quarta-feira, 23 de maio de 2012
Mesmo com tudo contra, ganhamos
Lázaro Barbosa, eleito senador pelo MDB, obteve votação estrondosa dos anapolinos. Henrique Santillo, candidato a deputado estadual, conquistou mais de 16 mil votos no Município. Eu, como candidato a deputado federal, fui o mais votado em Anápolis, com mais de 17 mil votos. Ao final da apuração, Henrique sagrou-se vencedor como o mais votado, dentre todos os deputados eleitos, obtendo mais de 33 mil votos. Eu, com mais de 48 mil sufrágios, fui o segundo mais votado do MDB, dentre os cinco eleitos. Juarez Bernardes, candidato à reeleição foi o mais votado do Partido. Os três outros eleitos pela legenda foram: Genervino Evangelista da Fonseca, Iturival Nascimento e Fernando Cunha Júnior.
O MDB saiu revigorado com esse resultado. O uso, com competência, do rádio e da televisão, pelos candidatos do partido, no horário eleitoral gratuito, foi o grande instrumento que provocou uma verdadeira revolução pelo voto. Até mesmo nossos companheiros que não disputaram a eleição em 74, se revigoraram e voltaram à atividade política. Anapolino de Faria e José Freire, na reta final da campanha, mesmo não havendo registrado suas candidaturas, participaram de forma intensa da campanha emedebista. Trabalharam, principalmente, em favor da candidatura de Lázaro Barbosa, ao Senado.
Tomamos posse em fevereiro de 1975. Imediatamente, já nos preparávamos para enfrentar, em 1976, a primeira eleição municipal sem a eleição para a Prefeitura de Anápolis. Irapuan Costa Júnior assumiu o governo do Estado. O governador Leonino Caiado, com a indicação de Irapuan à Convenção da Arena estadual, indicou para a Prefeitura de Anápolis, o professor Eurípedes Junqueira. Mesmo tendo sido derrotado por José Batista Júnior, na disputa de 1972, Junqueira assumiu o cargo. Sabia que, com a investidura do novo governador, seria, como de fato foi, afastado. Aprovado pelo Presidente Médici, Eurípedes Junqueira permaneceu à frente da Prefeitura, até a posse de Irapuan. Assim que assumiu o Governo, Costa Júnior afastou Eurípedes e designou o empresário Jamel Cecílio para a Prefeitura. Coube a Jamel organizar a chapa de vereadores da Arena, para o pleito de 1976.
Preocupados com a vitória que nós do grupo Santillo, obtivemos nas eleições de 1974 em Anápolis, os arenistas continuaram com suas perseguições ao MDB Autêntico. Passaram a cobrar da Polícia Federal e órgãos dos demais da ditadura ligados à repressão, que atuavam em Goiás, o fechamento da Rádio Santana.
Toda a programação da emissora, onde diariamente Romualdo, Henrique e eu apresentávamos o programa “O Povo Falou Tá Falado”, era gravada em fita K-7, repassada ao setor da censura, na Polícia Federal. Os advogados Altair Garcia Pereira, o “Braguinha” e Vicente de Paula Alencar, todos os dias tinham que responder a ofícios e mais ofícios que chegavam do Dentel, em Goiânia, querendo informações sobre denúncias que os arenistas faziam contra nós. A manutenção das despesas da Rádio Santana era feita por nós. Não tínhamos anunciantes. Os poucos que se atreviam a nos ajudar eram perseguidos com fiscalizações específicas nos seus estabelecimentos comerciais. O cerco aumentava dia a dia em intensidade e tamanho... (Continua)
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
MDB e a volta por cima
Lázaro aceitou ser candidato a senador. No início, adversários, a imprensa e até companheiros o consideravam "candidato simbólico".Com o passar do tempo, sua candidatura foi crescendo, crescendo e, no final, ninguém tinha mais dúvida de sua vitória. Com a eleição de 16 senadores do MDB as esperanças retornaram e o lema de toda a sociedade brasileira passou a ser o de que "vale à pena lutar".
Nas eleições municipais de 1976 o crescimento do MDB, em todo o território nacional, foi gigantesco. Aqui em Goiás, conquistamos importantes prefeituras e a maioria em dezenas de Câmaras Municipais. Em algumas cidades, como Uruaçu, tivemos de lançar mão de três sublegendas para agasalhar as correntes que internamente já começavam a aparecer no partido. Em outras, como ocorreu em Mara Rosa, município vizinho de Uruaçu, disputamos sem nenhuma esquematização. Companheiro foi ao pleito apenas para dar chance aos descontentes.
Fato digno de registro, na campanha de 76, ocorreu em Niquelândia. Jovino Conder, hoje encontrado, com freqüência, nos corredores do Congresso ou gabinetes de deputados e senadores, nos procurou, Henrique Santillo e eu, mostrando-nos seu desejo de disputar a prefeitura daquele município. No dia seguinte, às 18 horas, encerraria o prazo para o registro de candidatura. Queria que indicássemos alguém para providenciar a papelada necessária ao registro. Indicamos o professor Lucas Gonçalves, integrante do Diretório do MDB de Anápolis, que lhe desse assistência técnica e jurídica. Mesmo não sendo advogado, Lucas aceitou o desafio. Na madrugada, saíram para Niquelândia. Quando se aproximavam do local denominado "quebra-linha", Conder, também motorista do Aero Willys, parou o carro, virou-se para Lucas e lhe disse:
-- Agora, você dirige, vou ficar deitado no banco detrás, porque não posso ser visto. Tenho muitos inimigos na cidade.
-- Como você quer ser candidato se você não pode andar pela cidade. Questionou Lucas.
Conder se justificou e Lucas foi para o volante.
Quando chegaram na residência do senhor Manoel Dourado, Jovino saiu rápido do carro e entrou cada adentro. Tentou convencer o anfitrião a se candidatar à vice-prefeito em sua chapa. Diante da resistência de Dourado, passaram a analisar outros nomes. Debruçados que se encontravam, sobre a lista de um possível candidato, apareceu ao local um lavrador, que já tinha vivido tudo que tinha direito e um pouco mais. Convidado por Jovino Conder, aceitou o convite para figurar na chapa emedebista.
