terça-feira, 2 de março de 2010

Luziânia e o MDB

Em 1977, foi editado o “Pacote de abril” pelo Presidente Ernesto Geisel.

Usando dos poderes discricionários que lhe eram garantidos pelo Ato Institucional nº 5 – AI 5, o Presidente Ernesto Geisel baixou o “Pacote de abril” alterando a Constituição Federal, eliminando a eleição para governador pelo voto direto. Também foi criada a figura do “senador biônico” ou “senador nomeado” que era escolhido por voto indireto através da maioria das Assembléias Legislativas Estaduais, mesmo critério utilizado para eleição de governador.

A eleição com participação popular através do voto direto seria para apenas uma vaga no pleito de 1978 e, de acordo com “Pacote de abril”, os dois partidos poderiam lançar até três candidatos em sublegendas.

A Aliança Renovadora Nacional – ARENA, por ter maioria na Assembléia Legislativa, indicou para senador “nomeado” por eleição indireta o já senador Benedito Ferreira, conhecido como Benedito Boa Sorte e como primeiro suplente o ex-prefeito de Silvânia José Caixeta.

Para a disputa do voto direto, a ARENA lançou o ex-prefeito de Anápolis Jonas Duarte, o senador Ozires Teixeira e o Deputado Federal Jarmund Nasser. Com as três sublegendas preenchidas, os arenistas não possuíam suplentes. No caso de vitória o mais votado seria o senador e os outros dois o primeiro e segundo suplentes, por ordem de votação.

O MDB decidiu lançar apenas dois candidatos, o Deputado Estadual Henrique Santillo, representando o grupo autêntico do partido e o Deputado Federal Juarez Bernardes, representando o grupo moderado.

Como o PMDB lançou apenas dois candidatos, Henrique e Juarez, cada qual lançou um suplente. O suplente de Henrique foi o advogado Hélio Roriz, do município de Luziânia. Com a vitória do MDB e Henrique sendo o mais votado, Juarez Bernardes ficou na primeira suplência e Hélio Roriz na segunda.

A escolha do nome de Hélio Roriz e o apoio de Luziânia à candidatura de Henrique ao Senado se deram por uma estreita amizade que me ligava a Carlos Melo.

Bem antes da convenção regional, a maioria dos diretórios municipais do MDB recebia os dois pré-candidatos, Henrique e Juarez, de forma democrática, organizando reuniões sem demonstrar preferência, dando oportunidade para os dois candidatos se apresentarem aos eleitores.

O diretório de Luziânia, que estava lançando Joaquim Domingos Roriz para Deputado Estadual, estava fechado com Juarez Bernardes, se negando a receber Henrique. Contávamos com o amigo fiel no município, o vereador Carlos Melo, o querido Carlinhos, muito ligado a Roriz e freqüentador semanal de meu gabinete na Câmara Federal.

Carlinhos me procurou sugerindo que eu conversasse com Zequinha Roriz, irmão do Joaquim e um dos seus coordenadores políticos, para tratarmos de um espaço que poderia ser aberto no diretório de Luziânia, no que concordei. Marcamos para o dia seguinte almoço na Churrascaria Gaúcha, em Brasília.

Neste encontro, Zequinha me disse que o objetivo dos emedebistas de Luziânia era eleger Joaquim Roriz Deputado Estadual, indagando-me se havia como ajudá-lo. Respondi afirmativamente e contatei imediatamente Manoel Bezerra e Aurelino, integrantes do diretório de Alexânia, solicitando apoio à candidatura de Joaquim Roriz. Fiz o mesmo com os diretórios do MDB de Orizona, Vianópolis, Pires do Rio, Itapaci e Goiatuba, conseguindo para Joaquim estes diretórios que já me apoiavam.

Após conseguir o apoio dessas lideranças, incluindo Maria Dagmar, nossa coordenadora em Goiânia, com intensas atividades políticas que tínhamos em conjunto, Joaquim e eu criamos uma confiança mútua e em conseqüência, os companheiros de Luziânia decidiram que trabalhariam para os dois candidatos, Henrique e Juarez.

Quando da convenção regional, Henrique escolheu seu vice na família Roriz, o advogado muito conceituado no município, Hélio Roriz. Pela minha lealdade em fortalecer a candidatura do seu representante, o diretório municipal do MDB de Luziânia decidiu, também, apoiar minha candidatura a Deputado Federal.

