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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Onogás, sufocada pelas multinacionais


Estamos relatando aqui fatos de uma época de ouro da política Anapolina: combate à ditadura militarista de 1964. Um dos primeiros compromissos que desempenhei como deputado federal foi em defesa das pequenas empresas engarrafadoras e distribuidoras de gás liquefeito de petróleo - GLP.

Onofre Quinan, um dos maiores empresários de Anápolis, proprietário da Onogás, distribuidora de GLP, com sede no município, me procurou na Câmara Federal, denunciando o massacre que sua empresa e outras do mesmo porte que a sua, estavam sofrendo pelos grandes grupos multinacionais. O processo de destruição das empresas pequenas, como a Onogás, era criminoso e cruel.

Naquela época, o Conselho Nacional de Petróleo, havia decidido que cada engarrafadora de GLP, só poderia engarrafar o gás, principalmente o usado para atividade doméstica, botijão de 13 quilos, em recipiente da sua marca. Assim, a Onogás não podia encher botijão da Ultragás, Minas Gás ou qualquer outra marca. Por isso, a Onogás tinha muito produto nos plantes de Anápolis, mas estava impedida de vender o produto porque não tinha botijões com sua marca, suficientes para atender à demanda.

O que ocorria, segundo explicações de Onofre Quinan, é que os botijões das empresas pequenas, como a sua, estavam sendo destruídos pelos grandes empresários. Ficou constatado que a destruição ocorria de várias maneiras. As mais comuns: derretidos em autofornos e desviados para o Paraguai.

Depois de ouvir suas explicações, acertei com Lysâneas Maciel (MDB), presidente da Comissão de Minas e Energia na Câmara Federal, fazermos um Simpósio sobre a questão enfrentada pelas pequenas empresas distribuidoras de GLP. O relator da Resolução que sairia do Simpósio foi o deputado da Arena de Minas Gerais, Paulino Cícero.

Por mais de um mês ouvimos todas as partes envolvidas. Representando a Onogás, Onofre indicou seu assessor Armando Colatrella, um italiano muito competente nessa área. Ouvimos entidades representativas das distribuidoras, sindicatos, empresários e o presidente do Conselho Nacional do Petróleo, no governo Geisel, o japonês Shigeaki Ueki.

Constatado o massacre a que as empresas multinacionais estavam submetendo as pequenas empresas brasileiras, Paulino Cícero, intransigente defensor da liberdade comercial, apresentou sua Resolução permitindo que as empresas, pequenas ou grandes, poderiam a partir daquele instante, engarrafarem gás em qualquer botijão. Assim, a Onogás poderia engarrafar o produto que tinha à sua disposição nos seus botijões ou nos das outras marcas existentes no mercado. A medida valia para todas as empresas. Com isso, não havia mais o interesse das grandes distribuidoras destruírem os botijões das pequenas, por que estas poderiam se utilizar de qualquer vasilhame existente.

Foi uma das maiores vitórias dos empresários brasileiros ligados ao setor de distribuição de derivados de petróleo, durante o período ditatorial. Foi, ao mesmo tempo, a mais importante decisão do CNP, atendendo recomendação da Comissão de Minas e Energia, da Câmara Federal.

Depois dessa vitória outros simpósios foram realizados sob a direção de Lysâneas Maciel, um dos mais destacados e competentes parlamentares que existiam no Congresso Nacional, naquela legislatura. Discussões importantes sobre implantação das usinas atômicas em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, exploração de minérios na Serra dos Carajás e minas de ouro da Serra Pelada, foram por nós realizadas na Comissão de Minas e Energia, sob a liderança de Maciel.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Beleza da natureza está sendo destruída

Quando criança em Anápolis, até por falta de outras opções de lazer, o que mexia com a adrenalina da meninada era visitar ou tomar banho na represa dos Fanstone, na saída para Nerópolis. Parte mais larga e profunda do Antas, principal córrego que corta o setor central da cidade, com suas águas cristalinas e caudalosas tornava-se atração irresistível. De nada valiam as admoestações dos pais ou a bronca dos administradores da chácara. Conseguíamos com muita criatividade vencer os empecilhos. Nosso medo, verdadeiro temor, sempre foi de ser retirado da represa sem roupa, pelo Cazuza. Inspetor de criança e adolescente, designado pelo juiz da Comarca, cumpria com rigidez suas atribuições. Levava o infrator à sala do juiz para ser advertido. O herói das crianças e adolescentes à época, o menino Bengala, garoto destemido e gozador, tinha como principal passatempo desafiar Cazuza. Fazia a alegria dos que não tinham a mesma coragem e disposição. Esse temor da garotada a Cazuza, nasceu com a história, verdadeira lenda que corria entre a garotada, garantindo que ele levara um menino, totalmente nu, apreendido na represa, ao gabinete do juiz.