Quando o professor Lucas Gonçalves estava começando a preparar os papéis para o registro do vice-prefeito, a esposa do lavrador chegou ao local para dizer, dentre outras coisas, que se ele candidatasse ela o abandonaria. A discussão foi longa. Quando a mulher saiu do local, o lavrador confirmou sua candidatura. Resolvida a questão do candidato a vice-prefeito, era o momento de consolidar a chapa oposicionista com a regulamentação dos documentos do candidato a prefeito. Lucas solicitou a Jovino Conder seu título eleitoral. Surpresa total para o professor e nosso enviado à Niquelândia: o título eleitoral do pretenso candidato era de Rio Maria, no Pará.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Surpresas nas campanhas políticas
Em 1982, Iris Rezende, que readquirira seus direitos políticos depois de 10 anos de suspensão, decidiu ser candidato, adiando por mais quatro anos o projeto de Henrique Santillo. Iris econtrou o PMDB, sucedâneo do MDB, organizado e imbatível em todo o Estado. Onofre Quinan, empresário bem-sucedido, nosso companheiro de MDB em Anápolis, foi indicado para vice-governador na chapa de Iris.
Ary Valadão, governador do Estado, sofria com os pequenos recursos que o Estado dispunha. Precisava construir alguma coisa que marcasse sua administração. A Arena o abandonara. Estava bastante dividida. Enquanto o governador lutava pela indicação de alguém do seu grupo a maioria do partido queria Otávio Lage de Siqueira, enfrentando Iris Rezende. Alguns meses antes das eleições, Ary Valadão conseguiu autorização do Banco Central para empréstimo internacional. Os recursos seriam aplicados em pavimentação de rodovias. Principal a ser asfaltada seria a que liga Itaberaí a Itapuranga. Máquinas chegaram a iniciar os serviços de terraplanagem.
Como empréstimo externo depende de autorização do Senado, os senadores arenistas em final de governo não compareciam ao plenário para que houvesse deliberação. Em todas as sessões, a mesma cena: o presidente abria a sessão, o senador Dirceu Cardoso (PMDB-ES) pedia verificação de quorum. Não havia número para abertura. Passaram-se os dias, semanas e meses e o pedido de empréstimo do governo goiano não era apreciado. Os arenistas de Goiás espalhavam por todos cantos que os senadores Lázaro Barbosa e Henrique Santillo, do PMDB-GO, estavam impedindo sua votação, para prejudicar Ary Valadão. Essa fofoca já começava a afetar o candidato peemedebista Iris Rezende. O PMDB goiano decidiu que Lázaro Barbosa e eu, representando Henrique Santillo, iríamos a Itapuranga para esclarecer a verdade. Fomos em avião pertencente a Onofre Quinan, comandado pelo piloto Carlão. Conosco foi também o advogado Wanduir de Lima.
Ao chegarmos a Itapuranga, não havia ninguém nos esperando no campo de aviação. Carlão sobrevoou a cidade, retornando ao campo de pouso. Apenas uma pessoa no centro da pista fazendo sinais para que Carlão parasse ali, a aeronave. Era Claudion Mendes, presidente do PMDB no município, solicitando que não saíssemos do avião. Argumentou que integrantes do PMDB Jovem nos receberiam a bala caso fossemos à reunião. Apoiadores de outros candidatos do partido ao Senado e Câmara Federal não aceitavam que Lázaro e eu conversássemos com a população. Nossa missão não era buscar apoio partidário às nossas candidaturas. Além do mais, lutávamos contra qualquer tipo de prepotência. Não podíamos abandonar a luta pelo gesto tresloucado de alguns irresponsáveis! Descemos! Assim que pusemos os pés no chão, começaram os disparos em nossa direção. Sem um local mais apropriado para nos proteger, usamos a fuselagem do avião. Os disparos só cessaram quando integrantes da Polícia Militar chegaram ao local. Fomos à prefeitura, mas, com a população assustada, ninguém compareceu. A reunião não aconteceu. Cumprimos nosso papel, concedendo entrevistas à emissora de rádio local.
A campanha não podendo parar, na manhã seguinte, fui com Maria Dagmar e Paulo Silva, candidatos a vereadora por Goiânia e a deputado estadual, à Vila Redenção. Primeiro conjunto de casas populares contruído por Iris, em Goiânia. Nos acompanhou na visita, casa a casa, Tarcísio, primo de Dagmar e comerciante de materiais de contrução, na região. Depois que fizemos dezenas de visitas, chegamos à casa de dona Bárbara, matriarca de grande família. Tarcísio entrou pelo corredor, indo direto à cozinha. Nós o acompanhamos. Fez a apresentação de praxe. A anfitriã, atenta, ouviu a identificação de cada um de nós. Esgotados os argumentos, Tarcísio completou:
- "Dona Bárbara, a senhora não está surpresa de estar recebendo em sua casa o deputado Adhemar Santillo? Esse é o homem que denunciou as mordomias do ministro do Trabalho!"
A mulher, com olhar fixo ao chão da cozinha, categórica, afirmou:
- "Tarcísio, depois que Toninho, meu filho caçula de 19 anos, se casou com uma mulher velha de 69 anos, que nem INPS tem, nada mais me surpreende!"
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Coadjuvante de uma grande causa
A primeira vez que disputei eleição por partido político foi em 1970, como candidato a deputado estadual pelo MDB. Meu irmão Henrique Santillo já havia disputado e vencido as eleições para vereador em 1966 e prefeito em 1969, também pelo MDB. Fiz parte dos 12 que formaram a bancada emedebista na legislatura de 1971/1975, reduzida logo no início, com a adesão de Clarismar Fernandes à Arena.
Com a cassação das principais lideranças oposicionistas no Estado, sendo a mais traumática delas a do prefeito de Goiânia, Iris Rezende Machado, o prefeito de Anápolis surgia como a grande esperança da oposição goiana. Ao mesmo tempo em que Iris Rezende era cassado e direitos políticos suspensos por 10 anos, foram suspensas as eleições diretas para os governos estaduais, substituídas por eleições indiretas pelas Assembleias Legislativas. Como a Arena possuía maioria nos Estados, só ficou sem o governo do Rio de Janeiro, onde a maioria era do MDB.