Naquela eleição, 1978, obtive estrondosa votação em Luziânia, garantindo com isso a posição de mais votado entre os Deputados Federais eleitos por Goiás. Henrique Santillo se elegeu Senador com grande votação em todo o entorno de Brasília e Joaquim Roriz foi o Deputado Estadual mais votado dentre os eleitos para a Assembléia Legislativa.

Conseguimos essa união pelo trabalho do saudoso vereador Carlos Melo, um dos grandes amigos que angariamos em nossa cruzada pela democracia.

Naquele instante em que estive com Zequinha, consolidamos uma aliança duradoura e abrimos caminho para que Roriz percorresse, com grande sucesso, sua senda política, iniciada em Goiás.

Mobilizações do MDB em Goiânia

Consolidada a candidatura de Joaquim Domingos Roriz nas bases interioranas, o convenci que seria conveniente reunir um grupo em Goiânia para lhe dar dimensão de liderança emergente. Aceitando a proposta, lhe apresentei a advogada Maria Dagmar, posteriormente eleita vereadora pelo MDB, na capital.

Dagmar, dinâmica e muito bem relacionada, organizou um esquema para todas as quartas feiras realizarmos concentração num setor da cidade.

A primeira experiência seria um mini-comício na Vila União, a céu aberto, tendo como palanque o calçadão do conjunto comercial, em frente um bar bem movimentado. Dentre os participantes compulsórios, alguns bêbados que faziam ponto por ali. Roriz com aquela voz empostada, pausada e firme discorria sobre os motivos que o levaram a se candidatar a deputado estadual. Cada vez que encerrava uma frase, o bêbado repetia o final dela:

- Graças a Deus sou bem sucedido nas atividades particulares.Mas isso não é tudo para quem quer servir o povo. Senti que preciso ajudar a tirar o Brasil dessa situação de caos e letargia...

- Caos e letargia, caos e letargia....

- Conto com seu voto!

- Seu voto, seu voto...

Muito atento e falando bem alto, o bêbado arrancava gostosas gargalhadas de toda platéia, o que fez Roriz encerrar rapidamente seu discurso.

Dagmar mudou de estratégia, uma vez que reunião perto de bar era espetáculo divertido mas de pouco resultado político ou eleitoral. Saímos da Vila União com a concentração da quarta feira seguinte marcada para a Vila Nova.

No dia marcado, cheguei de outra concentração numa cidade do interior em companhia do professor Lucas Gonçalves, diretor do Colégio Einstein, companheiro de inúmeras caminhadas. Lucas foi o primeiro a discursar encerrando sua fala com a algazarra de um grupo de skeitistas que fazia uma divertida corrida com um grupo de quase dez menimos. Os skeites feitos à base de rolamentos desciam pela rua em declive asfaltada fazendo barulho ensurdecedor, tirando faíscas pelo atrito do rolimã com o asfalto.

Mas nada abalava a nossa resistência e continuando a festa cívica foi passada a palavra ao Jair de Ázara, leal e dedicado companheiro, residente em Goiânia.

Com uma voz trêmula, em falsete e pausadamente, ele começou:

- Meus senhores....

O orador perdeu a afinação de voz, saindo aquela mensagem fina e engasgada. A meninada reagiu na hora, arrancando sonora gargalhada dos poucos assistentes:

- Uuuuu, Uuuuuuu....

Jair não perdeu a esportiva:

- Já dizia Sócrates, a vaia é democrática, mas não é civilizada!

Na quarta seguinte o encontro seria no Bairro Feliz, lugar famoso por reunir muita gente nos movimentos do MDB. Luiz Henrique da Silveira, prefeito de Joinvile, Santa Catarina, meu colega de Câmara e grande amigo, estava em Brasília e a meu convite iria participar do grande movimento político que estava sendo programado. Queria também retribuir minha ida a Joinvile, em sua campanha para prefeito.

Luiz Henrique chegou ao aeroporto Santa Genoveva às oito da noite e foi levado por um companheiro nosso ao Bairro Feliz.

Não havia praticamente ninguém, mas subimos na carroceria do caminhão à espera do público. Vimos chegando do final da rua um pequeno grupo, constituido de seis a oito cabos eleitorais, vestidos com camisetas contendo nomes de Roriz, Adhemar e Henrique, que carregavam cartazes e gritando bem ritimado:

- Goiás é feliz com Henrique, Adhemar e Roriz.

