sexta-feira, 12 de março de 2010
Parlamentares prestigiam turismo
O patrimônio histórico e turístico do Brasil há muito tempo precisa de melhores cuidados. Casarões, igrejas e marcos históricos do ciclo do café, do ouro ou dos desbravadores bandeirantes estão total ou parcialmente destruídos. Isso pode ser visto por quem visita Pilar de Goiás ou o distrito de Traíras, em Niquelândia. As principais relíquias da época colonial, edificadas com esmero e competência pelos seus construtores, usando a matéria-prima existente naquele instante, desapareceram pela ação do tempo e descuido das autoridades.
Em alguns casos tem faltado vontade política aos governantes para a preservação dessa memória histórica. Em l749, Bartolomeu Bueno da Silva, neto do Anhanguera e filho do bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, que veio para Goiás com a decisão de aqui morar, edificou às margens do Rio Corumbá, na divisa dos atuais municípios de Pires do Rio e Urutaí, um porto para a passagem dos viajantes que vinham do Sul e instalação de uma pousada com fornecimento de cama e refeição. Se não foi o primeiro porto, com certeza foi o primeiro hotel do Estado. Uma das reportagens sobre essas atividades dos descendentes dos Bueno foi realizada pelo jornalista Moisés Santana, no início do século passado. Sendo esse um dos principais acontecimentos históricos de Goiás, deveria ser preservado. Poucos em Pires do Rio e Urutaí sequer sabem dessa história.
O Instituto Histórico e Artístico Nacional (Iphan) está encaminhando reivindicação ao setor competente da área federal, pleito de cinco cidades goianas (Goiânia, Pirenópolis, Goiás, Corumbá e Pilar), para restauração e conservação do seu patrimônio tombado pelo Iphan. O pedido está sendo examinado pelo ministério da Cultura. Se aprovado, receberia recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O ministério do Turismo também pode ajudar nesse serviço de restauração. Afinal, essas obras promovem a visitação dos turistas.
Na sua edição do dia 4/01/2010, o jornal O Estado de S. Paulo publicou notícia nas suas páginas 1 e A4 que, à primeira vista, parecia ser a solução da falta de recursos para essa área e o zelo e civismo dos senadores e deputados federais para com o incentivo ao turismo. Sob o título “Turismo supera saúde e educação em emendas”, o jornal noticia que “no ano eleitoral, o Ministério do Turismo desbancou as pastas da Saúde, da Educação e de Cidades e assumiu o topo no ranking no Orçamento da União, com R$ 1,714 bilhão em emendas parlamentares”.
Ao ler a manchete do Estadão, ao mesmo tempo que assistia pela televisão o drama do desastre ocorrido em São Luís do Paraitinga (SP), que teve praticamente todo seu patrimônio histórico da época do café, à base de “taipa pilão”, destruído pela enchente do Rio Paraitinga, deduzi que, conhecendo como conhecem todas as cidades brasileiras, os parlamentares teriam se lembrado dessas relíquias já destruídas e que continuam desaparecendo e, por isso, teriam reforçado o Orçamento da União para 2010.
O jornal prossegue detalhando a opção enigmática e repentina de praticamente todos os deputados federais e senadores pelo turismo: “O ministério tem uma verba para financiar eventos, como shows, que saem sem licitação e em até dois meses após autorizado o pagamento da emenda.” Aí está a razão de tanto dinheiro para o Ministério de Turismo. Nada para restauração de relíquias destruídas e tudo para o show da reeleição.
Os bons e fortes também morrem
Somente o mistério dos desígnios de Deus, para aceitarmos acontecimentos que a todo instante ocorrem nas nossas vidas e que não podem ser explicados pela razão. Aceitamos porque são reais, verdadeiros, mesmo que não tenhamos respostas lógicas para eles. Há pouco tempo o médico e político anapolino, Oscar Soares de Azevedo Júnior, depois de passar alguns dias de descanso em Saquarema-RJ, morreu ao receber cabeçada num choque involuntário com um companheiro de viagem. Fato doloroso, de difícil esclarecimento. Agora, na semana passada, outro fato triste, misterioso, sem nenhuma lógica, abalou a cidade.
O advogado Paulo Antônio Lopes, figura respeitada e admirada em Anápolis, depois de ter vencido doença misteriosa que o consumia paulatinamente, perdeu tragicamente a vida numa fazenda de Porangatu. Paulinho, cidadão exemplar e humilde, desde cedo trabalhou para ajudar a família e manter seus estudos. Enfrentou durante a vida toda desafios grandiosos. Formou-se em direito e com sabedoria e competência exerceu a profissão. Em 1986, na minha primeira administração como prefeito de Anápolis, contei com a colaboração de Paulo Lopes na secretária de Estradas de Rodagens. Foi o tempo em que as rodovias municipais tiveram maior assistência, facilitando o escoamento da produção rural. Era o primeiro a chegar ao serviço e não tinha hora para retornar à casa. Sereno, fala baixa e pausada, firme em suas decisões, comandava com competência sua secretaria. Era amado e respeitado por todos seus subordinados. Desempenhava qualquer missão, mesmo as difíceis e de alto risco, com sabedoria de um veterano no assunto.
Antes de deixar a prefeitura, Paulo Lopes adoeceu. Emagreceu, ficou pálido e anêmico. Sua fraqueza orgânica era indisfarsável. Passou pelos consultórios dos mais competentes e renomados profissionais da medicina no Brasil. Depois de anos de sofrimento e angústia, conseguiu interromper o definhamento causado pela doença. Recuperando a saúde lenta e progressivamente, Paulinho tinha ânimo e prazer em trabalhar.