A frustração do eleitorado goiano com a cassação de Iris e suspensão das eleições diretas para o governo em 1970, foi pouco a pouco cedendo lugar ao otimismo que contagiou o Estado inteiro, pela resistência que partia de Anápolis. Seu povo dava vitórias consecutivas e cada vez mais expressivas ao MDB.Isso ficou claro em 1972, com a vitória maiúscula de José Batista Júnior à prefeitura, contra todas as forças governistas.
Nem mesmo a cassação de José Batista Junior, em 28 de agosto de 1973, transformação de Anápolis em Área de Segurança Nacional e outra vez a suspensão da eleição direta para governador em 1974, tiraram a motivação dos goianos pela redemocratização. A maior prova foram as eleições dos emedebistas Lázaro Ferreira Barbosa ao Senado, cinco deputados federais e Henrique Santillo para a Assembleia Legislativa, com mais de 32 mil votos, naquele ano.
De toda essa maratona cívica participei como coadjuvante de Henrique Santillo, na sua luta pela redemocratização do Brasil e chegar ao governo do Estado. Por conhecê-lo, acreditava nele. Em 1974, como candidato natural a deputado federal, Henrique no último instante disse que só lhe interessava ser candidato a deputado estadual, porque não queria abandonar sua atividade de médico, o que aconteceria se fosse para Brasília. Mesmo me tendo preparado para ser candidato à reeleição, disputei a cadeira de deputado federal para que ele não se afastasse das disputas. Fui reeleito mais duas vezes para a Câmara Federal, sempre dentro do projeto de consolidar sua candidatura ao governo.
Minha eleição para a 2ª vice-presidência da Câmara dos Deputados, 77/78 , foi visando seu projeto político. Assumi a secretaria da Educação em 1983, primeira administração de Iris Rezende, para fortalecer seu nome junto às lideranças municipais.
Com emoção vi em 1982, Henrique Santillo, a maior liderança política goiana naquele instante, forjada na oposição e combate à ditadura, abrir mão da sua natural candidatura ao governo, para Iris Rezende Machado, entregando-lhe um eleitorado motivado, organizado e imbatível. Essa força peemedebista goiana foi demonstrada na disputa para o Senado em 1978, quando a dupla Henrique/Juarez derrotou os arenistas Osires/Jarmund/Jonas.
A partir daquele resultado, não havia a menor dúvida, em qualquer eleição majoritária que ocorresse em Goiás, o PMDB venceria. Pelo trabalho prestado e vitórias obtidas, Henrique Santillo era a maior liderança política em Goiás. Como o grande nome, apenas adiava um pouco mais seu sonho de governar o Estado. A alegria seria em dose dupla em 1986: ser governador de Goiás depois de sepultada a ditadura. Participei com muito orgulho dessa tarefa cívica e patriótica em prol dos brasileiros.
terça-feira, 2 de março de 2010
Silvânia e o MDB
– A gloriosa marcha para a redemocratização do país já é percebida pelos nossos adversários.
Foi com esse entusiasmo que um simpatizante do MDB em Silvânia se expressou, aumentando o tom da voz para que suas palavras fossem ouvidas pelos poucos integrantes da platéia e por alguns que passavam pela calçada e curiosamente olhavam para dentro do salão.
A região da estrada de ferro foi um lugar bastante difícil para formação do MDB e em Silvânia não foi diferente. Na campanha de 1974, mesmo com alguns companheiros fiéis, não tivemos ambiente para realizar comício. Fizemos uma carreata com pouco mais de dez veículos, contando com os dos integrantes da caravana que saíram de Anápolis e Goiânia. Paramos na praça do coreto, tomamos café e seguimos viagem para Vianópolis, Orizona e Pires do Rio.
Os silvanenses respeitavam muito a liderança do ex-prefeito José Caixeta, que seria suplente de Benedito Ferreira, senador biônico goiano, na eleição de 1978. A liderança do Caixeta ia do prefeito passando pelos vereadores e demais lideranças daquele Município. A consideração que nutriam por ele impedia que organizassem o partido de oposição. Sem partido devidamente constituído, restava ao eleitor o direito de secretamente se manifestar, como realmente aconteceu no dia da eleição com o voto para Lázaro Barbosa.
Passadas as eleições de 74, com a vitória esmagadora de Lázaro Barbosa contra o arenista Manoel dos Reis, houve pequena abertura. Vindo de uma viagem de Ipameri para Anápolis, Vicente Alencar parou numa pequena mercearia, conversou com o proprietário, homem simples e resoluto que mostrou desejo de fundar o MDB no Município. Geraldo Bonfim seu nome. Vicente garantiu que eu iria visitá-lo oportunamente.
Cumprindo sua promessa, fui com Vicente conhecer e conversar com o Sr. Geraldo. Tratamos das medidas necessárias à criação do partido em Silvânia e acertamos detalhes para uma reunião onde levaria o deputado estadual Henrique Santillo para conversar com demais companheiros.
No sábado programado, chegamos à Silvânia numa caravana composta por Vicente Alencar, Romualdo Santillo, Joceli Machado, Henrique Santillo e alguns outros. A reunião foi no auditório do cinema local. Ainda causando estranheza uma reunião política, após muitos anos sem esta prática, foram poucos os silvanenses que compareceram.
Como não cansávamos de afirmar, onde houvesse dois ou três dispostos a nos ouvir ali estaríamos, falando com a mesma disposição como se a platéia fosse numerosa, solicitamos ao Geraldo que desse início ao encontro.
Geraldo fez a apresentação de todos os visitantes destacando qualidades de cada um. Não se esqueceu de enaltecer os companheiros de Comissão Provisória e, de forma enfática, da qualidade do orador oficial, escolhido por ele. Este orador oficial era um amigo do presidente, especialmente convidado para o encontro. Homem bem falante e comunicativo. Impecavelmente trajado com terno social, complementado com chapéu e guarda-chuva.
Geraldo passou-lhe a palavra e ele tirando cerimoniosamente o chapéu, agasalhando-o com o guarda-chuva num cabideiro atrás da mesa, fez os cumprimentos aos visitantes ilustres, não se esquecendo de algumas conquistas alcançadas por eles nessa “gloriosa caminhada em busca da democracia...”.
