórter de pista ficou na cabine mesmo, ao nosso lado.
Quando Anapolina e Ypiranga entraram em campo, Antônio Isaac, mais que depressa fez um aceno para Calango, o craque sensação. Muito solícito veio até a lateral do campo. No momento chovia fino. Essa condição climática obrigou Toníco usar galochas e capa de nylon. Estava totalmente protegido da chuva e outros possíveis imprevistos. Floreou, encheu a bola, descrevendo a mestria de Calango. Por fim fez a pergunta:
– Em quem você se inspirou para driblar com tanta perfeição ?
Ao pegar o microfone, Calango passou a pular baixinho, gritando:
– Ai, ai, ai, ta, ta, ta...
Como não parava de sapatear com seu ai, ai, ta, ta, ta, interminável, o repórter tirou-lhe o microfone, sapecando:
– Gente, além de tudo Calango é dançarino e cantor!
Recobrando a respiração, o craque se distanciando, do Toníco Isaac, desabafou:
– Que dança coisa nenhuma! Tomei foi choque nessa espelunca...
Empacotado e bem isolado , o repórter não notara que o microfone estava dando choque.
No início dos anos 60 chegaram a Anápolis alguns atletas vindos do interior de Minas, para reforçarem, principalmente Anápolis e Anapolina. Um rapaz louro, bem franzino, logo caiu na graça da torcida rubra. Seu nome oficial ninguém sabia, mas seu apelido ecoava por todos os recantos da cidade: Calango!
Como o Brasil havia conquistado o primeiro campeonato mundial na Suécia (1958) e Garrincha, com seus dribles desconcertantes, era a maior sensação dos que apreciavam o futebol-arte.Calango, em pleno Estádio Manoel Demostenes, o lembrava com suas paradas rápidas e gingadas de corpo. Os torcedores da xata iam à loucura, quando o moço de Uberlândia , dava aquela freada repentina no campo de chão batido, gingando corpo sem sair do lugar, geralmente desequilibrando o marcador que caia sentado ao solo. Seus dribles e pedaladas valiam aos torcedores rubros, principalmente se fosse num jogo contra o Anápolis, mais que uma expressiva vitória.
Sua maneira alegre de jogar conquistou a simpatia unânime dos torcedores da Anapolina. Os adversários também se divertiam, quando não era o time deles que passava pelo vexame, é claro! Em pouco tempo Calango virou a principal sensação no futebol de Anápolis. Mesmo os que não gostavam de futebol começaram a frequentar os jogos, em que ele estivesse presente.
Nessa mesma época trabalhava como cronista esportivo na Rádio Santana de Anápolis. Pequena emissora AM, de 250 watts, mas muito ouvida na cidade. Nossa cabine de transmissão era à base de madeira e fórmica, construída no início de 1962, ano de Copa do Mundo, no Chile. Aproveitando o espírito patriótico dos brasileiros que já pensavam no bi-campeonato, a pintamos de verde-amarelo.
Num jogo entre Anapolina e Ypiranga resolvemos inovar. Microfone com cabo longo instalado na aparelhagem da cabine, ia até a lateral do campo, colocava o repórter de pista mais próximo dos jogadores. Nosso repórter era o saudoso Antônio Abrão Isaac, o Toníco. Excelente advogado. Lecionou por muitos anos na Faculdade de Direito da UniEvangélica. Foi secretário municipal quando exerci o cargo de prefeito entre 1997/2000.
Pelo comprimento do fio do microfone, toda vez que acionávamos o repórter de pista era aquele zunido que incomodava todos nós da cabine de transmissão. Os ouvintes tanto reclamaram da qualidade do som, que nossa inovação não passou daquele domingo. Nos jogos seguintes o repórter de pista ficou na cabine mesmo, ao nosso lado.
Quando Anapolina e Ypiranga entraram em campo, Antônio Isaac, mais que depressa fez um aceno para Calango, o craque sensação. Muito solícito veio até a lateral do campo. No momento chovia fino. Essa condição climática obrigou Toníco usar galochas e capa de nylon. Estava totalmente protegido da chuva e outros possíveis imprevistos. Floreou, encheu a bola, descrevendo a mestria de Calango. Por fim fez a pergunta:
– Em quem você se inspirou para driblar com tanta perfeição ?