Esse homem por vários anos esteve entre a vida e a morte e nunca se entregou. Resistiu heroicamente a enfermedidade desconhecida. Num dos raros momentos de descanso, encontrou a morte de forma inesperada e violenta. Foi massacrado por furiosos touros nelores, numa fazenda entre Porangatu e Novo Planalto, no norte de Goiás. Estava lá atendendo convite dos proprietários, que são seus primos. Mesmo não tendo a força de um jovem e traquejo de vaqueiro, fez questão de acompanhar a vacinação do gado no curral. Desconhecia a fúria dos bois que lá se encontravam, atentos às vacas e novilhas no cio, no pasto ao lado. Ao adentrar o curral, a porteira foi fechada. Paulinho não teve como esboçar nenhuma reação de defesa quando os touros partiram na sua direção. Foi praticamente esmagado, ao ser chifrado e pisoteado pelos animais.
Sua vontade de viver, dessa vez foi menor que ferimentos sofridos. Rcebeu os primeiros socorros em Porangatu e de lá foi deslocado para o Hospital de Urgências de Anápolis, onde morreu na tarde de 21 de dezembro. Fatos estranhos e misteriosos como os ocorridos com Oscar Soares de Azevedo Júnior e Paulo Antônio Lopes provam que os bons e fortes também são mortais.
O verdadeiro significado do Natal
Natal é um momento mágico na vida do cristão. Cidades inteiras decoradas adredemente com enfeites e luzes multicoloridas. Músicas alegres, povo feliz, sorridente, se abraçando deixando para trás todo e qualquer ressentimento. Natal é o momento em que predomina o amor ao próximo. Alguns mais dispostos, como fazia Betinho, o irmão de Henfil, trabalhava o ano inteiro arrecadando gêneros alimentícios para que todos pudessem passar o Natal sem fome. Só um acontecimento extraordinário como esse seria capaz de criar corrente tão ampla de solidariedade. Mesmo com festa tendo mais conotação mercantilista que religiosa, o Natal é acontecimento inefável.
Se toda essa alegria sobrenatural que reverencia e realça a figura de Papai Noel, aparentemente garoto propaganda das atividaddes comerciais, fosse compartilhada com os ensinamentos de Cristo, a alegria seria completa. A solidariedade humana que aflora nos festejos natalinos seriam uma constante na vida das pessoas e não apenas um episódio passageiro. Não haveria pequena parcela com exagerada concentração de riquezas e multidões de miseráveis famintos espalhadas por toda face da terra. Nos ensinamentos que o Filho de Deus nos deixou não há espaço para corrupção, roubalheira, enriquecimento ilícito e todo tipo de injustiças sociais. Esse é o detalhe fundamental que tem sido esquecido na comemoração do Natal.
A posição radical de líderes religiosos defendendo fatos científicos equivocados, como o de que o sol girava em torno da terra , não a terra que gira em torno do sol, deu margens para que ateus se fortalecessem, com a tese de que Deus estaria morrendo. Pra imediatistas tem sido mais fácil promover Papai Noel que o aniversariante Jesus Cristo. Isso tudo pode ser fruto do confronto religião x ciência;
A escritora irlandesa Karen Armstrong, em seu livro The case for God (Uma defesa para Deus), que será lançado em 2010 no Brasil, afirma que o confronto entre as idéias de Deus e dos livros sagrados com a ciência acabou por cercear a mente humana, restringindo-a a deter apenas aquilo que pode ser cientificamente comprovado. Para Karen as três leis da mecânica clássica, do físico inglês Isaac Newton e a teoria da evolução da espécie do naturalista inglês Charles Darwin, tiraram da fé, um dos seus principais ingredientes: a capacidade humana de vislimbrar o inconcebível. “Esse conflito entre ciência e religião acabou nos afastando das formas mais puras da fé. As pessoas esqueceram que a razão e o mito sempre foram complementares no ser humano”, diz ela. E mais: “Somos por natureza, criaturas em busca de sentido. O Homo sapiens é, também, o Homo religiosus. A religião não existe para nos explicar a origem do Universo. Esse é o papel da ciência. As religiões nos ajudam lidar com os aspectos da vida para os quais não existem respostas fáceis: a morte, a dor, o sofrimento, as injustiças da vida e as crueldades da natureza.” Para a escritora cristã, Deus não pode ser tratado como um ente supremo, mas sim como o mistério que foi, é e será. As quedas de algumas das teorias religiosas como a origem da terra e a vida que nela habita, não negam a existência Deus. Devemos separar as coisas e entender a ciência como a presença Deus a serviço da humanidade.
Unindo os princípios cristãos com a festa secular que acontece no Natal, o 25 de dezembro deixará de ser apenas a marca de dia alegre e festivo para se transformar num compromisso de vida nova e formação de uma sociedade mais solidária.
terça-feira, 2 de março de 2010
Biografia pela Fundação Getúlio Vargas
A Fundação Getúlio Vargas publicou Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro narrando os aocntecimentos mais importantes na vida do país no período de 1930 a 1983. Este trabalho teve a Coordenação de Israel Beloch e Alzira Alves de Abreu, editado pela Forense Universitária, em 1984, composto de quatro volumes.
O Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas, no volume IV, páginas 3079 e 3080 faz a seguinte referência sobre Adhemar Santillo:
SANTILO, Adhemar
Deputado Federal por Goiás em 1975
Adhemar Santillo nasceu em Ribeirão Preto-SP no dia 13 de novembro de 1939, filho de Virginio Santillo e de Elydia Maschietto Santillo. Seu irmão, Henrique Santillo, foi deputado estadual em Goiás de 1975 a 1979 e senador pelo mesmo Estado a partir de 1979. Iniciou sua vida política como chefe de gabiente do prefeito de Anápolis,GO, elegendo-se em 1970 deputado estadual em Goiás na legenda do Movimento Democrático Brasileiro. Assumindo o mandato em fevereiro do ano seguinte tornou-se nesta lesgislatura vice-líder da bancada de seu partido na Assembéia Legislativa. Em novembro de 1974 elegeu-se deputado federal por Goiás, ainda na legenda do MDB, assumindo uma cadeira na Câmara em fevereiro do ano seguinte após o término de seu mandato na Assembéia em janeiro anterior. Nessa legislatura foi membro da comissão de serviço Público e suplente da Comisssão de Desenvolvimento da região Centro Oeste. Integrante do grupo neo-autêntico, ala mais radial do MDB, engajada na denúncia da repressão policial aos estudantes e na defesa dos direitos humanos e da Constituinte-, foi eleito em 1977 2º Vice Presidente da Câmara. Na opinião dos moderados de seu partido lançou sua candidatura à Mesa Diretora da Câmara para criar problemas ao candidato Juarez Bernardes, também representante de Goiás que contava com apoio da maioria dos dirigentes do partido. Em novembro desse mesmo ano reuniu-se com mais de quinze deputados e com o Marechal Osvaldo Cordeiro de Farias para discutir a respeito da formação de uma Assembléia Constituinte e do processo de abertura política que começava a ser ensaiado no governo do General Ernesto Geisel (1974-1979).
Em novemro de 1978 reeleeu-se deputado federal na mesma legenda tendo sido o candidato mais votado em seu Estado. Ainda nesse ano deixou o cargo de 2º Vice Presidente da Câmara. Em março de 1979 apresentou um projeto propondo a revogação da lei que criou o Serviço Nacional de Informações – SNI e determinando as providências necessárias à incineração de documentos referentes a pessoas físicas e jurídicas dos arquivos desse órgão do Governo. Justificando sua proposta afirmou que o SNI “transformou-se numa verdadeira polícia política” que controlava a vida dos cidadãos, sendo portanto, “incompatível com a propalada intenção de abertura política”.
Com a extinção do bipartidarismo em novembro de 1979 e a consequente reformulação partidária, filiou-se ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro, PMDB, tornando-se nesse mesmo ano Vice-líder de sua bancada na Câmara, função que desempenhou até 1980. Em janeiro desse ano, quando seu irmão Henrique Santillo foi derrotado na reunião da executiva por Iris Rezende, escolhido candidato ao Governo do Estado de Goiás, passou, juntamente com o irmão para o Partido dos Trabalhadores – PT. Em abril seguinte declarou, em entrevista ao jornal O Globo, que o país atravessava grave crise econômica e que os partidos políticos deveriam forçar o governo a formar um novo pacto social, legítimo e efetivo, através da convocação de uma Assembléia Constituinte. Defendeu ainda, a revogação de todos os atos de exceção, a liberdade sindical, a liberdade de imprensa, o direito de greve, a organização partidária sem qualquer obstáculo, enfim, o restabelecimento pleno do estado de direito, que permitiria ao povo expressar livremente a sua vontade.
No início de junho de 1980 afirmou que sairia do PT em obediência às suas bases políticas ressentidas com o veto imposto em reunião do partido à quatro políticos e com a saída de dois deputados estaduais por divergências ideológicas. Após viagem de consulta às suas bases em 42 municípios, anunciou sua decisão de deixar o PT retornando ao PMDB. Seu irmão decidiu permanecer no PT apesar das tentativas de adeptos do PMDB de fazê-lo retornar a esse partido, o que viria ocorrer somente mais tarde. Ainda em junho pediu ao plenário da Câmara a revisão da pensão concedida aos ex-presidentes da República e criticou o General Ernesto Geisel por ter aceitado o cargo de Presidente do Conselho de Administração da Cia Petroquímica do Nordeste (Copene)-maior empresa do polo de Camaçari-(Ba)- e de sua subsidiária, Nordeste-Química (Norquisa). Afirmou ainda que Geisel “alugou” a essa empresa “seu prestígio, todo seu conhecimento sobre segurança nacional e suas relações na estrutura do poder”. Nessa ocasião o ex-presidente da República foi defendido na tribuna da Câmara pelo deputado Alcides Franciscato, do Partido Democrático Social-PDS.
Em novembro de 1980 após uma palestra numa entidade feminina de Goiânia sobre partidos políticos, sentiu-se observado num restaurante, sendo logo depois perseguido em seu automóvel, o que o levou a buscar refúgio próximo a um quartel do Exército. Ainda em 1980 tornou-se membro da Comissão Parlamentar de Inquérito-CPI, encarregada de investigar as causas das elevadas taxas de juros do sistema financeiro nacional e relator substituto da CPI encarregada de apurar atos de corrupção praticados por órgãos da administração direta e indireta da União. Em abril de 1981 propôs que todos partidos de oposição realizasem convenções extraordinárias para fixar posição contrária à prorrogação dos mandatos dos deputados federais e estaduais e afirmou que o PMDB também era contrário à sublegenda, ao voto distrital e à vinculação de votos. Nessa ocasião, juntamente com o deputado Hélio Duque, do PMDB do Paraná, solicitou ao presidente da Câmara, deputado Nelson Marchezan, uma investigação junto ao Banco Central para apurar os nomes dos deputados que teriam recebido empréstimos do Banco do Estado de São Paulo-Banespa, por determinação do Governador do Estado, Paulo Salim Maluf, em troca do apoio à prorrogação de mandatos. Em agosto seguinte acusou o Governo na CPI que apurava a corrupção na administração pública, de incentivar essa prática nos órgãos federais, que haviam dificultado a ação do Tribunal de Contas da União – TCU, no exame das contas da Fiação e Tecelagem Lutfalla, pertencente à família do Governador Paulo Maluf, que sofrera intervenção governamental devido a irregularidades financeiras. Em dezembro desse mesmo ano a partir do relatório dos deputados que participaram dessa CPI, Santillo pediu providência no sentido da instauração de uma ação penal contra Paulo Maluf, Ibrahim Abi-Ackel, então Ministro da Justiça e José Paulo dos Reis Veloso, ex-Secretário do Planejamento, por crime contra a administração pública.
