segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
O surgimento de uma nova liderança (I)
Oriundo de Ribeirão Preto, aqui chegando em 1944, Santillo praticamente não teve a infância que os demais meninos da sua idade tiveram. Começou a trabalhar bem cedo para ajudar na renda familiar. O restante do tempo de que dispunha, era para estudar. Cursou o Científico no Colégio São Francisco de Assis, sendo invariavelmente, o primeiro classificado da turma. Branca de Azevedo, posteriormente casada com o saudoso atleta do Ipiranga, Barroso, era sua mais direta concorrente.
Antes de ir para Belo Horizonte, onde cursou Medicina na Universidade Federal de Minas Gerais, Henrique Santillo fundou e foi o primeiro presidente do Grêmio Literário Clarim das Letras e das Artes, do Colégio São Francisco.
Em Belo Horizonte, enquanto cursava Medicina, participou da política estudantil sendo presidente do Diretório Acadêmico da UFMG; presidente do Diretório Central dos Estudantes de Belo Horizonte e presidente da UEE mineira.
Casado, pai de duas filhas, Sônia e Elidya, professor de química no cursinho preparatório Alfredo Balena, o mais importante da capital mineira, participando ativamente da política estudantil, mesmo assim, foi o primeiro colocado da turma de medicina de 1963.
Retornando a Anápolis no início de 1964, instalou seu consultório médico no prédio da Tipografia Glória, na Avenida Goiás. Prestou serviços à Santa Casa de Misericórdia, Hospital São Zacarias e ao Serviço de Atendimento Médico Domiciliar de Urgência - Samdu.
Em 1966 filiou-se ao MDB. Partido de oposição, presidido em Anápolis pelo, então, deputado Haroldo Duarte. Partidos tradicionais, criados com a redemocratização do Brasil em 1945, cederam lugar a Aliança Renovadora Nacional (Arena), de apoio à ditadura de 1964 e Movimento Democrático Brasileiro (MDB), de oposição. No mesmo ano, foi candidato a vereador. Concorreu dentro do MDB, com figuras destacadas da política anapolina, como João Furtado de Mendonça, Homero Ferreira, Adão Mendes Ribeiro, Laudo Puglisi, Raimundo de Oliveira Lima, João Luiz de Oliveira, Oscar Miotto, etc. Na chapa arenista a maior expressão foi o, também, médico, proprietário do Hospital São Zacarias, Elias Abrão. Era tido como a maior liderança política anapolina e, se preparava para ser candidato à Prefeitura pela Arena, em 1969...
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Volta ao passado
Embora não tenha estudado no colégio São Francisco, tive ótimo relacionamento com os estudantes daquele colégio quando militava na política estudantil. Em 1963, juntamente com Eles Alves Nogueira, Levy Schiettini, Valmir Bastos Ribeiro e Jacy Fernandes, acabamos com o isolamento dos estudantes de Anápolis. Transformamos a União Independente dos Estudantes Anapolinos – UIEA em União dos Estudantes Secundaristas de Anápolis – UESA, vinculada à União Goiana dos Estudantes Secundaristas – UGES. Fui eleito seu primeiro presidente, como candidato único, num pleito direto, com a participação de todos os estudantes secundaristas do município. Dos colégios particulares o mais conceituado e numeroso era o São Francisco. Escolhi meu companheiro de chapa para a vice presidência entre os franciscanos.
A maior emoção ficou por conta de relembrar que por aquelas escadarias pomposas e salas amplas e arejadas do tradicional São Chico, havia passado, por três anos consecutivos, meu irmão Henrique Santillo, que viria se transformar no futuro governador de Goiás. Uma das mais autênticas lideranças políticas do Brasil, no combate à ditadura. Henrique Santillo foi o mais aplicado e dedicado aluno de toda história do Colégio São Francisco de Assis. Fundador do seu grêmio estudantil, Clarim das Letras e das Artes. Foi também seu primeiro presidente. Os colegas de Henrique Santillo, no colégio São Francisco, como Geraldo Fleury Curado, afirmam que ele era para os companheiros de classe o conselheiro e professor que todos consultavam.
Há algum tempo atrás recebi como presente do amigo Mauro Gonzaga Jaime, o Pastinha, alguns exemplares do jornal Arauto dos Reis, órgão informativo do colégio nos anos 50, em que divulgava as melhores notas obtidas pelos alunos em cada mês. Em todos os meses Henrique Santillo figura em primeiro lugar, na sua turma. Era estudioso sem alienação política. Pelo contrário, como estudante secundarista em Anápolis e universitário em Minas Gerais, onde cursou medicina na UFMG, foi atuante politicamente. Presidente do Diretório Acadêmico da faculdade de medicina, presidente do DCE mineiro e presidente da UEE, sem deixar de ser o estudante brilhante dos tempos de secundarista, realizando todo curso de medicina, como o primeiro aluno da turma.
Relembrei todas essas passagens de um cidadão que foi a grande referência da qualidade do ensino do Colégio São Francisco de Anápolis no passado, sob a direção do frei Chicão. Naquele prédio antigo, muito bem conservado e repleto de histórias, eu e os demais convidados, vimos o São Francisco moderno. O Projeto IPOCAR – Investigação, Produção, Opinião, Cidadania, Argumentação e Realidade, do qual participamos, além de preparar os estudantes no conhecimento profundo dos acontecimentos cotidianos, os ajuda na tomada de uma decisão mais segura em busca do seu futuro profissional. Os tempos mudaram, mas o Colégio São Francisco continua moderno e atualizado, formando estudantes cônscios da sua responsabilidade como cidadãos.
terça-feira, 29 de junho de 2010
Volta ao passado
Sábado passado, dia 19 de junho, tive a satisfação e motivo para recordar um pouco do meu tempo de jovem. Época de estudante no colégio estadual José Ludovico de Almeida. Além de estudar militava na política estudantil. Por ser o maior estabelecimento educacional de Anápolis, o colégio estadual, era também o celeiro em que se formavam as grandes lideranças políticas de Anápolis. Estivemos no colégio São Francisco de Assis, um dos mais conceituados de Anápolis, participando de debate com os estudantes, ao lado de Odilon Alves, diretor e redator da revista Planeta Água; Paulo Gonçalves, professor e jornalista; Maria de Lourdes, professora de Alemão e jornalista e Onaide Santillo, radialista e apresentadora de programa na TV-14 de Anápolis. Fomos convidados pelos professores Marcos Aurélio Divino e Wilma. Discutimos temas do momento e sobre a profissão de jornalista com os concluíntes do 3° ano do ensino médio daquele colégio.