Goiânia tem sono tranqüilo, com Roriz e os Santillo...

Fizemos nova programação, insistindo que Dagmar mobilizasse mais gente:

- Podem se preparar, quarta-feira vamos arrebentar no Palmito e Novo Mundo. Naquela região o vereador Luciano Pedroso, leva de 1 mil a 1 mil e quinhentas pessoas por comício.

Na quarta-feira chegamos uns quinze minutos mais tarde que o combinado. Dagmar negociava naquele instante a apresentação de um trio sertanejo que sempre oferecia os seus serviços às nossa reuniões. Nunca havia dado certo, naquele dia autorizamos a contratação para animar a platéia.

A quantidade de pessoas era extraordinária. Não estavam lá os mil que Luciano Pedroso levava em seus comícios, mas havia de 400 a 500 pessoas. Ercílio Matias, eleito prefeito de Petrolina, tempos depois, discursava e a platéia não parava de aumentar. Hilton Lucena, motorista do Henrique passou pelo local e ficou impressionado:

- Adhemar, o Henrique está no Jardim America, com o vereador Benvindo Lopo e a platéia não é a metade dessa. Vou lá para trazer ele para cá.

Foi anunciada a palavra de Joaquim Domingos Roriz, a platéia aumentava cada vez mais. Roriz aproveitou e cumprimentou demoradamente cada companheiro de palanque vendo que o público ficava cada vez maior. Terminados os cumprimentos, apareceram duas senhoras no fundo do comício, carregando melancia num dos braços e segurando uma panela de pressão com a outra mão:

- Zé! Oh Zé, a distribuição de brindes é ali em cima!

Chiquinho de Castro, como prefeito nomeado de Goiânia, estava realizando um comício no bairro. Durante toda a semana sua equipe de assessoramento distribuiu bilhetes numerados para sorteio de prêmios. Com a advertência das mulheres, nosso público saiu em desabalada carreira, morro acima, nos deixando mais uma vez só com os integrantes do palanque e o conjunto de música nordestina, que havíamos contratado.

Ainda assim, fomos muito bem votados naquelas eleição.

Trapalhadas em candidatura ao Senado

Já havíamos vivido os retrocessos eleitorais impostos à abertura democrática em 1970 e em 1974, com a suspensão de última hora da eleição direta para Governador do Estado.

Todas estas manobras tinham como objetivo impedir o avanço eleitoral do MDB. O fechamento do Congresso Nacional, episódio ocorrido em abril de 1977, com a suspensão de eleição direta para governador em 1978 e apenas um Senador sendo eleito através do voto direto, já que a outra vaga de Senador seria preenchida pelo partido que tivesse maioria na Assembléia Legislativa, foi o mais abrangente e radical golpe, até então, imposto pelo sistema autoritário da época contra a abertura democrática.

Vicente de Paula Alencar, presidente do Diretório do MDB de Anápolis, leal e competente advogado que estivera sempre na defesa dos companheiros, ao saber pela Imprensa Nacional sobre a extensão da decisão tomada pelo Presidente Geisel, com base no Ato Institucional nº 5, apressou-se em reunir os membros do partido em Anápolis, estimulando os companheiros para que não se desanimassem. Ao mesmo tempo, defendeu publicamente que Henrique Santillo, pré-candidato ao governo de Goiás, fosse o candidato do grupo ao Senado.

Apoiando a candidatura do Henrique para o governo, Derval de Paiva, Deputado Estadual que pleiteava uma das duas vagas ao Senado refluiu, confirmando uma nova candidatura à Assembléia Legislativa. Fernando Cunha Jr, deputado federal, que mostrara desejo de disputar a outra vaga, também apoiando Henrique, insistiu em disputar uma vaga no Senado, que seria decidida pelo voto popular. Esta disposição de Fernando, como não poderia deixar de ser, era tida por Henrique Santillo como legítima. Isto estimulou Vicente Alencar a lançar sua candidatura ao Senado numa disputa interna com Fernando Cunha Jr. e Juarez Bernardes, outro pré-candidato a governador que, pela suspensão das eleições ao governo, decidiu se candidatar a Senador.

Aos companheiros e amigos, Vicente Alencar ressaltava que no caso de uma desistência de Fernando Cunha Jr. sua candidatura também seria retirada, pois seu projeto eleitoral para aquele pleito era uma vaga na Assembléia Legislativa, não abrindo mão de que o representante dos progressistas para o Senado teria que ser Henrique Santillo ou ele próprio. Fazia sua pregação em sucessivas entrevistas concedidas a jornais e emissoras de rádio.

