terça-feira, 6 de março de 2012
Campanha emocionante em 1972
Para a eleição daquele ano, o MDB indicou como candidato a prefeito, o professor José Batista Júnior. Querido e respeitado pela população e pelos companheiros de partido. Havia comandado a educação e a cultura do Município. José Batista seria protagonista de uma das mais emocionantes disputas pela prefeitura de Anápolis.
Seu adversário, professor Eurípedes Barsanulfo Junqueira, era tido como funcionário público municipal exemplar. Começou como contínuo, chegando à chefia de gabinete do prefeito nas administrações de Hely Alves Ferreira e Jonas Duarte. Havia passado pela direção do Colégio Estadual “José Ludovico de Almeida”, principal colégio da cidade. Em 1965, cogitado para ser candidato em substituição ao prefeito Jonas Duarte, abriu mão para Raul Balduíno. Era, sem dúvida, a pessoa mais forte que a Arena poderia lançar.
José Batista, também, um político coerente e tradicional, se apresentava como o candidato da luta pela redemocratização do País e único capaz de dar continuidade ao trabalho realizado pelo grupo santilista.
A tese defendida por Eurípedes foi a de que Anápolis ganharia com a sua eleição por que ele teria a mão esquerda estendida ao Governo Estadual e, a direita, ao Governo Federal. Fez, pessoalmente, a campanha paz e amor. Sem o ódio e radicalismo, como a maioria dos que o apoiavam. Sua mensagem era, especialmente, levada às mães. Era tido pelos analistas políticos como imbatível.
Não havendo eleição para prefeito em Goiânia, a estrutura do Governo Estadual, para ganhar a eleição, foi transferida para Anápolis. Lei eleitoral falha, justiça desaparelhada, sem termos a quem recorrer, incentivávamos o eleitor a receber as benesses oferecidas pelo Governo, mas que votasse em José Batista Júnior:
- “Peguem o dinheiro, carteira de motorista, material de construção que estão lhe oferecendo, mas votem contra quem está tentando comprar seu voto. Diga não à corrupção e à escravidão. Vote pela liberdade. Vote José Batista Júnior.”
A Rádio Imprensa, pertencente ao médico Henrique Fanstone, presidente municipal da Arena, fazia a campanha arenista. Transmitia, todas as noites, os comícios de Junqueira. A Rádio Carajá comandada pelo MDB autêntico, defendia a administração Henrique Santillo, a candidatura de José Batista Júnior e transmitia, diariamente, os seus comícios.
Os emedebistas que romperam com o prefeito Henrique Santillo, criaram um grupo que se auto-intitulou “MDB Positivo” em apoio a Eurípedes Junqueira. Fernando Cunha Júnior e Ronaldo Jayme, por serem detentores de mandatos, não subiram ao palanque de Eurípedes Junqueira. Os demais emedebistas, adesistas, fizeram parte do palanque arenista. No palanque de José Batista Júnior, Henrique Santillo, Anapolino de Faria, os sete vereadores que apoiavam o prefeito, dentre eles o candidato a vice Milton Alves Ferreira; João Abrão, Presidente do MDB, Romualdo Santillo, eu e lideres populares.
Certos que num debate pela televisão Eurípedes Junqueira venceria José Batista, a Arena comprou o horário mais importante da TV Anhanguera, o único canal de televisão, até então, existente em Goiás, para o confronto, marcado para as 19 horas de um domingo... (continua)
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Queda e retorno da autonomia política
Violência inconcebível praticada contra um povo que não se rendia e jamais se rendeu aos caprichos dos prepotentes e inimigos das liberdades democráticas. José Batista Júnior que vencera a eleição enfrentando toda máquina oficial do governo e poderio econômico, soube da sua cassação por noticiário de rádio, quando voltava de Goiânia, sem ser atendido pelo secretário da Segurança Pública, onde fora para tratar de assuntos daquela pasta em Anápolis.
Foram 12 anos sem eleição para a prefeitura e 8 prefeitos nomeados. Nesse período o MDB continuou ganhando todas as eleições que disputou no Município. A única exceção ficou por conta da eleição para vereadores ocorrida em 1976, em que a Arena elegeu oito vereadores e o MDB, sete. Durante esse tempo companheiros humildes foram presos; várias tentativas os adversários fizeram para cassar nossos mandatas – Henrique Santillo e meu; impediram Henrique de atender pelo INPS; tentaram pelo suborno comandar o MDB municipal; assumiram a direção da Rádio Carajá através de força policial e fecharam a Rádio Santana, onde apresentávamos o programa “ O Povo Falou ta Falado.”
