Publicado na edição de 27/03/2010 do jornal Diário da Manhã
Nunes Macedo, grande repórter de pista dos anos 60/70, na Rádio Brasil Central, antes de ser cronista trabalhava como encanador, em Anápolis. Fanático por futebol e pretendendo mudar de profissão, fez curso de árbitro, na escola da Liga Anapolina de Desportos. Foi aluno brilhante.
Sua estreia foi no jogo Serraria x Castilho, pelo Campeonato Anapolino. Estádio Manoel Demóstenes lotado. Nunes Macedo se impunha pelo conhecimento das regras, imparcialidade e acompanhamento das jogadas. Jovem, com muito vigor físico e amando a nova profissão, estava onde a bola ia.
Num lance violento praticado pelo lateral esquerdo Batata, do Serraria, jogador de estatura mediana, forte e corpulento, Nunes não teve dúvida, apitou pênalti e expulsou o zagueiro de campo. Antes que Aluísio, artilheiro do Castilho, fizesse a cobrança, Batata desferiu um torpedo de braço esquerdo na testa do árbitro, jogando-o ao chão.
Só recobrou os sentidos 40 minutos depois, no Pronto Socorro do Hospital Evangélico. Nunes Macedo nunca mais apitou nem pelada de rua, preferindo continuar como encanador. Só retornou aos estádios, retomando o gosto pelo futebol, bem mais à frente, como repórter, pela Rádio Imprensa, sob o comando de Jayro Rodrigues.
Petrônio Cruz, comentarista esportivo da Rádio Santana, só chegava ao jogo no final do segundo tempo. Fazia seu comentário intermediário por telefone, depois de ouvir nossa narração enquanto fechava o caixa do matinê, no Cine Vera Cruz, onde era gerente. Muitas vezes, quando a frequência ao cinema era maior, não ouvia a transmissão. Comentava sem ao menos saber quais os times que jogavam.
Gedeon Camargo, hoje militando na crônica esportiva de Uberlândia, começou a carreira como repórter na equipe da Rádio Carajá. Num jogo Anapolina x Anatex, pelo campeonato da LAD, entrevistou o zagueiro Orlando, da Anapolina. A xata não vencia há quatro partidas. Quis saber do zagueiro o porquê de tantos tropeços:
– Orlando, como você explica essa hecatombe que ocorreu na Anapolina ?
Como o zagueiro se confundiu completamente com a pergunta, respondendo coisa sem nexo, como “não é verdade que tenha comido feijoada...”, Gedeon o cortou:
– Orlando, parece que não fui entendido. Gostaria que você explicasse como justificar a debacle da Anapolina no campeonato?
Antônio Afonso de Almeida foi o pioneiro locutor esportivo em Anápolis. Da escola de Valdir Amaral da Rádio Globo do Rio de Janeiro narrava os lances de forma lenta e detalhada.
Para gravar no Estádio Pedro Ludovico, em Goiânia, partida entre as seleções de Goiás e Mato Grosso, com ele foi Clovis Guerra, chefe do departamento de Jornalismo da Rádio Carajá. Gravador grande, fitas trocadas com frequência, monitorado por Clovis. Faltando 20 minutos para o término e a última fita de que dispunham chegando ao final, Clovis, desesperado gritou para Afonso:
– Acelere, narre mais rápido! Seja como Pedro Luiz, da Bandeirantes! Lento assim a fita não vai dar.
A Rádio Carajá funcionava na parte superior de um prédio do Banco Estado de Goiás na Praça do Bom Jesus. Na parte superior externa do imóvel havia um possante alto falante, transmitindo toda programação da emissora. Às 11 horas, no seu programa esportivo, desportistas lotavam a praça em frente à emissora para se inteirar das últimas do esporte.
Mané Padeiro, que fazia a entrega de pães e roscas em sua carroça tipo baú, era presença cativa. Chovesse ou fizesse sol, às 11 horas lá estava ele com sua carroça. Torcedor fanático do Anápolis, naquele dia estava impaciente ao saber que Nilo, Carlinhos e Felinho, jogadores do tricolor, poderiam se transferir para o Ypiranga, maior adversário do Anápolis. Deixou a carroça no acostamento da calçada e foi para o meio da plateia.
Antônio Afonso, o radialista, fez a pergunta a um dos atletas que estavam na relação dos que poderiam mudar de time:
– É verdade que você está deixando o Anápolis, se transferindo para o Ypiranga?
O “não”, dito pelo jogador, foi com o som emitido pelo contato da língua com os dentes superiores:
– Dhi, dhi, dhi, dhi... Idêntico ao que os carroceiros utilizam para que o cavalo vá em frente.
Aquele som, velho conhecido do animal que servia Mané Padeiro, ampliado pelo alto-falante, fez com que o cavalo saísse em disparada carreira pela Rua Barão do Rio Branco, despejando pães e roscas pelo caminho. Só parou quando foi contido por populares na Praça Santana.
segunda-feira, 29 de março de 2010
quarta-feira, 24 de março de 2010
Anápolis, primeiro time do interior a ser campeão
Publicado na edição de 21/03/2010 do jornal Diário da Manhã
Neste ano, comemoramos 45 anos da conquista do primeiro campeonato goiano de futebol profissional por uma equipe interiorana. O protagonista dessa façanha memorável foi o Anápolis Futebol Clube. Desbancou, com categoria, equipes como Atlético, Goiânia, Vila Nova, Inhumas e Crac de Catalão. Contando com plantel de craques de Anápolis e outros oriundos do interior de Minas Gerais e São Paulo, o tricolor foi brilhante.
A cidade acabara de receber uma moderna praça de esportes para os padrões da época, o Estádio Jonas Duarte. Com diretoria dinâmica, formada por desportistas como Altino Teixeira de Moraes, Ronaldo Jayme, Amim Antônio, Osvaldo Cunha, Didi Castanheira, Amim Gebrin, Osvaldo Abrão, Rubens Porfírio, José do Rosário Figueiredo, José Miguel Hajar, Francisco Teixeira e muitos outros, o tricolor foi impecável.
Altino de Moraes, empresário no ramo de materiais de construção, nunca havia militado num time de futebol. Assumiu a presidência do Anápolis por insistência de Ronaldo Jayme e Osvaldo Cunha, se transformando em pouco tempo, no mais apaixonado de todos os tricolores. Ronaldo Jayme, como diretor de esportes, levou para a equipe, craques como Nelson Parrilla, Deca, Haly, Dida, Osmar e Sorriso vindos de Minas e interior de São Paulo. José Figueiredo era o gozador responsável para descontrolar adversários e árbitros. Certa vez, foi retirado do gramado por dois soldados que o carregaram até o banco de reservas, após invadir o campo se dirigindo ao árbitro da partida, em pleno jogo: “O senhor sabe com quem está falando?”