Embora não tenha estudado no colégio São Francisco, tive ótimo relacionamento com os estudantes daquele colégio quando militava na política estudantil. Em 1963, juntamente com Eles Alves Nogueira, Levy Schiettini, Valmir Bastos Ribeiro e Jacy Fernandes, acabamos com o isolamento dos estudantes de Anápolis. Transformamos a União Independente dos Estudantes Anapolinos – UIEA em União dos Estudantes Secundaristas de Anápolis – UESA, vinculada à União Goiana dos Estudantes Secundaristas – UGES. Fui eleito seu primeiro presidente, como candidato único, num pleito direto, com a participação de todos os estudantes secundaristas do município. Dos colégios particulares o mais conceituado e numeroso era o São Francisco. Escolhi meu companheiro de chapa para a vice presidência entre os franciscanos.
A maior emoção ficou por conta de relembrar que por aquelas escadarias pomposas e salas amplas e arejadas do tradicional São Chico, havia passado, por três anos consecutivos, meu irmão Henrique Santillo, que viria se transformar no futuro governador de Goiás. Uma das mais autênticas lideranças políticas do Brasil, no combate à ditadura. Henrique Santillo foi o mais aplicado e dedicado aluno de toda história do Colégio São Francisco de Assis. Fundador do seu grêmio estudantil, Clarim das Letras e das Artes. Foi também seu primeiro presidente. Os colegas de Henrique Santillo, no colégio São Francisco, como Geraldo Fleury Curado, afirmam que ele era para os companheiros de classe o conselheiro e professor que todos consultavam.
Há algum tempo atrás recebi como presente do amigo Mauro Gonzaga Jaime, o Pastinha, alguns exemplares do jornal Arauto dos Reis, órgão informativo do colégio nos anos 50, em que divulgava as melhores notas obtidas pelos alunos em cada mês. Em todos os meses Henrique Santillo figura em primeiro lugar, na sua turma. Era estudioso sem alienação política. Pelo contrário, como estudante secundarista em Anápolis e universitário em Minas Gerais, onde cursou medicina na UFMG, foi atuante politicamente. Presidente do Diretório Acadêmico da faculdade de medicina, presidente do DCE mineiro e presidente da UEE, sem deixar de ser o estudante brilhante dos tempos de secundarista, realizando todo curso de medicina, como o primeiro aluno da turma.
Relembrei todas essas passagens de um cidadão que foi a grande referência da qualidade do ensino do Colégio São Francisco de Anápolis no passado, sob a direção do frei Chicão. Naquele prédio antigo, muito bem conservado e repleto de histórias, eu e os demais convidados, vimos o São Francisco moderno. O Projeto Ipocar – Investigação, Produção, Opinião, Cidadania, Argumentação e Realidade, do qual participamos, além de preparar os estudantes no conhecimento profundo dos acontecimentos cotidianos, os ajuda na tomada de uma decisão mais segura em busca do seu futuro profissional. Os tempos mudaram, mas o Colégio São Francisco continua moderno e atualizado, formando estudantes cônscios da sua responsabilidade como cidadãos.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Exemplo de simplicidade e fidelidade
Ele não se importava com convenções sociais, estava sempre à vontade em qualquer lugar, com qualquer pessoa. Sua simplicidade e falta de cerimônia às vezes deixavam pessoas constrangidas.
Conheci Walmir Bastos Ribeiro quando cursava a 7ª série no Ginásio Estadual de Anápolis, que funcionava no prédio do Antesina Santana. Estávamos na sala de aula, quando o professor Heli Alves Ferreira, diretor do ginásio, adentrou o recinto trazendo em sua companhia um jovem bem magrinho, bigode bem ralo, trajando terno de linho branco e gravata borboleta:
– Apresento a vocês um novo colega! É Walmir Bastos, baiano de Jequié.
Na verdade, o Walmir sempre dizia que era de Jequié, terra em que estudou o primário. Ele era mesmo de Brotas de Macaúbas. Isso pouco importa, porque ficou conhecido na sala de aula, e em toda a cidade de Anápolis, como “Baiano”.
Walmir Bastos Ribeiro, muito político, gostava de Vieira de Melo. Realçava as virtudes de Vieira em todos os seus discursos. Da mesma classe participava Jayro Rodrigues da Silveira, que posteriormente casou-se com a Onara, irmã da Onaide.
Sem ter nenhum parente em Anápolis, Walmir Bastos ficou nosso amigo e passou a freqüentar nossa casa, localizada à Rua Rui Barbosa, 420. Além de amigo, tornou-se nosso companheiro político até que a morte o levou, no dia 17 de julho de 1994. Desfrutei durante trinta e sete anos do seu companheirismo e amizade. Era para mim e Onaide como um irmão. Nunca fraquejou nas atitudes políticas, tendo sido preso várias vezes pelas forças da repressão.
No leito do Hospital Evangélico Goiano, já no final da sua vida, recebeu Irapuan Costa Jr., que veio a Anápolis exclusivamente para visitá-lo. Na base da brincadeira, para falar de política, que era o assunto único de que Walmir gostava, Irapuan perguntou:
– Walmir, e agora, como você vai votar? O Adhemar é seu amigo, mas eu também sou. Nós disputamos uma cadeira de Deputado Federal...
Antes mesmo que o ex-governador terminasse sua indagação, sonolento pela medicação que acabara de tomar, respondeu sem rodeios:
– Voto no Adhemar!