Fizemos inúmeros encontros políticos, discursos, debates nas comissões técnicas da Câmara Federal, simpósios estudantis na Câmara Municipal e reuniões domiciliares. mantendo acesa a luta pela autonomia política de Anápolis. O vereador Valmir Bastos Ribeiro foi verdadeiro “leão” nessa luta. Preso inúmeras vezes, torturado e permanentemente perseguido, Valmir foi exemplo de lealdade aos companheios e convicto defensor do estado democrático de direito. Graças à sua dedicação e prestigio conseguiu trazer a Anápolis, para debater política e fortalecer a luta pelo retorno da autonomia política do Município, figuras como Ulysses Guimarães, Aldo Fagundes, Odacir Klein , Freitas Nobre, Jaison Barreto, Tarcisio Delgado e outros expoentes do MDB nacional.
Estamos neste ano completando 25 anos do retorno ao direito do anapolino escolher pelo voto livre e soberano, o seu prefeito. Tenho muito orgulho de ter participado dessa luta gigantesca e vitoriosa. Satisfação de ter sido eleito pelo voto direto o primeiro prefeito depois do fim de prefeitos nomeados.
Os jovens, aqueles que contam com menos de 30 anos, não sabem os prejuízos causados pela ditadura. Não foram apenas as perdas materiais. Essas são repostas. Os maiores malefícios ocorreram no impedimento de formação de novas lideranças.As lideranças políticas de maior expressão na política nacional são remanescentes de 1964. Lideranças autenticas, mas que estão paulatinamente desaparecendo. O autoritarismo e leis de exceção impediram o surgimento de substitutos. Estamos com carência de lideres autênticos. Fruto do regime ditatorial. Para que isso não mais se repita, não devemos deixar que as atrocidades caiam no esquecimento, principalmente dos jovens.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Irapuan Costa Júnior fez a diferença
Irapuan, por não ser político militante, montou seu secretariado com pessoas influentes e bem-sucedidas na iniciativa privada. Sem se preocupar se eram arenistas ou não. Evitou radicalismo político. Não teve tempo para executar obras de destaque. Seu período como prefeito foi muito curto. Atuou mais politicamente que no setor administrativo. O governo federal tinha missão maior reservada para ele: suceder Leonino Caiado. Se sua indicação para a Prefeitura de Anápolis surpreendeu a prória Arena, na escolha para o governo, não houve surpresa. Desde que chegou à prefeitura, ninguém tinha dúvidas de que ali estava o futuro governador. Seu gabinete transformou-se em visitação obrigatória das lideranças arenistas. Leonino Caiado tinha preferência por Manoel dos Reis, prefeito de Goiânia, mas Brasília queria Irapuan.
Durante os 12 anos em que Anápolis foi considerada Área de Segurança Nacional (de 1973 a 1985), passaram pela prefeitura oito nomeados: Irapuan Costa Júnior, Eurípedes Junqueira, Jamel Cecílio, Lincoln de Almeida, Decil de Sá Abreu, Wolney Martins, Olímpio Ferreira Sobrinho e Anapolino de Faria.
Mesmo recebendo com simpatia sua forma suprapartidária de administrar, a população continuou votando contra. Sempre derrotando a Arena, dando vitórias consagradoras ao MDB. Em 1974, com Irapuan já escolhido governador, a derrota arenista em Anápolis foi arrasadora. Durante o período em que a cidade ficou sem autonomia política, o MDB só foi derrotado em 1976, eleição para vereadores, na administração Jamel Cecílio: Arena 8 X 7 MDB. Nas demais, vitórias do MDB.
O Movimento Democrático Brasileiro, ligado ao grupo Santillo, fez oposição a todos os nomeados, como representantes que eram do autoritarismo em Anápolis. Combate em todos os campos de ação. O santillismo se opunha aos nomeados a partir de Irapuan, nas tribunas, comícios, concentrações e simpósios, além do programa radiofônico O povo falou, tá falado.
Assumindo o governo estadual, Irapuan, com sua visão desenvolvimentista e em agradecimento ao povo anapolino, construiu o mais completo e moderno distrito industrial do Centro-Oeste: Distrito Agroindustrial de Anápolis – Daia. Instrumento fundamental para a consolidação do município como o maior polo industrial do Estado. Hoje, a mais importante obra do governo Irapuan abastece mais de 50 mil habitantes, com graças ao extraordinário reservatório e estação de água tratada no Daia. As 1.300 casas do programa Minha Casa, Minha Vida do Conjunto Copacabana serão abastecidas com água do distrito industrial.