Em junho de 1982, visitando a cidade de Itapuranga-GO, juntamente com o senador Lázaro Barbosa, foi vítima de um atentado praticado por integrantes do diretório municipal do PMDB daquela cidade. Vários parlamentares foram unânimes em garantir, contudo, que o atentado constituía fato isolado não comprometendo a unidade do partido em Goiás. Durante essa legislatura integrou as Comissões de Ciência e Tecnologia e de Constituição e Justiça e foi suplente da Comissão de Agricultura e Política Rural da Câmara do Deputados.
Em novembro de 1982 reelegeu-se deputado federal por Goiás, ainda na legenda do PMDB.
Casou-se com Onaide Silva Santillo, com quem teve três filhos.
Fontes: Câmara dos Deputados; Câmara dos Deputados: Deputados Brasileiros
Repertório(8 e 9); O Estado de São Paulo (3.06.80; 31.03, 5.08, 12.12.81); Folha de São Paulo (24.04.81); O Globo (17.01, 27.04 e 10.06.80 e 24.04.81); Jornal do Brasil (02,11 e 12 de 77; 10.03 e 26.09.79; 10 e 27.06.80; 23.04 e 11.06 de 82); Neri, S. 16; Perfil (1980); Tribunal Superior Eleitoral, dados (9).
Cronologia da Violência
Primeiro de abril de 1964: Após ter sido eleito o primeiro presidente da União dos Estudantes Secundaristas de Anápolis pelo voto direto, Adhemar Santillo é destituído do cargo pelos integrantes do golpe que destituiu o Presidente da República João Goulart.
Maio de 1964: Adhemar Santillo é preso juntamente com médico Fuad Siad, acusados de pertencerem ao movimento clandestino Ação Popular (AP). Responderam a inquérito policial na Secretaria de Segurança Pública de Goiás.
Junho de 1964: Adhemar Santillo responde a Inquérito Policial Militar (IPM), comandado pelo Exército Brasileiro. Conclusão do IPM: não é encontrado nada que possa incriminá-lo.
Junho de 1964: Adhemar é impedido de trabalhar como radialista na Rádio Carajá de Anápolis ou qualquer outra emissora de radiodifusão da cidade pelo coronel Izacir Telles.
Agosto de 1964: Por determinação do coronel Epitácio de Brito, chefe de gabinete militar do governador Ribas Jr., Romualdo Santillo é preso por haver escrito no jornal Correio Braziliense, em sua coluna diária “O Que Se Comenta”, notícia em que fazia crítica à postura do coronel. Com seus jantares diários realizados no Palácio das Esmeraldas em Goiânia, o coronel buscava apoio a uma possível candidatura ao governo do Estado pela UDN, nas eleições que aconteceriam em 1965.
Dezembro de 1966: Henrique Santillo, eleito vereador da Câmara Municipal de Anápolis, deixou de ser diplomado pelo Juiz Eleitoral Manuel Luis Alves, sob a acusação de ser fichado como comunista na G2 da Polícia Militar de Minas Gerais. Henrique Santillo foi diplomado e empossado quando o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de Goiás, em vista de documentos oficiais buscados por Adhemar em Belo Horizonte e acostados ao processo, atestou não ser Henrique fichado naquela corporação.
1969: Candidato a prefeito de Anápolis pelo MDB, Henrique Santillo teve seu registro de candidatura, diplomação e posse impugnados pelos adversários, sempre com denúncias e documentos falsos. A Justiça Eleitoral não deu provimento a nenhuma das denúncias, mandando-as ao arquivo.
Janeiro de 1971: Encerradas as eleições de 1970, Anapolino de Faria foi o candidato a Deputado Federal mais votado em Anápolis e Adhemar o mais votado para a Assembléia Legislativa. Integrantes do MDB do município, contrários aos Santillo, denunciaram Henrique Santillo, Anapolino de Faria e Adhemar Santillo à Polícia Federal, acusando-os de prática de corrupção eleitoral naquelas eleições. Foi designado o delegado Jesus Lisboa para a realização do inquérito que, concluído, ficou engavetada na Procuradoria Geral do Estado.
Janeiro de 1971: Dos quinze vereadores que compunham a Câmara Municipal de Anápolis, foram eleitos em 1970 dez pertencentes ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e cinco da Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Foram eleitos para a mesa diretora da Camâra, biênio 1971/1972, Antônio Marmo Canedo como Presidente, Walmir Bastos Riberio como vice-Presidente e Walter Gonçalves de Carvalho como Secretário, todos emedebistas e santillistas. Antônio Marmo Canedo faleceu no exercício da Presidência. Para substituí-lo, foi efetivado Walmir Bastos.