Finalmente entrou no objetivo da questão em discussão naquela manhã. Estufou o peito, colocando as duas mãos sobre a mesa para que suas palavras fossem audíveis para os componentes da mesa, os seis integrantes da platéia e por aqueles que transitavam pela calçada em frente o salão:
– A gloriosa marcha para a redemocratização do país já é percebida pelos nossos adversários.
E, pausadamente, com todo ardor, concluiu:
– O povo já reconhece a nossa desmoralização!
A cerimônia foi encerrada após as demais falas. Retornamos a Anápolis meio encabulados.
A partir de Geraldo Bonfim outros companheiros de Silvânia foram à luta, organizando o partido no Município, mesmo com dificuldades.
Hoje Silvânia possui o PMDB forte e resistente, com novos e antigos valorosos companheiros.
Segundo Vice Presidente da Câmara
Calado, cotovelos sobre a mesa, cabeça entre as mãos, com ar de quem está compenetrado, pensando e ollhando diretamente para a câmera. Esta foi a tática do suplente de vereador de BH, Nelson Tibhau para usar seu espaço nos últimos programas do horário político. Quase esgotado o tempo, pronunciava as palavras:
- Assim é como fica todos os dias o Ministro Delfin Neto, imaginando qual a pancada que vai dar no povo no dia seguinte.
Foi eleito deputado federal, assim como outros que chegaram à Câmara dos Deputados como por milagre político.
No período do Governo Militar vários foram os adiamentos das eleições diretas para Governo dos Estados, previstas na Constituição Federal, como em 1970,1974 e l978.
Nas eleições de 1974, analistas políticos e integrantes do MDB acreditavam que com mais um adiamento de eleições diretas para os Governadores não valia a pena resistir. No início do ano o ambiente político era de descrença total. Ao escolher candidatos, nenhuma figura expressiva do partido em Goiás pleiteou a vaga ao Senado.
Irapuan foi escolhido para ser Governador pela ARENA, desbancando o candidato de Leonino, Manoel dos Reis, que como prêmio seria candidato a Senador. A impressão que se tinha é que o Senador da ARENA não teria sequer adversário. Lázaro Barbosa, que havia sido candidato a Deputado Estadual sem sucesso eleitoral em 1970, seria apenas candidato simbólico ao Senado.
Iniciados os programas de rádio e televisão, com os candidatos se apresentando ao vivo nos programas eleitorais, o crescimento do MDB foi extraordinário. Em pouco tempo, a candidatura de Lázaro Barbosa ao Senado contagiou o eleitorado goiano. Venceu a eleição com uma larga margem de votos.
A vitória emedebista foi fantástica no Brasil inteiro: Pernambuco com Marcos Freyre; Amazonas com Evandro Carreira; São Paulo com Orestes Quércia; Rio de Janeiro com Saturnino Braga; Rio Grande do Sul com Paulo Brossard; Santa Catarina com Jaison Barreto; Rio Grande do Norte com Agenor Marinho, e muitas outras. Foram dezesseis vitórias que, como escreveu Sebastião Nery, abalaram o Brasil.
Não foi diferente para a Câmara Federal. Nelson Thibau, suplente de
Vereador em Belo Horizonte, foi o mais votado Deputado Federal do MDB, ganhando até de Tancredo Neves. Simplesmente porque utilizou as duas últimas participações do horário eleitoral, calado em frente a câmera, cotovelos sobre a mesa, cabeça entre as mãos, com ar de quem está compenetrado, pensando. Quase esgotado o tempo, pronunciava as palavras:
- Assim é como fica todos os dias o Ministro Delfin Neto, imaginando qual a pancada que vai dar no povo no dia seguinte.
No Paraná, com trinta e duas cadeiras na Câmara dos Deputados, o MDB lançou apenas 17 candidatos. A Arena disputou eleição com chapa completa. Os mais prestigiados líderes arenistas se candidataram. Apurados os votos, a ARENA fez dezesseis Deputados e o MDB, também dezesseis. Pelo MDB foram eleitos Deputados como Álvaro Dias com 230 mil votos, Antônio Belinatti com 150 mil e pelo menos oito Deputados com mais de cem mil votos cada um. No entanto, outros foram eleitos com seis, quatro e até dois mil e quinhentos votos, como foi o caso de Expedito Zanotti.
A eleição de 1974 para a Câmara dos Deputados foi um universo de figuras consagradas na política regional e federal e outros anônimos que se dispuseram a candidatar pelo MDB, até sem expectativa de vitória. Por Goiás foram eleitos Juarez Bernardes, Adhemar Santillo, Fernando Cunha Jr., Genervino da Fonseca e Iturival Nascimento, nesta ordem de votação.
Tive facilidade para fazer amizade com toda a bancada nacional.
Constituímos o grupo neo-autêntico com expressões como João Gilberto, Odacyr Klein, Rosa Flores, Lidovino Fanton, Deputados do Rio Grande do Sul; Álvaro Dias, do Paraná; Luiz Henrique, de Santa Catarina; Airton Soares, de São Paulo; Tarcísio Delgado, de Minas Gerais; Jáder Barbalho, do Pará, e tantos outros.
Fizemos oposição implacável à ditadura. Os novatos menos votados tinham a minha atenção, pois percebiam que não eram levados à sério pelos mais antigos ou pelas figuras mais representativas do partido.
No segundo ano de mandato em 1976, foram realizadas as eleições para a formação da Mesa Diretora da Câmara. À ARENA cabia cargos de Presidente, 1º Vice Presidente, 1º e 3 Secretários. Ao MDB, a 2ª Vice Presidência, 2ª e 4ª Secretarias. Na ARENA, a escolha foi por consenso. Marco Maciel para Presidência, João Linhares para 1ª Vice, Djalma Bessa para 1ª Secretaria e João Clímaco, para a 3ª Secretaria. No MDB, a escolha foi no voto secreto de toda bancada. Quem quisesse disputar, deveria se inscrever, buscando seus votos. No primeiro escrutínio, Jader Barbalho se elegeu para 2ª Secretaria, José Camargo para a 4ª Secretaria, e Nabor Junior para Suplente.