Na reta final do campeonato, circulou comentário de bastidor que estaria sendo montado complô na FGD, para prejudicar ou evitar o sucesso do Anápolis na temporada, através das arbitragens. Ronaldo Jayme conversou com seus companheiros de diretoria dizendo que, na primeira oportunidade, mostraria como iria enfrentar as arbitragens.
No domingo seguinte, no Estádio Jonas Duarte, o tricolor enfrentou o Goiânia. Numa jogada com atacante do alvinegro, o goleiro Moraes cometeu pênalti, sendo expulso de campo. Ronaldo Jayme entrou em campo, tirou do bolso um canivete, furou a bola e a ergueu para delírio dos torcedores anapolinos.
Apaziguando os ânimos, Altino Teixeira foi para o gramado e entregou ao juiz nova bola, se dirigiu à trave esquerda do gol, encostando sobre ela, comunicando ao árbitro que estava ali para garantir a cobrança do pênalti. O árbitro o agradeceu, mas pediu que se retirasse do campo. Dida, improvisado goleiro, defendeu o pênalti.
Altino era realmente simplório. Paô, que Altino nunca havia visto, foi contratado por determinação sua, pela fotografia. Quando viu aquele cidadão de pernas grossas e musculosas, ficou impressionado, determinando sua contratação.
Ronaldo Jayme, mesmo reconhecendo que o pênalti cometido por Hali realmente acontecera, pretendeu dar uma demonstração que ninguém tiraria vitória do Anápolis pela arbitragem. Furou a bola e furaria quantas fossem necessárias para garantir lisura na atuação dos árbitros.
O jogo final, no Estádio Jonas Duarte , foi contra o Vila Nova. O Anápolis virou o marcador, depois de estar perdendo por 2 x 1. Venceu por 3 x 2. Deca marcou 2 e Dida. O Anápolis marcou 5 gols para valerem 3. A equipe tricolor jogou com Moraes, Nina, Osmar, Paraguai e Haly; Dida. Eudécio e Genésio; Zezito, Nelson Parrilla e Deca.
O arbitro foi José Muniz Brandão, da Federação Goiana de Desportos.
Neste ano, comemoramos 45 anos da conquista do primeiro campeonato goiano de futebol profissional por uma equipe interiorana. O protagonista dessa façanha memorável foi o Anápolis Futebol Clube. Desbancou, com categoria, equipes como Atlético, Goiânia, Vila Nova, Inhumas e Crac de Catalão. Contando com plantel de craques de Anápolis e outros oriundos do interior de Minas Gerais e São Paulo, o tricolor foi brilhante.
A cidade acabara de receber uma moderna praça de esportes para os padrões da época, o Estádio Jonas Duarte. Com diretoria dinâmica, formada por desportistas como Altino Teixeira de Moraes, Ronaldo Jayme, Amim Antônio, Osvaldo Cunha, Didi Castanheira, Amim Gebrin, Osvaldo Abrão, Rubens Porfírio, José do Rosário Figueiredo, José Miguel Hajar, Francisco Teixeira e muitos outros, o tricolor foi impecável.
Altino de Moraes, empresário no ramo de materiais de construção, nunca havia militado num time de futebol. Assumiu a presidência do Anápolis por insistência de Ronaldo Jayme e Osvaldo Cunha, se transformando em pouco tempo, no mais apaixonado de todos os tricolores. Ronaldo Jayme, como diretor de esportes, levou para a equipe, craques como Nelson Parrilla, Deca, Haly, Dida, Osmar e Sorriso vindos de Minas e interior de São Paulo. José Figueiredo era o gozador responsável para descontrolar adversários e árbitros. Certa vez, foi retirado do gramado por dois soldados que o carregaram até o banco de reservas, após invadir o campo se dirigindo ao árbitro da partida, em pleno jogo: “O senhor sabe com quem está falando?”
Na reta final do campeonato, circulou comentário de bastidor que estaria sendo montado complô na FGD, para prejudicar ou evitar o sucesso do Anápolis na temporada, através das arbitragens. Ronaldo Jayme conversou com seus companheiros de diretoria dizendo que, na primeira oportunidade, mostraria como iria enfrentar as arbitragens.
No domingo seguinte, no Estádio Jonas Duarte, o tricolor enfrentou o Goiânia. Numa jogada com atacante do alvinegro, o goleiro Moraes cometeu pênalti, sendo expulso de campo. Ronaldo Jayme entrou em campo, tirou do bolso um canivete, furou a bola e a ergueu para delírio dos torcedores anapolinos.
Apaziguando os ânimos, Altino Teixeira foi para o gramado e entregou ao juiz nova bola, se dirigiu à trave esquerda do gol, encostando sobre ela, comunicando ao árbitro que estava ali para garantir a cobrança do pênalti. O árbitro o agradeceu, mas pediu que se retirasse do campo. Dida, improvisado goleiro, defendeu o pênalti.
Altino era realmente simplório. Paô, que Altino nunca havia visto, foi contratado por determinação sua, pela fotografia. Quando viu aquele cidadão de pernas grossas e musculosas, ficou impressionado, determinando sua contratação.
Ronaldo Jayme, mesmo reconhecendo que o pênalti cometido por Hali realmente acontecera, pretendeu dar uma demonstração que ninguém tiraria vitória do Anápolis pela arbitragem. Furou a bola e furaria quantas fossem necessárias para garantir lisura na atuação dos árbitros.
O jogo final, no Estádio Jonas Duarte , foi contra o Vila Nova. O Anápolis virou o marcador, depois de estar perdendo por 2 x 1. Venceu por 3 x 2. Deca marcou 2 e Dida. O Anápolis marcou 5 gols para valerem 3. A equipe tricolor jogou com Moraes, Nina, Osmar, Paraguai e Haly; Dida. Eudécio e Genésio; Zezito, Nelson Parrilla e Deca.
O arbitro foi José Muniz Brandão, da Federação Goiana de Desportos.
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segunda-feira, 15 de março de 2010
De promessa em promessa, Anápolis perde espaço
Publicado na edição de 28/02/2010 do jornal Diário da Manhã
Em 1970, portanto há quarenta anos, Henrique Santillo, como prefeito de Anápolis, teve a competência de perceber que a área rural, nas duas margens da estrada ligando a cidade a Leopoldo Bulhões, trecho compreendido entre o antigo Aprendizado Agrícola Sócrates Diniz e a estrada de ferro, deveria ser considerada de utilidade pública, pelo município de Anápolis, para a instalação de um futuro distrito industrial.
Isso aconteceu num momento em que o forte da economia anapolina era o comércio atacadista de cereais. Como o governo federal não havia entrado ainda na comercialização de produtos agrícolas, a praça de Anápolis era a mais importante do Centro-Oeste. Praticamente toda safra de arroz, milho e feijão de Goiás e do Maranhão era negociada no município. Cerealistas de São Paulo, Rio e Minas Gerais faziam suas compras dos produtos, se abastecendo em Anápolis.