1972: Com a morte de Antônio Marmo Canedo, três vereadores do MDB (Lincoln Xavier Nunes, João Divino Cremonez e Pedro Sergio Sobrinho), não ligados a Henrique Santillo, passaram a votar de acordo com os cinco arenistas em oposição ao prefeito. Os adversários lutaram para que Walmir Bastos, Presidente da Câmara, aderisse à ala do MDB oposicionista a Henrique. Não conseguiram e passaram a perseguí-lo com auxílio dos órgãos de repressão, comandados pela Polícia Federal e Delegacia da Ordem Política Social do Estado, sendo preso por três vezes consecutivas. A última prisão de Walmir foi a mais violenta, pois foi retirado sob mira de metralhadoras de dentro do carro em que Adhemar lhe dava uma carona. Foi conduzido à Brasília e dele foi exigido que renunciasse à Presidência da Câmara e ao seu mandato de Vereador. Se cumprida, essa exigência abriria a vaga do Presidente da Câmara Municipal de Anápolis para os opositores ao prefeito. Com isso, usariam o documento do inquérito feito pela Polícia Federal e afastariam Henrique Santillo da Prefeitura. Das duas vezes anteriores, Walmir suportou todas as pressões. Dessa vez, contudo, não resistiu às torturas psicológicas e físicas. Acabou assinando sua renúncia ao mandato e entregou-a ao major Leopoldino, chefe da carceragem em que se encontrava nas dependências do Exército Brasileiro em Brasília. Alertado pelo Deputado Estadual Adhemar Santillo, o presidente nacional do MDB, Deputado Federal Ulysses Guimarães, denunciou a trama à nação e o documento assinado por Walmir Bastos à base da tortura nunca chegou a Câmara Municipal de Anápolis. Walmir cumpriu seu mandato até o final, o mesmo acontecendo com o Prefeito Henrique Santillo.
1 de fevereiro de 1973: Na madrugada do dia em que José Batista Jr. tomaria posse substituindo Henrique Santillo na prefeitura de Anápolis, policiais militares do estado invadiram os estúdios e transmissores da Rádio Carajá, pertencentes aos santillistas desde 1967, alegando cumprir ordens do Departamento Nacional de Telecomunicações (DENTEL). Afastaram os santillistas da sua direção, devolvendo-a ao seu antigo proprietário, Plínio Jayme.
Maio de 1973: Adversários do médico Henrique Santillo exigiram da direção nacional do Instituto Nacional da Previdência Social (INPS) seu descredenciamento daquele instituto, com o objetivo de forçá-lo a mudar-se de Anápolis ou abandonar a luta oposicionista. Algum tempo depois, médicos anapolinos forçaram o INPS a rever a punição, com Henrique sendo recredenciado.
Agosto de 1973: Sete meses após sua posse, o prefeito José Batista Jr. teve seu mandato cassado e seus direitos políticos suspensos por dez anos, com base no Ato Institucional n°5 (AI-5), pelo Presidente Emílio Garrastazu Médici. No mesmo dia, o município de Anápolis foi considerado área de Interesse à Segurança Nacional e o engenheiro Irapuan Costa Jr. nomeado Prefeito.
Setembro de 1973: Adversários dos Santillo, com auxílio da Polícia Federal e do DOPS estadual, prenderam vários integrantes do MDB de Anápolis, dentre eles ex-secretários do prefeito Henrique Santillo e líderes comunitários, levando-os para as dependências do DOPS em Goiânia. O objetivo era arrancar, sob pressão e tortura, denúncias contra Henrique e Adhemar Santillo. A trama só foi desfeita quando o Advogado Vicente Alencar, acompanhado de Adhemar, entregou pessoalmente ao Ministro do Exército, Orlando Geisel, completo relatório dos planos escusos que estavam acontecendo em Goiás.
Maio de 1974: Por determinação do Procurador de Justiça do Estado, o inquérito elaborado pela Polícia Federal em 1971 contra Henrique e Adhemar Santillo foi encaminhado ao Ministério Público de Petrolina, para que apresentasse denúncia contra os dois, com a finalidade de afastá-los da disputa eleitoral daquele ano. O Promotor Decil de Sá Abreu negou-se a fazer a denúncia e o processo foi encaminhado à comarca de Anápolis. Ali, o Ministério Público apresentou a denúncia, que não foi recebida pelo Juiz Eleitoral Clementino Alencar. Caso o juiz a aceitasse, os dois irmãos não poderiam disputar a eleição para Deputado Estadual e Federal como disputaram, pois a lei das inelegibilidades impedia registro de candidatura pela simples aceitação da denúncia pelo Judiciário para esse tipo de crime eleitoral.
25 do Maio de 1975: Rádio Santana Ltda., pequena emissora de rádio-difusão com 250 Watts de potência, adquirida pelos Santillo depois da invasão da Rádio Carajá, foi fechada por determinação expressa do Ministro das Comunicações Quandt de Oliveira. Deixava de ir ao ar o programa noticioso “O Povo falou, tá Falado”, que, desde 1967, era apresentado por Romualdo e Adhemar Santillo.
Vale a Pena Lutar
A certeza de ter realizado um trabalho digno em minha caminhada política é constatada no respeito que sempre tive dos colegas, adversários e imprensa.
Os principais jornais brasileiros, emissoras de rádio e televisão deram destaque especial à minha atuação como parlamentar, não só no MDB, como na minha rápida passagem pelo PT, em que, por decisão dos companheiros Deputados Federais Airton Soares, Antônio Carlos de Oliveira, Edson Kahir e Luiz Cecchinel, fui indicado líder da Bancada.
Ao denunciar mordomia do Ministro do Trabalho, com suas compras de alimentos e material de limpeza com recursos do Tesouro Federal, em quantidade mensal maior do que o estoque de um supermercado de tamanho médio, fui notícia de primeira página nos jornais e revistas do eixo Rio – São Paulo por várias semanas.
Na campanha para as eleições municipais de 1976, no Sul do país, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, os candidatos do MDB usaram a denúncia que fiz como propaganda eleitoral. Constatei pessoalmente isso quando estive em Rio Negrinho, Santa Catarina, juntamente com Luiz Henrique da Silveira, governador do estado, naquela época Deputado Federal.
Além dos livros contendo boa parte do meu trabalho como Deputado, “Da mesa Farta à Subnutrição”; “És Tu, ó Perturbador?” e “Escândalos: os frutos do Regime!”, tive a honra de ser citado por vários escritores famosos, como Carlos Eduardo Navaes, em seu livro “O Quiabo Comunista”.
Darcy Ribeiro, num de seus últimos livros também faz referência ao meu trabalho como parlamentar.