Com o passar do tempo, por estar situada em local estratégico no Município, a represa se transformou no primeiro reservatório para captação e distribuição de água tratada em Anápolis. O serviço municipalizado realizado pela Superintendência Municipal de Saneamento – Sumsan, funcionou até 1972, quando o serviço foi transferido à Saneago, por imposição do governo federal. Com a chegada do progresso, locais cobertos por Cerrado e pequenas reservas de mata nativa, cederam lugar à expansão urbana. Foi retirada toda vegetação. Loteamentos como Nações Unidas, São Joaquim, Parque das Primaveras, Novo Paraíso, Paraíso, Calixtolândia e Polo Centro I e II, os mais antigos próximos à nascente do Antas, assorearam o leito do córrego, levando cascalho, terra, lixo e entulho à represa. Em pouco tempo, a reserva caudalosa de águas cristalinas, ornamentada pelas aves multicoloridas, desde a brejeira saracura aos sofisticados curiós e bicudos, com suas infindáveis e afinadas sinfonias, desapareceu. Surgiu um depósito de lama fétida num pântano colossal. Degradação total da maior riqueza natural do município. Córrego que saciou a sede de tropas e tropeiros que abrigavam às suas margens, para descanso nas incontáveis viagens que faziam de Jaraguá e Pirenópolis, rumo a Bonfim, hoje Silvânia.

Como prefeito da cidade, assistindo na memória o que o tempo não apagou, reprise do DVD das imagens bonitas da infância, decidi recuperar a área degradada. Adquiri mais de 90 mil metros quadrados em toda extensão da antiga represa. Milhares de toneladas de lama podre retiradas, até que ganhasse sua forma original. Através do escultor Laerte Gariboti, responsável pelas principais esculturas particulares e públicas da cidade de Caldas Novas, um conjunto dessa obra de arte foi construído no local. Cascatas, cavernas e até uma ilha no centro do lago. Portal de entrada do parque é uma verdadeira obra de arte. A lagoa recebeu peixes próprios da região. Pista para passeio de pedestres, ciclistas e um trenzinho que levava as crianças nas visitas, sempre acompanhadas de guia, narrando a história do Antas e necessidade de se preservar a natureza. As escolas públicas e particulares, de Anápolis e municípios vizinhos, faziam programação antecipada de visitação ao parque. Árvores centenárias preservadas. Havia parque infantil e prédio que abrigava a Polícia Interativa. Para evitar assoreamento do lago principal, construímos aterro com passagem para os pedestres de uma margem à outra. Demos à obra o nome do empresário e político Onofre Quinan.

Hoje, o Central Parque Onofre Quinan, “cartão-postal” de Anápolis. Local de visitação e orgulho dos anapolinos, é apenas uma caricatura do que foi. A represa voltou a ser assoreada por terra e cascalho lançados ao leito do córrego, principalmente pelas obras da Ferrovia Norte-Sul. As cascatas secaram, as flores desapareceram, o trenzinho virou fumaça, sua escuridão noturna é paraíso de desocupados e usuários de drogas, as pistas deterioraram, os peixes morreram, os macacos famintos foram transferidos do local por agredirem os visitantes. Até o busto do homenageado Onofre Quinan foi roubado. É o descaso total com uma das partes mais importantes e bonitas da história de Anápolis.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A Quebra da Unidade Peemedebista em Goiás (I)


Quando em 1980 o Movimento Democrático Brasileiro - MDB foi transformado em Partido do Movimento Democrático Brasileiro - PMDB, Henrique Santillo era o político mais respeitado e influente da oposição em Goiás. Sua vitória ao lado de Juarez Bernardes ao Senado pelo MDB foi espetacular. O triunfo dos dois consolidou a supremacia da oposição junto ao eleitorado no Estado e Henrique Santillo como seu principal líder. Ele que se preparava desde 1974 para disputar o governo estadual era o candidato natural em 1982.

Na organização de PMDB, como Henrique Santillo nunca se preocupou em mandar no partido, ter maioria no diretória regional, embora sendo sua maior expressão política regional, por isso foi marginalizado. Lideranças mais próximas ao senador, principalmente estudantes, professores, artistas, líderes sindicais, intelectuais, líderes comunitários e grupos de esquerda foram ignorados na composição do diretório. Ficaram de fora apesar de todo seu potencial político-eleitoral. Tudo porque Iris Rezende queria a formação de um diretório onde tivesse ampla maioria, pois desejava ser candidato do partido ao governo, em 82. Contrariados com a desconsideração, resolvemos deixar o PMDB para organizarmos o PT.