Walmir foi protagonista de fatos curiosos e interessantes durante toda a sua vida. Assim que chegou ao Ginásio Estadual, participando de aula de história das Américas, ministrada pelo professor Jóca, foi chamado pelo professor ao quadro negro. Jóca passou a ditar compassadamente a dissertação sobre os Maias. Walmir que não tinha caligrafia boa fez seus garranchos, que só ele mesmo entendia. Começou a frase mais ou menos pelo meio do quadro, subindo em direção à extremidade. Em seguida iniciou a segunda linha, descendo até o canto de baixo do quadro negro, Com duas linhas, indecifráveis, Walmir tomou conta inteiramente do espaço. De costas para o redator da sua famosa dissertação sobre os Maias, Jóca, percebendo a gargalhada de toda classe, virou-se para trás e descobriu o motivo de tanta alegria dos alunos:
– Senhor Walmir, eu pedi para que escrevesse uma dissertação! Não solicitei que desenhasse um funil.
Logo começou sua atividade político partidária no PSD e pela sua fidelidade e extrema lealdade, Plínio Jayme, Deputado Estadual pelo PSD na época, conseguiu do Governador José Feliciano Ferreira um contrato para que Walmir Bastos prestasse serviço na COTELGO – Companhia de Telecomunicação de Goiás. Seu trabalho era receber reclamações dos usuários, anotando o que ouvia. Mas Walmir resolveu ir além, foi à área de equipamentos para tentar resolver problemas que recebia nas reclamações. Num único dia, o “Baiano” provocou pane no sistema da COTELGO, dando trabalho para os técnicos por uns quinze dias, até conseguirem consertar o estrago.
Plínio Jayme achou melhor deslocá-lo à disposição das Centrais Elétricas de Goiás – CELG, como entregador dos talões de consumo de energia. Sob sua responsabilidade estava o setor central da cidade. Walmir conhecia quase toda a população desse setor. Chegando à Rua 7 de Setembro, entrou pelo corredor da casa do amigo, indo até a cozinha. Ao chegar, sem ninguém para recebê-lo, sentou-se, tomou café, comeu pão de queijo e leu o jornal que estava sobre a mesa, deixado pelo amigo que minutos antes partira para o trabalho. Quando a dona da casa, esposa do seu conhecido, chegou e se deparou com aquele homem na sua cozinha, e ela de trajes íntimos, à vontade em casa, entrou em desespero:
– Estão assaltando minha casa. Socorro, socorro, socorro! Tem gente estranha na minha casa, socorro gente...
Atônito, desesperado, sem saber onde estava o erro, Walmir saiu rapidamente. Sua indiscrição correu por toda a cidade, ainda pequena, onde todos se conheciam. Não houve jeito, o “Baiano” teve que ser dispensado. Outras tentativas foram feitas para conseguir um emprego para o Walmir se sustentar e todas frustrantes. Só deu certo quando os comandantes da campanha pró Mauro Borges, candidato ao Governo de Goiás, o contrataram para trabalhar no comitê de Mauro e demais candidatos do PSD, na Praça do Bom Jesus. Descobriu-se que sua vocação era para a política. Encontraram sua vocação ao indicá-lo para trabalhar no comitê.
Falta de cerimônia era com ele mesmo. Numa tarde, já quase noite, foi visitar o presidente da União Independente dos Estudantes Anapolinos – UIEA, em sua residência. Ao chegar, encontrou a mesa posta para o jantar. Muito educada a mãe do Abel Pires, o presidente, convidou Walmir, gentilmente, para jantar. Walmir nem esperou o anfitrião sair do banho. Sentou-se à mesa e se serviu à vontade. Comia muito e depressa. Abel saiu do banheiro e foi logo abraçando Walmir. Terminado o cumprimento, sentou-se à mesa e iniciou sua refeição:
– Walmir, vamos jantar?
Walmir, bom de garfo, pegou o prato que usara anteriormente e jantou novamente.
Quando os vereadores do MDB Lincoln Xavier Nunes, João Divino Cremonez e Pedro Sérgio Sobrinho se aliaram à bancada arenista, em oposição ao prefeito Henrique Santillo, em 1971, Walmir Bastos, já vereador, que havia me apoiado a Deputado Estadual e Fernando Cunha Jr. a Deputado Federal, foi convidado a participar de almoço na residência do Fernando Cunha. A intenção era convencer Walmir a ficar contra o Prefeito Henrique Santillo, com quem o grupo liderado por Fernando Cunha Jr., havia rompido. Depois de se alimentar bem com um banquete especial, regado a whisky importado, sua bebida preferida, foi apresentado ao Walmir um documento para que assinasse. Era o manifesto do grupo que rompera com Henrique Santillo e queria o apoio do Walmir como vereador. Visivelmente tonto, embriagado, distante da sua sobriedade normal, acabou de ler o manifesto, devolvendo-o sem assinar:
– Não faço o jogo da ditadura. Sou Henrique Santillo.
Quando chegou a Anápolis, Walmir foi morar na Pensão Bom Jesus, onde alugou um pequeno quarto por décadas. Além da roupa do corpo, trouxe na mala de tamanho médio, revestida de papelão, apenas outros pares de roupas vindas da Bahia. Quando faleceu, Onaide foi até a residência do Hildeu, onde Walmir recebia os cuidados dele e de sua esposa Leninha, encontrando no guarda-roupa do seu quarto apenas um terno, uma camisa e uma gravata, roupa com a qual foi sepultado. Até a mala com que veio para Anápolis desapareceu, consumida pelo tempo.
Depois de 37 anos em Anápolis, ocupando uma cadeira de vereador na Câmara Municipal por sete mandatos consecutivos, Walmir Bastos Ribeiro, deixou muita saudade para os que, como nós, desfrutamos da sua amizade.
Walmir foi exemplo de coerência, honradez e fidelidade aos amigos.
Prisão, IPM e Monsenhor Pitaluga
– A denúncia que temos é que o senhor quase matou o padre com seus insultos e ousadia.
– Chame o Monsenhor Pitaluga. Vamos ficar frente a frente para ver se ele confirma a denúncia! Sugeri, num desafio.
O major pegou o telefone e entrou em contato com Pitaluga que se encontrava na Catedral do Bom Jesus, em Anápolis.
Este diálogo com acusações estranhas e totalmente infundadas aconteceu num depoimento que prestei num IPM – Inquérito Policial Militar, que tinha a finalidade de averiguar as atividades subversivas e infiltração comunista na região.