Embora sempre combatido, Irapuan não guardou qualquer tipo de mágoa ou ressentimento. Com o passar do tempo, tornou-se amigo fraterno e solidário de Henrique Santillo. Transformou-se em destacado representante de Goiás e defensor da administração Santillo no Senado. Com o distanciamento político de Santillo e Iris Rezende Machado, ficou com Santillo. Irapuan atuou intensa e competentemente para que o PP indicasse Henrique Santillo ao Ministério da Saúde na administração Itamar Franco.
Algumas ações de Irapuan Costa Júnior são pouco conhecidas do grande público. Em 1975, como governador do Estado, enviou proposta de emenda constitucional à Assembleia Legislativa, extinguindo dispositivo que assegurava aos ex-governadores goianos pensão vitalícia. Remuneração idêntica a paga mensalmente a um desembargador do Tribunal de Justiça. A Constituição Estadual, adaptada à Constituição Federal, foi outorgada pelo governador Otávio Lage. A Assembleia Legislativa, em 1969, época da sua elaboração, estava fechada por decisão do governo federal. A Constituição Federal, outorgada por uma junta militar, garantia aos ex-presidentes da República pensão vitalícia equivalente ao salário de ministro do Supremo Tribunal Federal. A goiana privilegiava, com seu artigo 141, os ex-governadores, mesmo sem recolher um centavo ao Ipasgo ou ao Tesouro Estadual. Foi Irapuan Costa Júnior quem eliminou esse escandaloso privilégio, propondo a sua revogação. Eliminando privilégio a políticos, sua atitude até hoje repercute. Não há outra semelhante em todo o Brasil. Não foi promessa de campanha, pois foi nomeado. Não necessitou do voto popular. Abriu mão da polpuda pensão que a Constituição do Estado lhe assegurava ao se transformar, quatro anos à frente – 1979 –, em ex-governador. Abriu mão do direito a aposentadoria que seus antecessores recebiam. Irapuan Costa Júnior, mesmo chegando ao poder sem o voto popular, ouviu o clamor das ruas.
Esse fato se torna mais relevante quando, neste instante, a imprensa noticia que até o senador Álvaro Dias, um dos mais combativos senadores do PSDB, está reivindicando, retroativamente, mais de um milhão e seiscentos mil reais do Tesouro paranaense, com base em pensão vitalícia, por ter governado o Paraná.
domingo, 31 de outubro de 2010
A reunião que não era reunião
Fato curioso aconteceu em 28 de agosto de 1973: Milton era o vice-prefeito de Anápolis, quando cassaram o prefeito José Batista Júnior. Transformado o município em Área de Interesse à Segurança Nacional, prefeito passou a ser nomeado pelo presidente da República. Irapuan Costa Júnior, designado o primeiro prefeito nomeado. Decreto presidencial que cassou o mandato de José Batista e suspendeu por 10 anos seus direitos políticos não fez qualquer menção ao vice-prefeito Milton Alves. Não teve seu mandato cassado, nem os direitos políticos suspensos. Não lhe deram posse com a vacância do cargo. Ele também não questionou na justiça seu direito. Truculência praticada com base no AI-5 não era apreciada pela justiça. O AI-5 estava acima da Constituição Federal. Acima do AI-5, só o presidente da República, que possuia poder de aplicá-lo indiscriminadamente! Milton candidatou-se deputado estadual em 1974, elegendo-se ao lado de Henrique Santillo.
O Movimento Democrático Brasileiro era constituído de militantes destemidos. Na Vila Jaiara, a principal referência era José Luis Có, Zé Maneco. Amigo fiel, corajoso e participativo. Quando em 1966, o juiz eleitoral de Anápolis deixou de diplomar o vereador Henrique Santillo, o mais votado naquele pleito com 1.536 sufrágios, sob a alegação de que era fichado como comunista na G-2 da Polícia Militar de Minas Gerais. Zé Maneco não o deixou sem companhia um minuto sequer. Só se afastou quando Henrique foi diplomado e empossado.
Milton Alves era muito ligado ao Zé Maneco. Morador na Vila Jaiara, mas com amigos por toda cidade. Cearense, conhecia toda colônia nordestina de Anápolis. Organizava as reuniões domiciliares e setoriais. Eram reuniões geralmente com pouca gente. Reuniões de líderes convictos em favor da redemocratização do Brasil. Participantes levavam para sua comunidade os ensinamentos que lhes passávamos. Graças a isso estávamos em todos os setores da cidade. Com as reuniões, o partido estava vivo e ativo. Companheiros sabiam que tinhámos argumentos sólidos contra a ditadura. Milton Alves era um dos baluartes dessa luta. Não tinha preguiça. A qualquer hora e para qualquer reunião que fosse convocado fazia questão de comparecer.