Após reunião de São Bernardo do Campo, onde o PT fez seu grande encontro nacional, constatamos que embora Lula reprovasse em conversas reservadas a ação dos grupelhos incrustados dentro do partido, na prática os apoiava. Os grupos trotkistas a princípio não aceitavam a via parlamentar. Queriam ser um partido revolucionário. Qualquer político, por melhor que fosse sua atuação, era menosprezado e até desdenhado pelos grupelhos. Mesmo sendo minoria, davam as cartas, definindo o caminho a ser trilhado pelo partido. O Partido dos Trabalhadores, no seu início, era fechado e sem perspectiva de poder. Defendia métodos revolucionários, Nós, os santillistas, retornamos ao PMDB. Optamos desde a primeira hora lutar pela redemocratização dentro dos estreitos limites da lei. Nunca o grupo discutiu a possibilidade de enfrentar o autoritarismo na clandestinidade. Questão de convicção. Não seria em 1980, quando a abertura começava a surgir, que abraçaríamos outro tipo de resistência.

Reingressamos ao PMDB. As articulações internas no partido para que Henrique Santillo fosse o candidato a governador, pelas forças oposicionistas de vanguarda continuaram. Contatos que fizemos junto às lideranças do interior, estudantes, intelectuais, líderes classistas e sindicalistas, sentimos mais uma vez o respeito e confiança que tinham na nossa prática política. Aos poucos notamos que Henrique Santillo mantendo a candidatura, sem maioria entre os convencionais que escolheriam os candidatos do PMDB, dividiria o partido. Os ânimos estavam acirrados e isso poderia provocar divisão irreconciliável. Não queríamos divisão. Nosso adversário não era Iris Rezende Machado, mas sim o representante da ditadura. O candidato da Arena. Henrique decidiu refluir de uma possível candidatura ou simples disputa na convenção que escolheria o candidato a governador do PMDB. Comunicamos essa decisão aos companheiros. Apoiamos integralmente a candidatura de Iris Rezende Machado ao governo, com o empresário Onofre Quinan, em sua vice. Derval de Paiva que estava cogitado para a vice-governadoria na chapa de Iris Rezende, entendeu o valor do acordo, abrindo mão imediatamente da sua postulação. Disputou reeleição para deputado estadual. Sólida parceria foi mantida por algum tempo.

Quando o PMDB nacional foi realizar sua Convenção Nacional para a renovação do diretório, Ulysses Guimarães estava rompido com o presidente da República, José Sarney. A orientação do partido foi para que os integrantes do PMDB que faziam parte do ministério de Sarney, deixassem seus cargos. Iris estava licensiado do governo de Goiás, ocupando o ministério da Agricultura. Apenas Luiz Henrique da Silveira, ministro da Indústria e Comércio, se afastou. Iris Rezende, Roberto Cardoso Alves, Carlos Santana e Jader Barbalho, também ministros peemedebistas, ficaram em seus postos. O mesmo aconteceu com Joaquim Roriz, governador nomeado de Brásilia.

Alguns dias antes da Convenção Nacional, o deputado Hélio Duque (PMDB-PR) encabeçou movimento para que peemedebistas que ocupassem cargos de nomeação no governo Sarney não fizessem parte do diretório. Preocupado com o desdobramento que isso poderia provocar em Goiás, Henrique Santillo foi a Brasília conversar com Ulysse Guimarães. Depois das suas poderações sobre o risco de quebra na unidade do partido no Estado, caso Iris Rezende e Joaquim Roriz ficassem de fora do diretório nacional, Ulysses o tranquilizou:

- Fique tranquilo, isso é apenas um movimento da juventude! Agradeço a manifestação, mas não interfirirá no fortalecimento do PMDB. Estaremos todos juntos.

O governador voltou certo de que tudo não passava de reação isolada de um pequeno grupo de descontentes.

Alguns dias depois, Ulysses Guimarães comunicou a Henrique Santillo:

- Governador, sou obrigado a lhe comunicar que infelizmente não vou poder colocar Iris e Joaquim Roriz no diretório. A pressão é grande e os companheiros não concordam que os que ocupam cargos de confiança no governo sejam integrantes do diretório nacional. Alegam que ficou claro que os que não se afastaram estão muito mais preocupados com os cargos que com a trajetória de lutas do PMDB. Desde já o convido para fazer parte do diretório nacional, representando Goiás.