Como Fernando Cunha demorou a refluir da intenção inicial de disputar o Senado, o que somente veio acontecer algumas semanas após o “pacote de abril”, Vicente de Paula Alencar, motivado pela divulgação da imprensa ao seu ambicioso projeto, principalmente pelo jornalista Reinaldo Rocha, de O Popular, tomou gosto pela campanha.

Quando Fernando Cunha manifestou disposição de pleitear reeleição para deputado federal, Vicente se afastou dos companheiros e manteve sua pré-candidatura ao Senado, indo à Convenção Regional do MDB.

– Vou ganhar! O povo quer renovação...

Gritava Vicente onde quer que discursasse. A vitória de Lázaro Barbosa na eleição anterior renovava a cada instante sua esperança.

Vicente Alencar enfrentou Henrique Santillo e Juarez Bernardes na convenção emedebista. Praticamente teve só seu voto, visto que além de presidente era também um dos delegados à convenção regional, representando Anápolis. Sem ter voto para uma terceira sublegenda, Vicente Alencar refluiu e candidatou-se a Deputado Estadual.

A decisão chegou tarde. Já estavam com o apoio dos santillistas, Joceli Machado e Wolney Martins de Araújo como candidatos a Assembléia Legislativa por Anápolis. Ambos foram eleitos, enquanto Alencar, que poderia ter sido o mais votado, atrapalhou-se pelo caminho e obteve pequena votação.

Doutrinação do Eleitor

– Professor, preciso terminar minha casa. Estou precisando de 2 mil tijolos.

Foi esta uma das manifestações que o professor João Batista Machado ouviu ao terminar uma verdadeira aula de cidadania. Outras perguntas e questionamentos de grande parte da platéia também chegaram até o professor que usava as reuniões como único recurso que tínhamos no momento para tentar conscientizar o eleitor.

O “Pacote de Abril” de 1977 tinha sido mais um golpe na democracia tão combalida do Brasil naquela época, eliminando da Constituição Federal a eleição direta para governador e ainda transformando uma das duas vagas para o Senado em indicação pelas Assembléias Legislativas, dando origem ao chamado senador “biônico”.

Este golpe abalou o sonho de muitos companheiros que ansiavam pela eleição ao governo de Goiás.

O professor João Batista Machado era um desses companheiros.

Coerente, fiel, democrata convicto, o líder inconteste em Goianápolis ficou entre os poucos que optaram pelo MDB em seu município com o golpe de 1964.

João Batista não se desanimou, não perdeu o entusiasmo. Mudou o eixo da discussão, já que não haveria eleição para governador, passou a defender a candidatura de Henrique Santillo ao Senado, na vaga que seria disputada pelo voto popular. Eu que já fora seu colega no Colégio Estadual “José Ludovico de Almeida”, aproximei-me ainda mais das lideranças políticas goianapolinas, tendo sido apoiado em 1970, para Deputado Estadual, fazendo dobradinha com Anapolino de Faria.

Para enfrentar o efeito de altos recursos financeiros dos adversários, nossa saída era a politização do eleitor, através de reuniões e encontros.

O professor João Machado, experiente em eleições, tendo sido vereador desde quando Goianápolis era distrito de Anápolis e depois prefeito da sua cidade quando emancipada, se propôs a fazer verdadeira cruzada pela politização do eleitor, sem gastos, de forma idealista.

Decidiu sair em pregação pela conscientização do eleitor, começando com uma reunião em seu município. No dia marcado, depois de divulgação e convites pessoais, o salão de sua igreja estava cheio. Toda sua fala foi defendendo o valor do voto. Leu textos bíblicos do Velho e Novo Testamentos, mostrando a responsabilidade na escolha dos seus governantes. A atenção da platéia era total. O grupo mais a frente na platéia não tirava os olhos do preletor, acompanhando todos os seus movimentos.

Terminada aquela aula de cidadania, satisfeito pela reação positiva do auditório, o professor João Batista Machado passou a cumprimentar e agradecer a cada um de seus ouvintes. Na saída, ao se despedir dos convidados, ele ouvia:

– Professor, preciso terminar minha casa. Estou precisando de 2 mil tijolos.

– Professor, meu filho arranjou emprego na TCA e precisa de 20 cruzeiros para tirar os documentos.

