quinta-feira, 19 de julho de 2012

Corinthians lava a alma dos brasileiros


Sei que não sou o torcedor mais velho do Corinthians, mas sou um dos mais antigos torcedores do timão. Foi paixão à primeira vista. Criança, fanático por futebol, ouvi falar pela primeira vez sobre esse bando de loucos  em 1952. Portanto, há exatamente 60 anos, jogavam no Pacaembu-SP Corinthians e Flamengo. Ao final da partida, o alvinegro do Parque São Jorge venceu o rubro-negro carioca por 6 x 0. Goleada com direito a gol de um desconhecido Mário, depois de driblar toda defesa flamenguista entrou junto com a bola marcando o sexto gol do timão. Daqueles gols que os narradores esportivos dizem que “entrou com bola e tudo”. Era, para um estreante corinthiano, só alegria. Completou  em 1954, com Corinthians campeão paulista do 4º Centenário da Cidade de São Paulo. Gilmar (Cabeção), Homero (Murilo), Olavo, Idário, Roberto, Goiano, Cláudio, Luizinho, Baltazar, Carbone e Nono (Souzinha).

Mesmo sendo até hoje o time que mais venceu o campeonato paulista (ficou de 1955 a 1977). Portanto, exatos 22 anos consecutivos sem vencer aquele que era na época o mais importante campeonato que disputava. Paulistas e cariocas se enfrentavam no Rio-São Paulo, Torneio Roberto Gomes Pedrosa, mas não era tão emocionante como o campeonato regional. Foi graças a esse jejum de títulos que o torcedor corinthiano ficou nacionalmente conhecido  como ‘sofredor’.

Nesses  60 anos de fiel torcedor, dos 102 de fundação do Corinthians, passei por muito sufoco e humilhação: 22 anos sem vencer campeonato paulista; rebaixamento para a série B do brasileirão; necessitar do auxílio valioso do São Paulo Futebol Clube para não ser rebaixado no campeonato paulista; perder para o Tolima na primeira fase da Libertadores da América; ser conhecido pela imprensa como o principal freguês do Santos Futebol Clube, na era Pelé. O que mais doía em todos nós corinthianos sempre foi a gozação por não vencermos a Libertadores da América. Quantas vezes assisti palmeirenses, são-paulinos, flamenguistas e até gremistas, donos de um boteco qualquer, desses que vendem a prazo, através das chamadas cadernetas, dizerem: “Fiado para corinthiano só quando o time for campeão da Libertadores da América.” Outros mais agressivos inventavam que era mais fácil a terra ser invadida por extraterrestres que o Corinthians ganhar a libertadores. Mesmo com tantos tropeços, o alvinegro do Parque São Jorge é, ao lado do Flamengo, os que possuem as duas maiores torcidas. Não param de crescer, ganhando ou perdendo. Para o verdadeiro corinthiano, ganhar ou perder é o que menos importa. Hoje já são mais de 30 milhões de torcedores do timão pelo País inteiro.

Essa conquista da Libertadores foi diferente. O time terminou a competição invicto. Marcou 22 gols, sofreu apenas 4. Enfrentou na final a mais competitiva equipe do futebol das Américas: Boca Juniors, da Argentina. Equipe que já havia derrotado, em finais da mesma Libertadores da América, outros times brasileiros, aqui no Brasil, como Palmeiras e Grêmio. O Corinthians foi diferente porque ganhou na base da solidariedade entre os jogadores. Dr. Sócrates, estivesse vivo, constataria que a democracia que implantou no time, na década de 70, está dando frutos agora. O Corinthians não possui medalhão, todos são iguais. Contra o Vasco da Gama, o herói foi Paulinho. Contra o Santos na Vila Belmiro, foi Emerson. No Pacaembu, Danilo. Contra o Boca, na Argentina, o herói foi Romarinho. E no Pacaembu, o título  voltou a ser de Emerson.