Querendo de qualquer maneira preservar a unidade do PMDB em Goiás, Henrique Santillo procurou Iris e Roriz para que juntos resolvessem o impasse...

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Surpresas nas campanhas políticas

Com a vitória consagradora para o Senado em 1978, Henrique Santillo passou a ser, dentro e fora de Goiás, a maior liderança política do Estado. Ele, que se preparava desde 1974 para disputar o governo estadual, teve que adiar naquele ano, mais uma vez, seu projeto eleitoral. Com o "pacote de abril" de 1977, Geisel excluiu da Constituição Federal eleição direta para governo estadual e criou o "senador biônico", o senador sem voto. Das duas vagas disputadas em 1978, uma já era da Arena. Geisel reconduziu Benedito Ferreira, o Benedito Boa Sorte. Para a eleita pelo povo, Henrique Santillo e Juarez Bernardes pelo MDB, enfrentaram Osires Teixeira, Jarmund Nasser e Jonas Duarte, pela Arena. MDB venceu. Santillo, mais votado, consolidou sua liderança.

Em 1982, Iris Rezende, que readquirira seus direitos políticos depois de 10 anos de suspensão, decidiu ser candidato, adiando por mais quatro anos o projeto de Henrique Santillo. Iris econtrou o PMDB, sucedâneo do MDB, organizado e imbatível em todo o Estado. Onofre Quinan, empresário bem-sucedido, nosso companheiro de MDB em Anápolis, foi indicado para vice-governador na chapa de Iris.

Ary Valadão, governador do Estado, sofria com os pequenos recursos que o Estado dispunha. Precisava construir alguma coisa que marcasse sua administração. A Arena o abandonara. Estava bastante dividida. Enquanto o governador lutava pela indicação de alguém do seu grupo a maioria do partido queria Otávio Lage de Siqueira, enfrentando Iris Rezende. Alguns meses antes das eleições, Ary Valadão conseguiu autorização do Banco Central para empréstimo internacional. Os recursos seriam aplicados em pavimentação de rodovias. Principal a ser asfaltada seria a que liga Itaberaí a Itapuranga. Máquinas chegaram a iniciar os serviços de terraplanagem.

Como empréstimo externo depende de autorização do Senado, os senadores arenistas em final de governo não compareciam ao plenário para que houvesse deliberação. Em todas as sessões, a mesma cena: o presidente abria a sessão, o senador Dirceu Cardoso (PMDB-ES) pedia verificação de quorum. Não havia número para abertura. Passaram-se os dias, semanas e meses e o pedido de empréstimo do governo goiano não era apreciado. Os arenistas de Goiás espalhavam por todos cantos que os senadores Lázaro Barbosa e Henrique Santillo, do PMDB-GO, estavam impedindo sua votação, para prejudicar Ary Valadão. Essa fofoca já começava a afetar o candidato peemedebista Iris Rezende. O PMDB goiano decidiu que Lázaro Barbosa e eu, representando Henrique Santillo, iríamos a Itapuranga para esclarecer a verdade. Fomos em avião pertencente a Onofre Quinan, comandado pelo piloto Carlão. Conosco foi também o advogado Wanduir de Lima.

Ao chegarmos a Itapuranga, não havia ninguém nos esperando no campo de aviação. Carlão sobrevoou a cidade, retornando ao campo de pouso. Apenas uma pessoa no centro da pista fazendo sinais para que Carlão parasse ali, a aeronave. Era Claudion Mendes, presidente do PMDB no município, solicitando que não saíssemos do avião. Argumentou que integrantes do PMDB Jovem nos receberiam a bala caso fossemos à reunião. Apoiadores de outros candidatos do partido ao Senado e Câmara Federal não aceitavam que Lázaro e eu conversássemos com a população. Nossa missão não era buscar apoio partidário às nossas candidaturas. Além do mais, lutávamos contra qualquer tipo de prepotência. Não podíamos abandonar a luta pelo gesto tresloucado de alguns irresponsáveis! Descemos! Assim que pusemos os pés no chão, começaram os disparos em nossa direção. Sem um local mais apropriado para nos proteger, usamos a fuselagem do avião. Os disparos só cessaram quando integrantes da Polícia Militar chegaram ao local. Fomos à prefeitura, mas, com a população assustada, ninguém compareceu. A reunião não aconteceu. Cumprimos nosso papel, concedendo entrevistas à emissora de rádio local.