Ao pegar o microfone, Calango passou a pular baixinho, gritando:
– Ai, ai, ai, ta, ta, ta...
Como não parava de sapatear com seu ai, ai, ta, ta, ta, interminável, o repórter tirou-lhe o microfone, sapecando:
– Gente, além de tudo Calango é dançarino e cantor!
Recobrando a respiração, o craque se distanciando, do Toníco Isaac, desabafou:
– Que dança coisa nenhuma! Tomei foi choque nessa espelunca...
Empacotado e bem isolado , o repórter não notara que o microfone estava dando choque.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Assim nasceu Xata com X
Publicado na edição de 17/05/2010 do jornal Diário da Manhã
No início de 1931, tendo como presidente Dr. Manoel Gonçalves Cruz, foi fundado o Annápolis Sport Club. No dia 7/02/1931, no seu primeiro jogo, debaixo de muita chuva o Annápolis Sport derrota a A.A. União Goyana, da cidade de Goiás, por 2 x 1. Com altos e baixos o Annápolis resistiu até o final de 1947. Nesse ano o presidente José Maria do Nascimento Júnior, mesmo tendo injetado muito dinheiro do seu próprio bolso na equipe, não conseguiu saldar todas suas dívidas. A situação piorou com a saída dos Puglisi (Júlio, Laudo e Zeca Puglisi) e afastamento de Raul, Verdi e outros que formaram o Quinta Coluna.
Mesmo com a resistência de José Maria, em 1º de janeiro de 1948 foi fundada, com a participação de Gisberto Ferraresi, José Elias Isaac, Moisés Roriz Filho, João Pedro Neto, Ângelo Carnielo, Edson Hermano, toda família Puglisi e atletas a Associação Atlética Anapolina em substituição ao Annápolis Sport Club, tendo como seu primeiro presidente Gisberto Ferraresi.
O primeiro jogo da Associação atlética Anapolina foi contra o Ferroviário de Araguari, no Estádio Manoel Demóstenes, em 18 de abril de 1948. A rubra venceu por 3 x 2. Gols de Júlio Puglisi, Leônidas e Picum. Sua escalação para aquela partida foi: Juca, Petrôneo e Tatu; Arnaldo, Iberê e Jé Lemes; Alípio (Luizinho), Júlio. Juvenal, Picum e Leônidas.
Os Puglisi foram importantíssimos não só na fundação como sustentação da Anapolina. Júlio, Laudo e Zeca eram extraordinários jogadores. Vicente, já veterano, Tonico e Adelino também faziam parte da rubra. Júlio Puglisi iniciou sua carreira como goleiro, se transformando posteriormente num dos mais destacados artilheiros. Laudo foi campeão goiano pelo Operário, em 1947 e na Anapolina brilhou como artilheiro da equipe. Zeca foi o mais destacado de todos eles e considerado como o melhor ponteiro direito do futebol anapolino em todos os tempos. Waldinar e Celso Campos mais novos, foram brilhantes na história da rubra. Contudo, a grande líder, a comandante de toda família, fanática torcedora da Associação Atlética Anapolina, foi a matriarca da família, dona Caetana Puglisi. Sua casa sempre foi local preferido dos atletas discutirem futebol, saboreando o café preparado por ela ao fogão a lenha. A mesa sempre farta de biscoitos, bolos e doces a qualquer hora. Dona Caetana excelente anfiriã, ainda lavava, passava e cuidava de todo material usado pela rubra. Foi uma heroína, verdadeiro exemplo de dedicação aos filhos, amigos e a Associação Atlética Anapolina.
Torcedor da Anapolina, como qualquer torcedor apaixonado pelo seu clube, tem seus momentos de alegria e tristeza. Só que o da rubra é mais criativo e está sempre de bem com a vida e com o humor. No início da década dos anos 50, a rubra ganhou o campeonato anapolino de futebol sem perder um único jogo e conquistou o tetra campeonato da cidade, patrocinado pela Liga Anapolina de Desportos. Seu maior adversário era, como continua sendo, o Anápolis Fubebol Clube. Antes das partidas circulavam pela cidade e no Estádio Manuel Demóstenes, folhinha dizendo o dia, mês, ano e fase da lua, anunciando mais uma vitória da rubra contra o tradicional adversário. Quando a previsão não dava certo, a gozação e constrangimento aos adversários já haviam sido realizados antecipadamente.