O prefeito Raul Balduíno, nos anos de 1968/69, realizou nas dependências do Parque Agropecuário, as duas primeiras feiras da indústria anapolina. Pequenas porque diminuto era o parque industrial do município.
Ao assumir a prefeitura, substituindo Raul Balduíno, o prefeito Henrique Santillo não só continuou realizando anualmente a Faiana como procurou forma concreta de transformar Anápolis em grande polo industrial. Para tanto precisava definir o local para a instalação de indústrias. Definiu que seria onde hoje está o Daia.
Leonino Caiado, no governo, desapropriou a área, criou a Lei 7.700 de incentivo fiscal e viu a indústria de azulejos Cecrisa se tornar a primeira indústria do futuro distrito industrial. Irapuan Costa Júnior, com decisivo apoio do general Ernesto Geisel, presidente da República, construiu toda infraestrutura do Distrito Agroindustrial de Anápolis - Daia, um dos mais bem estruturados no gênero, em todo Brasil. Iris Rezende Machado consolidou o Daia com a Lei Fomentar. Dezenas de indústrias se instalaram ali, graças aos incentivos concedidos pelo governo estadual. Henrique Santillo construiu a segunda linha de transmissão de energia elétrica impedindo que apagões que eram constantes, continuassem prejudicando os empresários. Maguito Vilela e nosso trabalho na prefeitura de Anápolis possibilitaram a criação, em Anápolis, do Porto Seco, com aquisição do patrimônio que pertencia à Rede Ferroviária Federal, para a instalação do porto. Marconi Perillo adquiriu mais uma área de terra para ampliação do Daia e transformou a Lei Fomentar em Lei Produzir. Esses empreendimentos foram fundamentais para a consolidação de Anápolis como o mais importante parque industrial goiano.
Há pelo menos 8 anos Anápolis não recebe nenhum benefício do poder público, para alavancar ainda mais seu desenvolvimento. A tão decantada Plataforma Logística Multimodal, inaugurada pomposamente pelo governo estadual, há vários anos, até hoje não viu uma única empresa nela se instalar. O Aeroporto de Cargas, depois do seu projeto ser sobrestado nas gavetas do Tribunal de Contas do Estado-TCE, por imperfeição e falhas, foi licitado, mesmo sem os recursos necessários para sua construção. A realização das obras depende do ministério da Defesa, que bancaria 90 milhões de reais, dos 100 milhões previstos para o custo do investimento. O entreposto da Zona Franca de Manaus está ficando apenas na vontade dos anapolinos, à medida que Uberlândia se aprofunda nos investimentos para que ali seja instalado, e as obras em Anápolis não saem do papel.
Até o Centro de Convenções, anunciado para ser construído na área em que funcionava o Aprendizado Agrícola Sócrates Diniz, passou de sonho a pesadelo. Sua maquete desapareceu e o dinheiro, que a Secretaria da Indústria e Comércio dizia ter em caixa para sua execução, virou fumaça.
Enquanto isso municípios que estão recente na luta pela industrialização como Aparecida de Goiânia, graças às suas representações políticas e determinação do seu prefeito, paulatinamente vão assumindo a liderança industrial do Estado. Ficamos apenas com promessa de empreendimentos megalomaníacos enquanto outros municípios vão se consolidando dentro da realidade da economia brasileira e usando o poder político que um dia Anápolis já teve.
Em 1970, portanto há quarenta anos, Henrique Santillo, como prefeito de Anápolis, teve a competência de perceber que a área rural, nas duas margens da estrada ligando a cidade a Leopoldo Bulhões, trecho compreendido entre o antigo Aprendizado Agrícola Sócrates Diniz e a estrada de ferro, deveria ser considerada de utilidade pública, pelo município de Anápolis, para a instalação de um futuro distrito industrial.
Isso aconteceu num momento em que o forte da economia anapolina era o comércio atacadista de cereais. Como o governo federal não havia entrado ainda na comercialização de produtos agrícolas, a praça de Anápolis era a mais importante do Centro-Oeste. Praticamente toda safra de arroz, milho e feijão de Goiás e do Maranhão era negociada no município. Cerealistas de São Paulo, Rio e Minas Gerais faziam suas compras dos produtos, se abastecendo em Anápolis.
O prefeito Raul Balduíno, nos anos de 1968/69, realizou nas dependências do Parque Agropecuário, as duas primeiras feiras da indústria anapolina. Pequenas porque diminuto era o parque industrial do município.
Ao assumir a prefeitura, substituindo Raul Balduíno, o prefeito Henrique Santillo não só continuou realizando anualmente a Faiana como procurou forma concreta de transformar Anápolis em grande polo industrial. Para tanto precisava definir o local para a instalação de indústrias. Definiu que seria onde hoje está o Daia.
Leonino Caiado, no governo, desapropriou a área, criou a Lei 7.700 de incentivo fiscal e viu a indústria de azulejos Cecrisa se tornar a primeira indústria do futuro distrito industrial. Irapuan Costa Júnior, com decisivo apoio do general Ernesto Geisel, presidente da República, construiu toda infraestrutura do Distrito Agroindustrial de Anápolis - Daia, um dos mais bem estruturados no gênero, em todo Brasil. Iris Rezende Machado consolidou o Daia com a Lei Fomentar. Dezenas de indústrias se instalaram ali, graças aos incentivos concedidos pelo governo estadual. Henrique Santillo construiu a segunda linha de transmissão de energia elétrica impedindo que apagões que eram constantes, continuassem prejudicando os empresários. Maguito Vilela e nosso trabalho na prefeitura de Anápolis possibilitaram a criação, em Anápolis, do Porto Seco, com aquisição do patrimônio que pertencia à Rede Ferroviária Federal, para a instalação do porto. Marconi Perillo adquiriu mais uma área de terra para ampliação do Daia e transformou a Lei Fomentar em Lei Produzir. Esses empreendimentos foram fundamentais para a consolidação de Anápolis como o mais importante parque industrial goiano.
Há pelo menos 8 anos Anápolis não recebe nenhum benefício do poder público, para alavancar ainda mais seu desenvolvimento. A tão decantada Plataforma Logística Multimodal, inaugurada pomposamente pelo governo estadual, há vários anos, até hoje não viu uma única empresa nela se instalar. O Aeroporto de Cargas, depois do seu projeto ser sobrestado nas gavetas do Tribunal de Contas do Estado-TCE, por imperfeição e falhas, foi licitado, mesmo sem os recursos necessários para sua construção. A realização das obras depende do ministério da Defesa, que bancaria 90 milhões de reais, dos 100 milhões previstos para o custo do investimento. O entreposto da Zona Franca de Manaus está ficando apenas na vontade dos anapolinos, à medida que Uberlândia se aprofunda nos investimentos para que ali seja instalado, e as obras em Anápolis não saem do papel.
Até o Centro de Convenções, anunciado para ser construído na área em que funcionava o Aprendizado Agrícola Sócrates Diniz, passou de sonho a pesadelo. Sua maquete desapareceu e o dinheiro, que a Secretaria da Indústria e Comércio dizia ter em caixa para sua execução, virou fumaça.