Reunião marcada para o bairro João Luiz de Oliveiro, o candidato a deputado estadual Milton Alves solicitou ao amigo José Maneco que fosse conversar com os companheiros até que chegasse. Naquele mesmo dia participaria de comício em Nerópolis. Chegaria à reunião um poucoo mais tarde.
À tarde, quando Milton já estava em Nerópolis, faleceu um vizinho do proprietário da casa onde a reunião aconteceria. Organizadores do encontro acharam prudente suspendê-la. Não havia telefone celular para que Milton fosse avisado. À noite, Zé Maneco misturou-se com a pequena multidão que participava do velório. Esperava o candidato e amigo.
Milton Alves ao chegar, vendo aquela quantidade de gente do lado de fora da casa, não sabendo tratar-se de velório, ficou eufórico. Nunca tinha participado de reunião tão numerosa. Antes mesmo que seu motorista estacionasse o carro, desceu tropeçando, quase caindo, e foi ao encontro de Zé Maneco:
- Ei, Zé Maneco! Isso que é liderança! Isso aqui não é reunião! Isso é um comício!
Muito discreto, Zé o arrastou para um canto, cochichou alguma coisa ao seu ouvido. Em seguida foram para o interior da casa, onde o corpo era velado.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Anápolis perde autonomia política
O governo brasileiro já havia decidido que a instalação da Base Aérea dos aviões Mirage, vindos da França, seria no centro oeste do país.
O prefeito Henrique Santillo, no final de 1970 durante seu primeiro ano de administração, foi procurado por uma comissão de oficiais do Ministério da Aeronáutica, cujo objetivo era encontrar uma área dentro dos limites do Município de Anápolis, para instalação da Base Aérea para Mirage.
Outra cidade cidade, Formosa, também buscava abrigar a Base Aérea, apoiada por outro grupo de militares , onde um dos seus integrantes era ligado afetivamente aquele município.
As condições geográficas favoreceram Anápolis e o prefeito Henrique Santillo colaborou efetivamente nos expedientes necessários para a desapropriação da área escolhida pelos técnicos e projetistas da unidade militar.
Em abril de 1972 a Base Aérea foi inaugurada.
Mesmo estando vivendo no regime ditatorial, a convivência entre os militares da aeronáutica e a população civil anapolina foi tranquila. Nunca houve qualquer indício de atritos entre as duas comunidades naquela época, nem tampouco depois. Até mesmo na vida política da cidade nunca houve interferência dos integrantes da Base Aérea nos assuntos da politica interna de Anápolis.
A maior prova da atividade equidistante da Base Aérea com a vida política do município, ocorreu no final de 1972, pouco depois da sua inauguração quando aconteceram as eleições municipais.
José Batista Júnior foi eleito prefeito, assim como a maioria dos vereadores eleitos pelo MDB. As pressões que vinham eram dos governistas e não dos militares da Base Aérea.
A vitória do MDB teve um reflexo imediato nas forças arenistas, que contavam com a certeza de derrotar os emedebistas. A partir deste momento surgiram comentários que Anápolis, por causa da Base Aérea, seria transformada em Área de Segurança Nacional, perdendo sua autonomia política como acontecera anos antes com Canoas, no Rio Grande do Sul. Neste sentido notícias eram plantadas diariamente na grande imprensa goiana manipulando a opinião pública.
Um golpe contra a democracia ocorrido numa madrugada de 1972 na Assembléia Legislativa, com a supressão de eleições diretas na cidade de Goiás quando o Município foi considerado Estância Hidro Mineral, era dado como exemplo para a prática da violência anunciada de forma muito sutil. A justificativa para o golpe em Goiás, uma bica d’água na região de São João, a l00 km da sede, reforçava a idéia do que poderia vir contra Anápolis.
Muitas arbitrariedades já haviam acontecido no ano de l973.
A rádio Carajá que pertencia a integrantes do MDB desde l967 teve seus transmissores e estúdio invadidos pela policia militar do Estado na madrugada do dia da posse do Prefeito José Batista Júnior . A emissora teve que ser devolvida, sob pressão das armas a seu antigo proprietário Plinio Jayme. A prisão de ex-secretários de Henrique Santillo, depois libertados, foi uma trama urdida por arenistas e integrantes das forças reacionárias, com objetivo de amedrontar nossos companheiros e nos eliminar da vida politica. Henrique havia sido descredenciado como médico do INPS. Enfim, as arbitrariedades e violências eram o braço forte da repressão contra os democratas.Não nos dobravamos à pressão e violência. A tudo resistiamos.