A campanha não podendo parar, na manhã seguinte, fui com Maria Dagmar e Paulo Silva, candidatos a vereadora por Goiânia e a deputado estadual, à Vila Redenção. Primeiro conjunto de casas populares contruído por Iris, em Goiânia. Nos acompanhou na visita, casa a casa, Tarcísio, primo de Dagmar e comerciante de materiais de contrução, na região. Depois que fizemos dezenas de visitas, chegamos à casa de dona Bárbara, matriarca de grande família. Tarcísio entrou pelo corredor, indo direto à cozinha. Nós o acompanhamos. Fez a apresentação de praxe. A anfitriã, atenta, ouviu a identificação de cada um de nós. Esgotados os argumentos, Tarcísio completou:

- "Dona Bárbara, a senhora não está surpresa de estar recebendo em sua casa o deputado Adhemar Santillo? Esse é o homem que denunciou as mordomias do ministro do Trabalho!"

A mulher, com olhar fixo ao chão da cozinha, categórica, afirmou:

- "Tarcísio, depois que Toninho, meu filho caçula de 19 anos, se casou com uma mulher velha de 69 anos, que nem INPS tem, nada mais me surpreende!"

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Visitas e imprevistos

Uma das cobranças que o eleitor mais faz é a presença do político.

Ainda que o seu trabalho legislativo ou executivo seja bem realizado, ainda que o seu desempenho no cargo atenda a expectativa do eleitor, a presença em sua casa, nos aniversários, encontros religiosos, culturais e esportivos é sempre notada como fator positivo da vida política.

Em campanhas eleitorais, os convites para reuniões são variados. Sempre procuramos atender os companheiros, independentemente do credo religioso confessado.

Em vários desses encontros aconteciam fatos interessantes. No momento traziam constrangimento, mas com o passar do tempo eram vistos com naturalidade.

Visita ao Mário

Foi assim numa visita ao Mario Santana, irmão do saudoso Bertolino Santana, que dirigia seu trabalho espiritual num terreiro localizado no Bairro São José. Convidados para uma festa de aniversário do terreiro, lá estávamos com o vereador Walmir Bastos Ribeiro.

Para iniciar a reunião, Mário encheu uma cuia, metade de uma pequena cabaça ou coité, com cachaça e o ritual era passar a vasilha de mão em mão entre os presentes. Cada um que a recebia tomava um gole e passava a cuia adiante.

Quando chegou a vez de Walmir Bastos, sem ter prestado atenção no ritual, bebeu todo o conteúdo. Constrangido, mas sem qualquer comentário, Mário encheu novamente a cuia e a cerimônia continuou.

Uns dez minutos depois, quebrando toda a solenidade que o ato exigia, Walmir Bastos suando bastante, voz arrastada, gritou:

– Já é hora da música, vamos dançar, gente, até o churrasco ficar pronto! Antes vamos aos discursos das autoridades.

Mário demorou um pouco para recobrar o controle da solenidade, mas terminou a reunião logo em seguida.

Visita ao Benício

Em outra oportunidade, com Onofre Quinan, Henrique Santillo e José Batista Jr., fomos a uma festa no Centro do Benício, localizado na Rua Mauá, onde havia seguidores e muitos visitantes. Ficamos sentados em roda, enquanto no centro do salão os números especiais eram apresentados pelos integrantes do ”Centro Espírita do Benício”.

Benício, com sua coroa de rei, sentado na cadeira mais elevada do recinto, gesticulava dizendo-nos alguma coisa que, no entanto, não era por nós compreendida. Interpretávamos seus gestos como sinal de satisfação pela quantidade de visitantes e alegria de todos.

Depois de tentar em vão comunicar-se conosco à distância, desceu do seu pedestal, passou a mão num enorme facão niquelado, parecido com uma grande adaga e caminhou em nossa direção. A sua atitude nos levou a pensar que era parte do ritual. Benício atravessou todo o salão e resoluto aproximou-se do local onde encontrávamos. Ao nos alcançar, parou e estático em frente a Onofre Quinan, que se encontrava com as pernas cruzadas, gritou:

– Descruzê! Descruzê! Descruzê!

Onofre só teve tempo de dar um pulo para trás, quase caindo da cadeira, enquanto a lâmina tocava o piso, levantando faísca.