Wahib Aidar, empresário, muito amigo dos Puglisi, ex-atleta da Anapolina na mesma época que Celso Campos, era o mais espirituoso e gozador de toda torcida. Presidindo o clube, num daqueles momentos difíceis, em que faltavam atletas e dinheiro para sua manutenção, numa noite de chuva torrencial em Anápolis, Wahib sentado na tribuna de honra, assistia a mais um jogo da sua rubra querida. Longe de conversas com amigos e outros torcedores, sozinho, preocupado com os compromissos financeiros que venceriam na manhã seguinte, ouviu o locutor Vilibaldo Alves, de uma emissora de rádio local, narrando aos ouvintes a tempestade que caia sobre a cidade:
– É fogo, torcida anapolina. Cai água em grande quantidade. É chuva com X maiúsculo!
A Anapolina mesmo com toda crise, jogadores com os salários em atraso, aparentemente desmotivados, derrotou o adversário, dando show de bola. Wahib emocionado com a dedicação dos atletas, ao conceder entrevistas às emissoras de rádio anapolinas e goianienses a qualificou como uma equipe irreverente, chata. Chata diferente: " Xata com X maiúsculo."
No início de 1931, tendo como presidente Dr. Manoel Gonçalves Cruz, foi fundado o Annápolis Sport Club. No dia 7/02/1931, no seu primeiro jogo, debaixo de muita chuva o Annápolis Sport derrota a A.A. União Goyana, da cidade de Goiás, por 2 x 1. Com altos e baixos o Annápolis resistiu até o final de 1947. Nesse ano o presidente José Maria do Nascimento Júnior, mesmo tendo injetado muito dinheiro do seu próprio bolso na equipe, não conseguiu saldar todas suas dívidas. A situação piorou com a saída dos Puglisi (Júlio, Laudo e Zeca Puglisi) e afastamento de Raul, Verdi e outros que formaram o Quinta Coluna.
Mesmo com a resistência de José Maria, em 1º de janeiro de 1948 foi fundada, com a participação de Gisberto Ferraresi, José Elias Isaac, Moisés Roriz Filho, João Pedro Neto, Ângelo Carnielo, Edson Hermano, toda família Puglisi e atletas a Associação Atlética Anapolina em substituição ao Annápolis Sport Club, tendo como seu primeiro presidente Gisberto Ferraresi.
O primeiro jogo da Associação atlética Anapolina foi contra o Ferroviário de Araguari, no Estádio Manoel Demóstenes, em 18 de abril de 1948. A rubra venceu por 3 x 2. Gols de Júlio Puglisi, Leônidas e Picum. Sua escalação para aquela partida foi: Juca, Petrôneo e Tatu; Arnaldo, Iberê e Jé Lemes; Alípio (Luizinho), Júlio. Juvenal, Picum e Leônidas.
Os Puglisi foram importantíssimos não só na fundação como sustentação da Anapolina. Júlio, Laudo e Zeca eram extraordinários jogadores. Vicente, já veterano, Tonico e Adelino também faziam parte da rubra. Júlio Puglisi iniciou sua carreira como goleiro, se transformando posteriormente num dos mais destacados artilheiros. Laudo foi campeão goiano pelo Operário, em 1947 e na Anapolina brilhou como artilheiro da equipe. Zeca foi o mais destacado de todos eles e considerado como o melhor ponteiro direito do futebol anapolino em todos os tempos. Waldinar e Celso Campos mais novos, foram brilhantes na história da rubra. Contudo, a grande líder, a comandante de toda família, fanática torcedora da Associação Atlética Anapolina, foi a matriarca da família, dona Caetana Puglisi. Sua casa sempre foi local preferido dos atletas discutirem futebol, saboreando o café preparado por ela ao fogão a lenha. A mesa sempre farta de biscoitos, bolos e doces a qualquer hora. Dona Caetana excelente anfiriã, ainda lavava, passava e cuidava de todo material usado pela rubra. Foi uma heroína, verdadeiro exemplo de dedicação aos filhos, amigos e a Associação Atlética Anapolina.