Enquanto isso municípios que estão recente na luta pela industrialização como Aparecida de Goiânia, graças às suas representações políticas e determinação do seu prefeito, paulatinamente vão assumindo a liderança industrial do Estado. Ficamos apenas com promessa de empreendimentos megalomaníacos enquanto outros municípios vão se consolidando dentro da realidade da economia brasileira e usando o poder político que um dia Anápolis já teve.
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A origem dos Irmãos Coragem e Metralha

Publicado na edição de 04/03/2010 do jornal Diário da Manhã
Com o golpe militar que destituiu o presidente João Goulart, em 31 de março de 1964, as principais lideranças políticas pertencentes ao PSD, em Goiás, lideradas pelo senador Pedro Ludovico, foram paulatinamente cassadas ou cooptadas pelos novos detentores do poder. Os udenistas assumiram o governo no Estado, mesmo antes da vitória de Otávio Lage, em 1965, com a cassação do governador Mauro Borges e designação do general Meira Matos, como interventor.
Uma oposição diferente foi organizada em Goiás. Oposição disposta a lutar contra a ditadura e seus malefícios. Sem se deixar contaminar pelas benesses do poder. Assim jovens, na maioria sem passagem por outras siglas partidárias, se organizaram no Movimento Democrático Brasileiro-MDB.
Em Anápolis, como Raul Balduíno fora eleito prefeito numa aliança PSD-PTB, a oposição foi composta por remanescentes do PSD, que preferiram o MDB, a serem liderados de Henrique Fanstone, chefe arenista no município. Novas lideranças, principalmente do setor estudantil, optaram também pelo MDB.
A diferença de comportamento e prática política entre as duas correntes era notória. Enquanto os oriundos do PSD faziam oposição a Henrique Fanstone, os jovens faziam oposição à nova ordem política instalada no País. Faziam oposição à ditadura.
O PSD anapolino, nas eleições de 1965, fez acordo, por baixo do pano, com parte da Arena, a liderada pelos Caiado, apoiando Otávio Lage de Siqueira ao governo, “cristianizando” Peixoto da Silveira, candidato do PSD. Em troca, a ala Caiado votaria em Raul Balduíno, PSD|PTB, abandonando Henrique Fanstone, de quem era inimiga.
O primeiro grande embate interno no MDB anapolino aconteceu nas eleições legislativas de 1966. As 15 cadeiras na Câmara Municipal eram preenchidas sistematicamente por representantes de famílias numerosas no município. Na primeira disputa entre emedebistas e arenistas, esse quadro mudou, com a vitória de Henrique Antônio Santillo, como o vereador mais votado de todos os tempos em Anápolis, com 1.536 sufrágios. A família Santillo era formada por cinco componentes que vieram de Ribeirão Preto-SP, na década de 40.
A extraordinária votação por ele obtida e a desastrosa atitude do juiz eleitoral ao não diplomá-lo, ao alegar ser ele comunista, ensejaram o surgimento do santillismo, símbolo da resistência democrática local.
Em 1969, Henrique Santillo (MDB) foi eleito prefeito, derrotando Luiz Vieira (Arena). Nas eleições legislativas do ano seguinte, 1970, o MDB elegeu dez vereadores e a Arena os cinco restantes. Pelo MDB foi reeleito Anapolino de Faria a deputado federal, enquanto fui eleito deputado estadual. Assim que a Mesa Diretora da Câmara foi eleita, composta só por vereadores leais ao prefeito Henrique Santillo, os emedebistas, oriundos do velho PSD, romperam com Henrique Santillo. Três vereadores que os acompanhavam, Linconl Xavier Nunes, Pedro Sergio Sobrinho e João Divino Cremonez, passaram a votar com os arenistas, em oposição a Henrique Santillo. O MDB, que tinha maioria folgada de 10 X 5, passou a ser minoritário de 7 X 8.
Tentaram afastar o vereador Valmir Bastos (MDB) da presidência da Câmara. Acusado de subversivo, foi preso várias vezes. Queriam na verdade afastar o prefeito Henrique Santillo, elegendo um presidente que fosse seu adversário. A bravura do presidente e a coragem dos santillistas, apoiados pelo deputado Anapolino de Faria, evitaram a violência dos adesistas.
Em 1972, para a sucessão de Henrique Santillo, os adesistas do MDB apoiaram o candidato arenista, Euripedes Barsanulfo Junqueira. Mesmo assim, a vitória do professor José Batista Júnior (MDB) foi consagradora. A derrota do professor Euripedes Junqueira, considerado uma reserva moral do partido e de grande prestígio popular, assustou os arenistas de Goiás. Cansados de apanhar, decidiram tirar a autonomia política de Anápolis, transformando-a em Área de Interesse à Segurança Nacional.
A violência aconteceu em 28 de agosto de 1973, com base no AI-5, José Batista Júnior foi cassado e seu vice Milton Alves Ferreira, impedido de assumir o cargo. A Arena assumiu o poder em Anápolis, com a nomeação de Irapuan Costa Júnior.
O MDB continuou ganhando as eleições das quais o povo participava. Graças a isso tudo e à coragem que nunca faltou ao grupo, os santillistas ficaram conhecidos como “Irmãos Coragem”.
Em 1974, Henrique, candidato a deputado estadual e eu, candidato a deputado federal, aparecíamos no horário eleitoral, que era ao vivo, com o “pingue-pongue da verdade”, criticando a ditadura. Os “Irmãos Coragem” deixaram de ser marca meramente anapolina para ser de todo o Estado. Ao mesmo tempo, os Santillo foram conhecidos como os que metralhavam a ditadura. Daí a origem de “Irmãos Metralha”.
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Sarney e Collor inviabilizaram Henrique Santillo
Publicado na edição de 11/03/2010 do jornal Diário da Manhã
Como secretário de Governo de Henrique Santillo em 1990, acompanhei todos os detalhes da angústia sofrida por ele, pela perseguição política praticada contra seu governo, pelos presidentes José Sarney e Fernando Collor de Melo.
Conhecendo a realidade de todos municípios goianos, e por ser municipalista, o governador assumiu consigo mesmo, compromisso de ajudá-los. Percorrendo todas as regiões conheceu de perto o sofrimento da população interiorana, decidindo que poderia como governador, melhorar a vida daquela gente. Na consulta que efetuou junto aos prefeitos definiu-se que asfaltamento urbano das cidades era a grande reivindicação.
Os prefeitos afirmavam que o extraordinário programa de pavimentação de rodovias estaduais feito pelo governo Íris Rezende, despertou na população de todos os municípios o interesse pela pavimentação urbana. Não possuindo recursos suficientes para execução do benefício, recorreram ao governador.