No dia 28 de setembro de 1973, José Batista Júnior, retornava de uma viagem que empreendera a Goiânia para uma audiência marcada com o Secretário Estadual de Segurança Pública, que não o recebeu, e ouviu pelo rádio do carro que a cidade de Anápolis havia sido transformada em Município de Interesse da Segurança Nacional, tendo o prefeito seu mandato cassado, direitos políticos suspensos por 10 anos e o vice prefeito Milton Alves Ferreira, embora não sendo cassado, impedido de assumir o cargo de prefeito.
No mesmo instante a notícia confirmava o nome do engenheiro Irapuan Costa Júnior, presidente da Celg, sendo designado pelo presidente Emilio Garrastazu Médici, como interventor, prefeito nomeado de Anápolis.
O prefeito afastado nem passou pelo seu gabinete na prefeitura que funcionava no prédio onde hoje funciona a Câmara Municipal na Praça 3l de Julho. José Batista Jr. seguiu direto para sua residência na avenida Contorno, onde recebeu companheiros e populares que foram até lá em solidariedade à sua pessoa. José Batista Júnior foi o único detentor de mandato eletivo cassado no período governado por Garrastazu Médici.
Mais técnico que politico partidário, o engenheiro Irapuan Costa Júnior assumiu a prefeitura com disposição de tranquilizar a população abalada com a violência contra todos os anapolinos. Descartou as lideranças arenistas de Anápolis formando um secretariado mesclado por técnicos e empresários de Anápolis e Goiânia. Arregimentou equipe conceituada, de competente experiência na iniciativa pública e privada.
Controlada a insatisfação popular, Irapuan dava mostras claras que era alternativa para os governistas não alinhados com o grupo do Governador Leonino Caiado. Caravanas arenistas de todas as regiões vinham para hipotecar apoio, transformando seu pequeno gabinete na Prefeitura de Anápolis tão frequentado quanto ao de Leonino Caiado no Palácio das Esmeraldas, em Goiânia.
Com a empolgação dos arenistas distantes do governador, a imprensa goiana destacava todos os dias as qualidades de administrador do engenheiro interventor em Anápolis, afirmando que sua passagem pela prefeitura seria efêmera. Davam como certa sua nomeação para suceder Leonino Caiado. O grande obstáculo que afirmavam enfrentar era o trabalho incansável do governador que não abria mão de Manoel dos Reis, prefeito de Goiânia, por ele nomeado.
Sem nenhuma surpresa para os mais ligados ao poder federal, o nome de Irapuan foi o indicado para ser governador. Afastando da prefeitura foi substituído por Euripedes Barsanulfo Junqueira que pouco mais de um ano antes fora derrotado por José Batista Jr. O professor Euripedes Junqueira ficou no cargo até janeiro de l975, sendo substituído pelo empresário Jamel Cecilio. após a posse de Irapuan no Governo de Goiás.
Além de Irapuan Costa Júnior, Euripedes Barsanulfo Junqueira e Jamel Cecilio aínda foram nomeados interventores em Anápolis o delegado da policia federal Lincoln Gomes de Almeida. o promotor de justiça Decil de Sá Abreu, o deputado Wolney Martins de Araujo, eleito pelo MDB que se filiou ao sucedâneo da Arena, PDS, advogado Olímpio Ferreira Sobrindo e o emedebista, ex-deputado federal Anapolino de Faria.
Com a vitória de Tancredo Neves para a presidência da República em l985 , Anápolis readquiriu sua autonomia política.
De 1973 a 1985, depois de doze anos de intervenção política no município e oito prefeitos nomeados, Anápolis volta a eleger democraticamente o seu prefeito, quando tive a honra de ser eleito, para um mandato de três anos.
Um fato curioso no episódio do dia da cassação de josé Batista Jr. mostrou o caráter brincalhão deste companheiro.
Chegando em casa naquele dia, encontrou dezenas de companheiros à sua espera prestando-lhe solidariedade. O clima era mesmo, de velório. As mulheres choravam, os homens manifestavam revolta e protestos
Disposto, aparentemente tranquilo, sem perder seu senso de humor, José Batista Júnior mais consolava que era consolado. Quando já tarde da noite, todos cansados, mas como mostra de companheirismo continuavam na vigília, João Abrão, seu chefe de gabinete e presidente municipal do MDB, alertou aos presente que já era hora de se retirarem :
- Bem amigos vamos para casa! Sei que ninguém vai conseguir domir mas vamos pelo menos descansar.