O jornalista Clovis Senna, numa de suas publicações, realça minha atuação na Câmara dos Deputados.
A revista Veja, quando publicou edição especial sobre seu jubileu de prata,deu destaque aos fatos mais importantes ocorridos no Brasil e divulgados pela revista, nos seus 25 anos de existência. Noticiou como fato importante a denúncia que fiz contra as mordomias na residência oficial do Ministro do Trabalho.
Foi imensamente gratificante ser lembrado por renomados escritores, sob a supervisão da FGV - Fundação Getulio Vargas, relacionando os brasileiros que mais se destacaram de 1930 a 1983. Parte da minha biografia é relatada naquela coleção de quatro volumes. Fatos históricos importantes estão nesta coleção, registrando a forma correta com que exerci os cargos públicos até aquele ano.
O trabalho de Antônio Fernandes de Oliveira, o Tonhão, contando minha vida em versos, na publicação “O Incansável Lutador” foi uma homenagem que me emocionou pela singeleza deste poeta autodidata e pela riqueza de detalhes da minha vida política.
Pela amizade e fidelidade dos companheiros e amigos e pelo carinho, atitudes e palavras generosas de pessoas anônimas, olho para o passado e revejo os caminhos que percorri e só tenho um sentimento:
Vale a pena lutar!
Meu trabalho registrado em Publicações
Eleito deputado federal nas eleições de 1974 continuei com a mesma garra e o mesmo destemor na defesa da democracia, fazendo oposição ferrenha a todos os atos arbitrários do regime militar instalado com o golpe de 64. Reeleito em 78 e 82, trabalhei incessantemente pelo restabelecimento dos direitos democráticos e em favor do emprego correto das verbas públicas.
Com farta documentação comprovei e denunciei mordomias no governo federal e corrupção nas instituições bancárias do governo estadual.
Da tribuna da Câmara dos Deputados combati a ditadura continuamente, fazendo corajosos pronunciamentos em favor da liberdade, da justiça, dos direitos humanos e do retorno à democracia.
Alguns destes pronunciamentos estão registrados em três publicações da Gráfica do Senado.
Da Mesa Farta à Subnutrição
Esta publicação deveria ser intitulada “Da mordomia à pechincha”.
Na época, o governo, através do ministro Delfim Neto, pedia à população para “pechinchar” nas feiras e no comércio. No entanto, chegou ao meu Gabinete, na Câmara dos Deputados, uma lista de compras para a cozinha do Ministro do Trabalho, Arnaldo Prieto, que mais parecia um estoque de supermercado.
O Deputado Marco Maciel, Presidente da Câmara dos Deputados, chamou-me pedindo que mudasse o título da publicação para evitar confronto e provocação ao Presidente Geisel, que estava tentando uma abertura democrática. O título do livro “Da mordomia à pechincha” poderia reacender a força dos radicais de direita.
Entendi a preocupação do presidente Marco Maciel e mudei o título, sem mudar o seu conteúdo que, em 1976, foi o ponto de partida para desmistificar a cruzada contra a corrupção alardeada pelo golpe militarista de 1964.
Na publicação especial de 25 anos da revista VEJA há uma referência a este meu pronunciamento como um dos mais importantes acontecimentos daquele período.
Na época tornou-se um orgulho dizer que a “Revolução” de 64 tinha vindo para acabar com a corrupção política, implantando a moralização nos gastos públicos.
O Ministro Delfin Neto era tido como o mago das finanças e alardeava que o resultado positivo do produto interno bruto, seria dividido assim que o “bolo” crescesse. Dessa forma, salários eram achatados e reivindicações trabalhistas eram ignoradas.
Campanhas públicas foram feitas para que a população fizesse o controle dos preços pedindo descontos, no que se chamou “campanha da pechincha”.
O principal aliado do Ministro Delfim Neto nesta cruzada era Arnaldo Prieto, o Ministro do Trabalho, encarregado de convencer a classe trabalhadora de que era preciso economizar, “pechinchar”, colaborando com o crescimento do “bolo”.
Em setembro de 1976, recebi de Soares Dutra, funcionário do Ministério do Trabalho, cópia da Tomada de Preços 8/75, para fornecimento diário de gêneros alimentícios e material de limpeza para a residência oficial do Ministro do Trabalho, alimentos, bebidas, refrigerantes e material de limpeza que seriam gastos no período de um mês.
De acordo com o documento, foram consumidos entre carne bovina, suína, frango, peixe ou crustáceos e dobradinha, 956 quilos; 600 quilos de arroz; 300 quilos de açúcar; 156 quilos de feijão; 135 quilos de macarrão; 201 quilos e mais 436 dúzias de frutas; 432 quilos de manteiga; 885 quilos de legumes e verduras; 1.296 garrafas de refrigerantes; 144 garrafas de suco de frutas; 90 latas de óleo de soja; 32 latas óleo de oliva; 90 dúzias de ovos...
Faziam parte da tomada de preços para o consumo mensal na residência do ministro, 194 itens como: azeite de dendê, araruta, catchup, farinha de rosca, gordura de coco, lentillha, amido de milho, pimenta malagueta, tomate, caquí, nozes, champignons, leite evaporado, chantili, bacalhau, toucinho defumado, patê, presunto defumado, filé mignon, carret de bisteca, rabada, queijo prato, queijo cremelino, queijo minas, queijo mussarela, queijo parmesão, orégano, camarão fresco e grande, filé de pescado, filé em posta, namorado, bom ar hortelã, bom ar de limão aerossol, limpa vidro shell, vassoura de piaçava, sabão de coco, cera branca e vermelha e uma infindável lista de gêneros alimentícios e material de limpeza.