O Estado também não dispunha de recursos suficientes para atende-los. Não queria ajudar alguns deixando outros ao abandono, elaborou projeto que beneficiasse todos, levando-o a apreciação do presidente José Sarney e do ministro do Desenvolvimento Urbano, Prisco Viana. Gostaram do que viram e se comprometeram fazer empréstimo especial a Goiás, pela Caixa Econômica Federal.
Henrique Santillo autorizou o diretor geral do Dergo, João Batista Alves, criar o Programa de Pavimentação Municipal – PPM. Em pouco tempo milhões de metros quadrados de asfalto cobriram as principais vias públicas de todas as cidades goianas. A pavimentação urbana feita pela administração Henrique Santillo às cidades goianas, se em rodovias, daria para asfaltar uma estrada de Goiânia a Uberlândia, em duas pistas.
Cidades ganharam visão urbanística nova. Moradores reformaram ou pintaram seus imóveis. Terrenos baldios logo receberam construções de ótima qualidade Os prefeitos construíram e ajardinaram praças, preservaram áreas ambientais e fizeram calçadas dos locais públicos. A limpeza foi implantada a partir da pavimentação em quase todas as cidades. Melhorou o padrão de saúde e vida da população.
Enquanto o serviço era realizado de forma ágil, fui com Henrique Santillo algumas vezes ao Palácio do Planalto, em busca da liberação dos recursos prometidos pelo presidente Sarney. De lá ele nos encaminhava para o ministro Prisco Viana, que por sua vez nos mandava para o Vioti, presidente da Caixa Econômica Federal. Essa ciranda do “jogo de empurra”, nós a realizamos no mínimo quatro vezes. Por fim, cansado e desiludido com tanto descaso e desrespeito, o governador Henrique Santillo encontrou uma solução doméstica para saldar a divida com as empresas que fizeram a pavimentação: emitiu Letras do Tesouro Estadual de longo prazo, tendo como avalista o Banco do Estado de Goiás-BEG, colocando-as no mercado, fazendo caixa para o Tesouro do Estado.
Collor, ao tomar posse, assinou decreto elaborado pela sua ministra do Planejamento, Zélia Cardoso, proibindo estados e municípios emitirem Letras do Tesouro, exigindo o resgate imediato das já emitidas. Ao governador Henrique Santillo não restava outra alternativa que não fosse resgatar as letras vendidas, pois caso contrário o BEG seria liquidado extra-judicialmente.
O governador foi ao Banco Central, acertou com o seu presidente Ebrahim Eris que o valor total das Letras do Tesouro por ele emitidas, seria pago nos 10 meses de administração que ainda lhe restavam, com retenção de parte do Fundo de Participação dos Estados, que o Tesouro Federal repassa mensalmente aos Estados. Sem contar com o FPE completo, Henrique Santillo evitou que o BEG fosse liquidado, pagou a divida do PPM e se inviabilizou administrativamente.
Como secretário de Governo de Henrique Santillo em 1990, acompanhei todos os detalhes da angústia sofrida por ele, pela perseguição política praticada contra seu governo, pelos presidentes José Sarney e Fernando Collor de Melo.
Conhecendo a realidade de todos municípios goianos, e por ser municipalista, o governador assumiu consigo mesmo, compromisso de ajudá-los. Percorrendo todas as regiões conheceu de perto o sofrimento da população interiorana, decidindo que poderia como governador, melhorar a vida daquela gente. Na consulta que efetuou junto aos prefeitos definiu-se que asfaltamento urbano das cidades era a grande reivindicação.
Os prefeitos afirmavam que o extraordinário programa de pavimentação de rodovias estaduais feito pelo governo Íris Rezende, despertou na população de todos os municípios o interesse pela pavimentação urbana. Não possuindo recursos suficientes para execução do benefício, recorreram ao governador.
O Estado também não dispunha de recursos suficientes para atende-los. Não queria ajudar alguns deixando outros ao abandono, elaborou projeto que beneficiasse todos, levando-o a apreciação do presidente José Sarney e do ministro do Desenvolvimento Urbano, Prisco Viana. Gostaram do que viram e se comprometeram fazer empréstimo especial a Goiás, pela Caixa Econômica Federal.
Henrique Santillo autorizou o diretor geral do Dergo, João Batista Alves, criar o Programa de Pavimentação Municipal – PPM. Em pouco tempo milhões de metros quadrados de asfalto cobriram as principais vias públicas de todas as cidades goianas. A pavimentação urbana feita pela administração Henrique Santillo às cidades goianas, se em rodovias, daria para asfaltar uma estrada de Goiânia a Uberlândia, em duas pistas.
Cidades ganharam visão urbanística nova. Moradores reformaram ou pintaram seus imóveis. Terrenos baldios logo receberam construções de ótima qualidade Os prefeitos construíram e ajardinaram praças, preservaram áreas ambientais e fizeram calçadas dos locais públicos. A limpeza foi implantada a partir da pavimentação em quase todas as cidades. Melhorou o padrão de saúde e vida da população.
Enquanto o serviço era realizado de forma ágil, fui com Henrique Santillo algumas vezes ao Palácio do Planalto, em busca da liberação dos recursos prometidos pelo presidente Sarney. De lá ele nos encaminhava para o ministro Prisco Viana, que por sua vez nos mandava para o Vioti, presidente da Caixa Econômica Federal. Essa ciranda do “jogo de empurra”, nós a realizamos no mínimo quatro vezes. Por fim, cansado e desiludido com tanto descaso e desrespeito, o governador Henrique Santillo encontrou uma solução doméstica para saldar a divida com as empresas que fizeram a pavimentação: emitiu Letras do Tesouro Estadual de longo prazo, tendo como avalista o Banco do Estado de Goiás-BEG, colocando-as no mercado, fazendo caixa para o Tesouro do Estado.
Collor, ao tomar posse, assinou decreto elaborado pela sua ministra do Planejamento, Zélia Cardoso, proibindo estados e municípios emitirem Letras do Tesouro, exigindo o resgate imediato das já emitidas. Ao governador Henrique Santillo não restava outra alternativa que não fosse resgatar as letras vendidas, pois caso contrário o BEG seria liquidado extra-judicialmente.
O governador foi ao Banco Central, acertou com o seu presidente Ebrahim Eris que o valor total das Letras do Tesouro por ele emitidas, seria pago nos 10 meses de administração que ainda lhe restavam, com retenção de parte do Fundo de Participação dos Estados, que o Tesouro Federal repassa mensalmente aos Estados. Sem contar com o FPE completo, Henrique Santillo evitou que o BEG fosse liquidado, pagou a divida do PPM e se inviabilizou administrativamente.