Mesmo sem processo formal, fui impedido de trabalhar no rádio, até mesmo na área esportiva, mas ainda assim continuei minha função de relações públicas da administração Jonas Duarte, na Prefeitura Municipal.
Neste período fui abordado por agentes da Policia Civil do estado, que cumprindo determinação do cel. Izacir Teles, foram até minha casa levando-me preso à Secretaria de Segurança Pública, em Goiânia. A mesma determinação foi dada contra o médico Fuad Siade.
Ao chegarmos a Goiânia já estava encerrado o expediente. Fomos levados à presença do delegado Ulisses Vento, nosso conhecido de Anápolis, que sabia das nossas atividades tanto profissionais quanto estudantis:
– Adhemar, isso é coisa de adversário político! Não há nenhum tipo de denúncia de subversão contra você ou o Dr. Fuad Siade.
– E aí, Dr. Ulisses, qual será o seu procedimento?
– Normalmente, deveria mantê-los encarcerados até que fossem tomados os depoimentos, mas vocês vão para Anápolis e amanhã bem cedo vocês retornam para o depoimento.
Assim procedemos. No dia seguinte, o delegado Ulisses Vento chamou o escrivão improvisado para ocasiões como essa, no nosso caso o presidiário Nabor Fasam, determinando que colhesse nosso depoimento, com nossas espontâneas declarações. Feitos os depoimentos, devidamente assinados, retornamos à Anápolis. Nunca mais fomos procurados e nunca soubemos que fim foi dado ao inquérito.
Na mesma ocasião, chegaram a Anápolis três oficiais do Exército, com a finalidade de instaurar Inquérito Policial Militar – IPM sobre atividades subversivas e infiltração comunista na região. Quando me intimaram para depoimento nas dependências do Clube Recreativo Anapolino – CRA, a primeira pergunta que fizeram após a identificação foi:
– O que levou o senhor a escrever no jornal O Líder, do Grêmio Literário Castro Alves, o editorial ‘Rússia e Cuba, dois exemplos’?
O Grêmio Literário Castro Alves, do colégio estadual José Ludovico de Almeida, do qual havia sido presidente, editava mensalmente um jornal, abordando assuntos da atualidade. Seu diretor, estudante Gedeon Epaminondas de Camargo Neto, apenas dava seu nome ao periódico. O principal articulista sempre foi o Romualdo Santillo. Na edição referida narrava o avanço social tanto na Rússia quanto em Cuba. Como não possuíam exemplar do jornal em mãos, respondi:
– Nele falei sobre a beleza da democracia. Mesmo a melhoria na condição de vida para os mais pobres e abandonados não substituía a virtude de ser livre. É dever lutar contra injustiças sociais, com melhor distribuição de riquezas e rendas, mas com democracia, com liberdade.
– Vamos então convocar o Gedeon Camargo.
– Não há necessidade, o autor do artigo sou eu. Assumo toda e qualquer responsabilidade sobre seu conteúdo e sua publicação!
Gedeon não foi chamado e não se falou mais na questão.
Depois de muita fofoca e denúncias vazias, o major presidente do IPM, lançou a pergunta final:
– No dia 31 de março o senhor invadiu a Igreja do Bom Jesus, soltando foguetes em seu interior e agrediu com insultos desaforados, Monsenhor Pitaluga?
– Não é verdade...
– A denúncia que temos é que o senhor quase matou o padre com seus insultos e ousadia.
– Chame o Monsenhor Pitaluga. Vamos ficar frente a frente para ver se ele confirma a denúncia! Sugeri, num desafio.
O major pegou o telefone e entrou em contato com Pitaluga que se encontrava na Catedral do Bom Jesus:
– Monsenhor, Adhemar Santillo está aqui prestando depoimento no inquérito Policial Militar. Consta como sendo sua denúncia contra ele que dia 31 de março ele o desacatou e soltou foguetes dentro da igreja.
Feita a comunicação, o major ficou exatos cinco minutos ouvindo Monsenhor Pitaluga. A única expressão possível de entender era:
– Sim Monsenhor! Sim Monsenhor!
Encerrado o diálogo o major exaltado, exclamou:
– Povo fofoqueiro! Pitaluga disse que não aconteceu nada disso.
Encerrou o interrogatório e me passou o depoimento datilografado, para que fosse assinado.
Só depois de trinta anos é que tomei conhecimento do que foi registrado nos arquivos do SNI – Serviço Nacional de Informação:
“Foi indiciado em IPM em 1964, instaurado para apurar a infiltração comunista e a corrupção existente nas cidades de Goiânia e Anápolis, ambas de Goiás”.
No relatório do IPM foram registrados os seguintes dados sobre Adhemar Santillo:
“Líder estudantil, usa e abusa de sua capacidade de liderança para agitar sua classe. Acreditamos não ser comunista, porém é elemento com tendência esquerdista e deverá ser observado para o futuro.”
Goianos fora do contexto
– General, até que ponto o governo norte-americano, através da CIA, participou do golpe militar que derrubou o Presidente João Goulart?
Esta foi a pergunta que Rui Alencar, amigo inseparável do meu irmão Romualdo, fez ao general Muniz Aragão.
Como eles, jovens de todos os estados do país estavam reunidos no Rio de Janeiro participando do Movimento do Rearmamento Moral, na Universidade Rural do Rio de Janeiro.
Com a deposição do Presidente João Goulart por militares em março de 1964, estes, que já tinham o apoio da elite brasileira, elaboraram um plano para atrair os jovens, principalmente os estudantes a apoiar o que chamavam de Movimento Revolucionário.
Com o patrocínio do Departamento de Estado Americano foi realizado em julho de 64, o encontro nacional de estudantes secundaristas na Universidade Rural do Rio de Janeiro. Participaram delegações de todos os Estados.
A delegação goiana foi liderada pela estudante Luzalva Santos, que se empenhou em levar vários anapolinos na comitiva goiana.