O cargo que eu disputava era o mais cobiçado, a 2ª Vice Presidência, assim todos estavam envolvidos para eleger o seu preferido. Getúlio Dias, Deputado pelo Rio Grande do Sul, era apoiado pelos autênticos. Os moderados como Tancredo Neves, Franco Montoro, Nelson Carneiro e outros, apoiaram outro candidato, que era também goiano, Juarez Bernardes. Disputavam a vaga, Fábio Fonseca pela bancada mineira, Hélio de Almeida, ex-Ministro do Governo João Goulart, dividia com Emanuel Weissement, os votos do Rio de Janeiro. Juarez Bernardes e eu da bancada de Goiás.
Trabalhei intensamente com integrantes do grupo neo-autêntico e com os novatos de pequena votação. Para ser eleito o candidato, precisava de mais de 50% dos votantes. Realizada a eleição, Getúlio Dias ficou em primeiro lugar e eu em segundo, sem nenhum ter atingido mais de cinqüenta por cento. Na segunda votação, fui o mais votado, sendo eleito 2º Vice Presidente da Câmara dos Deputados, em substituição a Alencar Furtado, também do MDB.
Exerci a função de Segundo Vice-Presidente da Câmara dos Deputados até fevereiro de 1979.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Nos tempos da goiabinha
– Quando a onça já está morta, aparecem os que querem tirar-lhe o couro!
Este foi o final do discurso do vereador emedebista, num comício com os candidatos do MDB, onde Lázaro Barbosa era a figura principal, como candidato ao Senado.
Neste ano, 1974, mais uma vez não tínhamos eleições para governador. A Emenda à Constituição aprovada em 1973, suspendendo a eleição direta para Governador em 1974, decepcionou e irritou muita gente pelo Brasil inteiro. Em Goiás os principais líderes do MDB, Anapolino de Faria e José Freire, Deputados Federais mais votados do partido em 1970 desistiram de disputar a reeleição, desanimados por mais um golpe à democracia, dado pelo regime militar. Fernando Cunha e Juarez Bernardes disputaram à reeleição. Iturival Nascimento, Genervino da Fonseca e eu, nos candidatamos ao lado de outros companheiros, formando a chapa emedebista à Câmara.
A grande novidade foi a disposição de Lázaro Ferreira Barbosa, tendo Dário de Paiva e Dino Américo como suplentes, para se candidatar ao Senado. Inicialmente tudo parecia brincadeira. Todos indagavam:
– Como se atrevem a enfrentar a Arena? Será que não perceberam que Manoel dos Reis “ganhou na loteria” quando foi escolhido para ser o candidato da Arena?
Manoel dos Reis era o preferido de Leonino Caiado para substituí-lo no governo do estado. A cassação de José Batista Jr., prefeito de Anápolis, com a transformação do município em Área de Segurança Nacional facilitou as coisas para os adversários de Leonino dentro da Arena, quando Irapuan Costa Júnior foi designado o primeiro prefeito nomeado de Anápolis. Prestigiado pelos militares que dirigiam o País, logo se notou que a passagem de Irapuan pela prefeitura seria provisória:
– Irapuan está usando o trampolim. Seu destino é a governadoria no ano que vem! Afirmavam os contrários a Leonino na Arena.
Não deu outra, Irapuan Costa Júnior foi escolhido, sem grande surpresa, para o mundo político goiano. Como prêmio de consolação, os arenistas “brindaram” Manoel dos Reis com o lançamento da sua candidatura ao Senado.
Iniciados os programas pelo rádio e televisão, o MDB ganhou força e Lázaro Barbosa de candidato simbólico passou a ser a maior atração nos comícios, fazendo sua candidatura crescer de forma inacreditável.
Quase ao final da campanha eleitoral, um líder de região distante convidou-nos, Lázaro, Soyer e eu, para um comício. Numa quarta-feira de manhã estávamos na praça principal da cidade, enfeitada com nossa propaganda eleitoral, palanque equipado com som potente e muita gente para nos ouvir e aplaudir. O líder fez a saudação aos candidatos, justificando seu apoio ao MDB. Em seguida falamos, Soyer, eu e Lázaro fazendo o encerramento.
Terminados os discursos, já nas despedidas, o apresentador foi surpreendido por um vereador do MDB que não havia sido escalado para falar, pedindo oportunidade para discursar. Muito democrático, o líder acenou concordando, quando então, o vereador falou sobre sua trajetória política, fidelidade ao MDB, dificuldade para exercer o seu mandato na oposição, afirmando apoio que hipotecava às nossas candidaturas e encerrou:
– Quando a onça já está morta, aparecem os que querem tirar-lhe o couro!
Não ficou claro para quem ele estava enviando o recado, mas antes da nossa chegada ao município naquela manhã, havia mesmo um comentário de possível apoio das lideranças presentes a candidatos da ARENA. Mas, tanto o líder da região como muitos outros companheiros sempre participavam das campanhas estaduais apoiando candidatos do MDB e naquela manhã o apoio estava sendo confirmado.
Sem maiores comentários, fomos todos convidados para o almoço, assim como o próprio vereador. Lázaro, Soyer e eu deixamos a cidade logo depois, para compromissos em outros municípios. Naquele tempo ainda não havia o conforto do celular e nem tão pouco o asfalto na maioria das cidades de Goiás. Ao passar em casa, de onde seguiria para outro compromisso, Onaide assustada, olhos arregalados me disse:
– Telefonaram para você, dizendo que dois desconhecidos fizeram uma armadilha a um vereador da cidade em que você estava e deram-lhe uma sova com vara de goiabinha!
O Volks da Nilda Mota
Cansada, suando muito, a Vereadora Nilda Mota só falava, quase chorando:
– Não dá, não dá para virar!
Até que desistiu.
Então solicitei ao meu fiel companheiro:
– Tião, por favor, faça a manobra no carro!
Era um Volks, tipo fusca, que eu havia enviado para que a Vereadora Nilda Mota, liderança que despontava de forma extraordinária, fizesse o trabalho político de visitas na região de Formoso. E este foi um dos acontecimentos.
Com a decisão tomada por Henrique de se candidatar a Deputado Estadual, enfrentei a campanha de Deputado Federal em 1974.