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domingo, 14 de março de 2010
Santillo e a soberba, por Waldemar Curcino de Morais Filho
Publicado no jornal Diário da Manhã
Creio que a melhor maneira de prestar uma homenagem a Henrique Santillo, nestes cinco anos após sua partida, que vão se completar em junho, é não ter medo e ser sincero em falar do seu estilo de vida. Digo isso porque ele deixou para um pequeno grupo, que não viveu em êxtase com o poder e riquezas, o legado de não comungarmos com a soberba e seus predicados como a empáfia e a vaidade. A inveja e a soberba, de certa forma, caminham próximas nas situações do dia-a-dia e é um sentimento variável de acordo com os indivíduos, embora, ao pobre, seja mais difícil exercê-la. O soberbo tende a se mostrar, enamorado que vive de sua própria existência e, ao se exibir, desperta a inveja nos outros. Gente como Santillo, com seu cabedal de inteligência, humanismo, generosidade, despertava a admiração nos outros, tornava o mundo melhor de ser compreendido pela simplicidade com que interagia com o poder.
Santillo veio de uma família muito simples, imigrantes da Itália; teve uma infância difícil, juventude cheia de lutas, tentando por meio do estudo, com o que Deus lhe deu de especial, a inteligência, um lugar ao sol. Na fase adulta não se acomodou em ser apenas um médico, partiu para as lutas políticas, culminando com mandatos políticos populares. Nos mandatos que exerceu no Legislativo e Executivo priorizou sempre o ser humano, na essência do amor e respeito ao próximo. Santillo parece ter aprendido a, desde muito cedo, combater a soberba. Sempre evitou a ostentação, conteve as vaidades e olhava o mundo não a partir de si mesmo, mas principalmente pelo que percebia ao seu redor, comparava, analisava e traçava suas metas com virtude e solidariedade.
Convivi com ele 22 anos, desde o tempo de senador, como assessor e secretário particular. Pude testemunhar o modo simples de vida que ele preservou desde a sua infância até a sua partida. Transmitia que o mais importante que o cargo era o ser humano. Sofria com o sentimento do seu semelhante. Apesar da aparência sisuda se comprazia com a alegria, sobretudo a dos amigos e familiares. A despeito de sua vasta cultura, tinha interesse em dialogar com os menos cultos. Nunca ouvi nem o vi faltar com respeito com seu semelhante, nem usar de artimanhas para tentar atingir algum adversário político. Sempre os respeitava e mantinha as divergências no campo das idéias.
Considerava a vaidade e a soberba como defeitos dos piores, porque enganam a nós mesmos e nos faz perder o sentido das proporções e, não raro, nos levam a cair no ridículo, porque sempre haverá alguém mais forte do que nós. A tendência comum dos indivíduos em criar gosto pela ostentação e pelo prazer eram banalizados no pensamento deste grande homem público, que afirmava sua identidade por elevados princípios e valores éticos. A vida para ele era o Ser e seus bens eram o seu modo de existência pessoal e sua vida essencial, traduzida em sua privacidade, partilhada por poucos. Buscava orientar sua equipe de forma a diminuir as angústias da existência e delatando as armadilhas das regras sociais dos grupos que muitos sonhavam participar. Em função disso, mostrou, não a muitos, mas a apenas pouquíssimas pessoas do seu ciclo pessoal, que não vale a pena exercer um determinado poder e querer se transformar em um rei, em que todas as coisas e pessoas lhe pertencem, em que é o dono do mundo ou simplesmente se arvora em Deus. Não vale a pena! É melhor partir como Santillo partiu, não deixando seu semelhante com sentimento ruim no coração. Resumiria a humildade de Henrique Santillo à vida de Jó 1:21, escrito no Antigo Testamento da Bíblia Sagrada: “Nu saí do ventre da minha mãe, e nu tornarei para lá”.
O que ele estaria pensando se estivesse convivendo no mundo atual com número acelerado de escândalos e atitudes de determinadas pessoas. Acredito, pelo que conheci, que mesmo assim continuaria acreditando na espécie humana.
Nos últimos anos de sua vida o grande prazer que ele tinha era a convivência familiar, quando por inúmeras vezes presenciava-se nele um belo sorriso ao receber um amigo.
Apesar do interesse de muitos “amigos” em esconder e fugir das idéias de Henrique Santillo, elas ficarão gravadas nas mentes e corações das pessoas de bem.
Waldemar Curcino de Morais Filho
foi secretário particular de Henrique Santillo
Creio que a melhor maneira de prestar uma homenagem a Henrique Santillo, nestes cinco anos após sua partida, que vão se completar em junho, é não ter medo e ser sincero em falar do seu estilo de vida. Digo isso porque ele deixou para um pequeno grupo, que não viveu em êxtase com o poder e riquezas, o legado de não comungarmos com a soberba e seus predicados como a empáfia e a vaidade. A inveja e a soberba, de certa forma, caminham próximas nas situações do dia-a-dia e é um sentimento variável de acordo com os indivíduos, embora, ao pobre, seja mais difícil exercê-la. O soberbo tende a se mostrar, enamorado que vive de sua própria existência e, ao se exibir, desperta a inveja nos outros. Gente como Santillo, com seu cabedal de inteligência, humanismo, generosidade, despertava a admiração nos outros, tornava o mundo melhor de ser compreendido pela simplicidade com que interagia com o poder.
Santillo veio de uma família muito simples, imigrantes da Itália; teve uma infância difícil, juventude cheia de lutas, tentando por meio do estudo, com o que Deus lhe deu de especial, a inteligência, um lugar ao sol. Na fase adulta não se acomodou em ser apenas um médico, partiu para as lutas políticas, culminando com mandatos políticos populares. Nos mandatos que exerceu no Legislativo e Executivo priorizou sempre o ser humano, na essência do amor e respeito ao próximo. Santillo parece ter aprendido a, desde muito cedo, combater a soberba. Sempre evitou a ostentação, conteve as vaidades e olhava o mundo não a partir de si mesmo, mas principalmente pelo que percebia ao seu redor, comparava, analisava e traçava suas metas com virtude e solidariedade.
Convivi com ele 22 anos, desde o tempo de senador, como assessor e secretário particular. Pude testemunhar o modo simples de vida que ele preservou desde a sua infância até a sua partida. Transmitia que o mais importante que o cargo era o ser humano. Sofria com o sentimento do seu semelhante. Apesar da aparência sisuda se comprazia com a alegria, sobretudo a dos amigos e familiares. A despeito de sua vasta cultura, tinha interesse em dialogar com os menos cultos. Nunca ouvi nem o vi faltar com respeito com seu semelhante, nem usar de artimanhas para tentar atingir algum adversário político. Sempre os respeitava e mantinha as divergências no campo das idéias.