– Professor, minha mulher está precisando de operação pra não criar.

– Dr. João, será que o senhor pode me arrumar uma cesta básica?

Indignado com o que ouvia, pois sua mensagem de conscientização pelo voto parecia não ter sido entendida, foi abordado por um cidadão muito bem trajado, com uma pasta na mão, chamando-o em particular.

Decepcionado e angustiado com o vicio que imaginava ter eliminado com a sinceridade da sua pregação, João Machado concedeu a atenção ao visitante e ouviu:

– Sou líder político no setor de Novo Mundo, Vila Pedroso e Palmito, em Goiânia. Posso conseguir dois mil votos para quem eu apoiar. Gostei muito daquilo que o senhor disse e quero oferecer todo esse apoio aos seus candidatos.

Satisfeito com a disposição do visitante, o professor viu que pelo menos em parte suas palavras não foram “pregação no deserto”:

– Obrigado, o senhor vai me deixar seu endereço e vou te visitar.

– Dr. João Machado, estou comprando um carro para facilitar meu trabalho.

– Fico entusiasmado com quem sabe de sua responsabilidade, pois somente com o povo politizado é que vamos tirar o Brasil da ditadura. Parabéns, foi uma honra conhecê-lo!

– Será que o pessoal para quem o senhor trabalha pode me ajudar com cinco mil cruzeiros para comprar o carro? Dou preferência pra vocês!

Mesmo com estas decepções João Batista Machado nunca desistiu de fazer política com ética e honestidade.

Silvânia e o MDB

– A gloriosa marcha para a redemocratização do país já é percebida pelos nossos adversários.

Foi com esse entusiasmo que um simpatizante do MDB em Silvânia se expressou, aumentando o tom da voz para que suas palavras fossem ouvidas pelos poucos integrantes da platéia e por alguns que passavam pela calçada e curiosamente olhavam para dentro do salão.

A região da estrada de ferro foi um lugar bastante difícil para formação do MDB e em Silvânia não foi diferente. Na campanha de 1974, mesmo com alguns companheiros fiéis, não tivemos ambiente para realizar comício. Fizemos uma carreata com pouco mais de dez veículos, contando com os dos integrantes da caravana que saíram de Anápolis e Goiânia. Paramos na praça do coreto, tomamos café e seguimos viagem para Vianópolis, Orizona e Pires do Rio.

Os silvanenses respeitavam muito a liderança do ex-prefeito José Caixeta, que seria suplente de Benedito Ferreira, senador biônico goiano, na eleição de 1978. A liderança do Caixeta ia do prefeito passando pelos vereadores e demais lideranças daquele Município. A consideração que nutriam por ele impedia que organizassem o partido de oposição. Sem partido devidamente constituído, restava ao eleitor o direito de secretamente se manifestar, como realmente aconteceu no dia da eleição com o voto para Lázaro Barbosa.

Passadas as eleições de 74, com a vitória esmagadora de Lázaro Barbosa contra o arenista Manoel dos Reis, houve pequena abertura. Vindo de uma viagem de Ipameri para Anápolis, Vicente Alencar parou numa pequena mercearia, conversou com o proprietário, homem simples e resoluto que mostrou desejo de fundar o MDB no Município. Geraldo Bonfim seu nome. Vicente garantiu que eu iria visitá-lo oportunamente.

Cumprindo sua promessa, fui com Vicente conhecer e conversar com o Sr. Geraldo. Tratamos das medidas necessárias à criação do partido em Silvânia e acertamos detalhes para uma reunião onde levaria o deputado estadual Henrique Santillo para conversar com demais companheiros.

No sábado programado, chegamos à Silvânia numa caravana composta por Vicente Alencar, Romualdo Santillo, Joceli Machado, Henrique Santillo e alguns outros. A reunião foi no auditório do cinema local. Ainda causando estranheza uma reunião política, após muitos anos sem esta prática, foram poucos os silvanenses que compareceram.

Como não cansávamos de afirmar, onde houvesse dois ou três dispostos a nos ouvir ali estaríamos, falando com a mesma disposição como se a platéia fosse numerosa, solicitamos ao Geraldo que desse início ao encontro.

Geraldo fez a apresentação de todos os visitantes destacando qualidades de cada um. Não se esqueceu de enaltecer os companheiros de Comissão Provisória e, de forma enfática, da qualidade do orador oficial, escolhido por ele. Este orador oficial era um amigo do presidente, especialmente convidado para o encontro. Homem bem falante e comunicativo. Impecavelmente trajado com terno social, complementado com chapéu e guarda-chuva.