Ao contrário do que acontecia normalmente com os discursos de deputados da oposição que eram ignorados pela imprensa e nunca causavam repercussão, jornais como O Estado de São Paulo, O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e outros de circulação nacional fizeram a comparação entre as compras mensais de Ministro do Trabalho e um supermercado de tamanho pequeno. O Estadão publicou várias charges repercutindo o assunto. Numa delas, um garçom com um boi na bandeja satirizava o Ministro com seus quase mil quilos mensais de carnes, peixes e crustáceos. A variada e generosa despensa do ministro deu origem ao livro com alguns dos meus pronunciamentos na Câmara dos Deputados: DA MESA FARTA À SUBNUTRIÇÃO.
A revista VEJA, na comemoração dos 25 anos de sua publicação, fez referência a este assunto como um dos mais importantes naquele período.
A Presidência da República, com o objetivo de desqualificar as denúncias, procurou usar a mídia, quando o Ministro do Trabalho usou rede de rádio e televisão por 10 minutos, em horário nobre, para tentar explicar a questão. A tentativa não deu certo, já que as despesas haviam sido realizadas, pois a tomada de preços era de agosto de 1975 e estávamos em setembro de 1976. Não havia o que se justificar.
Além da repercussão alcançada na imprensa, o assunto passou a ser o mais comentado por toda a população. A palavra mordomia era relacionada com gastos da despensa do Ministro
A campanha eleitoral para prefeitos e vereadores em 1976, pelo MDB, era infalivelmente sobre o arrocho salarial e os gastos do Ministro do Trabalho. Em Rio Negrinho, Santa Catarina, as propagandas eleitorais impressas traziam a foto dos candidatos e no verso, o “Rancho do Ministro”, com todos os detalhes da tomada de preços do Ministério do Trabalho. Simpósios, encontros regionais do MDB em vários Estados, comícios e debates públicos reivindicavam a minha presença para apresentar a questão detalhadamente.
A repercussão foi tamanha que este pronunciamento, com estas denúncias, tem sido considerado pelos historiadores, como um primeiro e grande abalo que expôs a falsa austeridade do governo da época.
És Tu, ó Perturbador?
O nome desta publicação teve como inspiração uma passagem bíblica registrada no livro de Reis I, capítulo 18, num encontro do profeta Elias com o rei Acabe. Este rei, manipulado pela sua esposa, Jezabel, fazia horrores aos seus súditos, matando, ignorando os mais básicos direitos da pessoa humana, o que era combatido pelo profeta. Ao se encontrarem, o rei, invertendo a situação, recebe Elias dizendo: “– És tu, ó perturbador de Israel?”
Em abril de 1977 houve o fechamento do Congresso Nacional.
O Governo editou medidas de exceção, como a supressão de eleição direta para governadores prevista para o ano seguinte, estabeleceu eleição indireta de um senador pelas Assembléias Legislativas estaduais, escolhido dentro do partido majoritário naquela assembléia, e as arbitrariedades eram fatos corriqueiros.
O MDB só era maioria no Rio de Janeiro. Nos demais estados, a Arena era maioria. O pacote de abril suspendeu apresentação de programas políticos pelo rádio e televisão e ainda o Presidente Ernesto Geisel cassou o líder do MDB na Câmara, Deputado Alencar Furtado.
Esse foi o chamado ”Pacote e abril”. Sua origem foi em função das bancadas do MDB, Câmara dos Deputados e do Senado terem votado contra a Reforma do Judiciário, contrariando o desejo do general Ernesto Geisel. A reforma proposta e rejeitada não agradava ao Judiciário, Ministério Público e Ordem dos Advogados do Brasil. Mesmo assim, o general Geisel queria colocá-la garganta a baixo da nação e humilhar a oposição para que, de joelho, votasse pela sua aprovação. Como o MDB resistiu, foi fechado o Congresso Nacional e baixado o “Pacote de abril”, com inúmeros retrocessos na caminhada para o retorno democrático no Brasil.
Deste período, os pronunciamentos que fiz da tribuna da Câmara dos Deputados foram publicados em 1980, com o título: ÉS TU, Ó PERTUBADOR?
Nesta publicação está registrada, através dos pronunciamentos que fiz da tribuna da Câmara dos Deputados, a tática que o Governo da época utilizava, tentando impingir à oposição a culpa pelas mazelas que aconteciam no país. A capa da publicação se refere a uma conhecida fábula de Esopo, O lobo e o Cordeiro. O sistema autoritário da época agredia instituições, imprensa, movimentos populares e buscava colocar na atitude oposicionista a responsabilidade das insatisfações populares.
Escândalos:
Os Frutos do Regime
Nesta coletânea de discursos por mim proferidos na tribuna da Câmara dos Deputados, pude trazer ao conhecimento público a grilagem de terra no norte de Goiás e os privilégios e transações altamente irregulares que levaram enormes prejuízos à CAIXEGO - Caixa Econômica do Estado de Goiás, e ao Banco do Estado de Goiás, instituições que se transformaram em instrumento de enriquecimento ilícito de políticos e simpatizantes ligados aos governantes da época.
Tudo está comprovado com documentos oficiais nos anais da Câmara e na publicação da Gráfica do Senado, começando em maio de 1978, quando o BEG emprestou à empresa PROVALLE importância de 40 milhões de cruzeiros. Já era do conhecimento público, nesta época, o grande número de títulos de responsabilidade desta empresa, apontados ao cartório de protestos. Antes de completar 90 dias do empréstimo dos 40 milhões, por outros empréstimos e variadas modalidades de operações, a dívida do grupo PROVALLE atingia mais de 100 milhões de cruzeiros, o que representava cifra superior a trinta por cento do capital e reservas do BEG.