Considerava a vaidade e a soberba como defeitos dos piores, porque enganam a nós mesmos e nos faz perder o sentido das proporções e, não raro, nos levam a cair no ridículo, porque sempre haverá alguém mais forte do que nós. A tendência comum dos indivíduos em criar gosto pela ostentação e pelo prazer eram banalizados no pensamento deste grande homem público, que afirmava sua identidade por elevados princípios e valores éticos. A vida para ele era o Ser e seus bens eram o seu modo de existência pessoal e sua vida essencial, traduzida em sua privacidade, partilhada por poucos. Buscava orientar sua equipe de forma a diminuir as angústias da existência e delatando as armadilhas das regras sociais dos grupos que muitos sonhavam participar. Em função disso, mostrou, não a muitos, mas a apenas pouquíssimas pessoas do seu ciclo pessoal, que não vale a pena exercer um determinado poder e querer se transformar em um rei, em que todas as coisas e pessoas lhe pertencem, em que é o dono do mundo ou simplesmente se arvora em Deus. Não vale a pena! É melhor partir como Santillo partiu, não deixando seu semelhante com sentimento ruim no coração. Resumiria a humildade de Henrique Santillo à vida de Jó 1:21, escrito no Antigo Testamento da Bíblia Sagrada: “Nu saí do ventre da minha mãe, e nu tornarei para lá”.
O que ele estaria pensando se estivesse convivendo no mundo atual com número acelerado de escândalos e atitudes de determinadas pessoas. Acredito, pelo que conheci, que mesmo assim continuaria acreditando na espécie humana.
Nos últimos anos de sua vida o grande prazer que ele tinha era a convivência familiar, quando por inúmeras vezes presenciava-se nele um belo sorriso ao receber um amigo.
Apesar do interesse de muitos “amigos” em esconder e fugir das idéias de Henrique Santillo, elas ficarão gravadas nas mentes e corações das pessoas de bem.
Waldemar Curcino de Morais Filho
foi secretário particular de Henrique Santillo
A melhor defesa: sua vida e sua obra, por Adhemar Santillo e Romualdo Santillo
Publicado no jornal Diário da Manhã
Ele era um homem que estava bem à frente de seu tempo. Acreditava nas pessoas e sonhava com um mundo melhor, mais justo, mais humano, com uma distribuição de rendas e riquezas que realmente elevasse o nível de vida de todos, não apenas de alguns poucos privilegiados. Via cada cidadã, cada cidadão, via todos como agentes, participantes e beneficiários das mudanças sociais e econômicas. Não admitia que o povo fosse apenas um mero espectador do progresso e, muito menos, um instrumento de manobras em mãos de políticos sem escrúpulos.
Ele tinha aversão ao populismo.
Quantas obras públicas construiu quando governador de Goiás, entregou-as aos goianos sequer as inaugurando? Sem festas, sem bandas de música, sem foguetórios, sem gastanças em propagandas impressas e televisivas? Era ele um político diferente. Avesso às promoções pesssoais, perseguia tenazmente o ideal de seus sonhos, sem jamais pisotear na dignidade de quem quer que fosse para atingir os seus objetivos.
Em 1987, Henrique Santillo recebeu o Estado com uma dívida equivalente a 2 bilhões de dólares, a parte da receita futura comprometida com antecipações. Os servidores estaduais estavam em greve, e voltaram ao trabalho, dando-lhe um voto de confiança. Não se arrependeram disso, pois Santillo, naquela época de inflação galopante, nunca deixou que os salários do funcionalismo público se defasassem. Até hoje, grande parte dos servidores estaduais tem saudades da política salarial que foi adotada por ele em seus quatro anos de governo.
Mal tinha organizado a casa, ocorreu o episódio do Césio 137. Uma cápsula de aparelho radiológico, contendo material radioativo, foi achada nos escombros da antiga Santa Casa, no Centro de Goiânia, por um catador de papel e ferro velho, e cuja história os goianos e os brasileiros conhecem muito bem. Naquele episódio, praticamente sozinho, Henrique Santillo teve inclusive de definir onde depositar os rejeitos, uma vez que o governo federal, responsável pela fiscalização e pela destinação desse tipo de material, cruzou os seus braços, enquanto, interminavelmente, o Congresso Nacional discutia se mandava ou não aquele lixo para a Serra do Caximbo, no Pará, o que contava com a oposição ferrenha de todos os políticos do Norte e do Nordeste do País. Comandando pessoalmente, com auxílio da Polícia Militar do Estado de Goiás, levou o material radioativo para Abadia de Goiás, onde seria um depósito provisório. Hoje, passados quase vinte anos, o provisório virou permanente. Se fosse depender de decisão federal, até hoje o lixo atômico estaria no Centro de Goiânia. À época, Santillo lutou bravamente contra a discriminação que a grande imprensa do País impôs aos goianos.
Mesmo com tantas dificuldades, Henrique Santillo deu um avanço substancial na área de saúde do Estado, construindo sete Cais em Goiânia, cinco nas cidades do interior, dez hospitais regionais e o Hugo (Hospital de Urgências de Goiânia), 30 postos de saúde na capital, aumentando de 20 mil para 250 mil pessoas o atendimento médico público. Cidades menores que não contavam com médicos receberam 600 agentes de saúde treinados, um programa de saúde pública pioneiro no Brasil.
Levou água potável a praticamente todos os municípios de Goiás. Aumentou de 600 mil para 850 mil o número de famílias atendidas pelos serviços de energia elétrica, com programas sociais que iam de tarifas menores aos padrões econômicos fornecidos pela própria Celg. Assim foi no Jardim Tiradentes, no Jardim Curitiba, em bairros pobres de todos os centros urbanos de Goiás, onde milhares de famílias tiveram acesso a esse benefício. Mais de 46 mil famílias de mini e micros produtores rurais foram atendidas pelo programa de eletrificação rural.
Criou a Universidade Estadual de Anápolis (Uniana), construiu a Usina Hidrelétrica de São Domingos, dotou Anápolis do mais moderno sistema de coleta e tratamento de esgoto sanitário e deu início às obras da Estação de Tratamento de Esgotos de Goiânia.
Construiu 623 quilômetros de asfalto em ruas e avenidas de todas as cidades de Goiás, no mais arrojado programa municipalista já visto no Estado. Antes de iniciar esse programa de pavimentação municipal, Santillo conversou com o presidente Sarney, que se comprometeu em financiá-lo pela Caixa Econômica Federal. Com o passar dos meses, as obras em andamento em todos os municípios, aconteceu a Convenção Nacional do PMDB para escolha do candidato à Presidência da República, e o preferido de Sarney ficou em terceiro lugar, o que o irritou profundamente. Assim, o presidente encontrou um modo de retaliar o governador Henrique Santillo, a quem ele responsabilizava pela derrota do seu candidato. O governo federal não honrou os compromissos que foram assumidos com o governador. Diante da ação intempestiva do presidente, Santillo se viu obrigado a emitir letras do tesouro estadual, para saldar os compromissos assumidos com as empresas pavimentadoras do PPM. Com a chegada de Fernando Collor de Melo à Presidência da República, foi baixado decreto cancelando todas as letras emitidas pelos Estados, tornando sem feito aquelas emitidas por Goiás. Para não sacrificar o Banco do Estado de Goiás, que era avalista das letras, cuja liquidação extra-judicial poderia ser decretada pelo governo federal, Henrique Santillo negociou com o Banco Central do Brasil o pagamento de toda a dívida, até o final do seu governo (o que foi feito), com parte do Fundo de Participação dos Estados. Dessa forma, tais episódios desestabilizaram a sua administração no último ano de governo.