A apresentação das delegações foi feita numa sexta-feira à noite onde cada uma delas ao ser chamada fazia apresentação artística de um fato marcante ou folclórico da sua região. Os paulistas encenaram uma peça com a música “São Paulo, que dá garoa, São Paulo que terra boa!”. A representação do Rio Grande do Sul se apresentou com canto e dança “Prenda minha”! E assim, a festa alegrava aos seus organizadores.
Chegada a vez de Goiás, sem que houvesse realizado qualquer ensaio, os estudantes Tauny Mendes e Nilo Sérgio decidiram encenar um diálogo preparado na última hora, representando dois trabalhadores rurais.
– E aí, compadre! Viu, se não fossem os militares, os comunistas teriam tomado conta do Brasil!
– Que é isso, compadre! Isso é conversa esfarrapada dos golpistas!
– Que golpistas, o povo deu apoio total. Não viu a campanha “Ouro para o bem do Brasil”? Todo mundo ajudou!
– Ocê não vai me dizê que colocou sua aliança na campanha!
– Eu não, mas o pessoal lá de casa deu de bom gosto brincos e colares.
– Essa campanha foi liderada pelos grandes grupos que massacram o trabalhador! É coisa de truste, compadre.
– Uai, compadre, então você está querendo dizer que foi golpe?
– Claro que foi golpe contra os interesses do povo!!
Encerrado o diálogo Tauny e Nilo foram aplaudidos entusiasticamente pelos presentes.
Apesar da boa receptividade junto a platéia, a participação dos goianos não foi incluída entre as demais para concorrer a um prêmio de melhor desempenho. Os organizadores preferiram abafar sua repercussão.
O diálogo caboclo dos goianos Tauny Mendes e Nilo Sérgio, na abertura do Movimento do Rearmamento Moral, na Universidade Rural do Rio de Janeiro, ainda era o assunto do encontro na manhã do dia seguinte quando os jovens tomavam conta de todas as dependências do ginásio de esportes, aguardando o início das preleções e debates. Dorremi, estudante de Veterinária na Universidade Rural, morador da Casa dos Estudantes,no campus universiário, gostou tanto da apresentação dos goianos, que assumiu a função de relações públicas do grupo. Onde se encontravam Romualdo Santillo, Rui Alencar, Tauny e Nilo, lá estava prestando seu assessoramento, Dorremi.
Quando o general Muniz Aragão adentrou o ginásio, os aplausos foram longos e estrepitosos. Estrategicamente acomodados estavam os goianos tão observados pela platéia quanto o preletor.
Iniciada a palestra, Aragão falou de lacaios do comunismo internacional que traziam doutrinas exóticas e alienígenas para tumultuar a inocência dos jovens brasileiros. Não se esqueceu de dizer que as forças do bem se uniram para evitar a comunização do país. Elogiou a campanha: ”Ouro para o Bem do Brasil”. Criticou a imprensa livre, artistas e intelectuais que mostravam desconfiança em relação ao novo governo. Verdadeira lavagem cerebral para uma platéia catada a dedo. Exceção, é claro, à diminuta participação anapolina, representando Goiás.
Ao final da preleção, aberta a discussão, Rui Alencar, amigo inseparável do Romualdo Santillo, foi o primeiro a fazer indagação ao general Muniz Aragão:
– General, até que ponto o governo norte-americano, através da CIA, participou do golpe militar que derrubou o Presidente João Goulart?
– Moço, não houve nenhum golpe! O que houve foi a reação popular contra os vendilhões da pátria! As forças internacionais do bem estão unidas contra doutrinas autoritárias, venham de onde vier.
Rui, totalmente fora do contexto, levantou-se do lugar em que se encontrava, dedo em riste para Aragão, gritou:
– O senhor está rodeando moita. Não respondeu minha pergunta. Perguntei se o governo norte-americano participou do golpe, usando a CIA. Me responde por favor!
Os organizadores do evento pediram a suspensão dos debates por dez minutos, enquanto se avistavam com a coordenadora da equipe goiana.
Luzalva Santos, de maneira gentil e direta, disse ao Romualdo e Rui Alencar que um norte-americano, da organização do encontro, queria falar com eles em seu gabinete. Ao chegarem lá, foram convidados a se retirarem do evento. Só tiveram a oportunidade de buscar seus pertences nos alojamentos.
No dia seguinte foi a vez de Tauny e Nilo receberem o amigável convite para também se retirarem por não se enquadrarem nas normas do evento.
Assim, a presença dos anapolinos no encontro do Movimento do Rearmamento Moral, no Rio de Janeiro, foi rápida e marcante.
Conferência sobre minérios
– Agradeço a homenagem que me presta a classe estudantil de Anápolis, por intermédio do Grêmio Literário Castro Alves... Iniciou o Governador de Goiás, Mauro Borges Teixeira.
A expectativa era enorme. Afinal, o Governador do estado falaria aos estudantes secundaristas que estavam eufóricos com presença tão ilustre.
O Governador Mauro Borges dava uma atenção especial aos convites que lhe faziam estudantes das escolas públicas. Prestigiou a diretoria do Grêmio Literário Castro Alves, atendendo suas reivindicações de construção da quadra de esportes, aquisição de instrumentos musicais, mobília para salão de festas e outras obras físicas no Colégio Estadual José Ludovico de Almeida. Em agradecimento ao atendimento às reivindicações dos estudantes, o governador foi agraciado pelo grêmio com o título de Honra ao Mérito.
A solenidade, marcada com bastante antecedência, aconteceu à noite, no salão nobre do colégio estadual José Ludovico de Almeida. Estudantes dos três turnos superlotaram o recinto. O local, decorado caprichosamente, trazia painéis com notícias publicadas em jornais locais e de Goiânia, relatando os benefícios prestados à educação municipal por Mauro Borges. Geovane Fonseca, secretário de comunicação do Grêmio Castro Alves, acertou participação do coral da Igreja Presbiteriana Independente para abrir e finalizar o evento.
O Governador Mauro Borges chegou acompanhado de vários secretários de estado e de outras autoridades. Sob os acordes de Aleluia de Handel, Mauro Borges foi entusiasticamente aplaudido pelos estudantes. Falaria sobre a METAGO, empresa criada por ele para normatizar pesquisas e explorar a lavra de minérios em Goiás.