Corinthians quando disputa uma final importante, como essa de quarta-feira, mobiliza todos os torcedores. Os corinthianos consomem tudo o que diz respeito ao time. Os adversários fazem o restante da festa, alegrando os comerciantes, comprando produtos vendidos pelo adversário do timão. Nessa disputa de quarta-feira milhares de palmeirenses tiveram que guardar todo tipo de rojões e fogos de artifícios nas despensas de casa para serem utilizados na quinta-feira contra o Curitiba, porque não tiveram o prazer de  utilizá-los antes, durante e depois do jogo no Pacaembu. Fogueteiros do Brasil todo venderam mais que em qualquer festa junina. É o Corinthians promovendo através do consumo o desenvolvimento econômico nacional. Graças à sua fiel torcida e inveja das torcidas  adversárias.

No mesmo dia em que o timão do Parque São Jorge colocava o Brasil à frente dos demais países das Américas, vencendo a Libertadores, a Fifa rebaixava a seleção brasileira de futebol, no ranking mundial. Hoje, segundo a Fifa, estamos atrás do Uruguai. Estamos abaixo até de Portugal, de Cristiano Ronaldo. Esporte Clube Corinthians Paulista é isso. Faz o seu torcedor sofrer, mas reabilita o futebol brasileiro nos momentos mais difíceis.

(Diário da Manhã - 2012/07/06)

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Nova Missão Política No Congresso


Estamos registrando aqui fatos históricos pouco difundidos e, por isso mesmo, desconhecidos da maioria, ocorridos na política goiana durante a ditadura militar.

Eleito deputado federal, participei dos momentos mais dinâmicos do Congresso Nacional. O Movimento Democrático Brasileiro (MDB) foi revigorado pela verdadeira revolução pelo voto, feita pelo povo nas eleições legislativas de 1974. Figuras como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Magalhães Pinto, Gustavo Capanema, Jarbas Passarinho, Nelson Carneiro, Franco Montoro, Alencar Furtado, Freitas Nobre e os novatos, como Luiz Henrique, Álvaro Dias, Odacir Klein, Tarcisio Delgado, Paulo Brossard, Itamar Franco, Petrônio Portela, Célio Borja, Marco Maciel e muitos outros, fizeram parte do Senado e Câmara Federal.

Chegamos a Brasília e o MDB já se constituía das correntes moderada e autêntica. Nós fazíamos parte dos autênticos. A maioria dos emedebistas eleitos em 74, para a Câmara Federal, era de conservadores. O mesmo acontecia com os 16 senadores eleitos. Por sermos da primeira legislatura, jornalistas nos conheciam como neoautênticos. Faziam parte do grupo neoautêntico figuras como Odacir Klein, João Gilberto, Tarcisio Delgado, Álvaro Dias, Lidovino Fanton, Airton Soares, Luiz Henrique da Silveira e João Cunha. Os integrantes do grupo neoautêntico deram mais dinamismo às ações oposicionistas na Câmara Federal.

Havia, pelo excesso de voto do MDB e falta de candidatos representativos, bancada de deputados eleitos com diminuta votação. Não estavam engajados com autênticos nem moderados. Fiquei amigo de todos esses parlamentares. Os respaldava nos seus trabalhos em comissões técnicas e plenário. Por serem humildes e eleitos com pequena votação, eram desconhecidos e menosprezados pelas maiores estrelas do partido.

Por exercer, com garra e determinação, o mandato, angariei o respeito e a simpatia da maioria dos companheiros do MDB e demais congressistas. Guindado à condição de vice-líder, participava ativamente das sessões plenárias e reuniões das comissões. Tinha o respeito da imprensa nacional, divulgando, intensamente, minhas atividades parlamentares. Com frequência, participava de encontros nacionais e regionais do Partido. Participei de eventos promovidos por estudantes e dos movimentos culturais e artísticos.

Aproveitando a fase de crescimento do MDB, aos finais de semana, feriados ou dias santificados, organizava o partido nos bairros de Anápolis e Goiânia. Com frequência, viajava aos municípios do interior aonde havia o diretório emedebista e organizando aonde o partido não existia.