Visitei os diretórios do MDB no vale do São Patrício, Médio Norte, Estrada de ferro e Região de Anápolis. Carlos Wilson, Tião Borges, o Tião Gordo, Vicente Alencar e Hiran Bezze eram meus companheiros. Sempre revezava com um deles nas minhas constantes viagens.
Certa feita em Formoso, na residência do Firmino, antigo morador daquele município e amigo de longas datas de meu pai, marquei uma reunião. Nas primeiras horas de uma terça-feira quente, típica da região norte do estado, entrando no recinto da reunião, fui recebido por um participante, já com um copo de pinga pura do alambique artesanal:
– Aqui a gente recebe as pessoas importantes oferecendo cachaça, da melhor! Pode tomar que é pura.
Não querendo fazer feio, mesmo depois de ter bebido copo de leite e comido pão com manteiga naquela hora, recebi o copo e tomei a dose que me havia oferecido.
A todo instante o bêbado aparecia com o copo cada vez mais cheio, me estendendo a mão e passando para mim. Para me livrar, levava o braço para trás, passando o copo para o Tião Borges, que tomava um pouco e jogava a restante fora. Só assim me foi possível fazer a estréia em Formoso, sem sair carregado ou cambaleando. Em compensação, terminada a reunião o Tião Gordo não sabia nem em que cidade estávamos.
Chegamos a Trombas, ainda Distrito de Formoso, Nilda Mota Lucindo, a maior líder feminina do Médio Norte, Vereadora mais votada proporcionalmente de todos os tempos em Formoso, estava organizando encontro a céu aberto, na principal praça do local. Havia grande gameleira, que, com sua sombra, abrigava uma multidão do sol escaldante.
O Deputado Estadual Juarez Magalhães, candidato à reeleição, e eu, apoiados por Nilda Mota e o diretório do MDB de Formoso, havíamos lhe enviado um Volkswagen, usado, muito ruim de mecânica.
No instante de fazer a manobra para que o alto-falante abrigado no teto do fusca ficasse de frente para a platéia, Nilda não conseguia de forma alguma virar o carro. Cansada, suando muito a Vereadora só falava, quase chorando:
– Não dá, não dá para virar!
Até que desistiu. Então, solicitei ao meu fiel companheiro:
– Tião, por favor, faça a manobra no carro!
Da mesma forma, Sebastião Borges, com toda sua habilidade de motorista, não conseguiu manobrar o Volks. Exausto por tentar tantas manobras sem sucesso, bem mais forte que Nilda, Tião Gordo agarrou no pára-choque do carro virando-o para o sentido que queríamos.
Só assim ficamos sabendo que o Volks que havíamos mandado para a Vereadora fazer a campanha no município só andava em linha reta.
Trabalhando todos os dias, o tempo todo, Nilda Mota fez de Lázaro Barbosa, Juarez Magalhães e eu, os mais votados naquele município. Seu carisma, simpatia e liderança contagiavam a todos que a conheciam. Morreu em conseqüência de um atropelamento na Avenida Universitária, quando descia do ônibus do qual retornava da Faculdade de Direito de Anápolis, a FADA, para sua casa, no inicio da Vila Santa Isabel.
Nilda Mota Lucindo morreu sem ver a Avenida Universitária duplicada por mim enquanto prefeito e nem mesmo participou do governo do seu querido MDB, pois a posse de Iris Rezende Machado, em 1983, foi na mesma época do acidente que a vitimou.
Percalços pelo caminho
Em inúmeras reuniões que Henrique Santillo e eu participávamos com grupos de estudantes, trabalhadores, produtores rurais, profissionais liberais e intelectuais em Anápolis e Goiânia, discutindo os rumos para o país, grupos esquerdistas de variadas tendências se reuniam numa mesma roda, em busca de projeto comum.
Obedecíamos àquela máxima do presidente nacional do MDB, Ulysses Guimarães, “estamos dentro de uma casa hermeticamente fechada e para abrí-la precisamos unir forças, sem distinção ideológica, para que cada um siga seu rumo depois que a porta estiver aberta”. Mesmo com profundas diferenças de pensamento, os grupos se mantinham unidos em busca do objetivo final, a derrubada da ditadura implantada em 1964 e o retorno à democracia.
Também não nos descuidávamos dos contatos com lideranças interioranas e nestas situações os percalços eram muitos.
Orizona
Sempre me senti entusiasmado com o contato com pessoas simples e amigas, como Pedro Pimentel, tesoureiro do MDB em Orizona, que nos acompanhou pelo interior do município visitando proprietários e trabalhadores rurais.
Certa vez, chovia forte, tornando as estradas municipais escorregadias e de difícil acesso. Na volta à cidade, após uma dessas visitas, a camionete do Pimentel, grudada no barro, nos obrigava a empurrá-la, enquanto o motorista manobrava o veículo e dizia com o maior contentamento:
– Quando contar que o futuro governador de Goiás, Henrique Santillo, empurrou meu carro em pleno lamaçal, tendo a roupa e o corpo cobertos pelo barro, ninguém vai acreditar!
De outra feita estávamos voltando da cidade de Orizona, quando o Vicente Alencar falou:
– Chegamos pessoal!
Meio atordoados, Henrique e eu fomos nos despertar já fora do carro.
Olhamos em volta, estava tudo escuro. Nem sinal de alguma construção que nos lembrasse a nossa cidade, Anápolis.
Esta situação aconteceu em plena campanha de 1974 para eleições de Deputados Estaduais, Federais e Senador.
Haveria um grande comício em Orizona.
Companheiros se mobilizaram durante muito tempo para que as lideranças de todo município se fizessem presentes. Lázaro Barbosa, candidato emedebista ao Senado era a figura mais esperada e sua presença aos eventos do partido era certeza de grande público.
Em Orizona a situação apresentava-se mais emocionante, porque o candidato a Senador dizia em todas as cidades por onde passava que havia nascido em Orizona, embalado num cesto de taquara. Aliás, pude acompanhar Lázaro Barbosa quando estava em Anápolis dizendo que era familiarizado com a cidade porque parte da sua infância a passara no distrito de Souzânia. Chegando a Itapaci, Lázaro fazia questão de alardear que residira durante muito tempo na Ponte Funda. Já em Petrolina conhecia todas as lideranças e região, pois trabalhara durante muitos anos na prefeitura local.