Geraldo passou-lhe a palavra e ele tirando cerimoniosamente o chapéu, agasalhando-o com o guarda-chuva num cabideiro atrás da mesa, fez os cumprimentos aos visitantes ilustres, não se esquecendo de algumas conquistas alcançadas por eles nessa “gloriosa caminhada em busca da democracia...”.

Finalmente entrou no objetivo da questão em discussão naquela manhã. Estufou o peito, colocando as duas mãos sobre a mesa para que suas palavras fossem audíveis para os componentes da mesa, os seis integrantes da platéia e por aqueles que transitavam pela calçada em frente o salão:

– A gloriosa marcha para a redemocratização do país já é percebida pelos nossos adversários.

E, pausadamente, com todo ardor, concluiu:

– O povo já reconhece a nossa desmoralização!

A cerimônia foi encerrada após as demais falas. Retornamos a Anápolis meio encabulados.

A partir de Geraldo Bonfim outros companheiros de Silvânia foram à luta, organizando o partido no Município, mesmo com dificuldades.

Hoje Silvânia possui o PMDB forte e resistente, com novos e antigos valorosos companheiros.

Pacote de Abril

– Apoiamos a mensagem ou vamos ter retrocesso político. Fiquei sabendo que será criada uma crise caso o MDB não vote favoravelmente à aprovação da Reforma do Judiciário, vindo aí um retrocesso institucional.

Essas foram as palavras do deputado Federal Tancredo Neves na reunião das bancadas do MDB, do Senado e da Câmara dos Deputados, no auditório Nereu Ramos, da Câmara Federal, sob a presidência de Ulysses Guimarães, presidente nacional do MDB.

Até então, sem nenhuma novidade aparente, as eleições para os governos estaduais seriam pelo sistema direto nas eleições de 1978.

As eleições de 1970 e 1974 haviam sido alteradas na última hora, por Emendas à Constituição, transformando-as em eleição indireta pelo Colégio Eleitoral de cada Estado.

Com exceção do Rio de Janeiro, a Arena tinha esmagadora maioria de votos nas Assembléias Legislativas, com o direito a eleger seu candidato, pois vivíamos sob o sistema do bipartidarismo. Os nomes dos governistas saiam de Brasília. A briga de bastidores era no Palácio do Planalto. Chegavam aos estados sem nenhuma condição de alteração. Por mais que houvesse atrito, os arenistas eram obrigados a sufragar o escolhido sem nenhuma contestação.

Finalmente estava chegando 1978 e com ele o pleito com a participação do povo, era o que estabelecia a Constituição Federal. Juarez Bernardes pleiteava a indicação do seu nome pelo MDB goiano, como integrante do grupo moderado, ou conservadores, e Henrique Santillo tinha o mesmo objetivo, só que pelos setores mais a esquerda. No mesmo pleito, o eleitor além de votar em deputados estaduais e federais, elegeria dois senadores.

Derval de Paiva e Fernando Cunha Jr, apoiavam a candidatura de Santillo ao governo. O grupo conservador, que apoiava a pretensão de Juarez Bernardes não possuía ainda seus pretensos candidatos ao Senado.

Em abril de 1977, o Presidente Geisel enviou mensagem implantando a Reforma do Judiciário para que fosse discutida, votada e aprovada pelo Congresso Nacional. A proposta era tão ruim, mas tão ruim, que Poder Judiciário, Ministério Público, OAB, cientistas e analistas jurídicos e advogados militantes se colocaram contra sua aprovação.

O MDB tinha que dar seu apoio à proposta para que fosse aprovada. A matéria dependia de quorum qualificado e a Arena não dispunha do quantitativo exigido.

Bancadas emedebistas na Câmara e no Senado se reuniram no auditório Nereu Ramos, na Câmara, para decidir qual posição adotar. Aprovar a reforma, como queria Geisel e seu núcleo forte no comando do governo, ou derrotá-la, como manifestava a nação

Ulysses Guimarães abriu espaço para que falassem um defensor pela aprovação e outro que fosse pela sua rejeição.

Tancredo Neves, homem de notável saber jurídico, mas que por saber o que estava por trás daquela proposta absurda e inconseqüente, tinha informações seguras do que pensavam os militares no poder, se apresentou para defender a aprovação da matéria, mesmo com restrições do mundo jurídico e imperfeições flagrantes existentes no texto.