Torcedor da Anapolina, como qualquer torcedor apaixonado pelo seu clube, tem seus momentos de alegria e tristeza. Só que o da rubra é mais criativo e está sempre de bem com a vida e com o humor. No início da década dos anos 50, a rubra ganhou o campeonato anapolino de futebol sem perder um único jogo e conquistou o tetra campeonato da cidade, patrocinado pela Liga Anapolina de Desportos. Seu maior adversário era, como continua sendo, o Anápolis Fubebol Clube. Antes das partidas circulavam pela cidade e no Estádio Manuel Demóstenes, folhinha dizendo o dia, mês, ano e fase da lua, anunciando mais uma vitória da rubra contra o tradicional adversário. Quando a previsão não dava certo, a gozação e constrangimento aos adversários já haviam sido realizados antecipadamente.
Wahib Aidar, empresário, muito amigo dos Puglisi, ex-atleta da Anapolina na mesma época que Celso Campos, era o mais espirituoso e gozador de toda torcida. Presidindo o clube, num daqueles momentos difíceis, em que faltavam atletas e dinheiro para sua manutenção, numa noite de chuva torrencial em Anápolis, Wahib sentado na tribuna de honra, assistia a mais um jogo da sua rubra querida. Longe de conversas com amigos e outros torcedores, sozinho, preocupado com os compromissos financeiros que venceriam na manhã seguinte, ouviu o locutor Vilibaldo Alves, de uma emissora de rádio local, narrando aos ouvintes a tempestade que caia sobre a cidade:
– É fogo, torcida anapolina. Cai água em grande quantidade. É chuva com X maiúsculo!
A Anapolina mesmo com toda crise, jogadores com os salários em atraso, aparentemente desmotivados, derrotou o adversário, dando show de bola. Wahib emocionado com a dedicação dos atletas, ao conceder entrevistas às emissoras de rádio anapolinas e goianienses a qualificou como uma equipe irreverente, chata. Chata diferente: " Xata com X maiúsculo."
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terça-feira, 13 de abril de 2010
Xata, o segundo time de todos
Publicado na edição de 13/04/2010 do jornal Diário da Manhã
A Associação Atlética Anapolina, a Rubra ou Xata, como carinhosamente é conhecida, no passado foi um time de poucos adeptos. Seus próprios torcedores a classificavam como a equipe de 33 simpatizantes. Só a família Puglisi representava mais da metade de toda sua torcida. Simpática, formada por atletas dedicados, torcedores do São Francisco, Induspina, Anápolis e Ypiranga, se uniam aos poucos torcedores rubros quando o time enfrentava outra equipe que não fosse a sua. Dessa forma quando jogavam Anápolis e Anapolina, torcedores do Ypiranga torciam freneticamente pela Xata. O mesmo acontecia com os torcedores do Anápolis quando a Rubra enfrentava o Ypiranga. Por isso nunca se soube exatamente o tamanho da sua torcida.
Juca, Pedruca, Arnaldo, Joãozinho, Nego, Iberê, Fogueira, Célio Sabag, Zeca, Laudo, Celso Campos, Sergio, foram algumas das figuras importantes da Xata no tempo do amadorismo. Já próximo ao surgimento do profissionalismo fizeram parte da equipe Patinho, Calango, Ferracioli , Teles, Roberto e Roberto Bim, dentre outros vindos de Minas e São Paulo.
O mais emblemático torcedor de futebol em todos os tempos, em Anápolis, foi Caetano, da Anapolina. Mineiro de Uberaba, trazido para o município pelo seu sogro Garibaldi Paulino, que se encontrava na cidade desde 1933, a convite do prefeito dr. Valente, para o ajardinamento das praças Americano do Brasil, Bom Jesus e a Chácara das Rosas. Antes de vir para Anápolis, Antônio Caetano Júnior, o Caetano, já era torcedor fanático do Clube de Regatas Flamengo e do Uberaba Esporte Clube. Admirava tanto o Uberaba que o presidente da Xata, Anapolino de Faria, quando assumiu a prefeitura em 1982, acertou com o maestro da Banda Lira de Prata de Santana, que a banda iniciasse e finalizasse suas apresentações com marcha Uberaba Esporte Clube.