- Ah! Gente, atalhou José Batista Júnior, só estou esperando vocês sairem para cair na cama e dormir profundamente!
Sempre brincalhão e sincero, este é mesmo o José Batista Júnior.
Campanha acirrada para a prefeitura
– Como a senhora sabe, vamos eleger novo prefeito municipal no final do ano. Estamos aqui com José Batista Júnior que é nosso candidato. Pedimos o apoio e ajuda da senhora para ele.
Mas a resposta daquela mulher desequilibrou nossa seriedade, com muito custo conseguimos controlar a formalidade da visita, que era sempre rápida, pois todas as casas ainda seriam visitadas.
Este foi um dos fatos interessantes da campanha municipal de 1972.
No início daquele ano, com o mandato do prefeito Henrique Santillo chegando ao fim, iniciamos a discussão para escolher o candidato do MDB, para disputa no final daquele ano.
Como Anapolino de Faria já se manifestara não ser seu projeto político disputar a prefeitura naquele momento, vários nomes foram sugeridos, como o do empresário Alex Salomão.
Depois de muita discussão a escolha recaiu sobre o nome do Secretário Municipal de Educação, professor José Batista Júnior, quase que por consenso, tendo como vice-prefeito o vereador Milton Alves Ferreira.
Nosso adversário seria o professor Eurípedes Barsanulfo Junqueira, pessoa íntegra e de muito prestígio em Anápolis. Havia realizado excelente trabalho como diretor do Colégio Estadual “José Ludovico de Almeida”, além de muito admirado pelo funcionalismo público municipal, pela forma correta que desempenhava a atividade no serviço público.
Sabíamos que derrotá-lo não seria tarefa fácil.
Contávamos com a grande credibilidade que angariamos junto ao povo pela defesa clara e transparente que fazíamos da democracia em combate à ditadura. Os argumentos em nosso favor eram a palavra de esperança pelas liberdades democráticas e a excelente administração municipal que Henrique fazia, embora tivesse apenas um mandato de três anos.
A campanha desenrolou-se nas caminhadas diárias por todos os bairros e vilas do município. Estivemos na Vila Formosa, primeiro conjunto habitacional financiado pelo Banco Nacional de Habitação- BNH, construído na administração do prefeito Raul Balduíno, cujo administrador, o jovem Frederico Jayme Filho, nos acompanhava de casa em casa.
A aceitação do nome de José Batista Júnior era crescente.
Numa dessas visitas chegamos à casa de uma senhora simpática, que nos recebeu amavelmente. Coube a mim justificar o motivo da visita:
– Como a senhora sabe, vamos eleger novo prefeito municipal no final do ano. Estamos aqui com José Batista Júnior que é nosso candidato. Pedimos o apoio e ajuda da senhora para ele.
– Gostei do jeito dele. Dificilmente eu me engano, parece gente boa. Mas vocês chegaram num dia que estou desprevenida, sem dinheiro nenhum.
– Ah! Desculpe, nós não explicamos bem, a ajuda que queremos não é em dinheiro, precisamos do seu voto, do dos familiares e amigos.
– Ah! Mas isso eu faço com a maior satisfação. Amanhã eu volto para Carolina, no Maranhão, vou pedir para toda a minha família que mora lá comigo que vote nele.
Não havia ainda debate ou programa pelo rádio ou televisão, o que só ocorreu nas eleições gerais de l974.
Os coordenadores da campanha arenista me procuraram para que José Batista Júnior e Eurípedes Junqueira fizessem debate pela TV Anhangüera, único canal que chegava até Anápolis.
Confiantes que seu candidato seria mais preparado que José Batista Júnior, os arenistas programaram o debate entre os dois nos estúdios da TV em Goiânia, que aconteceria num domingo, logo após Wilson Simonal, o programa de maior audiência no estado. Todas as despesas com a televisão foram pagas pelos arenistas.
No dia marcado, acompanhei José Batista Jr. ao estúdio da TV Anhangüera, na avenida Goiás, como fora combinado entre os dois candidatos à prefeitura de Anápolis.
Encontramos ambiente claramente desfavorável, preparado para dificultar o desempenho do nosso candidato.
Figuras representativas da Arena estadual e jornalistas especialmente convidados para o debate entraram no estúdio onde atuariam como entrevistadores, no que prontamente discordei.
Aceitaria os entrevistadores desde que fosse eu um entrevistador também, o que não aceitaram, evoluindo para que apenas os dois candidatos participassem, com perguntas e respostas alternadas.