Paulo Brossard, senador combativo e, da mesma forma que o deputado Tancredo, homem de grande saber jurídico, apelou para que o MDB votasse contra, rejeitando a matéria. Sua tese foi a de que o MDB não tinha o direito de compactuar com a ditadura, aprovando matéria que colocaria o Brasil de forma ridícula no cenário jurídico internacional.

Depois que o deputado mineiro viu seus argumentos jurídicos serem derrubados pelo Senador gaúcho, abriu o jogo:

– Apoiamos a mensagem ou vamos ter retrocesso político. Sei por fontes seguras que essa mensagem veio encomendada. Sendo rejeitada pelo MDB, vai dar o motivo que os militares querem para o retrocesso institucional.

Colocada em votação na reunião das bancadas, a maioria do MDB votou pela sua rejeição, conforme tese defendida por Brossard.

Fomos para o plenário e as bancadas votaram fechadas pela rejeição à Mensagem de Reforma do Judiciário. Todos seguiram a decisão da reunião de bancadas, no Senado e na Câmara dos Deputados, inclusive o deputado Tancredo Neves.

Anunciado o resultado pela direção dos trabalhos a matéria foi para o arquivo.

Em seguida foi baixado Ato do Executivo, assinado pelo presidente Ernesto Geisel, com base no Ato Institucional nº 5, colocando o Congresso Nacional em recesso, sem data certa para sua reabertura.

Aguardamos a “paulada” que deveria vir do Planalto, maior que a violência do fechamento do Congresso, sem demora.

Depois de uma semana fechado, o Congresso voltou a funcionar, com a edição do “pacote de abril”, sustentado pelo AI-5, acabando com eleição direta para governador do estado, suspendendo os programas políticos pela televisão e rádio nos moldes de 1974 e criando o Senador sem voto, Senador biônico, nomeado da mesma forma que os Governadores pelo Colégio Eleitoral do estado. Duro golpe nas pretensões emedebistas. Atraso na caminhada democrática.

O sonho de chegar parcialmente ao poder estava assim, mais uma vez, adiado.

Segundo Vice Presidente da Câmara

Calado, cotovelos sobre a mesa, cabeça entre as mãos, com ar de quem está compenetrado, pensando e ollhando diretamente para a câmera. Esta foi a tática do suplente de vereador de BH, Nelson Tibhau para usar seu espaço nos últimos programas do horário político. Quase esgotado o tempo, pronunciava as palavras:

- Assim é como fica todos os dias o Ministro Delfin Neto, imaginando qual a pancada que vai dar no povo no dia seguinte.

Foi eleito deputado federal, assim como outros que chegaram à Câmara dos Deputados como por milagre político.

No período do Governo Militar vários foram os adiamentos das eleições diretas para Governo dos Estados, previstas na Constituição Federal, como em 1970,1974 e l978.

Nas eleições de 1974, analistas políticos e integrantes do MDB acreditavam que com mais um adiamento de eleições diretas para os Governadores não valia a pena resistir. No início do ano o ambiente político era de descrença total. Ao escolher candidatos, nenhuma figura expressiva do partido em Goiás pleiteou a vaga ao Senado.

Irapuan foi escolhido para ser Governador pela ARENA, desbancando o candidato de Leonino, Manoel dos Reis, que como prêmio seria candidato a Senador. A impressão que se tinha é que o Senador da ARENA não teria sequer adversário. Lázaro Barbosa, que havia sido candidato a Deputado Estadual sem sucesso eleitoral em 1970, seria apenas candidato simbólico ao Senado.

Iniciados os programas de rádio e televisão, com os candidatos se apresentando ao vivo nos programas eleitorais, o crescimento do MDB foi extraordinário. Em pouco tempo, a candidatura de Lázaro Barbosa ao Senado contagiou o eleitorado goiano. Venceu a eleição com uma larga margem de votos.

A vitória emedebista foi fantástica no Brasil inteiro: Pernambuco com Marcos Freyre; Amazonas com Evandro Carreira; São Paulo com Orestes Quércia; Rio de Janeiro com Saturnino Braga; Rio Grande do Sul com Paulo Brossard; Santa Catarina com Jaison Barreto; Rio Grande do Norte com Agenor Marinho, e muitas outras. Foram dezesseis vitórias que, como escreveu Sebastião Nery, abalaram o Brasil.