Em Anápolis, o vereador Walmir Bastos Ribeiro, realizava, com assiduidade, simpósios estudantis na Câmara Municipal. Colaborei para que figuras como Ulysses Guimarães, Freitas Nobre, Odacir Klein, Jayson Barreto e tantos outros parlamentares de prestígio nacional, participassem dos simpósios estudantis, organizados pelo vereador, na Cidade. Lideranças de todo o Estado vinham a Anápolis participar dos encontros do MDB. Voltavam revigoradas e prontas para a resistência democrática. Anápolis foi o maior reduto oposicionista de Goiás, durante o período ditatorial. Anápolis não deixou esfriar, em instante algum, a luta pela liberdade e democracia. Tínhamos, além de programa de rádio para orientação da população local e municípios vizinhos, a publicação quinzenal do jornal "O Estado," que encaminhávamos às principais lideranças municipais do MDB... (Continua)

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Quanto Mais Velho, Melhor Amigo


A Escola de Governo Henrique Santillo modernizada e instalada, no Jardim América pela Secretaria de Estado de Gestão e Planejamento, é além de resgate de compromisso de campanha eleitoral do governador Marconi Perillo ao funcionalismo público, modernização que ele oferece ao servidor estadual. Métodos de preparo técnico, intelectual e profissional aos que queiram crescer pelo conhecimento. 

Nesse mundo globalizado, a rapidez que novas informações surgem, muitas delas profundamente modificadoras doutras até então predominantes, o conhecimento é instrumento fundamental para realização de qualquer tarefa, por mais simples que seja. É pelo conhecimento que o servidor agiliza sua missão com presteza e segurança. A Escola do Governo Henrique Santillo possui esse objetivo. Cursos permanentes de aperfeiçoamento oferecidos ao servidor para atendimento à comunidade com eficiência e qualidade.

Com o resgate de mais um dos seus compromissos de campanha, instrumentalizando o Estado, para melhor qualificar o funcionalismo público, Marconi não só se aproxima ainda mais da comunidade, como atesta publicamente que para o sucesso da sua administração necessita do servidor motivado e bem preparado. Grande trunfo da sua administração, para a popularidade que desfruta junto aos goianos, que já lhe rendeu, dentre outras conquistas, três mandatos de governador, tem sido seu respeito e ótimo relacionamento com o servidor público. Com o funcionalismo motivado, melhor preparado, prestando serviço de excelência à comunidade, seu governo ganha mais destaque e apoio da sociedade por inteiro. Essa é a melhor maneira de governar:

Prestigiar os subordinados, dividir o poder e compartilhar as conquistas da administração com toda sua equipe de trabalho. Estamos num momento em que a democracia interna, a participação solidária de todo grupo, são pressupostos indispensáveis para servir à população. Servir o contribuinte. Essa forma prática, simpática de governar, tem dado a Marconi Perillo a sustentação para enfrentar com sabedoria e altivez os desafios previsíveis e extra pauta que tem experimentado ultimamente.

Nós da família Santillo, mais uma vez ressaltamos e voltamos a agradecer ao governador Perillo pelas homenagens que tem nos prestado na figura do nosso saudoso e inesquecível Henrique Santillo. Marconi Perillo permanentemente ressalta, em qualquer ambiente em que se encontre, sua ligação política e de amizade com Henrique. Desde a passagem de Marconi pela juventude do MDB e PMDB! Foram militantes do mesmo grupo autêntico.

Nas eleições de 1986, em que Henrique Santillo se elegeu governador, o assessorou durante toda a campanha. Já havia sido um dos responsáveis pela fiscalização na eleição de 1985, quando me elegi prefeito de Anápolis, após a cidade deixar a condição de Município de Segurança Nacional.