Visita ao Raimundinho

Outro grande amigo nosso era o Raimundinho, responsável por trabalhos espirituais num pequeno salão comercial, ao lado de sua casa, no Bairro Boa Vista. Fomos visitá-lo em companhia de Inês, filha de Donana e Laurindo, companheiros políticos da região, com José Batista Jr. e Walmir Bastos. Ao chegarmos ficamos mais afastados, num canto do salão. Raimundinho atendia a um carregador de caminhão, homem forte, que estava bastante concentrado, totalmente trêmulo. Sem vaga ao nosso lado, o Walmir foi sentar-se no banco da frente, ao lado do homem em transe, que falava frases desconexas, resfolegando muito. O vereador olhou para trás em nossa direção e deu uma sonora gargalhada, quebrando totalmente a solenidade e a seriedade do ato. Raimundinho não perdeu a serenidade, mas o estivador virou-se de frente, aparentemente enfurecido, caindo de costas para o chão, dando um “bico” de pé direito por baixo do assento em que o vereador se encontrava. A força foi tamanha que levantou o Walmir alguns palmos para o ar, que caiu estatelado ao chão, mas levantou-se em seguida, apavorado, gritando:

– Valei-me senhor do Bonfim, valei-me senhor do Bonfim!

Não havia janela no recinto e a única porta existente havia sido trancada após nossa chegada. As luzes estavam apagadas e Walmir ficava tateando a parede. Só se acalmou quando a porta foi aberta e ele saltou para fora, saindo em desabalada carreira. Fomos encontrá-lo bem longe, suado, assustado, sem olhar para trás.

Visita ao pastor Jaconias

Homem de muita fé e fiel servo cristão era o senhor Jaconias Cavalcante, pai do ex-vereador José Escobar Cavalcante. Pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular, dirigia os trabalhos de evangelização na igreja da Vila Santa Maria de Nazareth. Cidadão politizado, estava sempre atento aos acontecimentos políticos em Goiás e no Brasil. Gostava muito de política e do MDB, mas seu tempo era dedicado aos trabalhos da igreja.

Escobar, candidato a vereador, contou com o apoio decisivo do pastor Cavalcante, como era conhecido pelos irmãos. Num culto de quarta-feira, o pastor convidou Escobar para visitar a igreja, preparando os irmãos para o evento. No momento da apresentação, o pastor Cavalcante falou das virtudes do filho e de suas boas qualidades. Finalmente, disse que, embora o filho não comparecesse regularmente aos cultos, era um bom cristão. Com a palavra dada ao visitante, Escobar foi claro:

– Meus irmãos, tudo a respeito da minha vida foi dito pelo meu pai. Coloco a vida dele, amada por todos vocês em testemunho à minha própria vida. Gosto muito do trabalho que ele realiza pela evangelização dos perdidos e desesperados. Mas é meu dever dizer que me “amarro” mesmo é no espiritismo!

O pastor e a congregação, em estado de total espanto, deram a visita por encerrada, sem maiores comentários.

Visita do Anapolino

Anapolino de Faria, candidato a Deputado Federal, corria o interior do estado e eu, candidato a Deputado Estadual, fazia o trabalho em Anápolis com reuniões e visitas.

Naquela noite aconteceria uma reunião na Vila João Luiz de Oliveira, a qual Anapolino compareceria vindo de um encontro em Nerópolis.

Tudo estava acertado para uma boa reunião, quando um imprevisto ocorreu na tarde daquele dia. Aconteceu uma tragédia vitimando um rapaz vizinho da família que nos receberia e todos os moradores estavam abalados. Não havia clima para realização do encontro.

Fomos todos os companheiros prestar solidariedade à família enlutada. Solicitamos ao Zé Maneco, um dos organizadores do encontro, que ficasse no local para informar aos companheiros que chegassem o motivo da suspensão da reunião.

Por volta das nove da noite, sem saber do ocorrido, Anapolino de Faria chegou de Nerópolis estacionando seu automóvel em frente à multidão presente ao velório. Saiu do carro ao encontro de Zé Maneco que se deslocava para avisá-lo do acontecido.

Antes de ter tempo para pronunciar uma única palavra Zé Maneco ouviu a exclamação de Anapolino:

– Hei, Zé Maneco! Isso é que é liderança! Isso aqui não é reunião, isso já é comício.

E passou a cumprimentar efusivamente cada uma das pessoas até que foi puxado de lado pela camisa, quando Zé Maneco pode esclarecer tudo.

Direção perdida

Chefinho, o Sr. Messias Antônio Ribeiro, fazendeiro no Matão, nos seus últimos anos de vida passou a morar em Anápolis. Emedebista convicto, nos acompanhou em todas as disputas políticas de que participamos. Toda sua família sempre esteve ao nosso lado.