Era difícil uma região que Lázaro não fizesse a citação “dessas ruas poeirentas que pisei descalço quando criança”.
Acompanhado de Vicente Alencar e seu irmão Alexandre, seguimos no carro de Henrique Silva de Anápolis à Orizona. Comício grande, Lázaro muito assediado pelos eleitores, a cidade envaidecida com a presença do filho ilustre. Falaram todas as lideranças locais e visitantes até que por volta da meia-noite encerramos os discursos dando inicio ao show com cantores locais.
Sidon, integrante do MDB local, convidou-nos para um churrasco em sua casa. Alegando compromisso logo cedo no dia seguinte, Lázaro agradeceu e retornou à Goiânia. Nós ficamos e fomos atender a gentileza do Sidon.
Churrasco assado na hora, a conversa rolando, quando olhamos no relógio, passava das três da madrugada.
Na hora da saída, Henrique Silva e eu já fomos descartando a responsabilidade de dirigir. Foi quando eu chamei Vicente Alencar de lado e disse:
– Vicente, nós todos estamos sem condição de dirigir. O mais descansado é seu irmão Alexandre. Vamos entregar o volante para ele?
– Eu de olhos fechados sou melhor motorista que meu irmão descansado! Me ajudem a chegar até o carro que eu faço a gente chegar a Anápolis! Falou Vicente convicto.
Deixamos Vicente se acomodar no banco do motorista. Fiquei ao seu lado, no assento dianteiro, enquanto Alexandre e Henrique ficaram no banco traseiro.
Vicente Alencar não corria mais que quarenta quilômetros por hora, atropelando todos os buracos que encontrava pela estrada de chão. Seguros de que aquela velocidade não nos traria problemas maiores, fomos pegando no sono, enquanto Alexandre recitava poesias de sua autoria, para evitar o sono do nosso motorista. Só acordamos quando Alencar disse em tom vitorioso:
– Chegamos pessoal!
Meio atordoados, Henrique e eu fomos acordar já fora do carro. Olhamos em volta, estava tudo escuro e nada nos lembrava a nossa cidade, Anápolis.
– Chegamos onde Vicente?
– Em Anápolis!
– Quem disse que estamos em Anápolis?
– Olha a Praça Bom Jesus, gente!
– Que Praça Bom Jesus, Vicente! Nós estamos na Praça da Matriz de Silvânia.
Fizemos todo esforço para ficarmos acordados até chegarmos a Anápolis, sempre atentos ao nosso “motorista”.
Mara Rosa
– Será que erramos o endereço? Perguntei já preocupado.
Estávamos procurando a fazenda na qual uma grande concentração aconteceria. Depois da reunião, um churrasco nos esperava, como havíamos combinado algum tempo antes.
Desconfiados de que alguma coisa não dera certo, fomos entrando cautelosamente.
Com desencontros, devido à dificuldade de comunicação, temor de perseguição aos emedebistas, ainda assim, percorremos o estado de Goiás em busca de fortalecer o partido e de consolidar o nosso trabalho. Não foi tarefa fácil, pois com mínimos recursos financeiros, cortando o estado de sul a norte, leste e oeste num Fusca, a missão era penosa, mas gratificante.
Outra vez o amigo Tonico Leão, residente em Mara Rosa, norte do estado, bem próximo à Amaralina, nos convidou para uma grande confraternização política em sua casa, num certo dia 30. Dizia que tinha reservado duas novilhas para o grande churrasco. O compromisso daquele dia seria exclusivamente o grande evento. Saímos cedo de Anápolis. Foram quatro horas de viagem. Chegamos ao local do grande encontro e não havia o menor sinal de concentração política.
– Será que erramos o endereço? Perguntei já preocupado.
Ao nos aproximarmos da casa, apareceu Tonico sonolento:
– Hei gente, quanta satisfação em receber vocês!
– Tudo bem, Tonico?
– Tudo bem! Ali estão as novilhas que vão morrer dia 30.
Entendemos que o dia era mesmo 30, porém o mês era, por certo, outro.
Enfrentamos a viagem de volta com toda a caravana esfomeada.
Paramos num boteco de estrada para saborear pão com algumas latas de sardinha e assim, Henrique, seu cunhado Edward, seu filho Carlos Henrique, meu filho André Luís e eu, voltamos para Anápolis.
Estrela do Norte
Além das confusões de datas de reuniões, outras dificuldades eram desafio para a formação do partido oposicionista.
Filiar eleitores ao MDB era missão quase que impossível.
Até prisão os nossos companheiros enfrentaram, como Hilton Lucena, em 1971, na cidade de Estrela do Norte, quando foi preso por ordem do Juiz daquela Comarca. Hilton foi preso por estar filiando eleitores no MDB, ficou na única cela existente na cadeia pública local, juntamente com um maníaco que havia matado cruelmente quatro crianças em Mutunópolis, dias antes.
Seu colega Altivo sofreu tanta pressão da polícia por estar acompanhando Hilton que se mudou do município antes mesmo que chegássemos lá com o advogado Hiram Bezze, para defendê-los.
Foi a maior violência que presenciamos e denunciamos naquela época.
Nossa presença foi suficiente para que o Juiz relaxasse a prisão de Hilton Lucena, sem necessidade de apelarmos para o Tribunal de Justiça, com habeas corpus.
Outras arbitrariedades, contudo, continuaram acontecendo.
Jaraguá
Objetivando estruturar o Diretório Municipal do MDB de Jaraguá, obtive colaboração do companheiro Militino, farmacêutico conceituado naquela cidade. Militino ficou responsável para fazer filiações dos interessados em compor a oposição naquele município. O companheiro buscou apoio na zona rural com amigos fazendeiros e trabalhadores, uma vez que no setor urbano era quase impossível conseguir alguma inscrição ao MDB. As assinaturas foram conseguidas nas mais variadas regiões até que houvesse o número legal para organização do Diretório.
Todo satisfeito, Militino foi ao cartório eleitoral registrar os filiados no MDB. Surpresa total. Praticamente todos filiados haviam enviado oficio ao juiz eleitoral pedindo o cancelamento de inscrição.