Essa fidelidade de Marconi Perillo a Henrique Santillo chama mais atenção, quando sabemos que na atividade política, são raros os casos de tamanho respeito da criatura ao seu criador. O normal, o comum, é alguém ser ajudado ou carregado por determinado líder político e depois descartar, se afastar e principalmente trair o que lhe deu apoio e estendeu-lhe a mão. Com Marconi, quanto mais o tempo passa, quanto mais se consolida como administrador, aumentando sua liderança, mais se mostra fiel e admirador do seu conselheiro e protetor político.

Traquejado com essas escorregadelas de pessoas oportunistas e pragmáticas, Ulysses Guimarães dizia da forma mais natural que “o dia do benefício é a véspera da ingratidão.” 

É justamente pelo depoimento de um líder experiente como foi o condutor das oposições durante a ditadura militar de 1964, que respeito cada vez mais a fidelidade de Marconi Perillo ao seu líder e incentivador político Henrique Santillo.

Essas constantes referências e homenagens ao nosso saudoso irmão, nos fazem admirar e respeitar cada vez mais o governador, pois sabemos que essas manifestações de apreço e consideração, não são muito comuns na vida política. È a criatura por mais que se fortaleça e se destaque nacionalmente, não se esquecendo do seu criador.

Ao governador Marconi, mais uma vez, nosso sincero agradecimento.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Paulo Maluf e o Partido dos Trabalhadores


Depois de conviver com permanentes alterações na Constituição outorgada por uma Junta Militar em 1967, verdadeiros golpes dentro do golpe de março de 1964, a sociedade resolveu reagir. Saiu às ruas lutando por eleições diretas para a Presidência da República e redemocratização do País. A Emenda Dante de Oliveira, das “Diretas Já”, não foi aprovada, decepcionando a nação inteira. Mesmo assim o povo não desistiu. Continuou pressionando os congressistas pelo fim da ditadura.

Paulo Maluf, já naquela época o político mais estigmatizado do Brasil, muito colaborou para que o fim da ditadura acontecesse rapidamente. Inconformado com a escolha do general Mario Andreazza para ser o candidato da ditadura no Colégio Eleitoral, onde o Partido Democrático Social (PDS),  partido oficial do governo, detinha a maioria, o ex-governador de São Paulo decidiu enfrentar Andreazza na convenção partidária. Derrotou Andreazza, naquele que foi o maior revés do núcleo central da ditadura, dentro da sua própria base de apoio. A vitória de Maluf, na Convenção Nacional do PDS, contrariou grande parte da base governista. Lideranças como Aureliano Chaves (PDS-MG), Marco Maciel (PDS-PE), José Sarney (PDS-MA) e outras lideranças pedessistas pelo Brasil inteiro fundaram o PFL. Aliaram-se ao PMDB comandado por Ulysses Guimarães, para que numa frente interpartidária enfrentassem no Colégio Eleitoral a candidatura Maluf.

A escolha do candidato, por sugestão dos dissidentes arenistas, recaiu sobre a figura do governador de Minas Gerais, Tancredo Neves (PMDB-MG). Como a Constituição Federal foi elaborada pela Junta Militar em cima do bipartidarismo, não seria possível uma coligação PMDB/PFL. Foi por isso que José Sarney se filiou ao PMDB, para ser candidato a vice-presidente, representando o PFL, usando a sigla do PMDB.

Tancredo Neves, num ato de coragem e patriótico desprendimento, renunciou à governadoria de Minas Gerais, candidatando-se à Presidência da República pelo Colégio Eleitoral. Minoritário no colégio, Tancredo foi a campo em busca de apoio. Cada voto conquistado era comemorado com euforia pelas forças democráticas. Era de um a um. O povo exigia, em todos os Estados brasileiros, adesão dos seus representantes à candidatura Tancredo Neves.

Dentro desse esforço concentrado, com apoio de governistas históricos, a eleição se deu num clima de expectativa total, porque não se tinha a certeza que os que anunciaram seu apoio ao ex-governador de Minas confirmariam o voto no Colégio Eleitoral.