Chico Mineiro, um dos mais destacados lideres do MDB em Ouro Verde, antigo Matão, chefe de família numerosa e trabalhadora, era seu cunhado. Os filhos de Chico Mineiro além de numerosos sempre só lhe deram alegria pela correção de vida de todos eles.

Num domingo à tarde, três deles participavam de uma partida de sinuca, numa venda no Sapato Arcado, em frente à fazenda do Sr. Antônio Garcia, na estrada que liga Anápolis a Ouro Verde. Dois jovens que também participavam da partida se desentenderam com os filhos do Chico, terminando em troca de murros, pontapés e pauladas. Os rapazes do Chico Mineiro bateram mais que apanharam. Foram trazidos para Anápolis para fugirem de qualquer flagrante, sendo feita a queixa na polícia.

Em Anápolis, Zoroastro Vieira Braga, o Zuruca, Tonho Gaguinho e Chefinho foram até ao bairro JK, onde deixaram os rapazes.

Como eu e Vicente Alencar estávamos no interior do Estado, chegamos a Anápolis à noite e recebemos a informação pelo Romualdo que Chico Mineiro precisava falar conosco, urgentemente. Não sabíamos o endereço onde se encontravam no bairro JK. Fomos atrás do Zuruca, não o encontramos, havia saído. Partimos para o Mercado JK onde encontramos Tonho Gaguinho, bem embriagado:

– Tonho, os homens foram levados por vocês para onde?

– Homens? Que homens?

O recurso foi tirar o Chefinho do seu descanso

Vicente Alencar, Romualdo, Chefinho e eu rodamos umas quatro vezes todas as ruas do bairro JK e nada de encontrarmos a residência onde eles estavam. Chefinho dizia:

Suba para cá, vire para lá, passe para a esquerda, vira para a direita...

Não houve jeito. O recurso foi deixarmos para melhor oportunidade.

Vicente Alencar ainda sugeriu que retornássemos à Praça do Bom Jesus para que Chefinho se situasse melhor. Foi o que fizemos.

Quando chegamos à Praça do Bom Jesus, muito movimentada e lotada com o término da missa, fonte luminosa funcionando; já havíamos esquecido que Chefinho não conseguiria reconhecer o local onde à tarde ele, Zoroastro Vieira Braga e Tonho Gaguinho deixaram o compadre Chico. Chefinho que estava quieto, sem trocar uma só palavra em todo trajeto até a praça principal de Anápolis, indagou bastante preocupado:

– Que lugar é esse?

Ficou claro que tínhamos que deixar para o outro dia a procura por Chico naquelas ruas do Bairro JK, sem asfalto, tomadas pela poeira e sem iluminação pública.

Tecnologia avançada na cozinha

Em 1977, a eleição para o Senado teria sublegendas, dois candidatos do mesmo partido disputariam a vaga. Henrique não havia ainda se decidido, mas já era o candidato indicado para representar o grupo autêntico do MDB, enquanto que os conservadores indicaram Juarez Bernardes.

Visitei os diretórios das cidades que representava como Deputado Federal, trabalhando para a candidatura de Henrique. Em minhas viagens, levei Vicente de Paula Alencar, até aquele momento, defensor ferrenho da candidatura de Henrique Santillo.

Em Uruana, cidade a qual representava na Câmara Federal, fomos em primeiro lugar na casa do Sr. Agenor Moreira, ex-prefeito da cidade e grande líder emedebista. Lá estava também seu genro Custódio, que nos acompanhou às demais lideranças.

Quando deixamos a residência de José Gomes, partindo para a casa de outro companheiro, Custódio fez questão de nos mostrar a casa onde foi usada a primeira panela de pressão no Município. O autor da façanha foi um cerealista muito conceituado na cidade e que, pelo menos uma vez por semana, levava cereais para atacadistas anapolinos e, no retorno, levava as encomendas feitas pelos uruanenses.

Numa das suas idas e vindas a Anápolis, passou pela Casa Violeta, na Praça do Bom Jesus, quando assistiu a explanação de um vendedor da loja falando sobre a maior invenção do homem para a cozinha, a panela de pressão:

– Com esse aparelho, não há galinha, por mais velha de seja, que resista a temperatura.

Gostou do que viu e ouviu, comprando a panela para quatro litros. Logo toda população ficou sabendo que o “mais avançado instrumento da tecnologia moderna para uso na cozinha” havia chegado à cidade. Aproveitou para convidar compadres e amigos para domingo, após a missa das 9, irem à sua casa, porque enquanto os ‘truqueiros’ disputassem uma partida, um galo de mais de três anos seria cozido na panela de pressão.