O evento foi preparado para ser uma solenidade rápida, transmitida pela Rádio Carajá. Como presidente da sessão, fiz a entrega do título ao Governador e chamei para uma pequena saudação o orador do grêmio. Para não cansar a platéia, acelerando os trabalhos, passei imediatamente a palavra a José Ribeiro, estudante disciplinado e organizado, que zeloso da sua responsabilidade, ficou pelo menos três dias estudando e se informando sobre minérios.
Cumprimentou o palestrante e membros da mesa e passou a discorrer sobre minérios. Falou sobre todos eles ressaltando o níquel, sua importância no município de Niquelândia, maior produtor do Estado. O mesmo aconteceu com cristal, quando realçou o município de Cristalina. Ao falar sobre ouro, não se esqueceu de Almas, hoje Tocantins, com subsolo rico desse minério. Quando ressaltou o amianto cuja maior reserva do Brasil estava no distrito de Minaçu, município de Uruaçu foi freneticamente aplaudido pelos nortenses que estudavam no “José Ludovico de Almeida”. Outro momento de grande manifestação estudantil foi quando José Ribeiro falou sobre as pedras de Pirenópolis.
E assim o nosso orador ia destacando minérios naturais, sintéticos e compostos. Durante sua palestra, a cada aplauso recebido José Ribeiro se motivava redobrando suas informações sobre minérios. Depois passou a elogiar o homenageado, governador Mauro Borges, pela coragem cívica de criar a METAGO, colocando Goiás à frente dos demais estados brasileiros, arrancando aplausos da assistência formada por estudantes, enquanto os convidados demonstravam certo cansaço, externado principalmente pelos anapolinos que serviam ao governo Mauro Borges
Mauro havia levado muitos militantes da política anapolina para auxiliá-lo em seu mandato de governador do estado: o empresário José Abdalla, proprietário da Companhia Comercial de Automóveis – CCA, era seu secretário da Fazenda; Rivadávia Xavier Nunes, advogado, ocupou a Secretaria de Segurança Pública; Érides Guimarães, do Partido Trabalhista Brasileiro, era seu Secretário do Trabalho; o médico Luiz Fernando, Deputado Estadual residente em Anápolis, era o presidente da Assembléia Legislativa.
Ao terminar a parte ‘mineral’ de seu discurso, José Ribeiro, que também escrevia e gostava de poesia, decidiu encerrar a fala recitando poesia inédita de sua autoria, alusiva ao evento. Talvez por ser inédita, demorou bastante tempo para apresentá-la.
Terminada a fala do orador do grêmio com a hora já bastante adiantada, passei a palavra ao homenageado e conferencista especial da noite, Governador Mauro Borges Teixeira:
– Agradeço a homenagem que me presta a classe estudantil de Anápolis, por intermédio do Grêmio Literário Castro Alves. Obrigado, senhor presidente Adhemar Santillo. Quanto ao tema que deveria discorrer, faço minhas as palavras do estudante José Ribeiro, que demonstrou profundo conhecimento de todos os minérios existentes e que possam vir a ser descobertos. Parabéns e muito obrigado pela oportunidade.
Já era tarde da noite quando o evento foi encerrado com um coral sonolento e público minguado:
– Aleluia, Aleluia, Aleluia, Aaaaleluia....
Grêmio Estudantil, escola de política
Os anos 60 foram particularmente propícios para atividades da política estudantil.
E foi assim a minha estréia, que num pleito difícil e histórico, ganhei as eleições, vencendo o estudante Sebastião França na disputa pela presidência do Grêmio Literário Castro Alves, do colégio estadual José Ludovico de Almeida, em Anápolis, em 1960.
Na presidência do Grêmio Literário Castro Alves consegui inúmeros avanços em benefício dos estudantes do colégio. Foi através de reivindicação do Grêmio que a quadra de esportes foi construída anexa ao colégio, pelo governo de Mauro Borges, assim como foi mobiliado o auditório de festas e teatro, que por muito tempo não tinha como ser utilizado por falta de cadeiras e outros móveis.
Com a realização do concurso para escolha da rainha dos estudantes, em que a vencedora foi Vanda Barbosa, conseguimos recursos que foram aplicados em material esportivo, livros para a biblioteca e o primeiro corpo humano desmontável para as aulas de biologia. O Grêmio Literário Castro Alves comandou todos os movimentos reivindicatórios pela melhoria da qualidade de ensino e por maiores salários para os professores. O papel do Grêmio foi fundamental em todas as ações cívicas, sociais e esportivas dos estudantes anapolinos.
Ao final do mandato, procurei um dos colegas do Grêmio para disputar a eleição e dar continuidade ao trabalho que havia sido feito. Muitos foram os pretendentes à presidência. Milton Alves Ferreira, José Abdalla Badauy e Lenine Bueno não abriram mão de disputar pelo grupo que apoiava e auxiliava minha administração. Envidei todos os esforços, com intermináveis reuniões, em busca do consenso para que apenas um deles representasse o grupo. Mesmo sem ter adversários declarados a oposição era forte e dividida como estava nossa base de apoio corríamos o risco de perder o pleito.
Esgotadas as possibilidades de uma só candidatura representando o grupo, foi elaborado um manifesto com centenas de assinaturas reivindicando que o Grêmio continuasse a sua ação progressista com a minha candidatura à reeleição.
Ainda tentei acordo com os demais postulantes do nosso próprio grupo para evitar que tivesse que disputar a reeleição, mas foi impossível conseguir unidade. Não restou outra alternativa que não fosse a de ser candidato. Meus adversários foram os próprios companheiros.
O trabalho que realizara de forma eficiente e democrática me garantiu ser reeleito presidente do Grêmio Literário Castro Alves por expressiva margem de votos.
Ao terminar minha segunda gestão como presidente do Grêmio, já quase ao final de 1963, decidi disputar a presidência da UIEA, União Independente dos Estudantes Anapolinos.
Para aquela eleição as regras foram mudadas. Nas eleições para a UIEA o presidente era eleito com os votos de delegados, representantes dos colégios da cidade, em número proporcional aos alunos de cada escola.