Surpreendentemente, a bancada do Partido dos Trabalhadores (PT) decidiu se abster da votação. Mesmo com toda população brasileira torcendo e exigindo votação a Tancredo, os deputados petistas, por orientação de Luiz Inácio Lula da Silva, presidente nacional do PT, decidiram pela abstenção. De nada valeram os apelos dos tancredistas de que sua vitória representaria o fim do regime ditatorial. Diziam que o PT era contra qualquer tipo de eleição indireta. Continuariam contra mesmo para se pôr fim à ditadura. Três deputados petistas, Airton Soares (PT-SP), Bethe Mendes (PT-SP) e José Eudes (PT-RJ), por não concordarem com essa orientação por considerá-la equivocada, votaram em Tancredo Neves. Foram expulsos do partido. Em nome da coerência, o Partido dos Trabalhadores não participou da derrubada  da ditadura. Se dependesse só do PT, se todos fizessem da mesma forma, principalmente os ex-arenistas que ficaram ao lado da vontade nacional, votando em Tancredo, a ditadura militar duraria mais alguns anos.

Agora, toda coerência petista, que para ser diferente dos demais partidos fez o jogo de Paulo Maluf, o jogo da ditadura, se abstendo de votar no candidato Tancredo Neves,  ponte usada pelas forças democráticas para a travessia da ditadura militar para a democracia, se desmorona por completo, quando Lula vai à procura do mesmo Paulo Maluf em busca do seu apoio político e os 90 segundos de horário na TV e rádio, que o PP possui, para seu candidato a prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT).

Essa postura nova do PT surpreendeu a todos que não conhecem a verdadeira história do partido. Gente que não conhece esse fato histórico da vida política nacional. Já naquela época, fez o jogo de Maluf. Ao não votarem poderiam, não fosse a ação firme de Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Aureliano Chaves, Marco Maciel, José Sarney e tantos outros, respaldados pelo povo e imprensa livres, eleger Maluf, o candidato da ditadura. Essa atitude de agora só não surpreendeu os democratas daquele tempo e o próprio Paulo Salim Maluf, que, falando ao jornal O Globo, edição de terça-feira, dia 26, no dia em que o PCdoB anunciou apoio a Fernando Haddad, disse que não se oporá se o vice da chapa for comunista. “O PT se comportou à direita de Paulo Maluf. Eu, perto do PT hoje, sou comunista.” Igualaram-se por baixo!

(Diário da Manhã - 27/06/2012)

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Corrupção cresce e se consolida!


Havíamos saído do regime ditatorial de março de 1964. Estávamos iniciando a atual caminhada democrática, quando estourou o escândalo dos “Anões do Orçamento”, na Câmara Federal. Através do Orçamento da União, a comissão própria para essa tarefa no Congresso Nacional, beneficiava grupos empresariais, principalmente da construção civil através de recursos federais. O esquema dos anões foi descoberto e denunciado pela imprensa investigativa. Pela revista Veja.

Depois de tantos anos de censura à imprensa, o escândalo chegou como surpresa, indignando os brasileiros. Essa prática era usual na Comissão Mista do Orçamento. Porém, sem conhecimento até mesmo de deputados e senadores, pela falta de divulgação pela imprensa. Os senadores e deputados mais “espertos” “brigavam” para fazer parte dela, já no período ditatorial. Naquele tempo, os trambiques que praticavam eram blindados pela censura oficial à imprensa. A Constituição Federal, que não era a “Constituição Cidadã”, mas sim a outorgada por uma junta militar (1967) e anulada pelo AI-5, vedava ao parlamentar legislar sobre matéria financeira. Da mesma forma não havia a chamada emenda orçamentária individual ou coletiva. Só os integrantes da Comissão Mista do Orçamento se envolviam com essa questão. Aos demais deputados e senadores eram reservados: cota anual de um mil cruzeiros para beneficiar entidades de assistência social cadastradas junto ao Conselho Nacional e alguns formulários de ajuda a alunos do segundo grau, em escolas particulares.