Quando a disputa começou, a panela foi levada ao fogão a lenha estrategicamente instalado na cozinha. Antes mesmo que a primeira trucada acontecesse numa das mesas, a cozinheira, dona da casa, disse em voz alta ao chegar à porta:

– Gente a panela tá furada!

Surpresa geral. Os mais curiosos deixaram o jogo e foram à cozinha. Puderam ver e ouvir o barulho do vapor que saia pela válvula da panela. Decepcionado, o anfitrião já acertou para o domingo seguinte, no mesmo local e horário, a disputa do ‘truco’ e o uso da panela.

Segunda-feira bem cedo foi a uma oficina de conserto de utensílios domésticos, narrando o acontecido ao oficial, experiente no ramo. Não conhecia aquele instrumento, mas era visível que vazava no centro da tampa. Na mesma hora passou a mão no aparelho de solda a oxigênio, deu uma lixada na parte interna da tampa, reforçando o local da válvula com substanciosa camada de solda:

– Ela pode até vazar em outro lugar. Nesse nunca mais!

Domingo, horário combinado, lá estavam os ‘truqueiros’. Enquanto isso, para não decepcionar, os convidados o fogão foi aceso mais cedo, com angico bem sequinho.

Iniciada a partida pelos truqueiros na sala, o galo carijó, o mais antigo da região, foi dentro da panela, para o fogo.

– Truco... Truco...

– Seis milho, ladrão...

A algazarra e o barulho ensurdecedor só não conseguiram abafar o estrondo que veio da cozinha com a tampa da panela voando como um foguete, deixando estrago no telhado e pedaços do carijó presos as telhas.

VISITA A LEOPOLDO DE BULHÕES

Joaquim Roriz, candidato a deputado estadual e eu, candidato a reeleição de deputado federal, fizemos juntos várias visitas na região da estrada de ferro para que ele fosse apresentado aos companheiros de Pires do Rio, Vianópolis, Orizona e Leopoldo de Bulhões.

Para o encontro em Leopoldo de Bulhões cheguei acompanhado do advogado Vicente de Paula Alencar e o vereador Walmir Bastos Ribeiro, aguardando Joaquim Roriz na casa do presidente do MDB local, o amigo Agenor Gontijo.

Por volta das duas da tarde chovia fino deixando a rua tomada pelo lamaçal. Vicente Alencar calçava botina nova de solado sintético, garantindo ser a última novidade contra derrapagens. Apressou-se a atravessar a lama da rua para alcançar a porta de entrada da casa de Agenor, bem escorregadia pelo lodo formado por alguns dias de chuva permanente. Firmou o pé direito na ponta da calçada escorregadia e imediatamente deu uma deslizada levando um tombo que o deixou sentado no chão:

- Não dá para a gente acreditar em mais nada! Me disseram que a botina fixava em pista escorregadia como um ímã.

Vicente precisou de toalhas e algum tempo para limpar-se. Quando Roriz chegou, com Vicente já recuperado, continuamos nosso roteiro nos dirigindo a outra cidade da região.

Foi uma reunião de liderança na qual apresentei Joaquim Roriz que até então era conhecido como Joaquim Domingos, falando das suas qualidades pessoais e políticas. Estavam todos ao par do apoio de Luziânia à candidatura do Henrique ao Senado. Outra vantagem em apoiar Joaquim, era o fato dele ser da região, o que garantia sua presença para ajudar os companheiros, o que foi ratificado na fala do próprio. Em nome do diretório falou o tesoureiro:

- Dr. Joaquim Domingos, nós aqui sempre apoiamos os irmãos Santillo...

- Vocês vão continuar apoiando os irmãos Santillo, atalhou Roriz, nós de Luziânia agora estamos juntos com eles, também...

- Pois é, Doutor Joaquim, sempre estivemos com eles porque nunca nos faltaram com apoio e também pelo nosso amor ao MDB. Mas nunca pedimos um cruzeiro para eles, sempre os apoiamos de forma relevante, de graça.

- Muito bem!. Parabéns pela luta de vocês! ressaltou Roriz.

- É, mas agora a gente vai precisar de um dinheirinho....

- Para que que vocês precisam de dinheirinho? brincou Roriz.

- Prá fazer uma campanha com mais conforto.

Walmir Bastos que parecia estar cochilando num canto da sala, soltou sua tradicional gargalhada, sonora e inconfundível, levando todos a rirem também. Walmir, grande amigo de Roriz, a partir daquele momento todas as vêzes que se referia a Roriz, dizia:

- Joaquim conforto...