Foram inúmeras as situações inusitadas que vivemos, mas valeu a pena!
“O povo falou, tá falado”
O refrão da música se tornou um símbolo de resistência contra o autoritarismo, numa época em que apenas dois partidos determinavam a posição política do eleitor: ao lado das forças do governo ou a favor da oposição. Arena e MDB dividiam o palco político numa luta desigual.
“Não adianta ir contra o povo, o povo falou, tá falado!”
Sinhôzinho, músico, cantor e compositor anapolino fez esta música para a campanha de Raul Balduíno e este pequeno trecho tornou-se abertura e nome de um programa de rádio que era a voz da oposição e dava espaço para que nós, Henrique, Romualdo e eu, diariamente estivéssemos em contato com a população através das emissoras Carajá e depois Santana.
Quanto mais ferrenha a nossa oposição ao regime arbitrário e antidemocrático mais sofríamos o peso do poder federal e estadual tentando tolher nossas ações.
A perseguição aos integrantes do MDB era implacável.
A rádio Carajá de propriedade do ex-deputado Plinio Jayme havia sido adquirida e transferida sua gerência para um grupo de integrantes do MDB em 1967. Os serviços de transmissão funcionaram normalmente, com os novos gerentes, por seis anos até 1973 sem qualquer restrição do DENTEL – Departamento Nacional de Telecomunicações. A Rádio Carajá era abertamente a voz da oposição, com o programa ‘O povo falou, tá falado’.
Em fevereiro de 1973, no dia da posse do prefeito José Batista Jr., tivemos mais uma mostra da truculência e intolerância da ditadura. Naquela madrugada a Rádio Carajá havia sido invadida pela Polícia Militar e só poderia voltar a funcionar se fosse devolvida ao seu antigo proprietário. A justicativa era que o DENTEL considerava a transferência irregular, autorizando uso da força militar do Estado para invadir seus transmissores e estúdio. Tivemos que nos afastar da emissora que foi devolvida ao Sr. Plinio Jayme.
No autoritarismo em que vivíamos nada era feito dentro da lógica. Tudo girava dentro da conveniência dos ditadores. Estavam em curso novos golpes que viriam posteriormente.
Poucos meses depois, no dia 28 de agosto, o radicalismo dos adversários contra o MDB levou a cidade de Anápolis a ser transformada em Área de Interesse da Segurança Nacional, com a cassação política do prefeito eleito José Batista Jr. e prisões de companheiros.
Este radicalismo em nada contribuiu para a vitória da Arena, o partido do governo, nas eleições de 1974. Nessas eleições, os que receberam maior número de votos em Anápolis foram Henrique Santillo para deputado estadual, Lázaro Barbosa, para o Senado, e eu, para Deputado Federal.
Os eleitos tomaram posse em janeiro de 1975 e a receptividade à mensagem do MDB aumentava cada vez mais entre a população de Anápolis, empolgada com o sucesso eleitoral e político de oposição ao regime autoritário.
A cidade de Anápolis passou a ser um desafio para o partido do governo, a Arena, e para as forças de repressão que para ali direcionaram as ações da Polícia Federal e até do Dentel – Departamento Nacional de Telecomunicações, coordenado na região pelo Coronel Alarico Jácome.
A Rádio Santana, com pequena potência, 250 Watts, adquirida por integrantes do MDB, informava e mobilizava os anapolinos contra a política oficial do regime militar. A transmissão do programa “O povo falou, tá falado” era o grande obstáculo para os adversários do MDB. Sem argumentos para contrapor o que era divulgado diariamente pela emissora e incomodados com a grande receptividade na população, arquitetaram o fechamento da Rádio Santana.
O Dentel, por ordem do coronel Alarico Jácome, solicitou à Polícia Federal que fizesse plantão diário nos estúdios da Rádio Santana. Cópia do programa “O povo falou tá falado” tinha, obrigatoriamente, que ser enviada ao Dentel todos os dias. Contamos com os amigos e companheiros, advogados Vicente de Paula Alencar e Altair Garcia Pereira, o Braguinha, que se revezavam na defesa semanal dos questionamentos que eram feitos seguidamente pelo Dentel à programação jornalística da Rádio Santana.
Henrique, Romualdo e eu, estávamos sempre juntos nas decisões e sabíamos que poderiam vir duras retaliações contra a nossa emissora, mas não arrefecíamos nosso combate contra a ditadura, em favor da democracia. Diretamente de Brasília, onde exercia o mandato de Deputado Federal, eu participava diariamente do programa “O povo falou, tá falado”, levando ao ar questões nacionais ou comentando as declarações de Henrique e Romualdo. Aos sábados, em Anápolis, participava ao vivo, ao lado deles.
No início do mês de abril de 1975 circularam incessantes rumores pela cidade dando conta de que a emissora seria fechada, uma vez que nossos adversários arenistas estavam incomodados com a audiência da Rádio Santana.
No dia 7 de abril daquele ano, o Diário Oficial da União publicou Portaria nº 324 do Ministério das Comunicações, assinada pelo titular da pasta, Ministro Euclides Quandt de Oliveira, declarando perempta a concessão da Rádio Santana Ltda. de Anápolis. Foi definitivamente tirada do ar no dia 25 de maio de 1975.
O último programa “O Povo falou tá falado” foi levado ao ar de forma emocionante. Com um pronunciamento do Henrique, Deputado Estadual à época, Romualdo e eu ao seu lado dentro dos estúdios, foram encerradas as transmissões da Rádio Santana, que tiveram início em março de 1958.
Foi mais um duro golpe aplicado contra os direitos democráticos. Usaram de expedientes arbitrários durante todo o tempo para tentar calar nossas vozes. Não conseguindo, usaram da força e do autoritarismo para interromper o mais eficiente instrumento que tínhamos para comunicar com a população, a Rádio Santana Ltda.
Continuamos nossa tarefa usando as tribunas dos parlamentos, concentrações públicas e domiciliares. Intensificamos a partir daí, ainda mais, o contato direto com o povo, numa cruzada incansável e permanente pelo retorno da democracia no país.
Demorou, mas conseguimos.