Ficou famosa a justificativa dada por um anão, de cadeira cativa na Comissão do Orçamento, deputado João Alves (Arena-BA), que falando sobre o fantástico crescimento do seu patrimônio, disse: "Deus tem me ajudado. Acertei inúmeras vezes os jogos da loteria esportiva!"

O escândalo dos “anões do Orçamento”, por ter sido fato novo na política nacional, alcançou grande repercussão, levando à cassação de mandato e suspensão de direitos políticos de vários deles. Mas foi também o início dessa escalada incontrolável da corrupção, diariamente noticiada com fatos novos pela imprensa. Ibsen Pinheiro (PMDB-RG), que fora líder do PMDB e presidente da Câmara Federal, uma das grandes promessas políticas daquela época, foi uma das cabeças que rolaram com o escândalo dos “Anões do Orçamento.” Retornou à Câmara Federal 10 anos depois, mas, mesmo assim, de cabeça baixa, sem destaque e brilho do antigo líder do passado. Os tempos eram outros. A corrupção mexia com o brio dos envolvidos. A desonra machucava e doía. Não havia ainda a contaminação de caráter por tanta desfaçatez. Restava aos envolvidos um pouco de vergonha na cara.

Preocupado com a força dada ao Legislativo pela  Constituição Federal de 1988, a “Constituição Cidadã,” principalmente ao de poder tratar com questões financeiras, o senador Pedro Simon (PMDB-RG), no rastro do  escândalo causado pelos “Anões do Orçamento”, sugeriu que fosse criada a Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar as ações corruptoras envolvendo empreiteiras com os políticos. Tinha certeza que criando despesas, através das emendas orçamentárias individuais, centenas de deputados e senadores se corromperiam. Seriam presas fáceis, para médios e grandes empresários. Pedro Simon não conseguiu a instalação da CPI. Foi o passaporte para a ação aberta de políticos e empresários desonestos. Para os que viveram aquele momento, a não convocação de Fernando Cavendish, da Delta Construções pela atual CPMI, é vista com naturalidade.

Hoje, grande parte dos parlamentares faz da apresentação de emendas orçamentárias individuais sua principal atividade na Câmara e Senado. A liberação dessas emendas também tem se transformado em moeda de troca pelo Executivo. Quando deseja aprovar ou rejeitar matéria do seu interesse em tramitação no Congresso Nacional, libera emendas parlamentares. As emendas orçamentárias servem para dar sustentação a todo e qualquer presidente, independentemente de possuir ou não maioria em sua base de sustentação. Aí está o maior fato gerador da corrupção no Brasil.

De quando o senador Pedro Simon sugeriu a criação e instalação da CPI dos Empresários até o momento, muitos escândalos foram e continuam sendo revelados pela imprensa. Parece que não terão fim.

A corrupção ficou tão banalizada que, mais que nunca, temos que concordar com Rui Barbosa, ao afirmar: “...De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”

Os escândalos e seus desvios são tantos que as emendas individuais orçamentárias deixaram de ser negócio de parlamentares com empreiteiras para se transformar  em "ação entre amigos".

Eis o que noticiou sobre a questão o jornal O Globo, na sua edição de terça-feira, dia 19/06/2012: "O deputado Marcos Medrado (PDT-BA) confirmou que negociou com o deputado João Carlos Bacelar (PR-BA), acusado de comprar emendas de colegas, a destinação de verba ao Orçamento..." É o máximo!

Isso acontece apesar da vigilância da imprensa investigativa e até gravações de escutas telefônicas pela Polícia Federal.

(Diário da Manhã, 20/06/2012)

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Dez anos sem Santillo, por Waldemar Curcino de Morais Filho


Faz dez anos que Santillo se foi. Tinha 62 anos. Sem exagero, creio que só estamos aqui graças a ele. Fosse outro o governador no episódio do Césio 137, sabe-se lá onde teríamos ido parar.