Cunhado do goleiro Juca, um dos craques mais queridos da Anapolina em todos os tempos, Caetano se simpatizou logo com a Xata, participando integralmente das suas atividades esportivas. Era show à parte. Chamava os torcedores de Anápolis e Ypiranga,seus principais adversários e cujos uniformes eram listrados, de “vestidos de zebra.” Onde quer que se encontrasse no Manoel Demóstenes fazia a alegria dos torcedores. Para Caetano, os atletas da Anapolina não tinham defeito. Adversário chutando errado, gritava “ Óh o pé dele Carpaneda!”.
Carpaneda era um ferreiro que tinha sua oficina em Anápolis. Quando alguém precisava de serviço de ferragem, principalmente que usasse bigorna, procurava a oficina do Carpaneda. Na base da bigorna, forno de alta temperatura e pesadas marretas, tudo se resolvia na ferraria do Carpaneda. Duelo extra-campo extraordinário acontecia quando jogavam Anapolina e Anápolis. Caetano do lado rubro enfrentando Mané Padeiro e Teodora, símbolos marcantes da torcida tricolor. Terodora comparecia aos jogos do Anápolis impecavelmente vestida, sempre carregando sua inseparável sombrinha, geralmente nas cores do seu time. Ficavam distantes um dos outros, se respeitando mutuamente.
Num desses jogos o atacante Zeca Puglisi driblou toda defesa do Anápolis, marcando gol de placa. Caetano foi ao delírio. Como havia evitado o tempo todo Teodora e Mane Padeiro, resolveu se aproximar dos dois, extravasando sua alegria pela frente no placar e beleza do gol marcado. Quando menos esperava, Teodora saiu do meio da torcida tricolor e partiu para cima dele quebrando a sombrinha na sua cabeça. Caetano socorrido pelo médico da Anapolina, já recuperado do susto e da agressão sofrida, foi abordado por Teodora lhe cobrando uma nova sombrinha. Não querendo briga, muito menos com uma dama, lhe deu a sombrinha.
Caetano faleceu em 18/11/1961, deixando lacuna impreenchível, nos estádios da cidade. Grande parte da simpatia que torcedores de outros clubes tinham pela Associação Atlética Anapolina, vinha da figura carismática de Antônio Caetano Jr., o Caetano de “Óh o pé dele Carpaneda”. Mais de 90% dos torcedores do Ypiranga torcem hoje pela Xata, a maior torcida de Anápolis.
A Associação Atlética Anapolina, a Rubra ou Xata, como carinhosamente é conhecida, no passado foi um time de poucos adeptos. Seus próprios torcedores a classificavam como a equipe de 33 simpatizantes. Só a família Puglisi representava mais da metade de toda sua torcida. Simpática, formada por atletas dedicados, torcedores do São Francisco, Induspina, Anápolis e Ypiranga, se uniam aos poucos torcedores rubros quando o time enfrentava outra equipe que não fosse a sua. Dessa forma quando jogavam Anápolis e Anapolina, torcedores do Ypiranga torciam freneticamente pela Xata. O mesmo acontecia com os torcedores do Anápolis quando a Rubra enfrentava o Ypiranga. Por isso nunca se soube exatamente o tamanho da sua torcida.
Juca, Pedruca, Arnaldo, Joãozinho, Nego, Iberê, Fogueira, Célio Sabag, Zeca, Laudo, Celso Campos, Sergio, foram algumas das figuras importantes da Xata no tempo do amadorismo. Já próximo ao surgimento do profissionalismo fizeram parte da equipe Patinho, Calango, Ferracioli , Teles, Roberto e Roberto Bim, dentre outros vindos de Minas e São Paulo.
O mais emblemático torcedor de futebol em todos os tempos, em Anápolis, foi Caetano, da Anapolina. Mineiro de Uberaba, trazido para o município pelo seu sogro Garibaldi Paulino, que se encontrava na cidade desde 1933, a convite do prefeito dr. Valente, para o ajardinamento das praças Americano do Brasil, Bom Jesus e a Chácara das Rosas. Antes de vir para Anápolis, Antônio Caetano Júnior, o Caetano, já era torcedor fanático do Clube de Regatas Flamengo e do Uberaba Esporte Clube. Admirava tanto o Uberaba que o presidente da Xata, Anapolino de Faria, quando assumiu a prefeitura em 1982, acertou com o maestro da Banda Lira de Prata de Santana, que a banda iniciasse e finalizasse suas apresentações com marcha Uberaba Esporte Clube.