Não foi diferente para a Câmara Federal. Nelson Thibau, suplente de

Vereador em Belo Horizonte, foi o mais votado Deputado Federal do MDB, ganhando até de Tancredo Neves. Simplesmente porque utilizou as duas últimas participações do horário eleitoral, calado em frente a câmera, cotovelos sobre a mesa, cabeça entre as mãos, com ar de quem está compenetrado, pensando. Quase esgotado o tempo, pronunciava as palavras:

- Assim é como fica todos os dias o Ministro Delfin Neto, imaginando qual a pancada que vai dar no povo no dia seguinte.

No Paraná, com trinta e duas cadeiras na Câmara dos Deputados, o MDB lançou apenas 17 candidatos. A Arena disputou eleição com chapa completa. Os mais prestigiados líderes arenistas se candidataram. Apurados os votos, a ARENA fez dezesseis Deputados e o MDB, também dezesseis. Pelo MDB foram eleitos Deputados como Álvaro Dias com 230 mil votos, Antônio Belinatti com 150 mil e pelo menos oito Deputados com mais de cem mil votos cada um. No entanto, outros foram eleitos com seis, quatro e até dois mil e quinhentos votos, como foi o caso de Expedito Zanotti.

A eleição de 1974 para a Câmara dos Deputados foi um universo de figuras consagradas na política regional e federal e outros anônimos que se dispuseram a candidatar pelo MDB, até sem expectativa de vitória. Por Goiás foram eleitos Juarez Bernardes, Adhemar Santillo, Fernando Cunha Jr., Genervino da Fonseca e Iturival Nascimento, nesta ordem de votação.

Tive facilidade para fazer amizade com toda a bancada nacional.

Constituímos o grupo neo-autêntico com expressões como João Gilberto, Odacyr Klein, Rosa Flores, Lidovino Fanton, Deputados do Rio Grande do Sul; Álvaro Dias, do Paraná; Luiz Henrique, de Santa Catarina; Airton Soares, de São Paulo; Tarcísio Delgado, de Minas Gerais; Jáder Barbalho, do Pará, e tantos outros.

Fizemos oposição implacável à ditadura. Os novatos menos votados tinham a minha atenção, pois percebiam que não eram levados à sério pelos mais antigos ou pelas figuras mais representativas do partido.

No segundo ano de mandato em 1976, foram realizadas as eleições para a formação da Mesa Diretora da Câmara. À ARENA cabia cargos de Presidente, 1º Vice Presidente, 1º e 3 Secretários. Ao MDB, a 2ª Vice Presidência, 2ª e 4ª Secretarias. Na ARENA, a escolha foi por consenso. Marco Maciel para Presidência, João Linhares para 1ª Vice, Djalma Bessa para 1ª Secretaria e João Clímaco, para a 3ª Secretaria. No MDB, a escolha foi no voto secreto de toda bancada. Quem quisesse disputar, deveria se inscrever, buscando seus votos. No primeiro escrutínio, Jader Barbalho se elegeu para 2ª Secretaria, José Camargo para a 4ª Secretaria, e Nabor Junior para Suplente.

O cargo que eu disputava era o mais cobiçado, a 2ª Vice Presidência, assim todos estavam envolvidos para eleger o seu preferido. Getúlio Dias, Deputado pelo Rio Grande do Sul, era apoiado pelos autênticos. Os moderados como Tancredo Neves, Franco Montoro, Nelson Carneiro e outros, apoiaram outro candidato, que era também goiano, Juarez Bernardes. Disputavam a vaga, Fábio Fonseca pela bancada mineira, Hélio de Almeida, ex-Ministro do Governo João Goulart, dividia com Emanuel Weissement, os votos do Rio de Janeiro. Juarez Bernardes e eu da bancada de Goiás.

Trabalhei intensamente com integrantes do grupo neo-autêntico e com os novatos de pequena votação. Para ser eleito o candidato, precisava de mais de 50% dos votantes. Realizada a eleição, Getúlio Dias ficou em primeiro lugar e eu em segundo, sem nenhum ter atingido mais de cinqüenta por cento. Na segunda votação, fui o mais votado, sendo eleito 2º Vice Presidente da Câmara dos Deputados, em substituição a Alencar Furtado, também do MDB.

Exerci a função de Segundo Vice-Presidente da Câmara dos Deputados até fevereiro de 1979.