Henrique Antônio Santillo. Henrique com “h” de honestidade, honra, hombridade, humildade, humanismo. Antônio com “a” de austeridade, amizade, amor, afeto. Santillo com “s” de seriedade, sabedoria, serenidade, solidariedade. Grande homem.

Paulista de Ribeirão Preto, para Anápolis veio ainda criança. Cresceu com a cidade e a amou como berço natal. Estudou em escolas públicas do primário à universidade, de onde saiu médico formado, pediatra, doutor das crianças, principalmente das mais pobres, os anjos da periferia.

Não foi fácil chegar lá. Deu aulas em cursinhos em Belo Horizonte, enquanto cursava medicina. Desonerou o bolso do pai, que assim pôde cuidar dos demais filhos. Santillo nunca foi problema, só solução. Nunca foi tristeza, só. Alegrias. Probo, íntegro, reto, honesto.

Aprendeu e ensinou que a vida não é sorte, é luta e conquista. Que não devemos esperar pelo cavalo passar areado e, sim, campeá-lo e laçá-lo, selá-lo e montá-lo, num esforço próprio, resultado da autodeterminação. Ensinou que cada dia é um cavalo a ser pego, selado e montado. O prazer estava em consegui-lo.

Santillo, o doutor das crianças. Por causa delas, ao vê-las no sofrimento em meio à pobreza e desatenção, ingressou na política partidária, fazendo despertar lá dentro a chama da política estudantil mantida perene, acesa, pronta para a luta. Foi vereador, prefeito de Anápolis, deputado, senador, governador, ministro de Estado. Era conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, quando se despediu de nós. Ele dignificou todas essas funções.

Eu o admirei por tudo o que era. Rico sem dinheiro, sua riqueza era o caráter e a sua honra o patrimônio. Nunca se submeteu a coisas materiais. Via o poder como algo efêmero, finito num abrir e fechar de olhos. Construímos uma amizade sólida e respeito mútuo. Além de amigo, eu me tornei seu genro. D. Sônia lhe deu Soninha, que a criou com base nos valores herdados do pai – honradez, humildade, honestidade, firmeza de caráter, sobriedade, solidariedade. Orgulho-me dizer isso.

Riqueza e poder não lhes interessavam. A ele bastava o pedaço de chão e a casa onde morava. “Muito menos que isso eu vou precisar quando morrer” – dizia ele.

Convivi com ele 22 anos, como genro e secretário particular. O pai amoroso e marido afetuoso eram o mesmo que, audaz, botou o dedo no nariz da ditadura para pedir democracia e respeito aos direitos humanos. Não temeu os anos de chumbo.

Teve poder, mas nunca o usou em benefício pessoal ou dos seus. Nunca fez da coisa pública instrumento particular. Dele jamais se ouviu falar que usou a caneta poderosa ou terceiros em prejuízo de alguém. Não foi com gritos ou força que demonstrou honestidade. Será leviano aquele que disser que Santillo usou a máquina pública para promoção pessoal, Nunca precisou de advogados e seguranças, nunca teve problemas de ordem moral, legal, administrativa. Santillo era um homem limpo e dele aprenderam virtudes todos os que assim quiseram.

Eu precisaria do jornal inteiro para discorrer sobre este grande homem, este maiúsculo brasileiro. Ele mesmo pediria a mim parcimônia. Até o ouço dizendo, sorrindo: “Elogio seu não vale, você é suspeito, Waldemar”. Eu e Soninha lhe demos netos por ele adorados. Abençoados, também e principalmente.

Neste junho, quando se fecha uma década da sua partida, nós nos reunimos para agradecer a Deus o rico legado que tanto nos orgulha e do qual não abrimos mão: honradez, decência, dignidade, respeito e tudo o mais que enobrece o homem.

Obrigado, amigo Santillo. O mundo sente falta de gente decente como você.