Os estudantes Levy Schetini e Jacy Fernandes, mudaram os estatutos de União Independente dos Estudantes Anapolinos – UIEA, para a União dos Estudantes Secundaristas de Anápolis – UESA. A eleição do presidente, ao contrário das eleições anteriores, seria pelo voto direto de todos os estudantes de Anápolis.
Candidatei-me à presidência e, sem outros concorrentes, fui candidato único. A participação dos estudantes foi enorme, em todas as escolas. Mesmo sendo candidato único, poucos foram os votos nulos e brancos.
Tomei posse no final de 1963 e permaneci no cargo até 31 de março de 1964, quando foi imposto o golpe militar que destituiu o Presidente João Goulart. Nesta época todos os movimentos políticos estudantis compromissados com avanços sociais foram destituídos e arrasados.
Não foi diferente com o Grêmio Literário Castro Alves e a UESA naquele momento histórico.
Sempre enfrentei desafios
Minha mãe sempre dizia que eu era teimoso.
Desde criança, quando queria fazer alguma coisa, insistia até conseguir realizar.
Sempre fui determinado, característica que me acompanha em toda a
vida. Sempre lutei por aquilo que quero e sonho.
Ainda jovem, apaixonado por futebol, fui jogar no juvenil do Ipiranga Atlético Clube. Nesta categoria, a nossa equipe era a melhor da cidade nos anos de 1957 e 1958.
Estávamos todos preparados para ascender ao time principal, quando ouvi o presidente ipiranguista, David Esteves de Azevedo, afirmar a um grupo de amigos que ouvia na Praça do Bom Jesus o programa esportivo das 11 horas pelo auto falante da Rádio Carajá instalado no telhado do prédio onde hoje funciona o Banco Itaú, que todos do time juvenil comandado por Anastácio Ferreira Barbosa, tinham condição para integrar o time principal, menos o Adhemar.
Enfrentei a crítica como desafio, redobrei meus esforços e assumi a vaga de lateral direito no time titular. Fui o único a jogar todas as partidas do campeonato anapolino de 1959, quando fomos campeões da cidade.
Da mesma forma aconteceu na eleição para o Grêmio Literário Castro Alves, do Colégio Estadual José Ludovico de Almeida, para substituir Gil Xavier Nunes na presidência. Ninguém queria enfrentar a popularidade do estudante Sebastião França, o Zé Gia, comandante da Frente Libertadora, que havia dado vitória ao Juca Ludovico em Anápolis contra Mauro Borges, para o governo do Estado naquele ano, 1960. Sebastião França tinha grande preferência dos estudantes, mas o enfrentei vencendo o pleito por 13 votos na mais renhida e emocionante disputa registrada na história do Grêmio Castro Alves. Fiz uma administração tão eficiente e popular que culminou com minha reeleição, mesmo não sendo esse meu objetivo.
Quando trabalhava pela minha reeleição para Deputado Estadual, em 1974, assumi com determinação a candidatura a Deputado Federal para o impedir que Henrique Santillo, abandonasse a vida pública. Não havia me preparado, mas fui para a disputa num momento em que figuras tradicionais como Anapolino de Faria e José Freire se afastavam da disputa por não concordarem com os constantes casuísmos aplicados pelos ditadores de plantão. Ganhei a eleição como o segundo mais votado do MDB. Henrique o mais votado Deputado Estadual.
Numa bancada com aproximadamente 100 deputados federais, com apenas dois anos de convivência parlamentar na área federal, integrante de uma pequena bancada composta por 5 deputados eleitos pelo MDB, enfrentei a disputa interna no partido para o preenchimento da mais importante função do MDB na mesa diretora da Câmara dos Deputados, a vice-presidência. Com a garra de leão, cheguei ao final do primeiro escrutínio em 2º lugar. A bancada federal havia decidido que o representante do partido seria escolhido pela maioria absoluta dos votantes. Ninguém conseguiu a maioria absoluta na primeira votação. Disputei e venci Getulio Dias, integrante do grupo autêntico, por larga margem de votos. Fui eleito num pleito considerado por parlamentares e pela imprensa nacional como surpreendente.
Depois de ter sido convidado por Iris Rezende para ser seu vice-governador, nas eleições de 1982, honraria da qual abri mão para não prejudicar a possível candidatura de Henrique Santillo ao governo em 1986, fui convidado por Iris, antes mesmo do pleito realizado, para ser seu secretário de educação. Aceitei de pronto e me preparei para a missão que muitos consideravam que eu não desempenharia bem. Até hoje tenho o orgulho de ser aclamado pelas lideranças políticas e educacionais como o realizador de grande administração.
Enfrentei com muita disposição uma cirurgia de grande porte para retirar um tumor maligno, uma pinta no rosto diagnosticada como melanoma, que foi descoberto pelo dr. Jorge Mateus Simões, a quem devo o alerta que salvou minha vida. Depois de uma campanha eleitoral para a prefeitura de Anápolis, na qual não tive sucesso, fui ao dermatologista para tratar de umas manchas no braço. O médico dermatologista dr. Jorge medicou-me dizendo ser as manchas em questão sem importância, mas pediu-me que tirasse uma pinta no rosto. A pequena cirurgia foi realizada pelo dr. Evaristo Bueno que por precaução encaminhou o material para biópsia. O exame detectou melanoma grau III, tumor de grande gravidade.
A dra. Maria Paula Curado, auxiliada pelo dr. Roberto Di Conti, no Hospital Santa Helena, em Goiânia, fizeram o esvaziamento em meus rosto e axila, num procedimento demorado. Após todo o processo operatório, sei que a minha determinação, a competência da equipe médica e a vontade de Deus, me deram nova chance de vida.
Estas determinação e responsabilidade em concluir todas as tarefas que me proponho a realizar são virtudes que carrego desde meus tempos de juventude.