Cunhado do goleiro Juca, um dos craques mais queridos da Anapolina em todos os tempos, Caetano se simpatizou logo com a Xata, participando integralmente das suas atividades esportivas. Era show à parte. Chamava os torcedores de Anápolis e Ypiranga,seus principais adversários e cujos uniformes eram listrados, de “vestidos de zebra.” Onde quer que se encontrasse no Manoel Demóstenes fazia a alegria dos torcedores. Para Caetano, os atletas da Anapolina não tinham defeito. Adversário chutando errado, gritava “ Óh o pé dele Carpaneda!”.
Carpaneda era um ferreiro que tinha sua oficina em Anápolis. Quando alguém precisava de serviço de ferragem, principalmente que usasse bigorna, procurava a oficina do Carpaneda. Na base da bigorna, forno de alta temperatura e pesadas marretas, tudo se resolvia na ferraria do Carpaneda. Duelo extra-campo extraordinário acontecia quando jogavam Anapolina e Anápolis. Caetano do lado rubro enfrentando Mané Padeiro e Teodora, símbolos marcantes da torcida tricolor. Terodora comparecia aos jogos do Anápolis impecavelmente vestida, sempre carregando sua inseparável sombrinha, geralmente nas cores do seu time. Ficavam distantes um dos outros, se respeitando mutuamente.
Num desses jogos o atacante Zeca Puglisi driblou toda defesa do Anápolis, marcando gol de placa. Caetano foi ao delírio. Como havia evitado o tempo todo Teodora e Mane Padeiro, resolveu se aproximar dos dois, extravasando sua alegria pela frente no placar e beleza do gol marcado. Quando menos esperava, Teodora saiu do meio da torcida tricolor e partiu para cima dele quebrando a sombrinha na sua cabeça. Caetano socorrido pelo médico da Anapolina, já recuperado do susto e da agressão sofrida, foi abordado por Teodora lhe cobrando uma nova sombrinha. Não querendo briga, muito menos com uma dama, lhe deu a sombrinha.
Caetano faleceu em 18/11/1961, deixando lacuna impreenchível, nos estádios da cidade. Grande parte da simpatia que torcedores de outros clubes tinham pela Associação Atlética Anapolina, vinha da figura carismática de Antônio Caetano Jr., o Caetano de “Óh o pé dele Carpaneda”. Mais de 90% dos torcedores do Ypiranga torcem hoje pela Xata, a maior torcida de Anápolis.
segunda-feira, 29 de março de 2010
Histórias de Cronistas e do Futebol
Publicado na edição de 27/03/2010 do jornal Diário da Manhã
Nunes Macedo, grande repórter de pista dos anos 60/70, na Rádio Brasil Central, antes de ser cronista trabalhava como encanador, em Anápolis. Fanático por futebol e pretendendo mudar de profissão, fez curso de árbitro, na escola da Liga Anapolina de Desportos. Foi aluno brilhante.
Sua estreia foi no jogo Serraria x Castilho, pelo Campeonato Anapolino. Estádio Manoel Demóstenes lotado. Nunes Macedo se impunha pelo conhecimento das regras, imparcialidade e acompanhamento das jogadas. Jovem, com muito vigor físico e amando a nova profissão, estava onde a bola ia.
Num lance violento praticado pelo lateral esquerdo Batata, do Serraria, jogador de estatura mediana, forte e corpulento, Nunes não teve dúvida, apitou pênalti e expulsou o zagueiro de campo. Antes que Aluísio, artilheiro do Castilho, fizesse a cobrança, Batata desferiu um torpedo de braço esquerdo na testa do árbitro, jogando-o ao chão.
Só recobrou os sentidos 40 minutos depois, no Pronto Socorro do Hospital Evangélico. Nunes Macedo nunca mais apitou nem pelada de rua, preferindo continuar como encanador. Só retornou aos estádios, retomando o gosto pelo futebol, bem mais à frente, como repórter, pela Rádio Imprensa, sob o comando de Jayro Rodrigues.