José Batista, que era freqüentemente ridicularizado pelos adversários nos programas radiofônicos diários, a todos surpreendeu saindo-se muito bem, convencendo os telespectadores de que estava preparado para administrar o município.
O encerramento da campanha foi desigual.
O MDB realizou seu comício na Praça Bom Jesus na carroceria de madeira de uma caminhonete, com aparelhagem de som de duas Kombis, tendo como atrações artísticas Zé Venâncio e Saulino e a dupla Cascatinha e Inhana.
A ARENA contratou grandes atrações de um famoso circo, com globo da morte e, dentre as atrações artísticas, a apresentação do conjunto Os Incríveis, mais famoso conjunto musical do país, na época, com sonorização profissional.
Ao pronunciar seu discurso, o Deputado Federal Anapolino de Faria fez uma de suas eloqüentes observações:
– Nossos adversários estão oferecendo aos nossos eleitores maravilhosos espetáculos circenses. Trouxeram os mais famosos motoqueiros da América do Sul para se apresentarem no globo da morte. Trouxeram os mais famosos artistas populares do Brasil, como o conjunto Os Incríveis. Trouxeram tudo de fora. Só não trouxeram os palhaços. Esses são daqui da terra mesmo.
José Batista Júnior foi eleito prefeito numa das mais emocionantes eleições acontecidas em Anápolis até então.
Futebol amador: minha paixão
Mesmo não sendo um craque bom de bola, sempre gostei de jogar futebol. Creio que estar com os amigos e participar das disputas eram o que mais me atraía. Mas minhas experiências futebolísticas foram encerradas muito cedo, quando recebi junto com a equipe do Ipiranga Atlético Clube, a faixa de Campeão Anapolino de 1959.
Logo depois, o Anápolis Futebol Clube, a Associação Atlética Anapolina e o Ipiranga Atlético Clube deixavam a LAD, Liga Anapolina de Desportos passando à Federação Goiana de Futebol, disputando o campeonato profissional.
A LAD, dirigida pelo senhor Manoel Gonçalves Cruz, pai de Petrônio, Aécio, Pepey, Carlota e Consolação, praticamente ficou desativada. Sem sede própria para atender seus filiados, sem recursos financeiros para sua manutenção, a situação da LAD tornou-se difícil para agregar e apoiar os times que sobraram. Os principais times integrantes da Liga passaram a ser o Anhangüera, o Maracanã, o Mago, o União, o Flamengo, o Vila Góis, o Santa Cruz, o Anatex e outros poucos clubes representantes de bairros e vilas da cidade.
Manoel Cruz decidiu se afastar da presidência da LAD, passando o cargo ao seu secretário Alfredo Marcelino, que alugou um pequeno cômodo comercial perto do antigo Estádio Manoel Demóstenes, à Rua Quintino Boicaiúva com Travessa Cangussu, e mesmo sem energia elétrica, atendia ali os times amadores.
Valdivino Reginaldo, presidente do União Esporte Clube e Ilidio Garcia, presidente do Flamengo Futebol Clube, me procuraram para que eu aceitasse que indicassem meu nome para concorrer à presidência da LAD. Sem outro concorrente, fui eleito no ano de 1965 presidente da Liga Anapolina de Desportos.
Assumindo o cargo, passei a sede da Liga para minha própria, casa à Rua Rui Barbosa e enquanto organizava o campeonato amador, levei ao prefeito Raul Balduíno a reivindicação dos desportistas para construção da sede própria da entidade.
Em 1967 com a LAD melhor estruturada, fui reeleito presidente como candidato único. A decisiva colaboração do vereador Laudo Puglisi foi fundamental para que o prefeito Raul Balduíno construísse o campo de futebol amador de Anápolis, em área que pertencia ao Internacional Esporte Clube, uma equipe fundada e dirigida por Bill Fanstone.
Em 1968 o estádio dos amadores foi inaugurado, recebendo o nome de Zeca Puglisi, em homenagem ao irmão do vereador Laudo Puglisi, falecido havia alguns anos, artilheiro da Associação Atlética Anapolina. Atendendo a nossa reivindicação, foi construída na parte inferior da arquibancada coberta do estádio a sede própria da Liga Anapolina de Desportos, onde funciona até hoje.
Por ocasião da inauguração da sede, o secretário da LAD era Milton Alves Ferreira que depois foi vereador, vice-prefeito de Anápolis e Deputado Estadual, sendo hoje conselheiro do Tribunal de Contas do Estado.