Waldemar Curcino de Morais Filho
Ex-Secretário Particular de Henrique Santillo
http://sebastiansp.blogspot.com/2012/06/henrique-santillo.html

quarta-feira, 20 de junho de 2012

As constantes nomeações de governadores


Nós, do Movimento Democrático Brasileiro - MDB havíamos preparado Íris Rezende Machado para ser o candidato a governador pelo partido, em 1970. Como prefeito de Goiânia, foi cassado em 1968, por força do Ato Institucional nº 5. Em seguida, pelo mesmo AI-5, as eleições para o Governo Estadual foram suspensas. Foi escolhido para governar Goiás, Leonino Caiado, em substituição a Otávio Lage de Siqueira.

Com o afastamento de Íris Rezende, que teve, também, seus direitos políticos suspensos por 10 anos, surgiu como a grande liderança das oposições em Goiás, Henrique Santillo. Eleito prefeito de Anápolis, enfrentando, com destemor, os representantes da ditadura em Goiás e não cedendo às violências e truculências que praticavam, usando forças da repressão, o médico Henrique Santillo que já como vereador, mostrara sua coragem e disposição à luta, automaticamente se transformou na maior liderança do MDB estadual.

O regime ditatorial, que já havia apelado para a nomeação de governadores estaduais em 1970, repetiu a dose em relação às eleições de 1974. Henrique Santillo que preparara sua candidatura ao Governo do Estado em 74, decidiu disputar o mandato de deputado estadual. Assim, exerceria suas atividades como médico pediatra em Anápolis e mandato de deputado estadual. Durante os três ano em que foi prefeito, dedicou-se, exclusivamente, à Prefeitura. Não queria abandonar suas atividades como médico. Concorri a deputado federal, embora não me houvesse preparado para isso, abrindo oportunidade para que ele fosse eleito para a Assembleia Legislativa. Mesmo saindo candidato de última hora, fui o segundo mais votado da bancada emedebista. Juarez Bernardes foi o mais votado.

Irapuan Costa Júnior, primeiro prefeito nomeado de Anápolis, depois da transformação do Município em Área de Interesse da Segurança Nacional, conforme o esperado por todos, foi escolhido Governador para substituir a Leonino Caiado.

No Congresso Nacional e na Assembleia Legislativa, continuamos a luta pela redemocratização. A estupenda vitória alcançada pelo MDB em nível nacional, deu novo ânimo aos democratas. O MDB elegeu 16 senadores; quase 100 deputados federais, centenas de deputados estaduais e maioria na Assembleia Legislativa no Rio de Janeiro. Graças a essa vitória, Chagas Freitas (MDB) foi nomeado Governador do Rio de Janeiro.

Evandro Carreira que não se elegera vereador em Manaus nas eleições anteriores, em 1974 seria eleito senador. Lázaro Barbosa que perdera para deputado estadual, foi eleito senador por Goiás. Nelson Thibau, suplente de vereador, foi mais votado a deputado federal que seu companheiro Tancredo Neves, em Belo Horizonte. No Paraná a Arena lançou chapa completa e fortíssima para a Câmara Federal. O MDB não conseguiu lançar mais que 17 candidatos, sendo muitos desconhecidos do eleitorado. A Arena elegeu 16 deputados e o MDB elegeu 16 dos l7 lançados. Enquanto Álvaro Dias com mais de 200 mil votos, Antônio Belinati e Alencar Furtado tiveram mais de 100 mil votos; Osvaldo Busquei, Pedro Lauro, Expedito Zanotti e Gamaliel Galvão se elegeram pela legenda com menos de cinco mil votos. Foi uma verdadeira revolução pelo voto. Golpe violento contra a ditadura.

Exercíamos a atividade parlamentar, mas já estávamos de olho na Governadoria do Estado, para as eleições de 1978. Tínhamos a convicção de que, com a forte reação popular ocorrida nas eleições de 1974 em todo o Brasil, o sistema ditatorial havia se esgotado. Não havia ambiente para novos casuísmos. Henrique Santillo pelos autênticos, e Juarez Bernardes pelos moderados, eram as duas maiores forças políticas do MDB e do Estado, para a governadoria... (continua)