Em junho de 1979, havia várias outras operações de empréstimos a pessoas ou empresas que assumiram dívidas do grupo PROVALLE. Elevou-se, pois, cerca de 400 milhões de cruzeiros o total dos empréstimos concedidos à empresa, correspondendo, pasme-se pelo absurdo, a mais de 100% do capital e reservas do Banco do Estado de Goiás.
Os empréstimos foram concedidos a taxas especiais de 2% ao mês, enquanto no nível de mercado o BEG cobrava taxa superior a 3% ao mês. Para fazer face aos empréstimos subsidiados, o BEG captou em São Paulo 700 milhões de cruzeiros, quantia igual ao montante dos depósitos captados pelo próprio banco junto aos seus clientes. As taxas pagas pelo BEG na operação de empréstimos causaram perplexidade no mercado financeiro em São Paulo, já que os grandes bancos do país, oficiais e particulares, não conseguiam fazer concorrência, pois tinham taxas de 52 a 60% ao ano, incluídas as comissões de corretagens.
Essa volumosa soma de recursos – 700 milhões de cruzeiros - foi distribuída em cerca de 200 contratos de empréstimos em conta garantida, somando 400 milhões de cruzeiros a taxas favorecidas variáveis entre 0,8 e 2,8% ao mês e concedidos a clientes ligados, em sua quase totalidade, a deputados, secretários de estado, auxiliares do governo, políticos situacionistas, firmas de ex-sócios e amigos dos governantes da época. Até dois integrantes, chefe e subchefe de Serviço Nacional de Informações – SNI tiveram acesso aos empréstimos favorecidos com taxas subsidiadas, 300 mil cruzeiros para um e 1 milhão e quinhentos mil cruzeiros para outro. Antes de serem saldados, os empréstimos eram ampliados e os juros adicionados ao final.
Para compensar o enorme prejuízo que o banco sofria na concessão de empréstimos a taxas subsidiadas e inferiores às de mercado e do próprio custo do dinheiro que captava, foi elevada a taxa de juros que vinha cobrando do próprio Estado de Goiás, maior acionista e depositante, de 2% ao mês para 4 e 5 % ao mês. Transferiu assim, para as costas do sofrido contribuinte goiano as benesses concedidas a um pequeno grupo de amigos.
Fato interessante e escandaloso foi o empréstimo de 7 milhões de cruzeiros feito a uma cliente a juros de 1% ao mês ou 12% ao ano pela agência do BEG em Goiás. A mesma cliente dois dias depois emprestou a mesma quantia ao BEG em São Paulo com juros de 51% ao ano. O Banco Central tinha conhecimento daquele verdadeiro festival de corrupção e esbanjamento de dinheiro do povo e mesmo assim não tomou nenhuma providência, sendo conivente com tudo que ali acontecia.
Nos círculos econômicos e financeiros de Goiás sabia-se que a cifra de 451 milhões de cruzeiros, apresentada como prejuízo e constante no balanço referente ao primeiro semestre do ano de 1981, não correspondia à realidade. O Banco Central Enviou oficio de nº 81/ 024, de 26/05/81, à Diretoria do Banco do Estado de Goiás, solicitando que fosse inscrito na conta de Crédito em Liquidação a quantia de Cr$ 10.785.381,32, dez bilhões setecentos e oitenta e cinco milhões e setecentos e vinte e seis mil e trezentos e oitenta e um cruzeiros e trinta e dois centavos, já no balanço do primeiro semestre de 1981.
Em resposta, foi encaminhado ao Departamento de Fiscalização Bancária e Divisão de Fiscalização Bancária do Banco Central do Brasil, no dia 16/06/81, oficio nº 81/95, solicitando que não fosse inscrita na Conta de Crédito em Liquidação tal importância, uma vez que Cr$ 9.538.240.070,90 - nove bilhões e quinhentos e trinta e oito milhões e duzentos e quarenta mil e setenta cruzeiros e noventa centavos - era de responsabilidade do setor público do Estado e que desse total encontrava-se vencida a importância de Cr$ 2.080.723.140,90 - dois bilhões e oitenta milhões e setecentos e vinte e três mil e cento e quarenta cruzeiros e noventa centavos.
O Banco Central, através de expediente da Divisão de Fiscalização Bancária nº 81/42, em 23/07/81, adverte que ante “as perspectivas de acentuado negativo neste balanço de 30/06/81, com repercussões altamente danosas ao seu Patrimônio Líquido, esperamos que providências urgentes sejam adotadas, objetivando a reversão do atual caso”. Ao mesmo tempo, determinava que fosse inscrita na conta de Crédito em Liquidação, no balanço do primeiro semestre daquele ano, a quantia de Cr$ 1.210.099.196,53 - Um bilhão e duzentos e dez milhões e noventa e nove mil e cento e noventa e seis cruzeiros e cinqüenta e três centavos.
No dia 31/07/81, através do oficio nº 81/125, o Banco do Estado de Goiás solicitava ao Departamento de Fiscalização Bancária do Banco Central do Brasil que permitisse apresentar no balanço de 30/06/81, na conta crédito em liquidação, apenas a importância de Cr$ 379.455.080,89 - trezentos e setenta e nove milhões e quatrocentos e cinqüenta e cinco mil e oitenta cruzeiros e oitenta e nove centavos, com o que concordou o Banco Central.
Por esta razão, o prejuízo real do Banco do Estado de Goiás apresentado em balanço foi de apenas de Cr$ 451 milhões de cruzeiros. Os documentos oficiais e a própria fiscalização do Banco Central comprovam que o prejuízo real do BEG, naquele ano, foi superior a 1 bilhão e duzentos milhões de cruzeiros correspondendo ao dobro de seu capital e reservas, apresentados em 31/12/1980.
Pela gravidade do fato que envolveu fraude contábil, o Banco Central do Brasil foi co-participante de todo o desastre do BEG e responsável pelo descalabro administrativo do Sistema Financeiro Nacional.