Embora fosse seu plano candidatar-se ao Senado em 1990, entregando o governo ao presidente da Assembléia Legislativa, deputado Milton Alves (uma vez que Roriz, vice-governador, estava governando Brasília), Santillo resolveu permanecer no cargo até o último dia, enfrentando, ele mesmo, as dificuldades que adviriam na reta final de sua administração.
Portanto, Henrique Santillo não precisa de ninguém para o defender de nada. Sua melhor defesa é sua vida e sua obra.
Adhemar Santillo
ex-prefeito de Anápolis e ex-deputado por Goiás
Romualdo Santillo
ex-deputado estadual de Goiás
Ele era um homem que estava bem à frente de seu tempo. Acreditava nas pessoas e sonhava com um mundo melhor, mais justo, mais humano, com uma distribuição de rendas e riquezas que realmente elevasse o nível de vida de todos, não apenas de alguns poucos privilegiados. Via cada cidadã, cada cidadão, via todos como agentes, participantes e beneficiários das mudanças sociais e econômicas. Não admitia que o povo fosse apenas um mero espectador do progresso e, muito menos, um instrumento de manobras em mãos de políticos sem escrúpulos.
Ele tinha aversão ao populismo.
Quantas obras públicas construiu quando governador de Goiás, entregou-as aos goianos sequer as inaugurando? Sem festas, sem bandas de música, sem foguetórios, sem gastanças em propagandas impressas e televisivas? Era ele um político diferente. Avesso às promoções pesssoais, perseguia tenazmente o ideal de seus sonhos, sem jamais pisotear na dignidade de quem quer que fosse para atingir os seus objetivos.
Em 1987, Henrique Santillo recebeu o Estado com uma dívida equivalente a 2 bilhões de dólares, a parte da receita futura comprometida com antecipações. Os servidores estaduais estavam em greve, e voltaram ao trabalho, dando-lhe um voto de confiança. Não se arrependeram disso, pois Santillo, naquela época de inflação galopante, nunca deixou que os salários do funcionalismo público se defasassem. Até hoje, grande parte dos servidores estaduais tem saudades da política salarial que foi adotada por ele em seus quatro anos de governo.
Mal tinha organizado a casa, ocorreu o episódio do Césio 137. Uma cápsula de aparelho radiológico, contendo material radioativo, foi achada nos escombros da antiga Santa Casa, no Centro de Goiânia, por um catador de papel e ferro velho, e cuja história os goianos e os brasileiros conhecem muito bem. Naquele episódio, praticamente sozinho, Henrique Santillo teve inclusive de definir onde depositar os rejeitos, uma vez que o governo federal, responsável pela fiscalização e pela destinação desse tipo de material, cruzou os seus braços, enquanto, interminavelmente, o Congresso Nacional discutia se mandava ou não aquele lixo para a Serra do Caximbo, no Pará, o que contava com a oposição ferrenha de todos os políticos do Norte e do Nordeste do País. Comandando pessoalmente, com auxílio da Polícia Militar do Estado de Goiás, levou o material radioativo para Abadia de Goiás, onde seria um depósito provisório. Hoje, passados quase vinte anos, o provisório virou permanente. Se fosse depender de decisão federal, até hoje o lixo atômico estaria no Centro de Goiânia. À época, Santillo lutou bravamente contra a discriminação que a grande imprensa do País impôs aos goianos.
Mesmo com tantas dificuldades, Henrique Santillo deu um avanço substancial na área de saúde do Estado, construindo sete Cais em Goiânia, cinco nas cidades do interior, dez hospitais regionais e o Hugo (Hospital de Urgências de Goiânia), 30 postos de saúde na capital, aumentando de 20 mil para 250 mil pessoas o atendimento médico público. Cidades menores que não contavam com médicos receberam 600 agentes de saúde treinados, um programa de saúde pública pioneiro no Brasil.
Levou água potável a praticamente todos os municípios de Goiás. Aumentou de 600 mil para 850 mil o número de famílias atendidas pelos serviços de energia elétrica, com programas sociais que iam de tarifas menores aos padrões econômicos fornecidos pela própria Celg. Assim foi no Jardim Tiradentes, no Jardim Curitiba, em bairros pobres de todos os centros urbanos de Goiás, onde milhares de famílias tiveram acesso a esse benefício. Mais de 46 mil famílias de mini e micros produtores rurais foram atendidas pelo programa de eletrificação rural.
Criou a Universidade Estadual de Anápolis (Uniana), construiu a Usina Hidrelétrica de São Domingos, dotou Anápolis do mais moderno sistema de coleta e tratamento de esgoto sanitário e deu início às obras da Estação de Tratamento de Esgotos de Goiânia.
Construiu 623 quilômetros de asfalto em ruas e avenidas de todas as cidades de Goiás, no mais arrojado programa municipalista já visto no Estado. Antes de iniciar esse programa de pavimentação municipal, Santillo conversou com o presidente Sarney, que se comprometeu em financiá-lo pela Caixa Econômica Federal. Com o passar dos meses, as obras em andamento em todos os municípios, aconteceu a Convenção Nacional do PMDB para escolha do candidato à Presidência da República, e o preferido de Sarney ficou em terceiro lugar, o que o irritou profundamente. Assim, o presidente encontrou um modo de retaliar o governador Henrique Santillo, a quem ele responsabilizava pela derrota do seu candidato. O governo federal não honrou os compromissos que foram assumidos com o governador. Diante da ação intempestiva do presidente, Santillo se viu obrigado a emitir letras do tesouro estadual, para saldar os compromissos assumidos com as empresas pavimentadoras do PPM. Com a chegada de Fernando Collor de Melo à Presidência da República, foi baixado decreto cancelando todas as letras emitidas pelos Estados, tornando sem feito aquelas emitidas por Goiás. Para não sacrificar o Banco do Estado de Goiás, que era avalista das letras, cuja liquidação extra-judicial poderia ser decretada pelo governo federal, Henrique Santillo negociou com o Banco Central do Brasil o pagamento de toda a dívida, até o final do seu governo (o que foi feito), com parte do Fundo de Participação dos Estados. Dessa forma, tais episódios desestabilizaram a sua administração no último ano de governo.
Embora fosse seu plano candidatar-se ao Senado em 1990, entregando o governo ao presidente da Assembléia Legislativa, deputado Milton Alves (uma vez que Roriz, vice-governador, estava governando Brasília), Santillo resolveu permanecer no cargo até o último dia, enfrentando, ele mesmo, as dificuldades que adviriam na reta final de sua administração.
Portanto, Henrique Santillo não precisa de ninguém para o defender de nada. Sua melhor defesa é sua vida e sua obra.
Adhemar Santillo
ex-prefeito de Anápolis e ex-deputado por Goiás
Romualdo Santillo
ex-deputado estadual de Goiás
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