Petrônio Cruz, comentarista esportivo da Rádio Santana, só chegava ao jogo no final do segundo tempo. Fazia seu comentário intermediário por telefone, depois de ouvir nossa narração enquanto fechava o caixa do matinê, no Cine Vera Cruz, onde era gerente. Muitas vezes, quando a frequência ao cinema era maior, não ouvia a transmissão. Comentava sem ao menos saber quais os times que jogavam.
Gedeon Camargo, hoje militando na crônica esportiva de Uberlândia, começou a carreira como repórter na equipe da Rádio Carajá. Num jogo Anapolina x Anatex, pelo campeonato da LAD, entrevistou o zagueiro Orlando, da Anapolina. A xata não vencia há quatro partidas. Quis saber do zagueiro o porquê de tantos tropeços:
– Orlando, como você explica essa hecatombe que ocorreu na Anapolina ?
Como o zagueiro se confundiu completamente com a pergunta, respondendo coisa sem nexo, como “não é verdade que tenha comido feijoada...”, Gedeon o cortou:
– Orlando, parece que não fui entendido. Gostaria que você explicasse como justificar a debacle da Anapolina no campeonato?
Antônio Afonso de Almeida foi o pioneiro locutor esportivo em Anápolis. Da escola de Valdir Amaral da Rádio Globo do Rio de Janeiro narrava os lances de forma lenta e detalhada.
Para gravar no Estádio Pedro Ludovico, em Goiânia, partida entre as seleções de Goiás e Mato Grosso, com ele foi Clovis Guerra, chefe do departamento de Jornalismo da Rádio Carajá. Gravador grande, fitas trocadas com frequência, monitorado por Clovis. Faltando 20 minutos para o término e a última fita de que dispunham chegando ao final, Clovis, desesperado gritou para Afonso:
– Acelere, narre mais rápido! Seja como Pedro Luiz, da Bandeirantes! Lento assim a fita não vai dar.
A Rádio Carajá funcionava na parte superior de um prédio do Banco Estado de Goiás na Praça do Bom Jesus. Na parte superior externa do imóvel havia um possante alto falante, transmitindo toda programação da emissora. Às 11 horas, no seu programa esportivo, desportistas lotavam a praça em frente à emissora para se inteirar das últimas do esporte.
Mané Padeiro, que fazia a entrega de pães e roscas em sua carroça tipo baú, era presença cativa. Chovesse ou fizesse sol, às 11 horas lá estava ele com sua carroça. Torcedor fanático do Anápolis, naquele dia estava impaciente ao saber que Nilo, Carlinhos e Felinho, jogadores do tricolor, poderiam se transferir para o Ypiranga, maior adversário do Anápolis. Deixou a carroça no acostamento da calçada e foi para o meio da plateia.
Antônio Afonso, o radialista, fez a pergunta a um dos atletas que estavam na relação dos que poderiam mudar de time:
– É verdade que você está deixando o Anápolis, se transferindo para o Ypiranga?
O “não”, dito pelo jogador, foi com o som emitido pelo contato da língua com os dentes superiores:
– Dhi, dhi, dhi, dhi... Idêntico ao que os carroceiros utilizam para que o cavalo vá em frente.
Aquele som, velho conhecido do animal que servia Mané Padeiro, ampliado pelo alto-falante, fez com que o cavalo saísse em disparada carreira pela Rua Barão do Rio Branco, despejando pães e roscas pelo caminho. Só parou quando foi contido por populares na Praça Santana.
Nunes Macedo, grande repórter de pista dos anos 60/70, na Rádio Brasil Central, antes de ser cronista trabalhava como encanador, em Anápolis. Fanático por futebol e pretendendo mudar de profissão, fez curso de árbitro, na escola da Liga Anapolina de Desportos. Foi aluno brilhante.
Sua estreia foi no jogo Serraria x Castilho, pelo Campeonato Anapolino. Estádio Manoel Demóstenes lotado. Nunes Macedo se impunha pelo conhecimento das regras, imparcialidade e acompanhamento das jogadas. Jovem, com muito vigor físico e amando a nova profissão, estava onde a bola ia.