A construção do estádio dos amadores possibilitou intercâmbio com clubes amadores de Goiânia. Todos os anos as quatro melhores equipes da Liga Anapolina de Desportos disputavam um octogonal com Santa Helena, Campinas, Vila Operária e Vila Coimbra, times amadores da capital. As disputas eram emocionantes, com jogos em Anápolis e em Goiânia, com claro equilíbrio entre as equipes.
Em 1969, mais uma vez como candidato único, fui eleito para um terceiro mandato como presidente da LAD. Em 1971, sobrecarregado pelas minhas atividades como Deputado Estadual, passei o comando da entidade para João Leite de Morais, com o futebol amador de Anápolis em plena ascensão.
Assim foi a minha colaboração direta ao futebol amador anapolino, como presidente da Liga Anapolina de Desportos.
Grêmio Estudantil, escola de política
Os anos 60 foram particularmente propícios para atividades da política estudantil.
E foi assim a minha estréia, que num pleito difícil e histórico, ganhei as eleições, vencendo o estudante Sebastião França na disputa pela presidência do Grêmio Literário Castro Alves, do colégio estadual José Ludovico de Almeida, em Anápolis, em 1960.
Na presidência do Grêmio Literário Castro Alves consegui inúmeros avanços em benefício dos estudantes do colégio. Foi através de reivindicação do Grêmio que a quadra de esportes foi construída anexa ao colégio, pelo governo de Mauro Borges, assim como foi mobiliado o auditório de festas e teatro, que por muito tempo não tinha como ser utilizado por falta de cadeiras e outros móveis.
Com a realização do concurso para escolha da rainha dos estudantes, em que a vencedora foi Vanda Barbosa, conseguimos recursos que foram aplicados em material esportivo, livros para a biblioteca e o primeiro corpo humano desmontável para as aulas de biologia. O Grêmio Literário Castro Alves comandou todos os movimentos reivindicatórios pela melhoria da qualidade de ensino e por maiores salários para os professores. O papel do Grêmio foi fundamental em todas as ações cívicas, sociais e esportivas dos estudantes anapolinos.
Ao final do mandato, procurei um dos colegas do Grêmio para disputar a eleição e dar continuidade ao trabalho que havia sido feito. Muitos foram os pretendentes à presidência. Milton Alves Ferreira, José Abdalla Badauy e Lenine Bueno não abriram mão de disputar pelo grupo que apoiava e auxiliava minha administração. Envidei todos os esforços, com intermináveis reuniões, em busca do consenso para que apenas um deles representasse o grupo. Mesmo sem ter adversários declarados a oposição era forte e dividida como estava nossa base de apoio corríamos o risco de perder o pleito.
Esgotadas as possibilidades de uma só candidatura representando o grupo, foi elaborado um manifesto com centenas de assinaturas reivindicando que o Grêmio continuasse a sua ação progressista com a minha candidatura à reeleição.
Ainda tentei acordo com os demais postulantes do nosso próprio grupo para evitar que tivesse que disputar a reeleição, mas foi impossível conseguir unidade. Não restou outra alternativa que não fosse a de ser candidato. Meus adversários foram os próprios companheiros.
O trabalho que realizara de forma eficiente e democrática me garantiu ser reeleito presidente do Grêmio Literário Castro Alves por expressiva margem de votos.
Ao terminar minha segunda gestão como presidente do Grêmio, já quase ao final de 1963, decidi disputar a presidência da UIEA, União Independente dos Estudantes Anapolinos.
Para aquela eleição as regras foram mudadas. Nas eleições para a UIEA o presidente era eleito com os votos de delegados, representantes dos colégios da cidade, em número proporcional aos alunos de cada escola.
Os estudantes Levy Schetini e Jacy Fernandes, mudaram os estatutos de União Independente dos Estudantes Anapolinos – UIEA, para a União dos Estudantes Secundaristas de Anápolis – UESA. A eleição do presidente, ao contrário das eleições anteriores, seria pelo voto direto de todos os estudantes de Anápolis.
Candidatei-me à presidência e, sem outros concorrentes, fui candidato único. A participação dos estudantes foi enorme, em todas as escolas. Mesmo sendo candidato único, poucos foram os votos nulos e brancos.
Tomei posse no final de 1963 e permaneci no cargo até 31 de março de 1964, quando foi imposto o golpe militar que destituiu o Presidente João Goulart. Nesta época todos os movimentos políticos estudantis compromissados com avanços sociais foram destituídos e arrasados.
Não foi diferente com o Grêmio Literário Castro Alves e a UESA naquele momento histórico.