Não tendo o costume de fazer as tarefas pela metade, me inscrevi, com mais de 30 concorrentes, para uma prova de corrida para pedestres, de 8 mil metros, nos festejos de aniversário de Anápolis. A largada aconteceu em frente ao cine Santana, na Praça do Bom Jesus. A chegada foi marcada para o mesmo local. Fiz todo o trajeto com muita dedicação e força de vontade, embora muito atrás do campeão e vice. Cheguei ao final. Uma pequena assistência me aplaudiu freneticamente quando Antonio Abrão Isaac, o Tonico Isaac, e Jahudeir Lobo, o Esquerdinha, cronometrista da prova, anunciaram pela Rádio Carajá, que transmitia a corrida:
– Parabéns! Parabéns! Adhemar Santillo, atleta do Ipiranga, venceu pela persistência. Chegou em 3º lugar e leva como prêmio uma caneta.
Com a chegada quase que simultânea do campeão e do vice, os demais corredores desistiram. Eu fui até o fim, mesmo chegando muito tempo depois, quando muitos achavam até que a corrida já havia terminado e por isso já não havia quase ninguém para assistir minha façanha, além, é claro, dos árbitros da prova.
Como líder estudantil, presidente do Grêmio Literário Castro Alves, do Colégio Estadual José Ludovico de Almeida ou Presidente da União dos Estudantes Secundaristas de Anápolis, sempre fui bastante atuante e batalhador. Essa prática geralmente causa atritos com os administradores escolares ou dos setores questionados. Nunca tive intenção de contrapor a ninguém por capricho pessoal ou por futilidades, procurando sempre agir com justiça.
Walmir Bastos Ribeiro, na época líder estudantil e posteriormente eleito por sete vezes consecutivas vereador pelo MDB e PMDB, havia sido reprovado por não haver conseguido a nota mínima em francês, matéria facultativa no currículo do 2º grau, mas constante no currículo do Colégio Estadual José Ludovico de Almeida. No ano seguinte teria que repetir a mesma série pela reprovação em francês. Antes que as aulas iniciassem a Secretaria Estadual de Educação decidiu que naquele ano, o seguinte ao da reprovação do Walmir, francês seria excluído do currículo. A direção do colégio insistia na sua reprovação. Tive que recorrer até ao Conselho Estadual de Educação para reformar a decisão da Diretoria do Colégio garantir sua aprovação, visto que a matéria em que fora reprovado não contaria mais do currículo. Aprovado, Walmir Bastos Ribeiro ficou conhecido entre os estudantes como o aluno que passou por decreto.
Com o golpe militar de 1964 fui afastado da presidência da UESA – União dos Estudantes Secundaristas de Anápolis, cuidando apenas dos meus estudos e do trabalho como cronista esportivo e redator para o rádio jornalismo. Concluí naquele ano de 1964 o curso cientifico. Fiz a inscrição para o exame ao vestibular da Faculdade de Ciências Econômicas de Anápolis, FACEA. O curso científico do Colégio Estadual dava base de conhecimento para que alunos tivessem sucesso no vestibular, sem necessidade de “cursinhos”. Vários daqueles alunos passavam nos exames ao vestibular de medicina, engenharia, economia em Universidades concorridas. Como eu me sentia bem preparado na área de ciências exatas, prestei vestibular para a FACEA, Faculdade de Ciências Econômicas de Anápolis, que era procurada também por concluintes de cursos normall ou clássico sem muito preparo nesta área. Em matérias como Literatura Brasileira, Geografia, História meu desempenho foi ótimo, segundo afirmaram os professores dessas matérias. Em Matemática o Professor Hermógenes apresentou questões que estavam à altura de serem respondidas por qualquer concluinte de segundo grau.
Realizadas as provas escrita e oral, foi apresentada a relação dos aprovados. Como meu nome não contava entre os aprovados, indignado, pedi revisão de provas da matéria, sendo atendido pela comissão de avaliação. Não foi feita a revisão da prova, mas deram-se a oportunidade de realizá-la novamente, com o mesmo professor. Dia e horário acertados compareci à Faculdade acompanhado do estudante Gil Ferreira que havia sido aprovado no vestibular e fora meu colega no Colégio Estadual. Hermógenes apresentou como observadores os professores Roland Vieira Nunes, José da Cunha Bastos e Maura Helena Simões. Reagi:
- Professor, mesmo tendo respeito pelo trio de professores que
senhor apresenta, sugiro que Gil Ferreira também assista a prova, porque conhece a matéria.
Sem contestação foi aceita minha indicação e passamos às provas. Foram feitas cinco questões, todas desenvolvidas integralmente. Encerrado o questionamento, pensando que estava resolvida a prova,. Hermógenes sentenciou:
- O senhor confirmou a nota da prova oral.
- Quanto foi a nota?
- O senhor está com quatro.
Quase perdi a paciência, mas controlei e perguntei:
- Professor, de quanto eu vou precisar na prova escrita para garantir minha aprovação?
- O senhor vai precisar de no mínimo quatro pontos.
- Professor, agora o senhor venha com tudo porque não vai conseguir o intento de me reprovar.
- Você prefere responder 10 perguntas de um ponto cada ou cinco perguntas valendo dois pontos cada uma?
Preferi responder dez questões valendo um ponto cada uma.
Quando havia respondido quatro perguntas, senti que havia escorregado na resposta de uma delas. Hermógenes buscou a parte mais complexa e difícil do curso secundário, para formular as questões. Algumas delas o quadro negro não comportava o desenvolvimento e a resposta. Ao responder a quinta questão, indaguei:
- Professor, quantos pontos eu tenho até agora?
- Nesta prova o senhor já tem quatro pontos.
- Estou satisfeito, não quero responder o restante das questões.
Dali fui para a Praça do Bom Jesus onde os calouros e veteranos da FACEA faziam a festa do trote para os aprovados. Tive, como os demais a cabea raspada, o rosto pintado e comemorei alegremente com os aprovados. Matriculei-me e fui à aula no primeiro dia letivo. Despedi-me dos colegas e nunca mais retornei à FACEA como aluno.
Voltei à FACEA em 1983 como Secretário de Educação de Goiás para ajudar a instituição sair do caos em que se encontrava, não tendo obtido apoio necessário dos governos anteriores. Ainda como Secretário implantei seis cursos de Licenciatura naquela unidade, propiciando a criação do embrião da futura UNIANA, hoje UEG.