Num lance violento praticado pelo lateral esquerdo Batata, do Serraria, jogador de estatura mediana, forte e corpulento, Nunes não teve dúvida, apitou pênalti e expulsou o zagueiro de campo. Antes que Aluísio, artilheiro do Castilho, fizesse a cobrança, Batata desferiu um torpedo de braço esquerdo na testa do árbitro, jogando-o ao chão.
Só recobrou os sentidos 40 minutos depois, no Pronto Socorro do Hospital Evangélico. Nunes Macedo nunca mais apitou nem pelada de rua, preferindo continuar como encanador. Só retornou aos estádios, retomando o gosto pelo futebol, bem mais à frente, como repórter, pela Rádio Imprensa, sob o comando de Jayro Rodrigues.
Petrônio Cruz, comentarista esportivo da Rádio Santana, só chegava ao jogo no final do segundo tempo. Fazia seu comentário intermediário por telefone, depois de ouvir nossa narração enquanto fechava o caixa do matinê, no Cine Vera Cruz, onde era gerente. Muitas vezes, quando a frequência ao cinema era maior, não ouvia a transmissão. Comentava sem ao menos saber quais os times que jogavam.
Gedeon Camargo, hoje militando na crônica esportiva de Uberlândia, começou a carreira como repórter na equipe da Rádio Carajá. Num jogo Anapolina x Anatex, pelo campeonato da LAD, entrevistou o zagueiro Orlando, da Anapolina. A xata não vencia há quatro partidas. Quis saber do zagueiro o porquê de tantos tropeços:
– Orlando, como você explica essa hecatombe que ocorreu na Anapolina ?
Como o zagueiro se confundiu completamente com a pergunta, respondendo coisa sem nexo, como “não é verdade que tenha comido feijoada...”, Gedeon o cortou:
– Orlando, parece que não fui entendido. Gostaria que você explicasse como justificar a debacle da Anapolina no campeonato?
Antônio Afonso de Almeida foi o pioneiro locutor esportivo em Anápolis. Da escola de Valdir Amaral da Rádio Globo do Rio de Janeiro narrava os lances de forma lenta e detalhada.
Para gravar no Estádio Pedro Ludovico, em Goiânia, partida entre as seleções de Goiás e Mato Grosso, com ele foi Clovis Guerra, chefe do departamento de Jornalismo da Rádio Carajá. Gravador grande, fitas trocadas com frequência, monitorado por Clovis. Faltando 20 minutos para o término e a última fita de que dispunham chegando ao final, Clovis, desesperado gritou para Afonso:
– Acelere, narre mais rápido! Seja como Pedro Luiz, da Bandeirantes! Lento assim a fita não vai dar.
A Rádio Carajá funcionava na parte superior de um prédio do Banco Estado de Goiás na Praça do Bom Jesus. Na parte superior externa do imóvel havia um possante alto falante, transmitindo toda programação da emissora. Às 11 horas, no seu programa esportivo, desportistas lotavam a praça em frente à emissora para se inteirar das últimas do esporte.
Mané Padeiro, que fazia a entrega de pães e roscas em sua carroça tipo baú, era presença cativa. Chovesse ou fizesse sol, às 11 horas lá estava ele com sua carroça. Torcedor fanático do Anápolis, naquele dia estava impaciente ao saber que Nilo, Carlinhos e Felinho, jogadores do tricolor, poderiam se transferir para o Ypiranga, maior adversário do Anápolis. Deixou a carroça no acostamento da calçada e foi para o meio da plateia.
Antônio Afonso, o radialista, fez a pergunta a um dos atletas que estavam na relação dos que poderiam mudar de time:
– É verdade que você está deixando o Anápolis, se transferindo para o Ypiranga?
O “não”, dito pelo jogador, foi com o som emitido pelo contato da língua com os dentes superiores:
– Dhi, dhi, dhi, dhi... Idêntico ao que os carroceiros utilizam para que o cavalo vá em frente.
Aquele som, velho conhecido do animal que servia Mané Padeiro, ampliado pelo alto-falante, fez com que o cavalo saísse em disparada carreira pela Rua Barão do Rio Branco, despejando pães e roscas pelo caminho. Só parou quando foi contido por populares na Praça Santana.
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